Changes of Destiny
26 O inimigo agora é outro
Notas iniciais
Sam chegava com a maior cara de poucos amigos naquele dia na escola. Não conseguia mais achar utilidade em passar o tempo todo dentro de casa, já que seu quarto tinha virado um ambiente de mágoa e sofrimento. Na sexta, viu Freddie ir embora aos prantos pela desconfiança que a loira tivera de sua conduta e ela, por sua vez, passou o resto do fim de semana chorando até seus olhos se cansarem. Não dormia como antes, sonhava com mãos desconhecidas a tocando e sentia-se solitária na maior parte do tempo.
Faltava apenas mais uma semana para que ela pudesse se conectar com a mãe. Felizmente, falou com Melanie no dia anterior pelo telefone e ela chegaria a qualquer momento para estar com Sam e Pam. Ela queria contar tudo a irmã, mas não conseguiu criar a coragem necessária. Abriu a boca tentando esboçar uma frase completa, mas era em vão, nem um ruído sequer saía dali. Não falar com Carly era a pior parte, elas eram praticamente irmãs, ridículo que uma história idiota e banal como aquela tenha a corrompido para conspirar contra Sam. Era assim que a loira pensava. Sentia-se traída, não importava quantas vezes Shay ligasse a noite tentando contatá-la.
Não era burra e já tinha reparado no quanto essa história tinha estremecido a todos. Carly parecia uma louca andando pelos corredores com o cabelo emaranhado, Griffin pendurava uma cara tediosa ao seu lado por tempo demais e Freddie, bom, ele pensava que não transparecia sua dor, mas as sobrancelhas expressivas que possuía o desmentiam. O descontentamento era estampado em seu semblante e não havia nada que poderia amenizá-lo. Na verdade, até tinha, mas Sam teria que perdoá-lo pra isso.
Queria manter em sigilo que fora abusada porque ainda não tinha certeza se Nick era o culpado. Não estava em nenhuma condição de socializar, então ignoraria qualquer um dos dois se tentassem falar com ela, apesar de Freddie estar muito bravo para se aproximar. Realmente o magoou no fundo da alma que Sam tenha pensado aquilo, afinal, ela viveu bons meses ao lado dele para que tivesse esse tipo de pensamento, Freddie pensou que talvez Sam não o conhecesse o suficiente.
A garota encostou-se numa parede do pátio um pouco sonolenta pela quase inexistente noite de sono e avistou o nerd nervosamente falando com alguém pelo celular. Tinha ouvido claramente naquela manhã de sexta que ele precisava de uma testemunha para a audiência de seu pai e que estava pensando nela para isso. Apesar de toda a raiva que sentia de Freddie, ainda se preocupava com isso porque ele realmente não merecia que Leonard permanecesse impune. Ninguém ao seu redor merecia.
Ela observava as veias do moreno saltando do seu pescoço e sua expressão se tornando cada vez mais preocupada. Ele mais tinha pesar em seu olhar do que uma fúria de fato. Sam chegou a pensar que era loucura cogitar que ele seria capaz de agarrá-la a força, na verdade, julgava que Freddie era incapaz de machucar uma mosca. Aquela história toda de plano foi realmente uma merda sem tamanho, mas ela não podia dizer que não havia respeito na relação deles. Havia e muito, Freddie sempre deu o espaço que Sam precisava e a tratava como alguém especial. Uma princesa, se isso não fosse tão idiota de se dizer.
Enquanto ele andava pra lá e pra cá, a loira acompanhava seus movimentos perdida nos seus devaneios. Foi, então, que se afastou rapidamente em reflexo quando sentiu alguém se aproximar.
— Graças a Deus, Puckett! — vibrou Nick — Tenho te ligado há dias e você não me responde! Onde esteve?
— O que você quer comigo e por que seu olho está roxo? — indagou Sam dando alguns passos para trás.
— O que quero com você? Qual é, Sam, somos amigos! Você sabe que as merdas que eu faço não são por mal.
