Uma semana do primeiro dia de aula havia se passado e era sempre a mesma coisa. Liz gostava de ir à escola encontrar com os amigos e ter algumas das aulas de menos às de literatura, a professora sempre interagia com os alunos. Neste exato momento eles estavam tendo aula e Liz não estava muito animada igual aos seus colegas de classe.

— Tudo bem, agora vamos falar sério, como nossa aula de hoje é sobre poesias e romantismo, quero que vocês escrevam um poema e leiam aqui na frente para amanhã. — E neste exato momento tocou o sinal, todos os alunos iam saindo e apenas Liz continuou na sala, a professora por pouco notou sua presença. – Você não vai para a próxima aula Liz? — Liz se assustou ao perceber que a professora sabia seu nome. Talvez ela fosse esquisita o bastante para que ela soubesse tudo sobre ela.

— Eu tenho educação física. — Ela respondeu sem olhar para a professora, mas percebeu que a mesma vinha em sua direção. Elle se sentou em uma cadeira logo em frente à garota de cabeça baixa.

— Aconteceu alguma coisa? Algo que você queira me dizer? — Liz apenas fez que não com a cabeça. – Você anda muito sozinha ultimamente, está se sentando no fundo, não fala mais com a sua amiga igual nos primeiros dias. Se realmente estiver acontecendo algo pode contar comigo, está bem?

— Tudo bem. — Ela disse pela primeira vez. Com uma pequena dificuldade levantou a cabeça e olhou para a mulher de pouca idade, talvez a mesma idade que sua mãe. Liz sorriu, um sorriso tímido, receoso. Então se levantou e foi para sua próxima aula. Na educação física não fazia nada como sempre. E depois foi para a aula de geografia. Depois de todos os horários, finalmente Ryan teve uma chance de poder conversar com a prima.

— Ei, Liz espera, preciso falar com você. — Ele saiu correndo atrás da prima, que instantaneamente parou.

-Oi. — Ela disse nada animada como acostumava tratar o primo.

— O que está acontecendo com você? Estou preocupado.

— Todo mundo está. — Ela desviou o olhar do primo e ia ameaçar a sair, mas Ryan não deixou.

— Liz me diga, me diga o que está havendo, sou seu primo, seu amigo.

— Não é nada, nada mesmo. — Ela desviou os olhos para um carro, o carro que ela reconhecia bem, o jipe de seu tio. – Seu pai já chegou. — Ela apontou com a cabeça e os olhos estreitados por causa do vento.

— Você está muito estranha. — Ele fez sinal de negação enquanto saia, foi em direção ao carro do pai, mas não entrou apenas conversou com o pai rapidamente e Liz queria saber o que estava acontecendo. Ele então assim que viu o carro dos tios chegando chegou perto da prima e a puxou pelo braço. – Olá. — Ele disse para os tios enquanto ele sentia que Liz lhe encarava profundamente. – É tio, tia... Queria saber se posso ir para casa de vocês hoje? — Ele perguntou educadamente.

— Claro que pode, entra. — Disse Jasper falando com o garoto, assim que ele viu Emmett parado ao seu lado. – E então lutador de vale tudo?! — Os dois sorriram um para o outro, Emmett cumprimentou sua irmã.

— Espero que ele não vá incomodar. — Disse Emmett olhando para o filho que fez cara de desentendido.

— Claro que não, você sabe disso. — Ele respondeu.

— Então tudo bem, vê se comporta viu garotão?! — Ryan apenas afirmou com a cabeça. – Boa tarde para vocês. — Disse Emmett logo em seguida acelerando seu jipe. Então eles também saíram de lá, assim que chegaram em casa, Liz foi a primeira a descer ela pegou rapidamente a cópia da chave da casa que ela sempre carregava com ela e abriu a porta. Foi correndo para seu quarto e jogou as coisas lá. Tirou o tênis o chutando para um canto do quarto, de seguida a camisa xadrez e a regata e depois foi à vez da calça jeans, ela abriu seu guarda roupa e colocou um vestido florido roxo e uma chinela qualquer.

Assim que ela voltou para baixo todos lhe encaravam e ela instantaneamente parou, com uma cara de interrogação, mas no instante que ela percebeu o que iria acontecer ela caminhou até a cozinha. Ela já estava cansada disso, sempre que começava uma fase mais complicada na escola ela tinha dificuldades. Sua dislexia muitas vezes lhe deixava irritada.

— Você tem certeza que não quer falar sobre isso? — Sua mãe lhe perguntou carinhosamente, mexendo em seus cabelos.

— Mãe... Eu não quero falar sobre isso ‘de novo’. — Ela fez uma voz diferente no ‘de novo’ para deixar bem claro que ela não gostava das muitas conversas sobre o assunto. Alice por sua vez ficava cada vez mais preocupada com a filha, agora na fase da adolescência estava ficando pior, ela está se afastando de todos e não conversava tanto mais assim com a mãe.

— Está bem. — Alice disse mais para conseguir lhe confortar do que uma resposta para a filha. Ela deu um meio sorriso e foi arrumar o almoço.

