Notas iniciais
Hey, pessoas! Fiz esse conto de uma versão dark da chapeuzinho vermelho e espero que gostem. Eu gosto muito de adaptações dos contos de fadas e acho que é possível fazer várias histórias criativas em cima disso. Não esqueça de comentar no final...Boa leitura!

Siga em frente! Não olhe para os lados! Não corte caminhos! Tentar seguir a recomendação da minha adorável e ingênua mãe é algo que eu realmente faço, apenas para representar o papel de boa filha, apenas isso, detesto decepcionar minha família, mas de boa eu não tenho nada. E não quero ter. O mundo não é bom, então porque eu devo ser? Ah, é claro que eu sou boa, no entanto, o modo como eu opero minhas atividades noturnas é que é ruim, só que isso não me incomoda nem um pouquinho. Acho que de certa forma acostumei-me a fazer o que faço, tipo, apaixonei-me pela carreira que construí e, sei lá, tem certa beleza nisso que me fascina. Realmente é muito prazeroso! Ai, nossa, agora fiz parecer que sou uma garota de programa, credo! Bom, não é nada disso, na verdade. O que eu faço é algo extremamente incomum para alguém da minha idade, dezessete. Quero dizer, deveria ser incomum para qualquer idade, afinal é pecado e crime.
A história começa no meu aniversário de quinze anos. Até então eu era uma garota saudável e comum. Eu ia para a escola, fofocava com as amigas, paquerava os gatinhos da turma. Claro que eu nunca fui muito bonita e essa era minha maior preocupação naquele tempo, mas mesmo assim — talvez por ser uma garota e ter uma vagina — atraía a atenção de alguns garotos da minha idade. Só que naquele dia, na minha festa de aniversário, minha família estava reunida na minha casa dando-me parabéns e beijinhos na bochecha. Agora a pequena Julie era uma mocinha. Viva a Juliette! Eu deixei que se divertissem no jardim da frente e fui para os fundos da casa respirar um pouco antes de voltar para os calorosos abraços e dengos das titias e titios.
O dia estava nublado com aquela camada cinzenta cobrindo todo o céu, mas não parecia que ia chover, eram nuvens pacíficas. Então...era sobre isso que eu estava pensando naquele exato momento, o clima. E ele percebeu isso porque eu estava olhando para o céu. Ele percebeu isso e saiu de trás de uma árvore. De onde surgiu... eu ainda quero saber. O sujeito devia ter uns trinta anos ou mais. Não posso deixar de admitir que o achei bonito e charmoso, vindo em minha direção a passos lentos e calculados. Estava de jaqueta de couro preto e jeans surrado, mas seu sapato se encontrava coberto por lama. Ele se aproximou, estendeu a mão e parabenizou-me pelo aniversário. Eu não o conhecia e mesmo assim retribui o aperto de mão, fui tola. Ele elogiou meu vestido vermelho rodado e eu agradeci, não lembro qual era a expressão em meu rosto nesse instante. E então ele se apresentou, disse que era meu novo vizinho de quarteirão e que se chamava Will, claro que esse não era seu nome, ele não diria o verdadeiro. Eu ia fazer o mesmo, apresentar-me, mas ele falou que já sabia meu nome.
— Eu sei quem você é. Conheci seus pais essa semana, foram eles que me convidaram para a festa — ele sorriu gentilmente, seus olhos verdes se iluminaram e eu teria suspirado se fosse mais idiota. Como não suspeitei de nada? Ele não me chamou pelo nome em nenhum momento.
Em meu instinto feminino, sabia que ele estava afim de mim, mas como ele era muito mais velho, preocupei-me como isso. Todavia, a empolgação por atrair alguém de uma idade diferente quase apagava meu receio. Nesse instante, tive a brilhante e estúpida ideia de lhe oferecer uma bebida, a qual ele aceitou, é óbvio, era o que ele esperava.
Minha família toda estava no jardim e ninguém sentiu minha falta. Fui até a cozinha e peguei um copo. Parei indecisa.
— O que você prefere? Gosta de cerveja? — perguntei naturalmente pensando que, como ele era um adulto, iria gostar dessa bebida.