Sam franziu o cenho pensativa. Ele havia esquivado da resposta sobre o olho roxo e agora estava falando sobre "as merdas que fazia", isso era mais se render do que assumir o crime.
— Eu não tenho medo das suas merdas. Você sabe muito bem que eu acabo com essa sua cara aí em segundos, pode até ter quase matado um garoto no passado, mas me conhece o suficiente pra saber que não pode comigo, Nicholas.
Soltou as palavras forçando-se a acreditar piamente nelas. Olhou de relance seus pulsos ainda roxos, mas não deixou que isso a abalasse. Samantha Puckett não é qualquer uma e não deixaria um episódio de merda definir sua força e sua coragem.
Nick se aproximou um pouco dela e segurava uma feição um pouco indignada. Se debruçou perto do ouvido da garota e disse em um quase sussurro:
— Eu estava bêbado. Seu namoradinho pode ter me socado, mas eu não tenho pena de matá-lo se precisar. — ele a segurou pelo queixo com o dedo indicador — Fica quietinha sobre o que aconteceu pelo seu bem, Samantha. Eu tentei ser seu amigo, mas se você prefere um inimigo eu não vou morrer na praia.
Sam o empurrou para longe tentando conter uma força desnecessária que a consumia pela raiva.
— Não tenho medo de você. — ela se aproximou de seu rosto — Tenta mexer com o Freddie pra você ver se eu não te arrebento com a minha meia até você sangrar internamente.
Nick respirava pesado e sua boca espremia em fereza.
— Fica longe de mim, seu imbecil. Tenho nojo só de ter que olhar pra essa sua cara. — riu sem humor — Você é tão insignificante que teve que forçar alguém pra conseguir uma transa. Morre na punheta que passa.
Sam soltou e esbarrou de propósito no ombro direito de Nicholas quando ouviu o sinal bater. Esse seria um dia longo e ela tinha que se preparar.
Sua primeira aula era de informática avançada e por incrível que pareça, ela gostava da matéria. Estava um pouco desatualizada dos trabalhos e dos preparativos para as provas devido a quantidade considerável de faltas, mas não deixaria isso ser um empecilho por muito tempo. Sentou-se em uma das cadeiras de computador e avistou Freddie do lado oposto da mesa com uma cara que transpirava frustração.
Senhor Ackerman escrevia algo na lousa, mas Sam só conseguia imaginar o que estava deixando Freddie tão cabisbaixo. Ela não podia evitar pensar nele e se sentir mal pela forma que o tratou na sexta-feira. Ser acusado de algo tão grave assim era completamente doloroso e ele era totalmente inocente.
— Eu quero que formem duplas porque o trabalho sobre as fórmulas novas do Excel é um pouco complexo. — disse o professor calmamente — Eu vou sortear os nomes pela lista de alunos e quero que sejam rápidos ao se juntarem.
Sam mexia nas unhas um pouco aérea ainda sem tirar Freddie da mente. Ele a observava discretamente de canto de olho e o aperto no coração que o invadia ao olhá-la ainda parecia avassalador. Eram tantos sentimentos misturados e ele desejava apenas voltar ao que era. As tragédias sempre existiram, mas nunca entre eles dois. Agora parecia que um muro ciclópico os separava.
— West e Harris, Oliver e Valentine, Shapiro e Vega e, por fim... Benson e Puckett.
Freddie arregalou os olhos e continuou pendurando seu olhar em Sam, a garota, então, levantou a cabeça para fitá-lo também um pouco espantada. Na hora, o nerd queria protestar e pedir para que fosse trocado de dupla, mas sua coragem faltou. Levantou-se de onde estava com a mochila em uma das mãos e trocou de lugar com Carter Ford que estava no computador ao lado de Sam.
Acomodou-se ali e comprimiu os lábios sem graça como um cumprimento. Repousou sua mochila no chão e percebeu que o olhar de Sam estava diferente. Ela não carregava mais tanta repulsa quanto antes e ele podia jurar que ela o havia lançado um sorriso pequeno como resposta ao seu aceno.