- Mãe... — Liz viu que a mãe não estava gostando de suas atitudes e se sentiu mal e ia até mesmo pedir desculpas se seu irmão não tivesse entrado naquele exato momento na cozinha.

- Pode falar.

- Esquece. — Ela disse se retirando da cozinha e subindo novamente para o seu quarto, ela se sentou em uma cadeira perto de sua escrivaninha. Ela abriu um livro que ela tinha comprado com o intuito de ler, mas não estava conseguindo, abriu o livro e começou a ler, mas se irritou assim que as letras estavam de ordens erradas. Ela irritada pegou o livro e jogou contra a parede, abaixou a cabeça e começou a chorar ali mesmo.

Alice ficou triste ao ver a filha desistir de dizer o que queria e neste exato momento Jasper entrou na cozinha, pediu para que Eric fizesse companhia para o primo, ao ver a cara da Alice já percebeu o que estava acontecendo.

- Meu amor não fica assim, é apenas uma fase. — Ele disse abraçando Alice a fazendo por fim deixar algumas lágrimas escaparem.

- Como Jazz? Ela está se fechando cada vez mais, não fala com ninguém, nem mesmo comigo. — Os dois se entreolharam e se assustaram com um barulho que veio do andar de cima.

- Eu vou ir falar com ela. — Ele disse beijando a testa de Alice e logo em seguida saindo. Assim que estava chegando perto do quarto da filha ouviu soluços e então olhou para dentro do quarto para ver o que estava acontecendo, ela estava debruçada na escrivaninha chorando, mas por quê? Era a pergunta que tinha na cabeça de Jasper e então ele viu o vilão da história, o livro aberto jogada perto da janela, o motivo do barulho.

- Filha, podemos conversar um pouco? — Ela se assustou ao ouvir a voz do pai, mas em momento algum levantou a cabeça, apenas parou de chorar. Ele então puxou a cadeira que era de rodinhas para perto da cama dela e se sentou. – Olha pra mim. — Ele pediu delicadamente, aos poucos ela foi levantando a cabeça e nenhum momento olhou para seu pai. Mas dava para ver seus olhos vermelhos de choro e suas bochechas molhadas. – Você precisa se abrir conosco somos sua família. Conte para mim o que está acontecendo. — Liz realmente não gostava de se abrir muito com seu pai, para ela sempre foi melhor conversar com a mãe. Ela então fez que não com a cabeça e não voltou a olhar para ele. – Liz somos teus pais, você pode contar para nós o que está acontecendo.

- Eu... Eu posso ficar sozinha um pouco? — Ela perguntou meio ressentida. Seu pai neste momento não sabia o que fazer, sua filha não lhe dizia as coisas, dos seus problemas, ele estava preocupado.

- Está bem. — Ele sem muito saber o que dizer ou o que fazer saiu do quarto deixando a filha um pouco sozinha. Assim que chegou na cozinha fez sinal de negação com a cabeça e logo Alice já entendeu tudo.

- Será que isso vai durar muito tempo? — Ela perguntou com um sorriso sem vida. – Eu queria que ela voltasse a ser aquela menininha doce de sempre.

- Ela ainda é meu amor, ela só está querendo escondê-la. — Ele disse ajudando Alice a por a mesa. E não passou muito tempo e o almoço já estava pronto, Jasper chamou os meninos e subiu para chamar a filha. Todos agora estavam na cozinha Jasper e Alice tentavam não demonstrar o quanto eles estavam tão preocupados com a filha escondendo o nervosismo.

Durante todo o almoço ninguém disse nada, prevaleceu um silêncio constante e isso estava incomodando Liz pois ela sabia que isso era por sua culpa, Ryan nunca ficou tão nervoso com ela e seus pais estavam preocupados demais ao ponto de não conseguirem disfarçar, ela se sentiu incomodada então comeu rapidamente para poder sair da mesa. Ela foi em seguida para sala, pegando o violão para tocar os poucos acordes que ela dava conta e que seu primo lhe ensinara. Quando ela estava em algo que envolvia musica ela conseguia superar um pouco seu problema, era como se a musica fosse seu tranqüilizante e um remédio para a cura da dislexia.

Então ela decidiu tocar uma de suas musicas prediletas, When i look at you. Aos poucos os acordes tocados separadamente foram dando mais sentido da canção. Então ela deixou que sua mente correspondesse sozinha nos toques do violão e fechou os olhos, por poucos segundos se ouvira uma falha na canção, mas logo voltou ao normal e então se concentrou bem para poder cantar a música perfeitamente afinada.

Everybody needs inspiration
Everybody needs a song
A beautiful melody
When the night's so long
Cause there is no guarantee
That this life is easy

Ela cantava muito bem e era muito talentosa, Ryan que também almoçou rapidamente entendeu o que estava acontecendo com a prima e achava que essas várias idas semanais nos médicos já estavam a cansando. Então ele se sentou ao seu lado lhe assustando e fazendo com que ela parasse de cantar, ele pegou o violão de suas mãos e continuou a musica de onde ela parou. Ele tocava perfeitamente no ritmo da musica sem errar nenhum tom e já ela encantava todos naquela casa com a voz.