Quando eu me virei para fazer a pergunta, notei que ele olhava para o interior da minha casa. Lembro de ter estranhado isso, mas eu era excessivamente inocente para perceber algo.
— Ah, não, eu não bebo álcool. Você teria coca-cola? — ele sorriu novamente como da outra vez. Talvez ele já tinha notado como ficava encantador quando entortava os lábios finos daquela forma e por isso usava como tática.
Assenti e sorri de volta, virando-me para pegar a coca na geladeira. Depois que servi o suposto convidado e ele tomou em menos de cinco segundos como se não bebesse algo há séculos, fingi que não o estava achando estranhamente estranho. Tinha uma porta atrás dele e ele logicamente notou. Por isso, Will perguntou o que era aquele cômodo, ele falou de uma forma bem natural como se o assunto tivesse surgido do nada só para não ficarmos em silêncio. Respondi que era o porão e ele ficou sutilmente interessado, claro, ele já tinha tudo planejado.Perguntou se podia ver e depois que recuperei a fala por achar muito esquisito, respondi:

- Claro — que sorriso ridículo o meu.
Abri a porta, ele estava bem atrás de mim, virei-me para encará-lo e seus olhos estavam em cima de mim, sedentos, ferozes, selvagens, tudo isso numa mistura, pronto para dar o bote. Senti seus braços me empurrarem e eu cai escada abaixo, ralando-me toda e ficando tonta com o impacto que minha cabeça sofreu no chão. Engatinhei, tentei agarrar algo que pudesse me defender, mas tudo o que eu via parecia ter-se multiplicado e ficado fosco. Não encontrava voz para berrar por socorro, estava apavorada tal qual uma presa indefesa e, mesmo que conseguisse, o som da música lá fora iria abafar totalmente.
Logo senti Will, se é que esse era o nome dele, agarrar-me e dessa vez ele não queria me machucar, ele estava tentando virar-me em sua direção. Fiquei até com uma esperança de que eu tivesse caído sozinha da escada e que ele tentava me ajudar. A esperança devia ser a primeira a morrer! Ele tirou um rolo de fita isolante grossa e cinza e selou minha boca com um pedaço do material. Depois foram os meus pulsos, mas os tornozelos ele deixou soltos. Por quê? Eu me perguntei. Em seguida, soube a resposta. Enquanto tentava compreender, entre minhas tonturas e berros que não saíam, porque Will estava se mexendo em cima de mim com tanta fúria, eu olhava para a porta acima das escadas e esperava que ela se abrisse com alguém que pudesse me salvar.
Realmente foi terrível. Mas eu sobrevivi, senão não estaria aqui contando isso. E eu preferia não ter sobrevivido àquele dia e Will vai desejar ter me matado antes de deixar minha casa sem que ninguém notasse, exceto eu. Bom, o que aconteceu comigo depois que ele foi embora foi o seguinte: consegui recuperar meus sentidos, ou quase pelo menos, o suficiente para arrancar as fitas de meus pulsos e boca; assegurei para que não deixasse nem uma gota de sangue no local; e depois subi para meu quarto, tomei um banho, coloquei meu pijama e deitei-me em minha cama sem falar com ninguém. Deitada ali, podia imaginar meu belo vestido vermelho agora num saco de lixo preto e com algumas manchas pequenas em um tom de vermelho mais escuro, talvez um bordô, escurecendo a cada segundo até secar totalmente e virar um marrom fúnebre. No dia seguinte, iria queimá-lo.
Olhei para o relógio e percebi que fazia exatamente meia hora desde que havia falado com algum de meus parentes, o que significava que tudo aquilo havia passado em pouco tempo, ninguém lá embaixo estava sentindo falta da aniversariante. Fiquei imaginando até onde Will poderia ter corrido a uma hora dessas, fugindo da polícia que ele achava que eu devia ter chamado, mas não chamei. Ele podia continuar achando que eu o denunciei, era o que eu queria, que ele ficasse numa fuga psicológica e não dormisse à noite de medo, assim como eu não dormi por uma semana, pelo menos não sem pesadelos que me faziam acordar de madrugada e chorar até que toda água de meu corpo tivesse se esvaído.
