Era noite quando o rei chamou a bruxa inesperadamente em seu aposento. Ela ficara realmente surpresa, pois havia ouvido que poucas pessoas eram permitidas de entrar ali, alguns servos apenas. Nem mesmo as prostitutas do rei entravam em seu aposento. Com o que acontecera quando chegara no castelo, Mestice achou que tinha algo a ver com isso.

— Vossa alteza, a que devo a honra de ter-me chamado tão tarde em seus aposentos? — Disse com um sorriso sarcástico, quase gargalhando.

— Já lhe disse que não precisas me tratar de tal forma coloquial. — Seu tom era seco e inquieto.

— Por que estou aqui? É por ter-me salvo novamente?

— Não, esqueça isso. Está tarde, pela manhã conversaremos.

— Talvez meu reizinho queira brincar com a bruxinha dele? — Ela fica bem próxima do rei e começa a se despir.

— Vista-se.

— Tem certeza? Não quer tocar a sua bruxinha? — Mestice guia as mãos do rei para suas coxas e expõe um sorriso.

— Agora não, Mestice. — Dharok se afasta, indo até a janela de seu quarto, que dava vista para boa parte do reino.

— Por que me salvou, meu rei? Da primeira vez, por quê? — A bruxa novamente se aproxima, estava quase nua e não parecia se importar muito. Queria provocar.

— Eu vi em você algo familiar, por isto lhe salvei e durante esses dias lhe conhecendo esta inquietude só aumentou.

Mestice estava perplexa, não sabia exatamente o que fazer e isto era algo raro para ela, uma bruxa maníaca que não seguia qualquer padrão. Algo no rei quebrava tudo, ao invés de fazer alguma coisa, ela fazia nada.

— Ahm, bem. — Mestice olhava rapidamente ao redor do quarto. Afastou-se do rei e vestiu suas roupas rapidamente. — O rei me acompanha? Acho que precisamos dar um passeio para acalmar esses seus pensamentos.

— Vista isso. — O rei joga uma capa com capuz, escura como a noite. A bruxa observou enquanto o rei vestia a sua capa, mas a dele era marrom e rasgada, poderiam dizer que alguém morreu usando aquilo.

— Não achei que seria fácil. — A bruxa sorri para o rei, que permaneceu sério.

Saíram do castelo por uma saída lateral, onde ninguém os veria. Já se passava das duas horas quando passaram pela cidade destruída. Vários dos camponeses dormiam ao relento, em casas parcialmente destruídas ou queimadas pelos invasores.

Após deixarem a cidade para trás, Mestice guiava o rei por um caminho ingrime que parecia não ter fim. Finalmente chegaram a ponta de uma montanha. Havia uma pequena instalação ali, com aspecto de ser muito antiga, porém conservada. Os cavalos pararam imediatamente, se recusavam a andar.

— Eles não vão dar mais um passo. Aqui é solo profano. — Mestice explicou a teimosia dos cavalos. — Aqui é o local onde as antigas bruxas faziam a troca da alma pelo acesso a magia.

— Por que me trouxe aqui? — Dharok pergunta andando ao lado de Mestice até a pequena instalação.

— Porque vai fazer bem. — Ela sorri e passa a mão na instalação de pedra. — Isso foi um gazebo de pedra, entalhado com as marcas de Stryfes.

O rei aproxima-se e passa a mão sobre os desenhos antigos, a maioria indecifrável. Ele reconheceu e estranhou a presença do brasão do reino, o leão.

— Mestice, por que o leão real está aqui?

— Bem, a realeza deste reino nunca foi muito católica. — A bruxa ri. — Percebe a ironia? As bruxas e a majestade criaram o reino e depois fomos traídas, queimadas em praça pública. É um reino amaldiçoado.

— Esse é seu problema com a realeza?

— Isso e seu pai querer me queimar.

— Ah, sim. É algo relevante.

Mestice respira fundo e, segurando o rei pelas mãos, se aproxima da ponta da montanha. Dava para ver o reino todo e algumas fronteiras, tudo pequeno como uma colônia de insetos. Sentaram-se na extremidade, com os pés balançando sobre a incontável altura debaixo deles.

— Esta vendo isso, bruxinha?

— Todo o reino? Sim.

— Não, não. Tudo isso, o mundo.

— Eu não consigo ver todo o mundo.

— Exatamente. — O rei demonstrava uma expressão sádica de um conquistador. — O mundo é tudo isso que eu quero, tudo que não se possa ver e mais além.

— O mundo será seu, meu rei. — Mestice olha para ele. — Toda essa tensão no reino, vai ser resolvida pela sua força e sua ambição. Estaremos lá para não deixá-lo cair e não deixar o poder lhe cegar. Lhe darei o carbono e verei você os transformando em lindos diamantes.

Era o primeiro sorriso alegre que a bruxa via no rosto de Dharok desde que o vira pela primeira vez.

— Vou lhe dever minha alma pela sua ajuda, bruxa?

— Não, não deve nada. Salvou a vida de uma bruxa, serei sua serva até cumprir minha dívida. — Mestice o olha pelo canto dos olhos. — É uma grande responsabilidade, todo mundo sabe disso.

— Ninguém sabe disso.

— Porque nos queimam antes de perguntar alguma coisa.

O rei segura uma risada.

— O que foi isso? Meu rei não é tão inabalável assim?

— Vamos, Mestice. O rei não pode ficar tanto tempo longe do castelo. — Dharok ainda sorria e deu a mão para a bruxa levantar.

Montam novamente nos cavalos que esperavam amarrados em árvores e começam a voltar pelo mesmo caminho ingrime.

— Me diga, rei. Quem causou o ataque?

— Não temos certeza, mas parece que foi o reino vizinho, Amard.

— O brasão da rosa e a coroa, detesto eles.

Alguns dos guardas olharam para Mestice com nojo e pavor ao verem a bruxa andando pelo corredor durante a madrugada. Ela acompanhava o rei de perto, isso preocupava qualquer um que soubesse o que ela era e não tentava esconder.

— Meu rei, a proposta de termos um pouco de diversão ainda está aqui, caso mude de ideia. — Mestice abre um pequeno sorriso ao passar pelo rei e entrar em seus aposentos.

O rei também volta ao seu quarto para passar o final de sua noite. Antes de deitar na cama acaba encontrando uma das peças de roupa de Mestice. Abre um pequeno sorriso, imaginando que Mestice se divertia muito o provocando daquele jeito. Ela parecia saber bem como, sempre conseguia. Não era a primeira vez que ela dizia querer alguma coisa divertida com o rei, mas nada parecia sério. Sempre com o sorriso sarcástico que confundia tudo.

Algo que o intrigou sobre o passei dessa noite foi o que Mestice disse de as bruxas e a realeza terem criado o reino juntos. Queria saber mais sobre aquilo, mas estava cansado demais para pesquisar aquela hora da madrugada. O sol sairia em poucos minutos, ele precisava descansar um pouco. Havia ficado exausto pelo passeio com a bruxa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.