Freddie preparava-se para digitar algo e fixou seu olhar no monitor a sua frente. Era muito mais conveniente que ele focasse apenas no trabalho do que em sua parceria, as coisas já eram complicadas o suficiente entre os dois para terem uma DR no meio da aula.
— Pode deixar que eu faço tudo e coloco seu nome depois. — ele disparou sem olhá-la.
Digitava freneticamente e suas íris mexiam com rapidez. Sam não tinha certeza se era por nervosismo ou concentração, mas não pôde se conter ao repousar uma de suas mãos perto de seus dedos inquietos. Freddie parou e seu olhar automaticamente se direcionou ao dela. Sentiu seu coração pulsar com extrema força dentro do peito quando Sam soltou um suspiro profundo.
— Freddie... me desculpa por aquele dia. Eu estava mal, confusa, muito perturbada. Não queria ter desconfiado de você.
— Posso te fazer uma pergunta?
Sam assentiu apenas usando um gesto afirmativo com a cabeça.
— O que nosso relacionamento significou pra você? — ele respirou um pouco — Sabe, eu queria muito te entender.
— Muito, Freddie, muito. Por que está perguntando isso?
— Porque você é a incógnita mais difícil que já tive que decifrar na vida. Esses códigos, símbolos, chaves... nada. Nada se compara a você, Puckett. Eu te dei uma carta expressando tudo que eu sentia, eu te dei um banho pra tirar seu porre, eu tentei prender seus cachos com um desses prendedores de cabelo difíceis de manusear e você ainda teve coragem de achar que eu abusaria de você.
Sam respirou forte em silêncio enquanto deixava seus olhos marejarem. Ela realmente não sabia o que dizer e nem sabia se tinha algo a dizer. O mar de molho de carne era suplicante e ela podia ver extrema dor ali. Não queria chorar no meio da aula de informática, mas sentia-se mal de verdade. Sentia que nada que fazia era certo, apesar de ter guardado a carta de Freddie em uma caixa especial e decorada. Apesar de lê-la todas as noites como conforto para seu coração. Parecia que o universo não estava empenhado em juntá-los, porque Sam nunca achou que poderia ter palavras o suficiente para descrever o que ele significava pra ela como Freddie o fez. Nunca disse nada por pensar que se expressar nunca foi seu forte e por precisar de um tempo só.
Mas isso não estava claro para Freddie.
— Eu não quero virar o jogo porque sei que tudo que eu fiz foi escroto. — ele continuou — Mas, todas as vezes que lembro das suas palavras uma faca atravessa meu coração, Sam. Eu dormi na merda do tapete porque sabia que você acordaria brava se me visse na sua cama. Eu tirei sua roupa sem te desejar porque acima de tudo te respeito. Acho que você não me conhece o suficiente pra chegar a pensar que eu te machucaria.
— Eu não lembro de nada, Freddie. Meus pulsos estão roxos, não consigo mais dormir e quando durmo eu sonho com essa cena se repetindo centenas de vezes. — ela abaixou o tom quando lembrou-se do ambiente — Eu fiquei confusa quando te vi no meu quarto, foi tudo muito rápido e eu estava com muita dor de cabeça. Eu só quero te pedir desculpas, nerd. Me desculpa.
Freddie olhou para baixo ainda pensativo em tudo que estava acontecendo. Era a primeira vez em muito tempo que Sam olhava de verdade em sua face, esse era um bom avanço, pensou que jamais poderia ter essa sensação boa de novo. As coisas tinham tomado um rumo totalmente inesperado e nocivo, mas ele a ainda a amava com toda alma.
— Espero que você me perdoe. — insistiu Sam — Nós não vamos voltar a ser o que éramos, mas o que eu fiz não foi justo com você.
Claro que carregava decepção em seu peito, mas o seu lado mais racional entendia toda a confusão de Sam. Sofrer um abuso assim não foi nada fácil e esses traumas podem perpetuar por toda sua vida. Ele foi o primeiro homem com quem ela teve contato depois do ocorrido, então era normal que estivesse desconfiada. Freddie já havia lido que um dos sintomas de um pós-trauma de estupro ou abuso era a repulsa temporária pela figura masculina. Ele resolveu escolher a empatia e se tranquilizar por dentro.