Não contei a ninguém. Todos acharam estranho eu ter ido me deitar mais cedo e durante a festa, mas disse que não estava me sentindo bem, não menti sobre isso, mas falei que devia ter sido os doces que comi demais.
Em suma, fiquei satisfeita por meu aniversário ser nas férias, assim teria bastante tempo para ficar sozinha sem ver meus amigos todos os dias. Não queria ver ninguém, falar com ninguém e pensar em ninguém. O que realmente fiz naquelas férias foi estudar em casa tudo o que eu podia estudar, pois tentaria fazer uma prova seletiva para ganhar uma bolsa em escola particular, queria mudar tudo em minha vida, se eu pudesse mudava de pais também porque os meus só sabiam ficar preocupados com minha mudança de personalidade e fazer perguntas sobre o por quê de eu estar tão mudada. A única coisa que disse foi que estava tentando amadurecer, já que tinha quinze anos agora.
Após um ano, eu fiz minha carteira de motorista, foi muito bom, principalmente porque comprei um carro depois, tudo com minhas próprias economias. Eu trabalhava em uma loja de artefatos antigos e estava indo para o segundo ano do ensino médio na escola particular que havia conseguido a bolsa. Cuidei para não fazer nenhum amigo, não suportava a ideia de falar com um adolescente mais, era muito desnecessário para mim.
Foi nesse tempo que comecei com as minhas saídas noturnas.
Numa noite comum de sexta-feira, fui até uma loja de conveniência procurar algumas guloseimas para comer e talvez até um livro a fim de acabar com meu tédio. Enfim, achei alcaçus e salgadinhos e Chapeuzinho Vermelho e um cara barbudo que cheirava a cigarro, tentando me paquerar. Ele era o caixa na loja e jogava cantadas preparadas achando que eu era como as vagabundas que frequentavam a sua loja. Ameacei-o dizendo que se ele não calasse a boca e passasse minhas compras, eu iria degolá-lo com meu punhal em meu bolso da jaqueta. Ele continuou. Mas deixei passar, visto que só queria pagar e ir embora.
Era tarde da noite e ele achou que podia fechar a loja, mas ele fechou antes que eu pudesse sair. A única coisa que pensei foi: Não posso deixar que isso aconteça comigo de novo. O idiota barbudo me prensou contra uma das estantes da loja, beijando-me. Eu deixei que ele fizesse o que queria, só até ele me levar para atrás do caixa. Enquanto aquele porco estava sobre mim prestes a tirar minha roupa, saquei meu punhal e num golpe certeiro, enfiei-o na têmpora dele com toda a força que encontrei. E antes que o sangue me sujasse, joguei-o para o lado e tirei meu punhal de sua cabeça. Limpei o excesso do sangue de minha arma na blusa dele, depois peguei uma garrafa de álcool para lavar minha arma branca. Lembro-me de não sentir nada, nem remorso, nem culpa, nem compaixão. Só alívio. Alívio por não deixar que a história se repetisse.
Enquanto segurava aquela garrafa de álcool na mão, tive uma ideia e coloquei-a logo em prática.
Fui até o computador e apaguei toda a filmagem do dia das câmeras, que notei no momento em que atravessei a porta da frente. Feito isso, andei até os fundos da loja e achei uma pequena cozinha, só quis saber do fogão. Liguei as bocas do eletrodoméstico e voltei para a loja. Peguei as garrafas de álcool, mas logo avistei as de gasolina e apressei-me a despejá-las por todo o recinto, principalmente em cima do porco morto e fétido. Depois disso, peguei minhas compras e enquanto saía, fiz uma trilha de gasolina até próximo ao meu carro. Antes de dar a partida, risquei um palito de fósforo e joguei na trilha de gasolina. Não esperei para ver se a trilha tinha pegado fogo, pois, assim que as chamas alcançassem a loja, tudo iria para o espaço.