Por fim quando a musica acabou eles resolveram ir fazer deveres, ficaram ali mesmo na sala, Liz estava impaciente revirando sua mochila para achar sua lapiseira. Mas ela não conseguia encontrá-la, irritada bufou alto e jogou a mochila com força novamente no chão.

— Eric me empresta um de seus lápis. — Ela pediu tentando manter a calma.

— Você perdeu mais uma lapiseira? — Ela perguntou indignado, só tinha uma semana de aula e a coitada da lapiseira vermelha já sumira. Ele pegou um lápis e passou para a irmã.

— É eu não sei como não esqueço minha cabeça lá também. — Ela brincou rudemente consigo mesma e voltou o olhar para o papel. Seu único exercício de casa era o maldito poema da aula de literatura e ela logo lembrou, teria que ler na frente da classe toda. – A não. — Ela pensou alto.

— O que ouve?

— Deveres de literatura. — Ela mostrou o papel. – Tenho que escrever um poema e assim que eu chegar na escola amanhã a sala vai virar um circo, por que eu vou ter que ler isto daqui, ou melhor tentar ler. — Ela bateu a mão na mesa prensando a folha entre sua mão e a mesa de vidro.

— Liz calma é apenas um poema, você vai conseguir filha. — Disse Jasper tentando ajudar.

— É Liz escuta seu pai, é apenas um poema, se você quiser te ajudo.

Ela relativamente ignorou o comentário do primo e apenas deu um meio sorriso de resposta e voltou a olhar a folha branca a sua frente. Ela escrevia algumas palavras e apagava, estava começando a ficar nervosa. Então resolveu sair da sala e levou consigo o caderno, lápis e borracha. Sentou-se na cadeira de balanço que ela tanto adorava. E com o canto dos passarinhos lhe ajudou a acalmar, pois para ela é a mesma coisa de musica tocada de outra maneira. Aos poucos foram vindo coisas boas em sua mente e aproveitou sua criatividade espontânea para escrever o poema. A única coisa que ela não queria saber era de lê-lo na frente da classe. Mas ainda precisa pelo menos de mais três linhas para terminar seu poema e ela não estava mais conseguindo se concentrar. Até que ela vê uma figura feminina sentada ao seu lado. No começo ela sentiu vergonha de olhar para a mãe, mas ela percebeu que aquilo era completamente uma coisa sem noção.

— Mãe... — Ela não sabia o que dizer apenas olhou para mãe, com uma cara que Alice conhecia muito bem quando ela fazia coisas erradas. – Me desculpe. — Ela conseguiu terminar. Alice apenas soltou um sorriso em seu rosto e passou a mão pelos cabelos da filha.

— Eu te entendo. — Ela disse singelamente, mas aquilo foi uma forma de carinho tão grande para Liz que ela largou o caderno de lado e deitou no colo da mãe e começou a chorar, Alice queria que a filha fosse mais aberta e lhe contasse as coisas ao invés de ser mais reservada para tudo, até mesmo alguns sentimentos. – Quer me contar o que está acontecendo? — Liz demorou um pouco, olhou para o rosto da mãe e enxugou algumas lágrimas e depois voltou a olhar para o nada.

— Eu estou cansada. — Ela fez uma pausa, Alice entendeu aquilo sabia que ela iria continuar e não iria interromper. – Os tratamentos com os médicos, na escola, eu não consigo ver isso pra mim como um bem. É como se isso tomasse todo o tempo livre que eu deveria ter como uma pessoa normal.

— Você é normal. — Alice nunca admitia que a filha falasse daquele jeito, ela era normal como todas as pessoas com uma pequena dificuldade.

— Mas mãe, é fonoaudiologia e às vezes psicólogo, meus amigos não precisam fazer isso. Na escola, você sabe sempre as professoras me pedem para ler algo, eu tento, mas é sempre a mesma coisa.

— Mas você já parou para olhar?! Você consegue ler e pronunciar as palavras bem melhor que antes. Os tratamentos são demorados e requer paciência, principalmente de sua parte.

— É uma das coisas que eu menos estou tendo ultimamente.

— É verdade, porque você está andando assim?

— Acho que eu coloquei na minha cabeça que isso é pressão demais pra mim. — Ela olhou para a mãe que lhe deu um sorriso confortante. Nesse momento Liz se sentiu melhor.

— Isso vai passar, mas enquanto isso vamos tomar um lanche?! — Liz sorriu por ver como sua mãe era esperta em mudar de assunto. Ela em todo o caminho foi pensando no que tinha feito durante essa semana e percebeu que estava se irritando a toa. Ela tinha a família que lhe ajudava e tanto te amava, os amigos que estavam sempre por perto então ela decidiu que iria toda vez conversar com sua mãe, pelo visto ela era seu melhor remédio.