Gemidos. Gritos de dor suplicantes. E silêncio.

Longos filetes de sangue emanavam de dentro do túnel escuro.

Pequenos passos molhados eram a trilha sonora daquele assassinato macabro. Foi assim que a conheci.

Não sei o porquê, mas todos que ela mata perdem-se deste mundo, vindo ao meu encontro, sempre aos sábados. Já são cinco com o de hoje. Quem é ela? Bem, você já a conhece. Pequena, fofinha, dona de uma capa vermelha...VER...ME...LHA...Um vermelho que corre pelas veias, um vermelho que não cicatriza, um vermelho escuro, bem escuro mesmo, quase preto. Sim, é ela. Mas, como todo o mundo, ela cresceu. Está linda! É muita esperta e educada também. Foi muito desejada no colégio, muitos garotos a queriam, alguns a tiveram, porém ela não guarda boas lembranças de nenhum. Essa é a Chapeuzinho...vermelho? Não, não mais. Eu diria: Ensanguentada. É, combinou bem! Ah, perdoe meus modos, me chamo Morte, mas pode me chamar de Srta M.

Já era manhã, e os jornais já haviam sido entregues à maioria das casas. A notícia estava na primeira página: “Assassinato brutal: Garoto de 16 anos é esfaqueado no metrô”. Ao ler a matéria completa, D. Molly, mãe de Chapeuzinho, a manda passar uma temporada no apartamento de sua avó do outro lado da cidade até que prendessem o assassino sangue-frio. Chapeuzinho, após minutos discutindo que estava segura devido as vítimas serem apenas garotos, acabou acatando a ordem da mãe. Separou uma pequena bolsa preta do canto, do canto, do canto do quarto. Talvez você se pergunte, “Por que preta?” Bem, para ser direta, porque ela apenas gosta de vermelho, ok? Não é uma louca psicótica pela cor... E, preto é bem bonito.

Ainda seguindo pela rua principal, Chapeuzinho decide parar em um loja de instrumentos culinários. Com a desculpa de que queria preparar a carne assada preferida de sua avó, comprou um facão de açougueiro pela metade do preço. Para a surpresa de Chapeuzinho, um cliente que estava atrás dela na fila a reconheceu. Para azar do garoto, ela o reconheceu também. Era Jake, um garoto um pouco mais alto que ela e que a havia pedido em namoro no segundo ano do colégio. Não demorou para Chapeuzinho o convidar para a sua casa, disse que se tivessem sorte poderiam relembrar um pouco dos momentos juntos. Jake, como a maioria dos garotos, nem pensou duas vezes. Pediu o endereço e se despediu. Chapeuzinho apenas pediu uma coisa: “Vá de metrô, é mais rápido.” O que é uma grande mentira! Já que a parada para a casa da avó dela era uma das últimas seguindo o percurso por metrô.

Como previsto, Chapeuzinho chegou primeiro que Jake à casa da vovó... Quero dizer, apartamento luxuoso e sofisticadíssimo da vovó. A emoção em rever a netinha foi tanta que a vovó quase tem um ataque cardíaco. Tadinhos, esses velhos são o tipo de alma que eu menos gosto, já estão em meus braços, nem reagem quando venho buscá-los. É, eu sei... Posso parecer má, mas não sou! Acredite!

Com seu rostinho angelical, humildemente, perguntou a avó se esta poderia verificar se ainda haviam roupas suas no closet antigo. Tadinha, não teve nem tempo de ouvir o trinco da porta do closet batendo. Agora estava só Chapeuzinho e um apartamento perfeito para mais um de seus assassinatos. Consegui até notar um sorriso abafado no seu rosto.

Quando Jake chegou já estava tudo preparado: os móveis, exceto a cama, estavam cobertos com um plástico fino para o caso de manchas de sangue, todas as cortinas foram abaixadas para evitar testemunhas, e a vovó ainda estava presa no closet... Posso até dizer que de todos os seis Jake foi o mais estúpido! E estou sendo gentil.

Logo que chegou encontrou Chapeuzinho na cama enrolada em cobertores de inverno não hesitou em tirar a roupa e deitar ao lado dela. Que erro! Que erro! Foi questão de tempo até a cama receber sua tonalidade rubro e desatar a gotejar até o chão. Chapeuzinho teve que ser rápida em embrulhar o corpo com a torrente de cobertores e levá-lo num bolo de pano até a porta dos fundos.