Já estava na estrada e nada havia acontecido, pensei até em voltar e checar o por quê não funcionou, mas nesse momento o barulho e a luz da explosão quase fez-me perder o controle do carro. Tudo dera certo. Senti-me mais aliviada. O melhor de tudo era que a loja ficava distante o suficiente de qualquer casa e comércio para alguém ver o que fiz ou perceber de imediato o incêndio. Por isso, apertei o pé no acelerador e em menos de meia hora estava em casa com minhas compras. Naquela noite, sentei-me no chão do meu quarto comendo as guloseimas que comprei e divertindo-me com a história da Chapeuzinho Vermelho numa versão de terror. Identifiquei-me com uma das personagens. Uma vez eu fora a chapeuzinho vermelho, inocente e indefesa. Agora eu era o lobo.
Uma semana se passou e eu não parava de pensar na sensação de adrenalina que me tomara naquela noite em que fiz minha primeira vítima. Ninguém veio a minha casa me acusar por assassinato, nem policiais e nem o FBI. Veja só, eu havia driblado até mesmo os peritos criminais! Eu fora fantástica, não deixara vestígio algum. E apesar de ter ficado temerosa em relação a isso, de alguém desconfiar, eu queria aquela sensação novamente.
Exatamente após sete dias, saí com o intuito de reviver aquele momento de aventura, o qual não parava de pensar. Bom, dessa vez eu fui a um lugar onde encontrasse algum pervertido bêbado o suficiente para que eu fizesse o que queria, um bar era o local perfeito. Encontrei. O lugar estava cheio deles. E por ironia do destino, alguém se aproximou de mim. Seu hálito era tão forte em razão do álcool que quase fiquei bêbada também. Em suma, deixei que ele me paquerasse, pagasse uma bebida para mim e eu retribui levando-o ao beco escuro e desértico atrás do bar. Eu havia vestido um sobretudo vermelho-vivo para a ocasião, puxando meu capuz como sempre fazia com meus casacos e ao chegar aos fundos daquele lugar, o homem, que devia ter seus quarenta anos, disse e nunca me esquecerei disso:
— Você está parecendo a chapeuzinho vermelho, docinho. Posso ser seu lobo mau?
Sorri como Will e isso pareceu excitá-lo.
— Que lindos olhos você tem — ele sussurou passando as mão pelos meus cabelos.
— São para melhor vê-lo — sussurrei de volta, jogando junto uma piscadela.
Ele riu e seu bafo quase me fez vomitar. Claro que cuidei para que ele não percebesse.
— Que belos lábios você tem — ele proferiu numa voz arrastada.
— São para melhor beija-lo — forcei-me a pressionar minha boca contra seu pescoço.
Depois ele me agarrou e apertou-me com força contra si. A esfregação de corpos tirando-lhe o fôlego. Logo, logo eu iria tirar completamente isso dele.
— Você já leu a história da chapeuzinho vermelho? — falei entre sua investidas de beijos e apertos, fingindo excitação.
— Já. Mas não quero falar sobre contos de fadas agora, benzinho — ele ofegou, tentando tirar seu cinto. Senti repulsa.
— Ah, então você sabe como o lobo termina, não sabe? — disse, agora cheia de prazer por finalmente ter chego a hora.
O homem fingiu não escutar, ele só queria tirar a sua e a minha calça. Aproveitei o momento para retirar do bolso o meu punhal, virei-me a fim de que ele ficasse contra a parede e, puxando seu cabelo de lado, apunhalei-o na garganta, não uma, mas várias vezes. O problema final foi ter que me livrar do corpo. O sangue não espirrou muito, só em minhas luvas, que queimei em seguida. Olhei para o contêiner de lixo ao meu lado e a ideia surgiu em minha mente de súbito. Abri vários sacos de lixo, despejando fora o conteúdo e, cautelosamente, embalei o cretino nelas. Sei que não deixei pista alguma para trás, pois depois que coloquei- o no porta-malas do carro sem que ninguém visse, levei o corpo para uma espécie de pântano pouco conhecida e joguei-o no lodo profundo do mangue, que o engoliu completamente. Acelerei o processo empurrando com um pedaço de pau e tendo certeza que nunca ninguém o acharia lá, já que era fundo o suficiente.
