Changes of Destiny
16 Negociando com o inimigo
Notas iniciais
Sam e Carly conversavam sobre a terapia de Pam enquanto a morena retirava suas asas de anjo. Ela realmente estava indisposta para ir para casa e torcia para que Freddie a deixasse dormir no cômodo. Afinal, aquele quarto de hóspedes era realmente espaçoso e aconchegante. A cama que havia ali não era de solteiro e sim de viúva, um pouco menor que uma de casal. Tranquilamente, dormiriam ela e Sam naquele espaço sem grandes complicações.
Na sala de estar, Griffin congelara em uma expressão séria assim que ouvira Freddie falar de seu pai. Era a primeira vez que via Leonard em sua frente. Claro que, o nerd já havia comentado sobre ele anteriormente, mas sempre dizia fatos aleatórios ou comentava como fazia questão de odiá-lo. O bad-boy, então, resolvera subir ao quarto de Freddie alegando que iria dormir, mas não era verdade.
Leonard já estava dentro da casa dos Benson e observava tudo em volta. Nunca era possível sequer palpitar o que suas expressões significavam. Ele havia se tornado um homem frio após ganhar muito dinheiro em um esquema de corrupção que sua empresa de software se infiltrara. Abandonou Marissa quando percebeu que poderia estar gastando sua fortuna com iates e mocinhas novas. Freddie tinha apenas dez anos, mas isso o destruíra para sempre.
Por isso, tornou-se uma pessoa com dificuldades sociais. Sua mãe o prendia em uma bolha impenetrável e suas possibilidades eram um pouco escassas. Tudo que fazia era focar nos estudos e em seus projetos tecnológicos. Senhora Benson também tentou proibir isso por um tempo, mas viu que o amor que Freddie nutria por ciência era mais forte que ele mesmo. Talvez, fosse até algo genético.
— Minha mãe nunca deveria ter te dado nosso endereço. — disse ele com fúria no olhar.
Leonard Benson não era mais um menino para discutir essas bobagens, inclusive, ele também achava que Freddie já estava longe de ser uma criança. Seus cabelos grisalhos denunciavam sua idade, mas nada em seu olhar podia demonstrar com certeza que ele era um homem completamente sem sentimentos. Seus traços eram duros e seu corpo um pouco esguio o deixava com aspecto de vilão de novela, o que causava arrepios em Freddie.
— Fredward, não seja tão duro com seu pai. — começou se virando para sentar-se no sofá — Sua mãe me deu o endereço porque sabe que tenho meus direitos. Você tem meu dna, agora é ainda mais difícil negar. Meu filho é um adolescente bem sucedido, eu nunca esperei menos do sangue que corre em suas veias.
— Eu sabia que era por isso que você estava voltando. Quer levar meu dinheiro, quer levar tudo que eu conquistei sozinho! — seu tom já não era mais tão baixo — Não tenho culpa de você ser um falido. Devia ter ido para a cadeia!
O Benson-pai ria em sarcasmo enquanto esfregava seus dedos no dedão. Freddie lembrara-se do conselho de Sam e não desistiria de enfrentá-lo, por mais que estivesse morrendo de medo.
— Meu filho querido, eu não sou mais falido há muito tempo. Me reergui depois do escândalo de corrupção e me juntei com as pessoas certas. — ele suspirou pesadamente com frieza — Eu acompanhei de longe toda sua trajetória no Canadá. Antes disso, eu recebia atualizações suas porque você usou vários de meus programas para criar seu aplicativo.
Freddie arregalou os olhos incrédulo. Sobre o que ele estava falando?
— Errado! A maioria dos programas que eu usei é de uma empresa chamada DownElle. A dona é uma mulher!
— Elle Christine. É a minha esposa. Eu a divulguei como dona por estar cansado do estrelato. Depois de toda aquela cena do FBI, eu quis sair dos holofotes. — Freddie respirava pesado por tamanha raiva, mas seu pai pareceu dar de ombros — Enfim, Fredward, vim lhe avisar que estarei pegando parte dos seus lucros pelo CamMath daqui em diante.
— O quê? Você não pode! Vou falar com o gerente do meu banco e te impossibilitar de fazer isso!
