Aquela era a primeira noite de Mestice em seu novo quarto e estranhava muito o fato de que onde estava agora não tinha cheiro de putrefação ou poeira, era muito mais arejado e limpo do que os calabouços do castelo ou mesmo que a pequena cabana improvisada em que vivia na floresta.

Não havia conseguido pegar no sono ainda e naquele momento já não ouvia a respiração pesada do príncipe no aposento ao lado. Havia tantas perguntas e nenhuma resposta vinha à sua mente. Queria saber o porquê de estar ali e de o rei tê-la salvo. Talvez o mais importante seria como seguir a vida dali para a frente e como tirar vantagem da situação.

Estava tão inquieta que resolveu sair de seu quarto e andar um pouco. O castelo parecia um labirinto de pedras brancas e tochas. A cada lugar onde a bruxa ia, havia um par de guardas que a encarava com olhares raivosos, mais com medo do que raivosos por aquela "criatura" estar ali. A bruxa pensava, ao receber cada olhar, em como realmente odiava humanos. Ela já fora uma deles, mas não se arrependia nada de hoje ser algo maior que isso. Ao mesmo tempo em que os achava repugnantes, sentia inveja de como aquelas pessoas, por mais insignificantes que fossem, tinham um lugar para retornar, tinham sonhos e até mesmo gostavam de suas vidas medíocres. Mestice não tinha nada disso; Ela só tinha algumas cicatrizes em seu corpo, vindas de sua magia profana.

Andou por mais alguns corredores e acabou encontrando uma porta semi-aberta. Ao entrar encontrou vários exemplares de máscaras, algumas de demônios, pessoas sorrindo, algo como uma mascara de samurai vermelha e também algo que realmente despertou a bruxa: uma mascara branca com um sorriso sarcástico e poderoso, com alguma barba. Quando foi colocar no rosto o objeto, escutou um barulho.

Rapidamente devolveu o objeto lugar, pensando que poderia ser algum guarda para incomodá-la por estar ali, mas percebeu que não era nada disso. O barulho vinha de uma fresta de luz em um buraco na parede que até aquele momento ela não havia reparado. Resolveu ver de que se tratava o barulho, uma conversa do rei Dharok com seu amigo, aquele que a havia levado até o quarto e que estranhamente havia pedido seu corpo.

— West, este reino está um caos.

— Vai conseguir fazer algo sobre isso, meu rei?

— Pare com isso, você não precisa me chamar de rei. E não, sozinho não vou conseguir.

— Dharok, você terá que aprender a ser tratado desse modo. Você é o rei agora, império lhe pertence.

— Sei disso, mas você não é qualquer pessoa. É meu amigo, o único que tenho. West, se eu não consigo nem arrumar toda essa bagunça do império sozinho, como arrumarei o mundo?

West o respondeu, mas foi muito baixo para que a bruxa pudesse discernir o que ele disse. Apenas pôde ouvir duas palavras "mundo" e "seu". A curiosidade da bruxa estava começando a aparecer por causa deste jovem rei que não pensava como jovem. Talvez fosse o que o amadurecera foi o fato de em apenas um dia ter o fardo de um reino ou ele poderia realmente ser especial, ela iria descobrir.

Mestice começou a voltar pelos corredores de pedra branca para chegar ao seu quarto, sempre quando possível assustando algum guarda desprevenido, sabendo que nenhum deles teria a audácia de lhe fazer mal.

Os primeiros raios de sol já saiam no leste quando a bruxa finalmente conseguiu fechar os olhos para descansar um pouco. Enquanto dormia sonhava com maldições e fogo. Acordou agitada, meio perdida por alguns momentos e, ao ter certeza de que o que acontecera horas atrás não era apenas fruto de sua imaginação, resolveu sair do quarto e procurar pelo rei, em busca de explicações. Logo que saiu do quarto escuro onde dormia, Mestice quase esbarrou em uma das servas que trabalhava no castelo. Riu internamente pelo susto da moça.