Parcialmente. Porque ouvir que eles não voltariam a ser como antes doeu mais que qualquer coisa que Sam pudesse dizer a ele. Freddie achava que não podia suportar essa vida sem a loira.
Concentrou-se no trabalho sem mais dizer uma palavra para que aquele tempo passasse rápido. Ele se surpreendeu quando Sam o tirou do comando em alguns momentos para acrescentar no trabalho, ela tinha mais muitos talentos que Freddie desconhecia.
Quando sua grade terminou, o nerd foi para casa resolver a situação que tinha tomado conhecimento mais cedo. Seu pai já havia sido notificado há mais de uma semana, mesmo que ele não tivesse a testemunha ainda. Foi tudo muito rápido e estranho, então Freddie estava desconfiado.
Ele sabia que essa falta de testemunha o enfraqueceria no tribunal, mas agora tudo já estava feito. A audiência seria hoje a noite e ele temeu estar despreparado. O advogado que era seu parceiro desde o Canadá era incrível, por isso, pelo menos uma das coisas essenciais estava garantida. Já tinha entrado em contato com o delegado pelo celular, porém ele estava irredutível sobre o julgamento e não aceitou adiar. Parecia que essas pessoas estavam manipulando tudo em volta para resultar numa grande queda. Freddie morria de medo que estivessem facilitando as coisas para Leonard indiretamente.
Sam sentia que algo estava diferente desde que viu a cena do nerd falando pelo telefone nervosamente na escola. Tinha seus palpites de que era sobre seu pai por conta da manhã de sexta e o telefonema que escutou entre Freddie e Griffin. Estava pensativa sobre toda essa história e se preocupava com as decisões dele e seu psicológico. Aquele dia da bebedeira tinha sido traumático.
Abriu a porta de casa e tirou rapidamente seus tênis usando apenas o próprio pé. A exaustão repousava em seu corpo porque já tinha desacostumado a acordar tão cedo e a comparecer a essa rotina. Jogou-se no sofá tirando um grande peso de suas costas e grunhiu ao perceber que sua paz duraria pouco pelo barulho da campainha.
Agora que sua mãe estava fora, parecia que sua casa tinha ficado mais acessível de certa forma.
— Carly? — a loira mantinha uma expressão um pouco impaciente em seu rosto.
— Você pode me expulsar, me bater, mas a gente vai ter que conversar alguma hora. — a morena já tinha sua voz trêmula contendo o choro — Posso entrar?
Sam abriu a porta um pouco contrariada e fez um movimento com a mão permissivo para que Carly entrasse.
— Alguma vez eu já te bati?
— Sam...
— Não, Carly. Fala o que você tem pra falar logo. Eu nunca encostei a mão em você, nem sequer te magoei de propósito algum dia, então para de fingir que tem medo de mim e que não me conhece.
Carly sentou no sofá tentando não desabar em um choro copioso. Tinha vontade de controlar suas emoções, mas estava complicado. Seu namoro estava comprometido, temia ter perdido uma quase irmã e nada parecia estar dando certo. Com certeza, seu emocional já estava mais que esgotado e ela não sabia como lidar, não era forte como Sam, não tinha cabeça feita como Griffin. Era frágil demais na maior parte do tempo.
— Me desculpa. Sam, me desculpa. Eu pirei quando você disse que estava muito interessada no Griffin, juro que topei tudo isso porque não queria estragar seu primeiro lance de verdade com um garoto depois do Jonah. — suspirava pesadamente sentindo uma lágrima cair — Achei que ia rir quando descobrisse porque se apaixonou de verdade pelo Freddie, nesse ponto, era como se o destino tivesse juntado vocês dois.
— Destino? Shay, acorda desse conto de princesa da Disney. Os dois imbecis se juntam pra me usar como se eu fosse qualquer idiota e você apoiou. Você apoiou, Carly, saiba que nada vai poder mudar isso.