Era tarde demais. A esse ponto, Leonard podia exigir o que quisesse. Era um homem muito poderoso, além de ter fontes muito confiáveis sobre todos os fatos. Poderia se dizer que ele é quase onipresente e isso não seria considerado um exagero.
Ele puxou algumas coisas de seu bolso e as olhava com atenção. Um maço de Malboro era o que parecia ser mais valioso para ele, mas não era. Guardou tudo que não iria usar naquele momento e segurou um pendrive vermelho dando um certo destaque a ele. Seus dedos gordos e calejados pareciam trazer um ar mais dramático aquela cena, sem falar de seu anel de caveira enorme encaixado no dedo indicador.
— Ah, é mesmo? — ele sorriu diabolicamente — Sei que faz tempo que não nos vemos, filhinho, mas aqui há um fato sobre mim: não adianta tentar me impedir de fazer coisa alguma. Eu consigo tudo o que eu quero. Não fui para a cadeia quando dirigia aquela empresa, acha mesmo que você vai conseguir me privar de pegar minha parte do dinheiro?
Sua serenidade era assustadora ao falar. Podia estar declarando uma guerra, prometendo desgraça e ainda sim seu tom continuaria aveludado.
— Faremos assim, — continuou ele — ou você me deixa fazer parte desse lucro ou seu amigo Griffin já era.
Freddie assustou-se e seu coração acelerara como nunca. Sua feição mudou totalmente, agora ele sentia verdadeiro pavor.
— O que tem o Griffin? Tira ele dessa história! Eu sou o culpado por ser seu filho! Eu que tenho que arcar com as consequências dessa merda!
— Linguajar magnífico. Aprendeu com o criminoso? — ele rira mais uma vez sem humor — Vocês crianças são tão ingênuas... seu amiguinho achou que roubar uma Harley Davidson exclusiva não traria graves consequências. Mas, que tolo!
— Roubar? Não! O Griffin ganhou essa moto depois de ter inventado as telas! Para de caluniar meus amigos!
Leonard levou a mão a testa sem paciência enquanto levantava-se do sofá ficando cara a cara com Freddie.
— Não seja burro, Fredward! Do que adianta ser um milionário sem sagacidade? Sua mente me enoja. — revirou os olhos e prosseguiu — Aqui nesse pendrive tem as imagens das câmeras de segurança. O Prêmio de Tecnologia subornou os diretores da Harley para safar seu amigo, mas eu comprei os vídeos.
— Por que você precisa ser um arrombado? Volta pro inferno que é da onde você veio! — os olhos de Freddie já marejavam e ele podia sentir impotência e frustração se formando em seu peito — Me deixa viver minha vida! Deixa meus amigos em paz! Vai embora!
— Fredward, você é fraco. Não consegue sequer dialogar civilizadamente. Eu sou um homem amigável quando quero, mas você não está me dando escolha, continua um teimosinho irredutível. — ele usou uma expressão de nojo de propósito — Aprenda a se envolver com pessoas melhores para se livrar de situações como essa. Além de ser amigo de um ladrão, está transando com uma delinquente.
Freddie sentiu seu peito inchar de indignação. Respirou fundo e seu olhar já não era de lamento e sim de puro ódio. Ele sentia seu coração queimar por dentro e estava pronto para acertar um soco no meio do nariz do velho. Mas, não adiantaria nada. Poucas coisas eram capazes de parar Leonard Benson.
— A Sam não é uma delinquente! — gritara alto o suficiente para extravasar uma raiva colossal — Lava a boca antes de falar dela, você nem merece pronunciar esse nome! Ela é muito boa para ser mencionada por alguém como você.
— Sam? — disse com repulsa — Acho Samantha mais doce e bonito de se pronunciar. O nome é meigo, mas essa garotinha é uma pobretona nojenta. Quer ver a ficha criminal que ela carrega? Está tudo armazenado nesse pendrive. Marissa vai adorar saber que você gosta de uma qualquer que tem a mãe mais bêbada que o John Boham na década de setenta.
Freddie o puxou pela gola da camisa social que ele usava. Sua fúria era incontrolável e seus nervos saltavam em desespero por todo seu corpo. O nerd podia sentir as veias salientes em seu pescoço, seus lábios comprimidos reprimiam uma força irreal. Ele queria chorar, mas não conseguia. Ele queria ameaçá-lo, mas não tinha essas cartas na manga.
