Chances
29 Nada pode mudar
Notas iniciais
SAM’S P.O.V.
Ele saiu do quarto e me deixou sozinho. Simplesmente me joguei na cama encarando o teto. Eu não sabia o que iria fazer.
Ao mesmo tempo em que toda aquela situação parecia tão certa, tudo parecia extremamente errado. Aquela voz irritante dentro da minha cabeça que ficava sussurrando ao meu ouvido, dizendo que não deveríamos ficar juntos, dizendo que era errado. Dizia principalmente que deveríamos acabar com tudo aquilo antes que um, ou os dois, saísse machucado.
Mas ao me lembrar da noite passada, todas essas idéias deixaram a minha mente. Com os meus olhos fechados, respirei fundo, com a imagem do rosto de Dean tomando conta de meu cérebro. Aquelas sardas salpicadas por seu rosto, os olhos verdes me encarando intensamente, os lábios cheios pressionados contra minha pele...
O assobio de Dean me tirou de meus devaneios e corri até a janela. Pisquei para ele e vi um sorriso tímido crescer em seu rosto, antes de ele se virar e sair andando. Peguei minha mochila, me olhei novamente no espelho, notando que algo estava diferente em mim, mas não sabia o que era.
Com cuidado, desci pela escada e a deitei novamente na grama. Suspirei antes de descer a rua do Warner, que me levaria até um beco, onde eu conseguiria um atalho para chegar à escola. Eu sorri durante todo o percurso, mas eu acho que estava com um pouco de medo. Ninguém naquele colégio poderia nem sonhar em suspeitar que eu e Dean estivéssemos... Bom, “juntos” ou sei lá o que temos entre nós.
Não tenho certeza se era vergonha, ou se eu só não estava pronto para me assumir gay para a escola toda, ou então se eu só não queria perder o meu status naquele lugar. Lutei muito para chegar onde estava e não queria abrir mão disso. Sem falar que eu não tinha certeza de que eu era gay... Nunca senti atração por outros homens. Vamos dizer que sou gay pelo Dean, e agora eu estou mais confuso sobre tudo do que antes.
Talvez as vozes na minha cabeça sejam da minha consciência, a única parte do meu cérebro que consegue pensar claramente sobre qualquer coisa que seja relacionado ao Dean. E talvez ela esteja certa, talvez devêssemos terminar com isso logo. Antes que essa “amizade colorida” ou sei lá – sério, eu não sei definir isso que nós temos – se torne algo a mais. E se isso acontecer, não sei se vou estar pronto.
E não quero machucá-lo.
Finalmente avistei o portão da escola e senti meu coração acelerar. Pude sentir também que minhas mãos estavam suadas e acabei de lembrar que estou usando a mesma roupa de ontem. Isso vai gerar perguntas que não estou muito a fim de responder.
Passei pelos portões de ferro e meus olhos automaticamente buscaram o rosto familiar de Dean. Não consegui vê-lo, mas outro rosto familiar apareceu na minha frente com um sorriso tranquilo e me pediu com um aceno de cabeça para segui-lo. Adam me fez andar um pouco para o lado, apenas para sairmos do meio da multidão que adentrava a escola naquele instante.
Percebi que meu sorriso havia ido embora no momento em que o vi. Sua bochecha ainda com um corte fino cicatrizado, resquício da surra que Dean deu nele. Foi uma bela surra... Tenho que me lembrar de perguntar para ele como ele sabia lutar daquela forma.
– Olha cara — Adam sorria enquanto olhava para mim — Eu não sei o que eu fiz para você, mas acho que tem a ver com a Anna. Qualquer coisa que eu tenha feito, eu sinto muito.
Senti vontade de bater nele só pela cara de pau, mas ele tinha razão sobre uma coisa. Era sobre a Anna.
– Me poupe, Adam – Rolei meus olhos. Que idiota.
– Qual é, eu ‘to engolindo meu orgulho e te pedindo desculpa, Sammy. O mínimo que você pode fazer é não me tratar como lixo.
Respirei fundo e o olhei nos olhos. Ele parecia estar realmente arrependido, coisa que eu sabia que ele não estava. Mas éramos melhores amigos, e até que tivemos bons momentos. Mesmo que não gostasse de admitir, eu até que gostava dele.
– 'Tá, cara. Desculpa — Sorri levemente. Fui completamente falso naquele momento, mas no fundo gostei de vê-lo pedindo desculpas — E o que vai acontecer? Vamos voltar a andar juntos como se nada tivesse acontecido?
Pude ver seu sorriso se abrindo para mim e ele se aproximou com um passo.