Depois disso, eu saía algumas noites para procurar por mais vermes pervertidos. Nem sempre encontrava. E também não podia fazer isso todas as noites, não queria causar alarde. Mas quando eu fazia, sempre me livrava dos corpos de um jeito bem criativo. Minha única arma era o punhal. Eu havia comprado na loja onde trabalho com o intuito de defender-me e veio bem a calhar. Também havia me auto-apelidado de Chapeuzinho Vermelho, é assim que me apresento a minhas vítimas. Havia me tornado assassina, cruel, sanguinária. Mas não deixei que ninguém desconfiasse do meu passa-tempo favorito. Meu desempenho na escola era excelente, meus pais nunca mais perturbaram-me com perguntas inúteis e estava satisfeita comigo mesma, pois além de estar me divertindo, também limpava a cidade de estupradores sujos. Eu era uma justiceira muito talentosa. Uma vez eu até salvei uma garota das garras de um malfeitor desgraçado, não deixei que ela visse meu rosto e ameacei dizendo que se ela contasse a alguém sobre mim, eu iria atrás dela.
Quem diria que um dia eu seria assim? Tudo graças a Will, aquele resto de aborto criou um monstro. E agora estou indo atrás dele.
Há alguns dias eu o encontrei na rua, ele não me viu, estava um pouco distante de mim. Mas eu o vi perfeitamente e segui-o. Sei onde fica sua casa. Pensei em fazer uma visitinha agradável a ele.
Dirijo não mais que quinze minutos até chegar ao local. Vejo a casa maldita. Branca e velha, com ervas daninha crescendo ao redor, nada chamativo. Will deve estar se escondendo. Pergunto-me quantas garotas sofreram o que eu sofri, quantas garotinhas puras de quinze anos ele violou, quantas delas sobreviveram e quantas das que sobreviveram devem ter ficado como eu. Cuidarei para que Will não destrua a vida de mais nenhuma debutante.
Estaciono em um quarteirão ao lado, dentro de uma pequena floresta, onde as árvores me ajudam a esconder meu automóvel e caminho em direção à casa dele. As luzes estão apagadas, já é tarde, por volta das onze. Se tiver sorte, encontrarei Will dormindo, será mais fácil, todos querem morrer dormindo. Entretanto, não quero que seja fácil para ele.
Vou para a parte dos fundos da casa, tentando achar um modo de entrar. Tento abrir a porta dos fundos e as janelas, mas nenhuma se encontra destrancada. E então avisto um alçapão que é uma entrada para o porão da casa. Se eu conseguisse quebrar a corrente, nada mais me impediria de fazer o que vim fazer, mas sei que não vou conseguir, como eu quebraria? Meus olhos param em cima das dobradiças do alçapão. Já sei o que fazer.
Pego meu punhal e uso-o como chave de fenda, desparafusando as dobradiças. Preciso de toda minha força para fazê-lo. Aos poucos vou tirando os parafusos de uma porta só, assim já é o suficiente para eu entrar. Bingo! Entrei na casa. Se tiver sorte, a porta do porão estará destrancada. Rá, que piada! O porão nem porta tem. Melhor pra mim, penso.
Caminho pela cozinha bem organizada, apesar de simples. Ele deve ser casado para ter uma casa tão arrumada desse jeito. Passo pela sala e porta-retratos me chamam a atenção. Vejo que estou na casa certa, visto que o homem na foto pendurada na parede é Will. E ele está acompanhado de uma garota não muito mais velha que eu. Será que é sua esposa? Não, ela é muito jovem. Deve ser uma de suas vítimas. Reparo que a mesma garota de cabelos negros chanel está em outra foto e comemora seu aniversário com um bolo caseiro na cozinha desta casa. Acho que ela é filha de Will. Que cretino! Não posso nem imaginar o que ele faz com ela. Mas o sorriso que a garota expressa faz-me pensar se ele alguma vez tocou nela. Talvez não faça com ela o que faz com as outras.
