Notas iniciais
Iniciando

Lúcia Maldonado

Eu estava entediada. Mamãe e Papai estavam se arrumando a mais de horas para um importante evento da cidade, mais um de tantos que eles já foram. E enquanto se arrumavam revezavam-se em discutir ao telefone com alguém sobre sua total falta de compromisso.

No começo eu não estava ligando muito para suas conversas, afinal eu adorava brincar de boneca e também, o que uma menina de 8 anos entende sobre a vida dos adultos?

Claro que essa era a frase típica que minha mãe falava quando eu pedia para ela me deixar na casa da vovó ao invés de me deixar em casa com uma babá que era só poucos anos mais velha que eu.

Quando mamãe saiu bufando do quarto, usando um belo vestido vermelho, com papai, vestindo um belo smoking, logo atrás dela tentando acalmá-la eu percebi que algo importante estava acontecendo e decidi prestar atenção na conversa deles.

“Não podemos levá-la ao coquetel e também não podemos deixá-la em casa sozinha, o que vamos fazer? Isso é um pesadelo!” Mamãe choramingou e virou-se para papai, que logo tratou de segurá-la em seus braços.

“Vamos dar um jeito meu bem, não se preocupe.” Papai falava enquanto afagava as costas de mamãe. “Podemos ligar para sua mãe e ver se ela pode ficar com a Lúcia, é uma emergência Meu Amor.” Ele sempre arrumava um jeito para tudo, mas mamãe fez careta.

Eu amo meu pai. Ele é incrível, sempre faz de tudo para agradar a mim e a minha mãe, ele é meu super herói. Já eu e mamãe não nos damos muito bem, temos muitas divergências em nossas opiniões, como por exemplo: eu odeio rosa e vestidos, mas parece ser só isso que ela sabe comprar e me dar.

“Minha mãe, você ficou maluco, ela vai encher a cabeça da menina com besteiras e ela vai ficar mais difícil de lidar do que já é.” Esse era sempre o argumento da minha mãe. E em minha defesa não sou difícil de lidar, só não concordo com o modo de vestir ou me portar que a minha mãe quer que eu use e faça.

“Eu sei meu bem, mas ou um de nós fica em casa com a Lúcia ou a deixamos com sua mãe, você quem escolhe o melhor.” Quando meu pai falou isso logo piscou pra mim, ele sabia que eu não era difícil e que amo ficar na casa da minha avó. E assim que ele fez este gesto eu sabia que mamãe estava vencida, eu iria pra casa da minha avó.

~.~

Quando o carro de meus pais estacionou na frente da varanda lilás eu quase voei para fora do carro, minha mãe fazia mil e uma recomendações, que eu nem escutei, enquanto ela retirava do porta-malas a mochila que ela tinha feito para mim.

Vovó apareceu na varanda e abriu um enorme sorriso, se abaixou e abriu os braços e esta foi a deixa para que eu saísse correndo do lado de minha mãe e fosse ao encontro dela.

Minha avó tinha cheiro de lavanda, sua flor favorita, e seu abraço era tão aconchegante e quentinho que, mesmo no verão, não se conseguia recusar.

“Minha criança, que saudade sua.” Vovó sussurrou em meu ouvido.

“Eu também estava com saudade vovó.” Respondi baixinho em seu ouvido. Ainda agarrada a ela.

“Mamãe eu não preciso recitar para senhora as regras que esta mocinha deve seguir, não é?” Minha mãe tinha o dom de estragar meus momentos com a vovó.

“Boa noite, minha filha. Sim, eu estou bem. Claro, também senti saudade sua.” Vovó respondeu para minha mãe e sorriu, quando minha mãe bufou em resposta.

“Boa noite, Fabíola.” Meu pai, incrível como era, cumprimentou vovó e deu um abraço e um beijo nela. “Minha princesa está entregue.” E sorriu agora para mim e se abaixou para ficar da minha altura. “Obedeça a sua avó, não vá dormir tarde, sem filmes de terror, e quando voltar pra casa não brigue com sua mãe.” Ele recomendou enquanto me abraçava, a última parte ele falou sussurrando. Quando me soltou ele piscou para mim.

Meus pais se despediram da vovó voltaram para o carro e foram para mais um de seus importantes jantares e recepções.

Vovó como sempre me mandou entrar, fechou sua porta e me mandou para meu quarto. Sim eu tinha um quarto só meu na casa da minha avó. Disse para que eu escolhesse um filme e o colocasse no DVD, enquanto isso ela iria preparar as pipocas para nos divertirmos.

Eu escolhi meu filme favorito: O Rei Leão. Coloquei o filme pra rodar e nem esperei vovó voltar, já o iniciei logo de cara, ela nunca se importava.

Só reparei que havia algo de estranho quando a música de abertura encerrou e o silêncio que devia ter foi interrompido pelo som de vidro se quebrando quando cai no chão.

