Chapéu e céu Azul

1 Carta para o Presente


Notas iniciais
Olá|! E venho aqui, mais uma vez, trazer uma história. Espero que essa seja longa, estou a desenvolvendo com carinho e pensando em temas legais, formas de se escrever... quero dar meu melhor! Mas tudo isso não tem sentido sem você, leitor, afinal, eu escrevo para que alguém leia. Por favor, aproveite! Obrigada por acessar minha história, seja bem vindo!

Tem chance de você se lembrar de mim?

Acho que sim. Ao menos, anseio por isso. Sei que faz anos desde que nos vimos pela última vez, e pouco tempo desde nossas últimas cartas. Pouco mais de dois anos, eu sei. Mas o que são nossos pequenos dois anos para a história, que vive e conta milênios? Acho que chegamos a ter essa conversa, Presente. Naquela manhã, na escadaria da escola, acho que era o quinto ano, depois da aula do professor Tico, lembra-se dele? Eu gostava daquelas aulas dele. Era um bom professor. Sei o que vai dizer. eu sou uma menina com memórias demais, você sempre me falou isso, especialmente quando tentávamos resolver os exercícios da apostila enorme de história juntos, e eu lembrava de tudo, como se tivesse vivido lá. Hoje sabemos o nome disso, da minha memória fotográfica, que você sempre gostou.

Como tem passado, Presente? Dois anos são tempo demais. Você nasceu na França e fui eu quem saí para viajar a Europa. Acho que hoje conheço tudo que estudamos nos livros. Posso ver aquelas guerras ainda melhor na minha cabeça, sentindo e imaginando tantos soldados, ou tantos políticos em inúmeras batalhas físicas, mortais, tantos debates naqueles lugares. Um dia te enviarei fotos, é uma promessa. Talvez você não se lembre nem ao menos de meu rosto... Mas... se lembra do meu chapéu azul? Sim, comprei um ainda maior este ano, amo este chapéu. Você sempre me disse que era tão brasileiro quanto eu, pois lembrava a praia. Mas você nunca tinha ido à praia, e morávamos bem no meio de São Paulo. Estou rindo, lembrando disso, precisávamos ir à praia juntos, quando eu voltar. Sinto saudades da sua risada, também, e de te ver sorrindo. Quando somos crianças, acho que não percebemos, mas você sempre foi meu parceiro naquelas pequenas aventuras. Tínhamos nossos amigos, também. Aliás, continua falando com o Aécio? Ele era legal, também, mais simpático e companheiro que muitos, um dos poucos moleques comportados que conheci. Vivíamos grudados, nós três, assistindo aulas juntos e irritando os professores enquanto conversávamos. Na nossa sala tinham mais algumas figuras estranhas...

Lembra do Jassen, aquele garoto que fez um trabalho de geografia com a gente? Ele era muito quieto, parado, e falava apenas sobre advogados. Acho que ele admirava aquela profissão com tanta paixão que escapava todo aquele amor desmedido. Mas era divertido vê-lo debatendo com outros alunos, e vencendo, especialmente quando o assunto mais polêmico da época era sobre que alunos tinham o direito de subir primeiro no escorregador do parquinho. Além dele, acho que me lembro daquele aluno mais velho, o repetente Psiche. Lembra-se, do italiano? Ele estava sempre sorrindo e confortando os outros, mesmo quando parecia bravo. Acho que ele escondia algo de todos, mas sempre conseguia fazer com que ficássemos confortáveis pra desabafar com ele, e procurar soluções; eu sempre fiquei interessada em como ele, que tanto nos inspirava a ser sinceros com nós mesmos, guardava dentro de si grandes mentiras envoltas em sorrisos gentis. Lógico que eu não pensava assim na época. Nem você, Presente. Aposto que apenas achávamos ele estranho, e o sentimento devia ser recíproco. (estou rindo enquanto escrevo. Apesar dessas pequenas figuras curiosas, você sempre me foi mais interessante. Principalmente porque ainda confundia o português com o francês, e falava tudo embolado, travando com nossas gírias e sofrendo para entender a palavra paralelepípedo, com tantos "pês")

Mas acho que você ainda convive com eles... Mas isso não importa. Enfim, espero uma resposta dessa carta, Presente. Espero que lembre de nossos apelidos até hoje, também... acho-os divertidos, de verdade. Eu era o "Passado", você, o "Presente", mas acho que não tínhamos o "Futuro". Acho que já discutimos sobre isso, afinal, sobre o que não discutimos? As pessoas achavam a gente estranho, mas era apenas nosso jeito de ser, nosso jeito reflexivo. Pareço arrogante quando falo assim? Mas éramos diferentes, e sinto que quem se aproximava se tornava diferente, também. Haviam tantas pessoas, e tantas agindo igual. O mundo era cinza, mas parecia cada dia mais colorido quando saí de mim e voei até você. Fora de nós, acho que somos melhores. Hoje te considero meu presente, de todas as formas que a língua portuguesa permite.