— Eu sei! Fiquei que nem uma frouxa sem coragem de te falar que estava gostando do Griffin e não queria estragar suas expectativas com essas coisas de relacionamento. — ela abaixou a cabeça receosa — Você sabe que... direto as pessoas dizem que eu roubo o namorado delas.
— Você é inacreditável. — Sam disparou — Consegue transformar toda a situação sobre você, você e você. Chega. Sabe por que nada faz sentido nessa merda? Porque eu nem cheguei a ter algo com o Griffin. Guarda essa ladainha aí, Shay.
— Cara, eu estou tão arrependida. Acredita em mim. Eu fui sem pensar, tentando fazer a coisa certa, nunca quis te magoar, Sam. — ela levantou e tentou abraçá-la — Eu te amo. Você é minha melhor amiga, minha irmã, você acha que eu faria qualquer coisa desejando seu mal?
— Não.
Sam mordeu a parte interna da bochecha tentando refletir sobre tudo isso. Conhecia Carly como a palma de sua mão e mesmo assim ela havia a decepcionado como nunca antes. Isso era muito difícil para que a loira pensasse de maneira racional e calma, ainda sentia-se muito fragilizada e machucada. Parecia que toda sua relação com seus amigos e com o único homem que amou tinha sido uma grande mentira, ainda era impossível de esquecer.
Aceitou o abraço de Shay e chorou de maneira aliviada encostada em seu ombro. Uma tonelada de peso havia deixado seu corpo, porque ainda não tinha tido tempo para focar no sofrimento que toda essa história tinha causado a sua amizade anos e anos. Sentia-se mais sozinha do que nunca e o choro também declarava isso.
— Eu preciso pensar. — disse ela se desvencilhando do abraço — Espero que as coisas melhorem, Carly, mas agora minha vida não está das melhores.
— Eu entendo. Conversa comigo quando estiver pronta, Sam, por favor. — andava em direção a porta — Eu não quero perder sua amizade e amo você demais, prometo.
Sam fechou a porta e deixou suas lágrimas rolarem ininterruptamente pelo rosto por longos minutos. Afundou seu rosto no braço do sofá e esperou que o tempo passasse e aliviasse sua dor.
—
(...)
Freddie fazia um nó de gravata apertado em seu pescoço e se perguntava se estava se arrumando demais para ir a um tribunal. Por um lado, talvez realmente precisasse estar na beca para assistir seu próprio pai ir preso, bom, se ele realmente fosse. O terno era bem luxuoso e os sapatos italianos perfeitamente engraxados davam um ar ainda maior de homem bem sucedido. Apesar de ser um adolescente, ele não deixava de ser.
Comprou apenas essa roupa de gala importada para não precisar mais gastar dinheiro com essas bobagens. Ia a muitas festas da nobreza no Canadá e com certeza esse terno era seu companheiro de muitas lutas. Era a hora de enfrentar mais uma.
Chegando na audiência avistou Leonard consolando Marissa em seus braços. A sala anterior ao tribunal propriamente dito era fria e as paredes revestidas de madeira clara eram a maior característica de advocacia que Freddie já havia visto. Tentava desviar seu olhar daquela cena deplorável, pois sentia de vomitar apenas em imaginar aquele casalzinho nojento trocando carícias.
Não acreditava em nenhuma palavra sequer de seu pai e ainda o julgava como o maior dos manipuladores.
Griffin e Carly chegaram juntos de mãos dadas e o clima já parecia mais ameno entre os dois. O bad-boy se recusou a usar um terno completo e se contentou a colocar uma camisa social escura e uma calça jeans menos surrada. A morena era vista arrumada e de salto pela primeira vez em algum tempo, até maquiagem mais pesada usava nos olhos e nos lábios. Freddie tranquilizou-se um pouco assim que avistou os dois, pelo menos tinha seus amigos por perto para sentir um apoio, já que não tinha mais Sam.