Achei super estranho isso acontecer, porque vovó nunca quebrava nada em sua casa. Ela era sempre muito cuidadosa. Pausei o filme, desci da cama onde estava sentada, não coloquei nenhum calçado nos pés e desci a escada lentamente para ver o que estava acontecendo.

A medida que eu desci e me aproximava do final da escada pude ouvir sons que pareciam de luta. Parecia que um animal estava dentro da casa. Meu coração disparou, sabia que algo muito errado estava acontecendo. Quando finalmente cheguei ao fim da escada, caminhei, o mais silenciosamente que consegui, para chegar até a cozinha, porque era de lá que vinham os sons.

Meus olhos se arregalaram, quase não acreditava no que está vendo,

Vovó lutava com um homem, um homem que eu nunca tinha visto antes. Ele era moreno, tinha cabelos pretos que reluziam com a luz da cozinha, ele era musculoso e rápido, muito rápido. Mas vovó sabia lutar, e isso era uma grande novidade para mim. Ela ia de um lado para o outro, fugindo e ao mesmo tempo atacando o homem.

Acho que em algum momento eu devo ter feito barulho ou só um movimento que chamou a atenção da vovó, pois ela me olhou e pude ver medo em seus olhos. Ela se desconcentrou da luta que ela estava participando, o que foi o suficiente para o homem acertá-la com um belo soco o que a desequilibrou e a fez cair no chão. Eu queria correr e ajudá-la, mas algo em mim me prendeu no lugar.

Eu tremia e quando via a cena: vovó caindo, batendo com sua cabeça na bancada da pia e não levantando mais.

O homem,ao perceber que havia vencido e desacordado vovó, abaixou-se a pegou em seus braços, a colocando sobre seus ombros e começou a sair da casa, pela porta que dava para a floresta que ficava aos fundos da casa da vovó.

Assim que ele saiu da casa eu recuperei meus movimentos e sai logo atrás dele. Quando estava andando pela cozinha em direção a porta, senti que pisei em algo molhado. Olhei para meus pés e vi que estava em uma poça de sangue, onde a cabeça da vovó estava a alguns instantes atrás. Ela estava ferida, eu precisava ajudá-la.

Quando passei pela porta o ar frio da noite me cumprimentou. Eu me encolhi de frio, mas não ia desistir, ainda enxergava o homem caminhando logo à frente com minha avó em seus ombros, eu iria segui-lo e ia ajudar minha avó a sair de onde quer que ele a colocasse. A noite estava clara, olhei para o céu e enxerguei a lua, uma lua redonda e enorme que iluminava meu caminho.

Se não fosse por ela eu nunca enxergaria a cena que eu jamais esqueceria. O homem que estava a muitos passos de distancia de mim, começou a sacudir seus ombros, como se ele estivesse rindo, ou melhor, como se ele estivesse gargalhando. E então ele começou a retorcer-se em direção ao chão, como se estivesse sentindo dor. E em um passe de mágica, o homem que estava carregando minha avó nos ombros, era um lobo.

Ele era um lobisomem, e estava sequestrando minha avó. Eu estava muito assustada com o que estava vendo, mas jamais deixaria minha avó sozinha.

Ela era a única que me compreendia de verdade, a única que não me julgava por nada. Eu não podia perdê-la. Quando o lobo começou a correr floresta adentro com minha avó em seu lombo, eu não pensei em nada, eu somente corri atrás dele.

A floresta era densa e sempre foi meu refúgio feliz, fazíamos piqueniques nas tardes ensolaradas e caminhávamos até o riacho, onde muitas vezes nadei, me sentindo livre. Mas a atmosfera agora era outra, era sombria, o breu que envolvia a floresta logo me envolveu.

Eu usava a pouca luz da lua que passava pela copa das árvores para tentar localizar o lobisomem, meus batimentos acelerados ressoavam em meus ouvidos, impedindo que eu pudesse ouvir mais sons que pudessem me guiar. Meus pés, descalços começaram a doer conforme eu andava. Eu já não sabia mais onde estava ou pra onde ir.

Eu estava sozinha. Eu estava perdida.

~.~

Minutos ou horas se passaram, eu já não sabia mais,estava com frio e com fome, o lobo era muito rápido e eu mal havia entrado na floresta e já o tinha perdido de vista.

Jamais desistiria, iria encontra a vovó, porém cansada e faminta,depois de um longo tempo eu desmaiei.

~.~

Fui encontrada, uma semana depois do ocorrido. Eu estava desacordada, desidratada, e desnutrida.

Os jornais noticiaram, eu era uma celebridade. Quando acordei contei toda história aos meus pais, à polícia e aos jornais. Ninguém acreditou. Chamaram de TEPT. Passei a me consultar com vários psiquiatras. Um mês depois, mamãe também.

Não saiamos mais de casa. Eu me sentia igual a Rapunzel, presa em uma torre por uma bruxa, que no caso, era minha mãe.

Nossa rotina foi alterada.

Minha avó foi sequestrada.

Aquela noite mudou nossas vidas para sempre.

Notas finais
Espero que gostem
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.