Chaos

1 Capítulo único


Kim Taehyung segurou a respiração, as estátuas de Bernini eram representações tão reais, tão detalhistas, um salão com estátuas que poderiam falar, gritar e chorar, era um eco de emoções

Havia tanta alma e elas pareciam congeladas naquele espaço, naquela imensidão entre os rostos e corpos brancos esculpidos.

Taehyung queria tocá-las.

Tocar no tecido que não era tecido, sentir a seda, os dedos afundando na pele.

Enquanto ele respirava aquele ambiente, alheio às outras pessoas presentes, que olhavam com curiosidade, mas seus olhos desviavam tão rápido de todos os detalhes, ele desviou o olhar para uma pessoa, a única pessoa entre todas que estavam ali que chamou sua atenção.

O rapaz estava parado em frente a uma estátua, que não era tão detalhada quanto às obras de Bernini, mas havia um grande par de asas negras presas em cabos de aço, a estátua estava ajoelhada no chão, as asas abertas, não havia expressão no rosto, mas Taehyung pensou em dor.

Ele também parecia imerso, seus olhos buscavam algo naquela estátua e Taehyung se viu se aproximando, o observando com curiosidade, querendo ver o que ele via.

Seus pés tocaram na pequena plataforma onde a estátua estava posicionada, Taehyung segurou a respiração, quando o rapaz de cabelo rosa claro se aproximou e encostou os lábios contra os de mármore.

As asas negras que flutuavam pareciam sair das costas dele.

Ninguém mais viu ou pareceu se importar.

E então ele se virou e sorriu na direção de Taehyung, um dedo sobre os lábios.

“Sssh”.

E num piscar de olhos, o garoto de cabelo rosa desapareceu, Taehyung olhou em volta, mas havia apenas turistas como ele. Perto da porta de saída a pintura de Pieter Bruegel, “A Queda dos Anjos Rebeldes”.

Taehyung olhou novamente para o par de asas negras, como se isso fizesse sentido, como a cena absurda que acabara de acontecer fizesse algum sentido real.

E de alguma forma fez, ele se viu encarando o próprio reflexo num espelho, havia uma mancha escorrendo abaixo do olho esquerdo. Taehyung tocou na mancha, mesmo sabendo que ela só existia no reflexo, pois ele não conseguia sentir nada ali.

Seu reflexo curvou os lábios num sorriso que não era dele.

Eles se encararam.

Seu reflexo continuou a sorrir e então colocou o dedo contra os lábios, pedindo silêncio.

Era sobre caos. Era sobre liberdade.

Taehyung repetiu o sorriso, porque não importava, o reflexo, o garoto, a estátua ou as asas.

“A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo. A ave voa para Deus. E o deus se chama Abraxas.".

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