Quando a audiência começou, Leonard manteve uma postura totalmente diferente do que o nerd estava acostumado a ver. Sua coluna estava curva, seu olhar fraco e pendurava uma feição derrotada. Tudo era muito novo para Freddie, mas ele queria acreditar que pelo menos seu pai tinha começado a sentir os efeitos de suas próprias ações. Foi curioso perceber, que sua advogada, não apresentava o mesmo comportamento. Missy Robinson, uma profissional renomada na área, empinava seu nariz e balançava seus cabelos ruivos em vitória. Parecia confiante até demais no que estava prestes a fazer.
As objeções se iniciaram e Lenny Hudson, advogado de Freddie, parecia estar bem em seus argumentos contra as indagações de Missy. O histórico de Leonard com certeza atuou a favor de sua culpabilidade, porque essa hora ele nem estava mais se esforçando para usar-se do dinheiro que detinha. Freddie percebia que vez ou outra, ele o olhava com tristeza profunda e carregava quase um marejar em seus olhos quando fitava Marissa.
— O meu cliente, senhor Meritíssimo, está ao lado de Marissa Benson e segundo a própria eles estão quase reatando o casamento. — externava Missy — Por que ela estaria interessada em estar com um homem que comete violência contra a mesma?
— Objeção, Meritíssimo. — protestou Lenny.
— Objeção negada. — decretou o juiz — Prossiga, senhorita Robinson.
— Obrigada. — disse a ruiva — Há um complô contra o meu cliente, senhor juiz e isso é claro. A própria suposta vítima não o denunciou, então podemos concluir que é obviamente uma perseguição por parte de seu filho Fredward Benson.
— Isso segundo quem, coisinha?
Freddie direcionou, na velocidade da luz, seu olhar para a porta. Mal podia acreditar no que via. Samantha Puckett estava invadindo uma audiência jurídica para defender sua honra, céus, o quão encrencada ela podia ficar por fazer isso? Ela adentrava o local como se fosse dona de tudo e Freddie por um momento desejou ter um por cento de toda essa confiança. Podia seu coração gritar de felicidade, mas tinha que se conter. Se pudesse, estaria a segurando em um abraço forte e demorado.
— Ordem, por favor. — o juiz disse incisivamente — Essa é uma audiência privada, mocinha, o que pensa que está fazendo?
— Defendendo a justiça, coisa que deveria estar sendo feita há muito tempo.
— Senhor Meritíssimo, — Lenny interviu — o meu cliente está mesmo com uma lacuna de testemunhas. Isso o deixa em desvantagem.
— Não é problema meu, senhor Hudson. O seu cliente deveria ter providenciado isso com antecedência.
— Eu sei, mas com todo o respeito senhor juiz, — Freddie se pôs a falar — o acusado tem muitas testemunhas ao seu lado, como cidadão é meu direito ter pelo menos uma. Samantha Puckett presenciou muitas das atrocidades de Leonard, inclusive a que está em questão nesse julgamento.
— É um ponto, senhor Benson. Eu exijo ordem no meu tribunal e a senhorita pode permanecer se conseguir se posicionar civilizadamente.
Sam sentou-se devagar na cadeira perto da mesa do juiz e contou toda sua experiência acompanhando a trajetória do réu. O crime de violência doméstica, de certa forma, foi presenciado por ela, então tinha alguma propriedade de falar. Viu senhora Benson soluçar em um choro desesperado quando isso foi lembrado publicamente. Ela se pronunciou de maneira clara e seus argumentos foram válidos e ajudaram na defesa de Freddie de uma maneira eficaz.
Missy trouxe à tona a invasão à propriedade privada cometida por Freddie, mas não surtiu muitos efeitos por falta de provas concretas. Por incrível que parecesse, o Benson-pai não estava se esforçando nem um pouco para sair impune, não tinha separado nenhuma carta na manga e também não orientou sua advogada com a devida dose de veneno que gostava de jogar nas pessoas. Nem as provas do ocorrido com Fredward tinha e isso facilitaria muito a prevenção de sua permanência na cadeia.
Levantou-se da cadeira com um olhar derrotado e declarou algo que surpreendeu a todos.
— Eu admito ser culpado pelo crime, senhor Meritíssimo. Agredi a mulher que eu amo, porque existia um rancor muito grande em mim antes de reencontrá-la.