Quando Jake chegou aqui ele estava com frio, também tantos jeitos de morrer e o coitado vai morrer logo nu! Sinceramente, deu até pena. Às vezes, chego a pensar a que ponto o ser humano chega por uma vingança, vocês conseguem ser mais doentios que eu, que sou a própria Morte.

Dessa vez, ela teve um problema. Gotas de sangue mancharam o chão do quarto. Com álcool e um pano que encontrou atrás da pia retirou a maior parte. Quando já estava no fim ouviu uma batida forte na porta. Imaginou que se demorasse a atender desconfiassem de algo. Correu para ver quem era.

O distintivo prateado dizia: ”Delegado Oberon Caçador” . O susto que a garotinha levou foi maior do que ela podia suportar, mas tentou se manter calma. O delegado chegou entrando, nem pediu permissão. Que delegado pede? Bem, foi analisando cômodo por cômodo como se procurasse algo. No quarto, notou o pano no chão manchado de vermelho e o brilho polido do chão limpo. Ele sabia que a tinha encontrado. Ela? Ela estava pronta para acabar com qualquer suspeita, qualquer testemunha.

ARRRRRRRRRG!!!! SOCORRO!!!!

O grito veio dos fundos da casa tanto Chapeuzinho quanto Oberon se espantaram. O barulho ficava mais perto à medida que se aproximavam. Desatou o trinco a pouco fechado e uma vovó assustada saltou no colo do delegado. Um rato. “Foi só um rato”, tentava explicar Oberon à senhora que estava em choque. Estranhando como a senhora foi para no closet, o delegado questionou o fato. A velhinha também não entendeu como foi parar naquele closet com um rato asqueroso. Disse que talvez tenha batido a porta e, sem perceber, a trancado. Um sopro de fôlego pousou no coração entupido de adrenalina de Chapeuzinho, mas, infelizmente, foi muito temporário.

Enfim a vovó se acalmou do susto com o rato e foi dormir no seu quarto. Chapeuzinho havia arrumado a cama e trocado a colcha e os lençóis por outros limpos. Pôs a avó na cama e após tê-la adormecido a base de calmantes, saiu e fechou a porta do quarto, temerosa por ter deixado o delegado sozinho.

Seu novo susto começou por não encontrá-lo na sala, lugar onde supostamente o deixara para evitar possíveis problemas... Pobre Chapeuzinho. Com o mínimo de ruído possível o buscou com ímpeto pelo grande apartamento. Não o encontrou em nenhum lugar. Teria ele ido embora? Não havia contado quanto tempo ficara com a avó no quarto. Minutos? Horas? Não, nem tanto. Mas, isso foi um alívio tão grande para ela. Seu coração voltou ao ritmo normal, até ouvir o barulho. Na verdade, foi um baque, um baque abafado, como quando a gente constrói um castelo de almofadas e lãs caem todas de uma vez. O barulho veio do único lugar que ela não queria que viesse. Do porão da cozinha, nos fundos. Havia algo lá. Algo sem importância, sem valor. Algo sem vida.

“Merda!”, pensou a garota. “Ele não devia, não podia ter descido”. Assinou seu próprio destino. “Idiota!”, pensou. Sabia que não tinha opção a não ser matá-lo também. A lógica de Chapeuzinho é bem simples de se entender: Sem suspeitas, sem problemas. É incrível, né? Kkkkk, amo essa garota! Se parece tanto comigo. Daria uma Srta M e tanto.

A bolsinha preta estava no mesmo lugar que a deixara quando chegou horas antes. Não havia nada de mais especial no mundo para ela do que sua bolsinha preta. Dentro da bolsinha havia todos os instrumentos necessários para se matar alguém. Comprara as ferramentas com o dinheiro de sua festa de 15 anos. Sempre que podia comprava novas para a coleção.

Com o facão de açougueiro, sua mais recente aquisição, pulou para trás do balcão da cozinha a espera que ele saísse. Do lugar onde estava ouviu alguns barulhos estranhos, seguidos de toques de celular e bips baixinhos. Demorou um pouco para perceber que ele estava ligando para alguém. Pediu que umas viaturas viessem ao local logo. “Ótimo! Agora tenho menos de minutos para me livrar de dois incômodos corpos, sendo que um deles ainda está vivo”, pensou ela. Foi a gota d’água!

Passos leves e sem ruídos assolaram o porão assombroso. Era o momento do acerto de contas. Tuc... tuc... tuc... Os nós dos dedos estavam brancos de tanto forçar o facão na palma da mão. Era uma loba. Um cãozinho indefeso no seu momento predador.