Lembra do meu nome? Não o apelido, meu nome de verdade. Vou te deixar adivinhar... mas você não precisa. A carta tem de levar meu nome, o nome da remetente. Então, você lembra. E logo vou estar aí, mas espero que você me ache. Te contei do meu desafio? Quero ver se o Presente se lembra do Passado, e se, mesmo após esses longos 10 anos, ainda se lembra de mim. Dez anos se falando somente por carta não é para qualquer um, Presente, poucos conseguem manter contato com outras tantas formas, e nós aqui, com nossas cartas que cruzam fronteiras de países. Não soa enorme? O mundo é gigante, mas além dele há algo mais, ainda maior. E nós tínhamos medo de andar até a esquina sozinhos... Tão pequenos. Acho que gostávamos de conversar sobre isso. Tinha algo dentro de nós, um nó, não queríamos ser perfeitos, mas ver nossas imperfeições. Soa como um nó na garganta, não? Engolir o orgulho... Espero que ainda estejamos tentando isso. Faz falta. Lembro da nossa sala, ainda vejo online alguns de nossos antigos amigos, e eles parecem bem. Bem até demais, entende? Ou bem, ou mal demais, ou acompanhados das melhores pessoas ou isolados, vendo somente as piores pessoas. Não faz sentido, não parece verdadeiro, muito menos real. Mesmo o quarto mais isolado tem uma fresta de luz. E mesmo o local com mais sol apresenta sombra. Algumas pessoas tem problema para enxergar e eu me sinto no dever de ajudá-las. Mas algumas tem plena ciência de que o mundo é imperfeito, mas preferem se esconder cegamente ou na falsa total perfeição, ou na — também falsa — total imperfeição. A palavra "perfeito" é forte demais... Mas seu extremo oposto não é o único que existe. Acho que há luz no fim do túnel, afinal.

Mas acho que eu devia, agora, chegar no assunto principal da carta. Lembra-se do que falei sobre me encontrar? Deixei, espalhados pela cidade, pequenos fragmentos de nossas memórias em nossos lugares favoritos, escondidos onde somente nós poderíamos achar. Cada memória tem uma pista sobre onde está a próxima e, juntas, elas formam algo que você vai amar, Presente! Será que podemos lembrar de nossos momentos? Afinal, você sempre diz que os esquece, pois vivemos os melhores do momento. Sempre fiz isso com você, apesar de amar relembrar os tempos especiais, antigas risadas... Quero que você veja com meus olhos, agora! Por que valorizo tanto o passado, apesar de amar também o presente. Estarei te esperando, Líneo!

Sei que tentou me encontrar online, mas eu nunca gostei de conversar, de ver algo através daquela tela. Prefiro o físico, o tocável, aquilo que posso ver diretamente com meus olhos. E agora quero, mais que tudo, te ver de frente, com olhos nos olhos, brilhos andarilhos de um sorriso a outro (eu me sinto tão poetisa, sempre que te escrevo...).

Bem, vou te dar a primeira dica!

Lembra-se do pedaço de coração que abandonamos

naquele local por árvores fechado

Com o peito angustiado,

Catando folhas do chão, no verão

Nas férias e feriados, dias inacabados

Longe mas perto, aquele local, somente com bancos, deserto

Guarda meu coração.

Estou esperando sua carta, Presente. Faça o meu papel, de Passado, recorde as evidências, evidencie as memórias, venha me ver. Espero que sua jornada seja divertida, também! Quem sabe, escondido, não encontra alguém mais.

Estarei te esperando.

Com todo o amor que guardei

De sua companhia

Passado.

Notas finais
Espero que tenha sido agradável esse primeiro capítulo. Deixem suas críticas, comentários, me digam o que acharam! Fico feliz que tenham lido até aqui. Por favor, esperem pelos próximos capítulos.
Vejo vocês em breve.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.