Tento não perder tempo com aquela divagação. Sigo pelo corredor a passos silenciosos. Há duas portas uma de frente para a outra a minha frente. Uma dele e outra dela. Empurro devagar uma das portas e não há ninguém ali, nem na cama desarrumada, nem em frente ao armário violeta, nem perto da estante de livros, mas vejo roupas femininas jogadas no chão e na cama. Esse quarto é dela. Viro-me em direção ao outro quarto. Preparo-me para abri-lo. Sutilmente empurrando a porta, vejo que há alguém ali. É ele. Está dormindo. Entro sem fazer barulho e paro em frente a cama. Will está virado para a parede e ronca como um porco debaixo das cobertas.
Sorrio. A vingança será doce, doce, doce. Mas queria que ele me visse uma última vez e soubesse que estou aqui para matá-lo.
Acho que Will sentiu minha presença, pois vira-se para o lado em que estou, abrindo os olhos lentamente.
— Você? — ele consegue dizer rouco e perplexo.
— Eu! — digo rindo ao mesmo tempo que cravo o punhal em sua cabeça.
Nossa, essa foi rápida. Pelo menos deu tempo de ele me ver e fazer aquela cara de apavoro sabendo de sua morte iminente.
Volto para casa tão satisfeita que chego a suspirar. Tirar aquele monstro do mundo foi a melhor coisa que já fiz. Não quis me livrar do corpo dessa vez. Queria que o encontrassem e mostrassem na televisão para que as garotas que Will violentou se sentissem vingadas.
No dia seguinte, uma repórter loura e esbelta aparece na minha televisão dando a notícia do assassinato de Will. Olha só, descobri seu verdadeiro nome: Antonio Maroni. Aquela garota do porta-retrato é mesmo sua filha e tem dezenove anos, mas não revelaram seu nome. Uma foto do canalha é mostrada em minha tela. Ainda bem que matei o cara certo. A mulher na tevê diz que o único vestígio encontrado pelos peritos foram as pegadas dentro da casa, mas que isso não é o suficiente para encontrar o assassino. E eles estão certos, visto que dei um fim nos meus tênis velhos colocando fogo. Fora isso, nada de DNA, impressão digital ou testemunhas foi deixado pelo criminoso. O assassinato foi muito bem esquematizado e o culpado possivelmente não será achado sem mais pistas. Um sentimento de triunfo toma-me e quase sorrio.
— Nossa, coitado. Quem poderia ter feito isso? Que coisa horrível! — minha mãe resmunga.
Saio da sala, pois não suporto ouvir minha família sentir compaixão pelo estuprador de sua filha. No entanto, não os culpo, já que eles não sabem o que aconteceu.
Os dias passam e eu levo minha vida com mais leveza, pois meu lobo mau está morto. Há algum tempo não faço minhas rondas noturnas a procura de vítimas, um mês pra ser mais exata. Então decidi sair para descarregar minha energia. Ultimamente tenho a impressão de que estou sendo observada. Não é uma sensação que me agrada, por isso ando mais cautelosa do que antes.
Mais uma reportagem é feita sobre Antonio. Agora falam que ele era procurado pela polícia há algum tempo, pois pessoas que o denunciaram por estupro reconheceram sua foto. Isso só confirma minha teoria de que houve outras vítimas de Antonio.
Outro assunto que surge no jornal e atrai a minha atenção, é algo sobre um serial killer na cidade. Fico interessada por ver que não são as minhas vítimas as escolhidas por esse novo assassino. Pelo visto eu tenho um concorrente, mas ao que parece os homens assassinados são outros assassinos perigosos e procurados. A cidade está fervendo. Quem sabe eu não esbarre com esse serial killer e formamos uma dupla, trabalhando em equipe. Seria muito divertido.
Eu preciso sair e liberar essa minha ansiedade. Quero ver se encontro meu amiguinho que gosta de caçar assassinos. Bom, na verdade eu sou uma assassina, mas o killer não viria atrás de mim, viria? Acho que não, pois sou uma justiceira como ele. Enfim, vou saber quando encontrá-lo.