— O que eu preciso fazer para deixar as pessoas que eu amo em paz? — perguntou o penetrando com um olhar raivoso que jamais lançara a alguém antes.
Leonard empurrou a mão do filho rompendo aquele contato. Se ajeitou tranquilamente e guardou o pendrive de volta em seu bolso.
— Viu como as coisas fluem quando você conversa como gente? — deu um sorriso irônico — É simples. Primeiro, eu quero viver na casa ao lado deste prédio. Consiga o contato da corretora para mim. Segundo, me deixe a par de suas finanças e gastos. Eu quero saber o que você compra e o que você faz com seu dinheiro, além de agora me entregar parte dos lucros do aplicativo. — Leonard voltou a brincar com suas mãos — Quero sua mãe segura. Não a deixe saber nada sobre essa conversa. Eu conviverei com vocês todos os dias, por isso, não quero ouvir lenga-lenga.
Freddie suspirou pesadamente e pensou em sumir de uma vez por todas. Era seu pior pesadelo ali em sua frente com aquela calça social perfeita e bem passada.
— Você vai ter tudo isso se me prometer não fazer mal a minha mãe e meus amigos. Por favor, pai.
Seu tom não era tão firme quanto gostaria. Desejou ter a coragem de Sam ali naquele momento, mas tudo o que conseguiu foi ceder as ameaças daquele cara de caráter podre. Sentiu-se fraco, assim como seu pai havia dito. Sentiu-se inútil e impotente. Queria proteger a todos, mas não sabia até onde Leonard era capaz de ir por ganância.
— Estou dando a minha palavra, garoto. Se fizer tudo como acordamos, nada irá acontecer. — ele olhou o relógio de pulso — Preciso ir procurar um hotel para passar essa noite. Não esqueça do seu dever, Fredward. Passar bem.
Freddie o viu fechar a porta e ficou paralisado no mesmo lugar por alguns segundos. Não entendia bem o que sentia, mas tinha certeza que esperava que aquele encontro fosse menos pior. Como ele tinha aquelas informações? Como sabia da sua relação com Sam? Como tinha coragem de ameaçar colocar Griffin na cadeia?
Conviveu pouco com seu pai, mas agora sabia mais do que nunca que ele não valia um centavo de esforço. Não conseguia sentir amor ou empatia por aquele homem. Sentia nojo profundo do que ele era e desejava parar de carregar aquele sobrenome imundo.
Sentou-se no sofá ainda sem uma expressão significativa. Parecia atônito e perdido em um vazio de pensamentos. Sua mente não processava nada, seus ouvidos pararam de funcionar e seu corpo gritava apenas por batimentos cardíacos. Não percebeu sequer quando Sam descera a escada com uma feição desapontada. Ela sentira uma calmaria quando as vozes pararam de se misturar. Além disso, notou que a porta havia sido batida com força até quando ainda estava lá em cima.
Não havia conseguido identificar nenhuma palavra do diálogo entre os dois, mas sabia que Freddie estava péssimo apenas pela postura que carregava.
A loira sentou-se do lado dele e passou uma de suas mãos pelo ombro do garoto. Freddie estava em outra realidade e não parecia sentir o toque.
— Freddie, o Griffin disse que seu pai veio aqui. Como você está se sentindo?
O moreno piscou em pesar e se virou lentamente para observar Samantha. Por baixo de sua franja, as sobrancelhas dela mexiam em lamentação. Freddie pôde perceber que ela se preocupava e quis agarrá-la até perder-se no meio de seus braços. Não importava como a polícia a via, não importava como Leonard a via, o nerd nunca iria parar de vê-la como sua Sammy. A mais linda, corajosa e cuidadosa de todas. A única mulher pela qual Freddie se apaixonara genuinamente.
Os olhos dele se comprimiram pelas sobrancelhas e uma quantidade enorme de lágrimas caíram dali numa velocidade recorde. Sam o acolheu em seus braços e acariciou seus cabelos. Ele chorava copiosamente escondido no pescoço da garota e ela podia sentir seu coração derreter de tristeza. Não podia suportar ver o sofrimento de Freddie. Queria estar no lugar dele apenas para que seu nerd não sentisse nada daquilo.