Era quase inacreditável, mas Freddie podia jurar que havia um embargo em sua voz.
— Espero que um dia você possa me perdoar, filho. Por tudo.
Freddie se encontrava em estado de confusão mental. Não sabia o que sentia e sua expressão era neutra ao assistir tudo aquilo. Seus instintos não lhe permitiam confiar em Leonard, então ele não conseguia sentir dó ou compaixão. Apenas, experimentava um buraco enorme se formar em seu peito. O silêncio se instalou na sala e só o que pôde ser ouvido era o choro de Marissa.
— Você está condenado a três anos de reclusão por infringir o artigo 226, cometendo o crime de violência doméstica contra Marissa Benson.
Todos acompanhavam com atenção os movimentos dele sendo algemado. Para Freddie, tudo parecia em câmera lenta e até poderia parar. Leonard andava com dificuldade quase arrastado, suas mãos tremiam um pouco e era claro perceber que haviam lágrimas caindo em seu rosto. Os policiais o seguravam e todos os demais presentes iam logo atrás.
— Me espere, meu bem. — disse em tom choroso encarando Marissa — Eu voltarei e vamos reconstruir nossa família, como estivemos sonhando. Diga a Elle que quero o divórcio.
Senhora Benson estava prestes a desabar a qualquer momento e era a mais próxima do corpo de Leonard enquanto ele declarava essas palavras.
— Desculpa pelo pai horrível que fui para você, Fredward. Espero que um dia me perdoe, eu te amo, filho.
Freddie continuava completamente atordoado e só conseguiu movimentar a mão em um aceno leve para se despedir dele. Não sabia se teria coragem e estômago para visitá-lo, afinal essa era a primeira vez que o enxergava como um ser humano de verdade e não um ser desprezível.
Marissa caminhou para a saída sozinha ainda aos prantos. Ela parecia sentir raiva de seu próprio filho pelos acontecimentos, mas Freddie pensava que o tempo curaria isso.
Griffin agarrou o amigo em um abraço apertado e longo. Sam era a mais afastada deles e observava tudo com bastante atenção. Era difícil estar ali, por mais que Leonard tenha feito coisas horríveis, ainda era o pai de Freddie. Carly também o abraçou e ofereceu seu conforto a ele dando leves tapinhas em suas costas. O clima não era tão comemorativo assim, mas tudo se encaminharia para o bem.
Freddie virou-se para olhar Sam. Ela estava com os braços cruzados e sua feição era incerta e preocupada. Ele pôde compreender na mesma hora que ela estava em dúvida do que faria diante da situação. Não teve coragem de entrelaçar e confortar o nerd e nem pensou em fazê-lo. O garoto a olhava carregando profundidade e gratidão imensa no semblante. Ele se demorou um pouco ao se aproximar, mas Sam pulou um pouco assustada pela força com que Freddie a abraçou.
Sam devolveu depois de alguns longos segundos e Freddie sentiu seu peito encher de esperança. Estava no melhor lugar do mundo, em seu lugar favorito. O cheiro de Samantha ainda o inebriava, seus cabelos ainda eram perfeitos para acariciar e ele podia sentir a maior segurança do mundo envolvido pelos seus braços.
— Obrigado, Sam. Nunca vou conseguir te agradecer o suficiente. — ele sussurrava emaranhado pelos cachos dela com os olhos fechados e as sobrancelhas arriadas.
— Eu disse que estava com você e uma Puckett não descumpre sua palavra. — suspirou se distanciando do abraço — As coisas entre a gente estão como estão e nada pode mudar isso, Freddie, mas eu não desonraria minha promessa.
Sam afastou-se ainda mais e limpou as mãos na calça jeans direcionando-se a saída.
— Vem com a gente ao Groovie Smoothie. — convidou Carly — Queremos comemorar a vitória do Freddie e não podemos fazer isso sem você.
— Eu não sei, acho que prefiro ir pra casa.
— Por favor, Sam. É só uma vitamina, eu juro. — dessa vez quem pediu foi Griffin — Te levamos em casa depois.