São onze da noite e nesse momento estou em cima de um homem de vinte e dois anos, um pedófilo de carreira, sei disso porque há algum tempo venho investigando a vida de meus alvos para encontrar os verdadeiros criminosos. A garganta do rapaz está dilacerada e meu punhal permanece fincado em sua carne. Aqui não há preocupação em ter tanto cuidado, visto que nos encontramos em uma floresta, a mesma cujo corpo de minha segunda vítima eu desovei no mar de lodo. Agora estou prestes a fazer o mesmo com esse homem. Dessa vez fiz jorrar muito sangue, minhas mãos estão ensopadas.
Faz muito frio hoje, quero me encolher, apertar meus braços ao redor de meu corpo, mas se o fizer vou sujar meu sobretudo vermelho, o qual já virou meu uniforme de trabalho. Suspiro e solto baforadas brancas no ar. O punhal na mão pingando sangue no chão. Não sei o motivo de eu estar parada em frente ao corpo, talvez seja o desconforto, pois novamente sinto a sensação de estar sendo observada. Que droga, será que estou ficando paranoica?
Levanto minha cabeça. Paraliso meu corpo e minha respiração. Pode estar demasiadamente escuro, mas os fracos feixes da luz da lua cheia me permite enxergar uma sombra a poucos metros de mim. Aquela entidade de preto chegou silenciosa e ficou me vigiando até o presente momento. Reparo que sua estatura é mediana, deve ter o mesmo tamanho que eu e sua silhueta revela que por baixo do sobretudo preto encontra-se uma forma feminina. O capuz me impede de ver seu rosto. Essa garota parece comigo, exceto pela cor de sua vestimenta, por isso a apelido, mentalmente, de chapeuzinho preto.
Ela continua parada me observando, mesmo depois de eu notar sua presença. Será que está com medo?
— Olá — digo, erguendo minha mão para saudá-la.
Concomitantemente, chapeuzinho preto imita meu gesto, ela até parece uma sombra minha.
— Quem é você? — pergunto curiosa.
— Seu pesadelo — ela responde, sua voz rouca e arrastada.
Espero um segundo afim de receber mais alguma palavra de apresentação. Mas só o que vejo é um movimento rápido demais e uma adaga cravada em meu peito. Caio no chão. A dor lancinante me invade de súbito e fico sem ar. Olho para o céu com a lua cheia iluminando o ambiente. As árvores sacudidas por um vento sereno. De repente, tudo é breu. Não morri ainda, é apenas chapeuzinho preto cobrindo minha visão. Começo a tossir e um líquido quente sobe por minha garganta.
— É você, não é?... É você a nova serial killer... da cidade? — consigo dizer em meio aos engasgos.
— Sim. Estive procurando por você esse tempo todo.
— Por...por quê? — meu corpo começa a tremer.
— Porque queria vingança. Antonio era meu pai.
Sorrio pela coincidência. O sangue escorre por entre meus lábios.
— Você sabe...
— Sei. E sinto muito. Mas o pai que conheci não era um criminoso, ele era bondoso, por isso , mesmo que ele tenha feito toda aquela maldade, tinha que fazer justiça com minhas mãos — chapeuzinho preto faz uma pausa — De certa forma, você fez o certo, fez justiça assim como eu, chapeuzinho vermelho.
Sorrio por saber que sou conhecida pelo pseudônimo que criei. Está ficando mais frio, meu corpo tem arrepios e tremores, minha respiração é dolorida e sinto-me úmida de sangue. Agarro seu tornozelo.
— Diz...diz pra mim...eu limpei a cidade... — a respiração entrecortada — eliminei quase todos...os vermes...
— Sim, você realmente fez um ótimo trabalho nessa cidade.
— Que bom — sorrio e viro minha cabeça de lado, fechando meus olhos e permitindo meu corpo se desfalecer.
Sei que a vida não foi muito justa comigo, mas estou feliz pelo quê vivi até agora. Consegui fazer algo de bom para muitas pessoas e mesmo que eu vá para o inferno, estou satisfeita porque sei que vou encontrar minhas vítimas presas lá também. Se eu pudesse dizer uma última coisa seria: Siga em frente! Não olhe para os lados! Não corte caminhos! Não fale com estranhos! O lobo pode estar na próxima esquina!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!