– É o que eu quero. Aceita minhas desculpas? – Adam me olhava e sorri mais abertamente.
– Não, Adam. Você ainda tem que pagar pelo que fez — Arrumei a mochila em minhas costas e continuei o encarando — Mas claro. Vamos agir como se você não tivesse feito nada.
– É melhor que nada, não é? — Ele sorriu pegando sua mochila do chão.
– Claro — Concordei, afinal não podia simplesmente dar um gelo nele para sempre. Outras perguntas surgiriam, sem falar nas fofocas... — Vamos? Não podemos perder a aula de álgebra de novo, ou vamos levar mais uma advertência e vamos ser suspensos — Passei um braço pelos ombros de Adam e seu sorriso cresceu ainda mais.
Andamos até o corredor, cumprimentando as líderes de torcida que estavam paradas fofocando sobre alguma coisa. Sempre quis saber do que elas tanto falam. Mais um dia comum no colégio... Quando passávamos com as cabeças levantadas, todos saíam do nosso caminho e não ousavam olhar em nossos olhos. Ainda não tenho certeza se posso chamar isso de medo ou respeito, mas a sensação era boa.
Um pouco mais para frente pude vê-lo. Estava com sua calça jeans clara e uma camisa de botões, o de sempre, é claro. Segurava alguns livros em seus braços, enquanto conversava com Jo Harvelle. Acho que os dois se tornaram realmente muito amigos. E eu não sabia o que fazer. Respirei fundo tentando pensar, mas ele estava tão lindo com aquele sorriso fraco nos lábios grossos e rosados, não consegui me concentrar em nada. Já estava me esforçando demais para não sorrir com aquela visão.
– Eu não vou deixar barato pro nerd pelo que ele fez comigo – Adam murmurou, olhando para mim.
Nada pode mudar... Essa frase rondava a minha mente e percebi que ela estava certa. Eu não poderia agir diferente, então me esforcei o máximo para ser o idiota de sempre. Às vezes isso pode ser cansativo, sabia?
– Deixa ele em paz, Adam – Rolei os olhos – É só não mudar. Ele sabe qual o lugar dele.
– Mas ele me humilhou e...
– Chega de drama. Parece que nunca apanhou na vida – Eu disse brincando e dei um soco leve em seu braço.
– Acha que se eu tivesse apanhado mais, eu seria mais bem ajustado? – Ele riu, me fazendo rir junto. Quem olhasse de fora realmente pensaria que estava tudo bem entre nós.
Estávamos chegando perto de Dean e pude sentir meu coração acelerar quando vi que ele me encarava nos olhos. Seus olhos verdes bem abertos atrás dos óculos que escondiam as sardas em sua bochecha.
Nada pode mudar... Nada pode mudar... Nada pode mudar...
Nada pode mudar...
Quando passei por ele bati a mão em seus livros, derrubando-os no chão e sentindo um aperto no coração quando vi que Adam havia o empurrado contra os armários. Voltei a olhar para frente, andando como se nada tivesse acontecido. Nada mudou... Pelo menos na escola.
Andamos até a sala de aula, ignorando completamente a professora que nos desejou bom dia. Adam disse que iria dormir um pouco, pois não dormira bem na noite anterior.
– Tive uma noite agitada, se é que me entende — Ele me disse com um sorriso malicioso.
Eu com certeza entendo...
– Dorme, Milligan. Não quero saber dos seus casos — Brinquei, afundando a cabeça dele na mochila que estava em cima da mesa e me sentei direito na cadeira, encarando a professora passar alguma coisa na lousa.
Só porque eu estava na sala de aula, não queria dizer que eu estava lá. Perdido em meus pensamentos, não prestei atenção em nada que acontecia a minha volta. Só percebi que a aula tinha acabado quando vi os alunos se levantando e tive que acordar o Adam.
A minha próxima aula era inglês. Fui até meu armário para guardar os livros pesados de matemática que estavam em branco e coloquei apenas um caderno dentro da minha mochila. Andei até a sala do professor Pellegrino e hesitei por um momento antes de entrar. Não queria encarar o Dean depois do que fiz. Agora, mais do que nunca, eu odiava ser o cretino.
Ele já estava lá. Livro e caderno sobre a mesa, as mãos fortes distraídas com o relevo da capa do caderno e os olhos de esmeralda perdidos em algum ponto da sala de aula. Sentei-me ao seu lado e ele não olhou para mim. Fiquei sem coragem nenhuma para chamar sua atenção e, além do mais, nem sabia o que dizer para ele. Então apenas fiquei quieto observando o professor que agora entrava na sala de aula e já começava a tagarelar algo sobre as provas finais.