O esperou sair por completo para que pudesse saltar em seu pescoço por trás. “Agora é tarde. Você perdeu.”, sussurrou o delegado trêmulo ao pé do ouvido dela. “Me matar só aumentará sua pena”. Como se ela achasse que pudesse ser pega. Já se faziam dois anos desde seu primeiro homicídio. Nunca a pegaram. Não seria hoje que tudo mudaria. “Vá em frente! Me mate! Não sabe o deleite que isso me dará.”

O amordaçou e o trancou no banheiro. Falava demais! Arrastou Jake até a janela do quarto da vovó (era a única por onde ele passava). PUF! E Jake se misturou ao resto do lixo da noite anterior. Só restava um, mas Chapeuzinho ainda não decidira o que fazer com Oberon. Devia matá-lo? Como já havia dito, essa garota possuía um senso intelectual em boa forma. Ela pensava antes de agir.

Ao perceber que não tinha tempo suficiente para fugir (nem meios) decidiu que Oberon seria seu refém até qualquer mudança de planos.

Sirenes, tumulto, gritaria. Eles chegaram. Ela decidiu descer do apartamento, pensou que seria mais sensato ir ao encontro deles, pois caso precisasse fugir seria um pouco difícil conseguir muitas opções estando no 12° andar. Levou Oberon consigo. Ainda amordaçado e com as mãos presas tinha se tornado seu refém.

Seu coração estava num ritmo anormal, tentou se manter calma por um bom período. Mas, era difícil se manter assim estando prestes a ser presa.

Saiu pela porta da frente, estava cercada de olhares amedrontados e assustados, mas a maioria parecia compartilhar do mesmo olhar: o da dúvida. Muitos estavam incrédulos no que viam: Um homem alto, aparentemente jovem e forte, amordaçado por uma garota um pouco menor com um facão apontado na sua carótida esquerda. Se o cara não corresse risco de vida até seria engraçado de se ver.

“Morte de capuz”, era assim que era denominada pela maioria dos jornais (ainda prefiro Chapeuzinho Ensanguentada, não curti o lance da “Morte”). Qualquer um a imaginaria como uma louca com problemas mentais sérios ou coisas do tipo. Tudo, menos o que presenciaram naquele dia.

Um megafone enorme gritava ordens para que ela obedecesse, porém ela parecia não ouvir. Ainda estava compenetrada na quantidade de pessoas que a olhava. Entendeu algo do tipo “Tire a mordaça”, mas não o fez até não ter outra escolha.

Mal se passou 3 segundos e Oberon já estava falando, na verdade, estava contando uma história. Algo sobre um garoto de colegial. Acho que todos, menos ela, já haviam notado que ele estava falando dele mesmo. Mas a pergunta que não quer calar: Por quê?!? Dessa vez, juro que não sei.

Ele continuou até a história ficar tediosa de ouvir. Nem mesmo os policiais que o autorizaram fazer aquilo estavam muito confortáveis ouvindo. “ 3 anos atrás, estava no 1° ano quando comecei a namorar uma garota, sei, sei, vocês devem estar se perguntando como me tornei um delegado tão rápido. Na verdade, não sou um delegado. O distintivo e a farda são do meu pai. Apenas peguei para que deixassem eu entrar no prédio. Bom, continuando... Ela era tão doce e perfeita, passamos tanto tempo juntos que já não conseguia imaginar minha vida sem ela... Até a encontrar com outro. Tive vontade de morrer. Cheguei até a sair da escola. A odiei mais que tudo! Principalmente, por nunca ter entendido o porquê dela ter feito aquilo. Senti como se não tivesse acabado, por isso comecei a seguí-la todos os dias. Descobri que ela ainda estava namorando, sequer sentiu a minha falta, mas uma coisa me chamou atenção. Talvez fosse só a minha imaginação, mas para mim, não parecia ser a mesma garota. Estava do mesmo jeito porém, algo no seu comportamento, no jeito, parecia incomodada com alguma coisa. Na época, nem dei muita atenção.”

