Chama Da Esperança
1 Let me tell you a history. - Unico
Notas iniciais
A chuva caia lenta, as pessoas corriam à procura de um abrigo, crianças brincavam nas pequenas poças que ali se formavam e os carros circulavam normalmente. Todos alheios ao que acontecia no alto de um prédio, não muito longe dali, onde uma menina de cabelos pretos e curtos, com olhos castanhos estava. Ela não se preocupava com a chuva ao seu redor, há muito tempo não ligava. Seu nome era Mithaly, estudava numa escola pública de sua cidade. Tinha a vida perfeita, amigos em que ela arriscaria tudo para ajuda-los, uma família que sempre a apoiava e vivia sorrindo, esbanjando alegria por todos os lados. De um dia para o outro tudo isso mudou, seus pais morreram em um acidente de carro e sua família mostrou sua verdadeira face, tomando os poucos pertences que a menina tinha. Viveu à custa de sua avó, única parenta que não lhe dera as costas, achando assim que finalmente tudo iria se encaixar aos poucos, doce engano. Alguns meses após o acidente, a menina começou a notar coisas que antes não tinham importância, ou que preferia ignorar mesmo. Aqueles que se diziam seus amigos não lhe ajudavam em nada, mesmo em pequenas besteirinhas. Primeiramente achou que a estavam excluindo, mas passou-se um tempo, percebeu que sempre foi assim, a diferença é que ela chegava se enturmando.
O mundo começou a ficar sem cores, e suas ações tão espontâneas passaram a ser mecânicas. Não tinha mais vida, afundava na solidão cada vez mais, para não sentir mais o impacto das ações dos outros em seu coração tão inocente.
Agora, no topo daquele prédio começava a se lembrar de tudo que acontecia, mas não havia mais lágrimas para se derramar, ela foi quebrada em tantos pedaços e das mais diversas formas que quase nenhum sentimento, até mesmo a tristeza, tinha força para se manifestar. A única coisa que se mantinha viva na jovem eram as fantasias que passavam por sua mente. Só lá ela se permitia ter algum sentimento ou nostalgia. Levantou a cabeça e deixou a água da chuva lhe acolher, envolvendo e entrando em contato com seu corpo, que a tanto tempo não tinha alguém ou algo tão perto passando-lhe uma boa sensação. Olhou para a porta que dava acesso ao lugar onde estava vendo alguém saindo por ela e indo ao seu encontro, para logo lhe abraçar. Balançou a cabeça e a imagem se desfez. Deixou-se imaginar uma ultima vez que alguém viria ao seu encontro. Mithaly realmente precisava de alguém para lhe tirar da imensidão cinza a qual pertencia agora, mas já era tarde. Seu coração e seus pensamentos se fecharam num casulo aonde somente ela habitava.
Foi até a ponta do prédio e sentiu seu corpo mais leve, começaria uma nova vida, via o mundo com outros olhos, e nessa visão ele só tinha tons pretos e brancos. Olhou para baixo por um tempo pensando no que faria dali em diante. Deixaria a casa de sua avó que já encontrava dificuldades para sustentar as duas e iria procurar um lugar para morar, arranjaria um emprego e continuaria a estudar. Seguiria sua vida quase que normalmente, criaria uma saudável rotina para si e viveria assim até que sua hora chegasse. Mithaly olhou para o lado e viu uma garota igual a ela, só que mais baixa, com cabelos grandes, quase na cintura, e o sorriso estampado na face. A menina que antes era recheada de cores, e agora não tinha nenhuma, olhou para Mithaly e lhe deu um ultimo sorriso, tirando uma pulseira de seu braço e botando no braço da maior, antes de se deixar cair do prédio. A maior olhou para a pulseira com indiferença, dando a volta na direção da porta até chegar no apartamento de sua avó e começar os preparativos de sua nova vida.
Ao longe se podia ver em meio a imensidão cinza, no braço de uma garota, um pequeno brilho dourado que lutava para não ser sugado pela tristeza que o cercava. Uma pequena chama da esperança que lutava para não ser apagada.
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