DEAN’S P.O.V.
– Me desculpe – Sam disse, me tirando dos meus devaneios.
Só agora percebi que já haviam passado 20 minutos da aula de inglês e que ficamos nesse silêncio perturbador por todo esse tempo. Mas eu não tinha o que falar. Eu não sabia por onde começar ou como agir.
Eu parecia ter acordado naquele exato momento e enfim me dei conta de tudo o que estava acontecendo. Ainda sentia certa dor em minha cabeça e nas costas, mas logo deveria passar, afinal não era nada que não estivesse acostumado.
Olhei para o caderno aberto na minha frente, meu estômago roncou e desejei comer alguma coisa. Mas meus olhos correram pela sala de aula primeiro. Alguma coisa me incomodava, e eu não fazia ideia do porquê. O ambiente parecia perfeitamente normal... Passei os dedos pelas argolas do meu caderno, ainda perdido em meus pensamentos, quando lembrei que Sam havia falado comigo.
Ele havia me pedido desculpas. E acabei de me lembrar do motivo.
– Tudo bem – Foi tudo o que consegui dizer.
Eu realmente não tinha motivos para ficar bravo com ele. Eu sabia que as coisas não poderiam mudar entre nós aqui na escola. Mas não posso negar que parte de mim queria muito isso.
Somente a presença dele do meu lado era torturante. Não nos olhávamos, mas eu conseguia sentir a tensão que emanava de seu corpo forte. Minha cabeça começou a doer mais e percebi que precisava sair dali, o mais rápido o possível. Levantei a mão e perguntei ao professor se eu poderia ir ao banheiro. Ele me disse que sim e saí da sala sem olhar para trás.
Quando cheguei, a primeira coisa que fiz foi lavar o rosto. A água fresca contra minha pele quente me fez relaxar um pouco. Sequei o rosto, coloquei meus óculos e quando abri meus olhos ele estava parado atrás de mim. Seu reflexo no espelho junto ao meu, mas ele não me olhava. Encarava o chão, com uma expressão pensativa.
Me virei para ele e ele ergueu os olhos, encontrando os meus. Engoli em seco e o vi molhar seus lábios com a ponta da língua. Meu coração disparou novamente e pareceu que não suportávamos a distância que nos separava. Com aquele mesmo desejo da noite passada queimando em meu peito, nos beijamos novamente encostados à pia. Era aquele gosto delicioso, aquela sensação delirante, aqueles braços ao redor de meu corpo... Tudo aquilo tinha um efeito tão hipnotizante que mal podia me conter.
Sam me puxou para mais perto, com as mãos em minha cintura, conseguindo mais contato. Senti meus jeans ficando mais apertados e logo percebi que os dele também, me afastei em um pulo, limpando os cantos da boca com a ponta dos dedos.
Ele me encarava com os olhos um tanto arregalados, provavelmente tentando decifrar minha expressão, a qual eu não fazia ideia de como estava.
– Sam, isso... Deus, isso é loucura – Eu disse baixo, com minha voz rouca.
– Sim, não tem a menor chance de isso dar certo – Ele me encarou. Seu peito subia e descia com sua respiração ofegante.
– Estamos ferrados.
– Com certeza estamos.
Dessa vez, segurei sua cintura e o puxei para mais perto, beijando-lhe novamente os lábios. Agora com mais ferocidade e urgência que da última vez. Encostei Sam contra a parede e em poucos segundos senti o gélido azulejo contra minhas costas, pois Sam usara sua força para trocar as posições.
Tentávamos manter o silencio enquanto nossas bocas disputavam uma batalha viril e intensa por mais espaço. Ouvi a voz de alguém do lado de fora e Sam separou o beijo, andando para longe de mim e fingindo estar lavando as mãos, como se nada tivesse acontecido ao ver que Adam havia entrado pela porta do banheiro.
Entrei rapidamente em uma das cabines e respirei fundo. Após alguns segundos eu tinha minha respiração ofegante sobre controle e meu rosto estava menos vermelho e quente agora. Já era seguro sair da cabine. Dei descarga e andei até a pia, cumprimentando-os com um aceno de cabeça, sem os olhar nos olhos e saí do banheiro às pressas. Eu estava tentando ignorar a verdade. Tentando ignorar o fato de eu não ter controle nenhum sobre mim quando estou perto de Sam. E tive que me segurar muito para não voltar àquele banheiro e tomá-lo em meus lábios mais uma vez.
Continua...
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