— Meu Deus é mais forte, suas pragas não funcionarão em mim. — A mulher encolhia-se contra a parede, prestes a correr para longe de Mestice. — Volte para o inferno, não deveria estar aqui.

— Onde está o rei?

— O que quer com ele?

— Levá-lo para o inferno comigo, é claro. — Assistindo e se divertindo com o pânico da mulher, Mestice tentava segurar o riso. — Isso é muito atrevimento para uma criada, não é? Acho que ainda não entendeu seu lugar e que sou uma bruxa muito poderosa e má. Alguém ligaria se você sumisse?

— Não pode fazer isso, eu tenho uma família que me espera. — As pernas da criada tremiam tanto que não a deixavam-na fugir. — Não sei onde o rei está, mas West poderá responder.

— Sua família possivelmente será indenizada com a sua morte, o rei terá de pagá-los em ouro por ter morrido enquanto servia. — Estava mais séria do que antes, com uma aura ameaçadora que deixava o ar pesado. — Será rápido, mas não garanto nada sobre ser indolor. Onde está West?

— West está em uma das torres, mas ninguém pode entrar lá.

— Eu sou ninguém. — Mestice ergue as mãos fazendo sinais aleatórios na frente da empregada, que fecha os olhos apavorada. Quando nada acontece, ela abre os olhos e Mestice já havia partido.

Andava rápido pelos corredores, sendo evitada por qualquer um que a visse por lá. Procurava por West ou mesmo pelo rei, porém não encontrava nenhum dos dois. Finalmente conseguira informação de onde West estaria, ninguém ali quis dar a ela informações sobre o rei. Subindo pelas escadas até a torre que não pegava sol, por corredores gelados e escuros mesmo durante o dia, Mestice chega até o jovem West.

— O que faz aqui? — Pergunta surpreso quando a bruxa entra, sem cerimônias, na grande sala da torre.

— Para que todo esse espanto? — Mestice ri enquanto West começa a empurrá-la para fora. — Podem pensar que o senhor está fazendo alguma coisa errada, jovenzinho.

— Por que está aqui?

— Quero o rei!

— E eu quero o fim da influência da Igreja, mas não temos tudo o que queremos.

— O que faz aqui, jovenzinho? — A bruxa afasta-se de West, andando até a mesa onde ele realizava seus estudos. — Esse lugar tem cheiro de morte.

— Suponho que conheça bem esse cheiro.

— Afinal o que estava fazendo aqui? — Mestice logo trata de mudar o assunto da conversa. Estava realmente entediada naquele castelo. Todos os servos e guardas fugiam dela ou a ignoravam, West não havia feito isso ainda. — Ouvi dizer que é filho do padre.

— Não se preocupe, sou totalmente contra a Igreja e as ideias de meu pai. — West respira fundo, frustrado por ver que Mestice não sairia logo dali e ele teria de lidar com ela. — Estou estudando aqui. O corpo humano é como uma máquina. Se eu desenvolver o combustível perfeito, posso prolongar infinitamente a vida.

— Um corpo reanimado é desprovido de alma.

— Alma é um faz de conta inventado pela Igreja. — O rapaz revira os olhos, dando as costas para Mestice e voltando ao seu livro de estudos. — A morte não pode ser o único destino.

— O que vocês chamam de alma contem todas as informações da vida e um poder bem grande. — Mestice senta-se no chão, olhando para as costas de West. Com um repentino interesse pelo que a bruxa dizia, ele vira-se para ela. — Nós usamos para fazer algumas trocas com demônios, coisa simples. Um corpo sem alma não tem nem mesmo instinto de sobrevivência, eles só respiram por ser natural.

— Bruxa, o rei chegou. — West fala querendo pôr um fim aquela conversa. — Vamos lá, não gostaria de uma conversa com ele?

— Mestice. Meu nome é Mestice. Não me chame mais assim.