— Estou aqui com você, meu amor. — Sam disse em um disparo irracional — Se eu pudesse, resolveria tudo isso. Mas, também sei que você é corajoso o suficiente para enfrentar suas batalhas.
Freddie limpava as lágrimas brutalmente levantando-se para encará-la. A melancolia em seu olhar destruía cada parte de Sam lentamente. Porém, ele não conseguia parar de fitar aqueles olhos azuis e suas íris mexiam com rapidez tentando memorizar os detalhes que haviam nela. Mais uma vez, teve certeza que a companhia dela podia curar tudo. Se acalmou um pouco e o que restara em seu rosto fora uma vermelhidão aparente nos olhos, nariz e boca.
— Eu não sou como você, Sammy. Não sou corajoso, mal pude falar o que queria pro meu pai. Não sou como você, eu não sou.
Ele dizia com um nó agonizante em sua garganta e repetia essa frase baixinho como se isso a fizesse acreditar no que ele estava dizendo. Sam repousou uma de suas mãos no rosto dele e limpou algumas lágrimas que escorregavam ali. Acariciou sua sobrancelha direita com a ponta do dedo e suspirou pesadamente.
— Eu sei que não é como eu e não é para você ser. — seus olhos estavam compenetrados no mar de chocolate em sua frente — Freddie, você é o homem mais incrível que eu já conheci. Sua coragem não está em força física. Você é inteligente, é generoso e tem as melhores intenções com as pessoas mesmo que elas não prestem. — ela fez uma careta, mas logo voltou a ficar séria — Tenho muito orgulho de ter me apaixonado loucamente por você, porque você é tudo que eu não sou. Nerd... Você tem tudo que falta em mim.
Os dois ficaram em silêncio por um tempo se observando ininterruptamente. A mão de Sam ainda não havia parado de acariciá-lo e ela passava delicadamente por toda extensão de seu rosto.
Freddie fechou os olhos se concentrando em cada toque que sentia. Mexia sua cabeça vagarosamente aproveitando aquele contato. Desejou que durasse para sempre. Desejou ter Sam para sempre. Seu corpo se arrepiou e ele pôde sentir seu peito encher-se de paixão. Fez carinho no braço da loira e deu leves beijos na mão que o acariciava.
— E tudo que você tem falta em mim. — ele disparou — Eu sou completamente louco por você, Sam. Acho que não consigo mais ficar longe. — se aproximou dela passando um dedo pelo seu rosto — Longe do seus olhos, do seu toque, da sua voz. De você. Eu não consigo mais.
— Freddie, fica comigo. — ela fez menção em beijá-lo — Fica comigo pra valer. Eu não quero perder você. — disse numa proximidade intensa o olhando nos olhos com as respirações já se misturando.
Griffin descia as escadas distraído. Ele havia entrado no quarto de hóspedes para avisar as meninas sobre o ocorrido. Desceu assim que Carly pegou no sono para continuar arrumando as coisas. Sam já havia dito que ia conversar com Freddie, então ele pensou em consultar o estado do amigo mais tarde.
— Oi. O que está rolando? — Griffin disse tentando conter uma risada ao ver os dois em um clima romântico.
— Griffin, eu... — Sam começou mas foi rapidamente interrompida por Freddie.
— Eu e a Sam estamos saindo, Griff. — ele a olhou com um pouco de receio, mas parecia que Sam não iria protestar — Eu ia te contar, mas virou um lance meio sigiloso.
O bad-boy teve que se esforçar ainda mais para conter uma gargalhada alta. Ele já sabia de tudo isso, afinal. Também tinha plena consciência de que Freddie estava apaixonado por aquela garota. Essas mentiras estavam ficando cada vez mais absurdas, ele queria gritar "eu já sei, Freddie, não finge tanto assim!", mas não podia. Então contentou-se em fingir surpresa quando o nerd revelou.
— Inclusive, eu preciso de você. — Freddie suspirou antes de compartilhar seu plano — Eu vou contar tudo que meu pai disse e depois eu preciso que você prometa me ajudar.
Griffin balançou a cabeça positivamente esboçando curiosidade em seu rosto.
— Quero ficar fora daqui uns dias e vou levar a Sam junto. Vai ser um fim de semana, mas é muito importante pra mim. Eu preciso que você faça coisas um pouco complicadas para que isso aconteça. Você acha que consegue?
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