“Dois dias depois de tê-la visto, aconteceu o primeiro homicídio da série, a partir desse dia conhecemos a ‘Morte de capuz’. Ainda me lembro da foto de Rony estampada no jornal. Todos vocês devem se lembrar do garoto da Roda Gigante, o corpo foi encontrado no último banco. Me assustei quando vi a foto do meu melhor amigo naquelas circunstâncias (um burburinho alto começou entre os curiosos) E sim, ele era meu amigo e da minha antiga sala. Como as pessoas morrem todos os dias, não dei muita importância fora o susto que tomei na hora. Um mês depois já havia até esquecido. Para quem ainda se lembra (disse em tom alto) um mês depois veio o segundo assassinato, Rudy Flooney, goleiro no meu antigo time de futebol. Juro que um pânico me invadiu. Dois homicídios. Dois garotos. E ainda, da minha antiga sala! Pedi para meus pais uma passagem para uma cidade distante. Podia estar enganado, mas tavez fosse a próxima vítima.”

“Me mantive informado de tudo que acontecia na cidade, foi assim que fiquei sabendo do 3°, do 4° e do 5°, todos partindo da mesma linha de conclusão. Tentei lembrar de quantos garotos haviam na minha antiga sala. Ela era bem pequena, me lembrei rápido. Éramos 8 contando comigo, mas Jorge estava fora do país, então restavam apenas eu e o garoto. O garoto que vi com ela naquele dia. Por mais que o odiasse precisava avisá-lo que corria risco de vida. O tempo passava e eu não conseguia falar com ele, até descobrir onde ele morava. Marquei uma visita, mas no dia em que fui ele não estava. Disseram-me que estava aqui nesse edifício (disse apontando para trás de Chapeuzinho, que estava ouvindo toda a história em choque. Dava para ver que o facão vacilava de suas mãos.) Quando subi até o quarto onde estava, encontrei outra pessoa lá. (seu rosto estava pálido e a garganta, seca) A encontrei. (Uma lágrima escorreu do seu rosto) Não havia mudado muito. Ainda apresentava sua feição doce de antes, mas como antes, algo parecia a incomodar...(o facão caiu com um estalido no chão. Ela caiu para trás em um baque baixo cobrindo os olhos para não chorar...)”

“Ela o matou, ela matou Jake!” Um novo burburinho reverberou na rua encarnecida de pessoas. “Não!”, retrucou ela. “Não fui eu! Precisa acreditar em mim, Sammy!”, suplicou-lhe. Ele pediu desculpas e fez um sinal negativo com a cabeça. Encostou a mão nas bochechas dela e as massageou como se sempre fizesse isso. Ela chegou a ficar vermelha, dessa vez, não um vermelho escuro, como de costume, era um vermelho-rosado que combinava lindamente com ela.

Chapeuzinho entrou em pânico quando a algemaram com as mãos nas costas. Seus olhos mendigavam por socorro, mas ninguém ali parecia amá-la. O zé-ninguém, Sam Steiner, a abraçou forte, o mais forte que pôde. Pareceu que não queria vê-la partir. As lágrimas dele encharcaram a capa vermelha dela. As dela foram engolidas pelo fofo casaco cinza-escuro de delegado. Foi assim que se despediram. Assustadoramente, não houve um beijo. Acho que às vezes um abraço vale mais do que uma troca de saliva...

Uma semana após ser condenada à prisão perpétua no Centro de Detenção de uma cidade próxima a Nova Iorque ela terminou sua história, sua própria história, a que estou contando a vocês agora. Seu lápis foi uma pequena faca de cozinha que guardava embaixo da segunda colcha de sua cama. Seu papel foi a própria parede da cela. Logo que terminou assinou bem no fim da parede com o próprio sangue:

“Chapeuzinho... “

Fiquei com muita raiva de mim mesma nesse dia que tive que buscá-la. Seu coração havia parado de bater. Tadinho, sofreu tanto...

Momentos depois, seu corpo foi encontrado ao lado de sua triste história, tão triste que quase chorei...Na verdade, chorei um pouquinho... Ok, ok eu tô chorando até agora, snif!

O primeiro a ver sua história foi o próprio Sam, que até completou a assinatura:

“Chapeuzinho... Amada”

Sorriu para a parede como se ela estivesse ali, olhando para ele. Ela não estava lá, mas não tenha dúvidas de que o observava daqui.

Bom, essa é a história de Chapeuzinho, a garota que tentou apagar seu passado triste matando todos os seus ex-namorados. A garota que tentou esquecer que havia se esquecido da pessoa que mais amou na vida. Essa é a Chapeuzinho... vermelho? Não, não mais... Essa é a Chapeuzinho Ensanguentada.

Notas finais
Boa leitura...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!