Sam assentiu com a cabeça ainda um pouco hesitante. Caminhou cabisbaixa até a saída ao lado dos outros três e balbuciou um "valeu" quando Freddie abrira a porta para ela.
Sam e Freddie buscavam pelo carro do nerd que estava estacionado do outro lado da rua, enquanto Carly e Griffin foram atrás da Softail. O silêncio era um pouco constrangedor, mas não durou muito tempo.
Um menino de rosto conhecido surgiu do canto existente entre uma loja e um banco que existia na rua. Fora rápido como um cometa.
Sem tempo de raciocinar, Freddie foi surpreendido com um soco bem no meio de sua face e cambaleou para trás sentindo muito sangue escorrer de seu nariz. Sam arregalou os olhos desesperada e pôde reconhecer Nick assim que avistou seu cabelo loiro e arrepiado. Quando se deu conta, o garoto já estava em cima de Freddie distribuindo golpes violentos em várias partes do corpo dele sem parar.
A loira o segurou com força e torceu seu braço para que parasse imediatamente. Ela já sentia seus olhos encherem d'água, mas não queria chorar. Evitou olhar para Freddie desacordado no chão para não enfraquecer diante de Nicholas.
— Vai embora agora antes que eu chame a polícia. — ela dizia o soltando.
— Chama, Sam. Chama a polícia.
Nick dizia completamente desequilibrado puxando uma pistola média do cós da sua calça. Apontou diretamente para Sam enquanto sua respiração ofegava de maneira frenética.
— Abaixa isso, Nicholas, pelo amor de Deus! — a garota dizia completamente apavorada comprimindo os olhos que já deixavam escapar as lágrimas gordas.
— Eu falei que ia matar seu namoradinho e eu vou. — ele se aproximou bastante dela — Era pra você ser minha, Puckett. Nós combinamos, temos tudo a ver... por que escolheu namorar um mauricinho?
— Eu não escolhi nada, por favor, Nick, larga isso!
— Agora eu sou Nick? — gritou ele grudando o calibre no pescoço dela — Hoje mesmo você me disse que estava com nojo de mim... por favor, Sammy, não seja ridícula. Ou você está do meu lado, ou não está. Me deixa matar esse moleque de merda pra gente viver o que é nosso por direito.
— Cara, ele já está desacordado, com certeza você o causou uma hemorragia! Não está suficiente?
— NÃO! — ele berrava e Sam se perguntou porque a rua estava tão deserta logo agora — Não, Sammy. Eu não vou desistir de matá-lo até que a gente fique junto.
Ele passou as mãos no rosto em desespero e bateu na própria bochecha — ainda segurando a arma — repetidas vezes de forma desequilibrada. Gritava o nome de Sam inteiro como se fosse um mantra enquanto seu rosto esquentava e atingia um tom de vermelhidão assustador.
— Calma, Nicholas, CALMA! — ela berrava em desespero temendo o que ele pudesse fazer.
Ajoelhou perto do corpo de Freddie e Nick acompanhou.
— Não vale a pena viver se não te tenho, Samantha. Quando transamos na sexta feira eu pude sentir nossa conexão.
Sam achou completamente estranho essa afirmação. Ela tinha certeza que não tinha transado com ele coisa nenhuma e que, na verdade, o que aconteceu mesmo foi um abuso. Ela teve a plena certeza de que Nicholas estava alucinando e ainda possuía diagnóstico de depressão psicótica. Não sabia como agir, mas precisava tentar salvar a vida de Freddie a qualquer custo.
— Eu estou aqui com você, tudo bem? Não chora.
Nick repousou sua cabeça no ombro da loira chorando como nunca. Os gemidos que soltava era de puro sofrimento e Sam achou que aquilo tudo estava muito pesado para ser verdade. Tinha vontade de pegar Freddie nos braços e fugir o mais rápido possível, mas era muito arriscado.
— Eu não posso mais, Sammy.
A garota tentou encará-lo, mas fechou os olhos em urgência quando ouviu o disparo da pistola.
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