Chalo चलो: O mundo é teu
1 Capítulo 1 - Having the time of your life
Notas iniciais
Respirei fundo e finalmente consegui levantar a cabeça. O gosto pelos aviões caiu 8 pontos em uma escala de 10. Passar mal pelo movimento do pouso com toda certeza não estava nos planos. Me dirigi ao espelho a passos lentos, buscando forças para puxar aquela mala de mão pesada, o blazer e suas bugigangas e o chapéu de cowboy que de ideia divertida passou a ser completamente irritante nessas conexões sem fim.
O reflexo transmitia uma garota pálida, cansada e com fome, eu definitivamente não tinha mais nada para pôr para fora.
— Julieta, está tudo bem? – Ouvi a voz de Rodrigo da porta do banheiro, meu recém conhecido e companheiro de viagem neste ano de intercâmbio – Conversei com uma aero moça, ela me disse que perto de onde temos que esperar para embarcar, há uma enfermaria... vamos ficar o dia todo aqui, você pode ir lá descansar – sua voz preocupada me transmitiu conforto.
— Sim, está, não tenho mais nada no estômago – ponderei – acho que vou querer dar uma passada sim – direcionei-me a saída e com um sorriso amarelo, agradecendo pelo gesto. Seu olhar preocupado me analisava de todo.
— Está com os documentos em mãos, não perdeu nada? – perguntou.
— Aparentemente tudo certo – Conferi. Levantando o olhar e conseguindo analisar o loca, noto que o aeroporto de Nova Délhi não era nem um pouco convencional, um tapete cobria todo o ambiente e havia uma quantidade de guias no local. Mas espetacularmente a recepção de encaminhamento de embarques, com as estátuas enormes de mãos, fazendo símbolos comuns da cultura indiana, acima dos guichês, seria a mais linda. Olhar aquilo, descendo uma escada rolante, fez finalmente cair a ficha, que tudo que eu conhecia estava prestes a mudar. Apertei o passaporte em mãos e apressei o passo.
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Estava abafado de mais para conseguir dormir e o barulho do ventilador de teto só piorava tudo. O relógio do celular marcava 4 horas da manhã, não havia wifi na casa e a minha mais nova irmã ocupava a cama inteira de casal. Me levantei em busca do conforto na janela do quarto, o céu nublado evidenciava a estação das chuvas. Os senhores dos templos guiavam os búfalos e gado pela grande avenida. O dia estava a poucas horas de realmente começar.
Estes dias, mentalizei, preciso registra-los e organizar minha cabeça nesse furacão. Peguei ao fundo da mala de mão o caderninho que havia separado para estes momentos.
“Bharuch, Gujarat, India,
30 de julho de 2018,
Tudo mudou.
Eu sabia que tinha algo errado. Chegou à semana de viajar e eu não estava ansiosa, na verdade, queria que o dia de embarcar nunca chegasse. Mas chegou. E eu não soube reagir, não soube reagir ao dizer adeus ou até logo. Sempre quis viajar o mundo, mas agora não sei se quando voltar vou querer sair de perto dos meus pais ou da comida. São tantos sentimentos misturados, dizer “eu estou do outro lado do mundo” de tão incrível é insano.
Foram 3 dias de viagem. Ir até São Paulo foi tranquilo e rendeu até conhecer o famoso cantor MC Gui no avião. Em São Paulo, mesmo após uma saga para encontrar o portão de embarque, foi divertido porque eu e Rodrigo (o agora conhecido pessoalmente o brasileiro que irá dividir as aventuras na Índia (detalhe: com pinta de playboy)) trombamos com japoneses muito alegres querendo tirar fotos conosco, conhecemos um diplomata indiano e esbarramos em vários outros intercambistas.
Mas nem tudo são flores. A confusão do fuso horário, o cansaço, o balanço do avião... Me fazem chegar a este momento, o choque de realidade, sair de casa, estar por conta em outro país, com apenas 17 anos, outra língua, outra forma de preparar a comida, a falta de comodidade. Mas afinal, eu já estou na Índia... Após a visita a enfermaria, dormi o trajeto todo da última conexão e não acho que tenha me saído tão bem no primeiro contato com a família, por estar tão esgotada, espero que eles não tenham se chateado.
Ficar sozinha nessa cidade, como única intercambista, é o que me deixa mais insegura. Se tivesse como atravessar esse ano confiando em alguém...Quero muito me adaptar, quero muito que os dias passem rápido, quero parar de sentir como se estivesse em uma realidade paralela...”
Ouvi o barulho de uma porta abrindo e a luz da cozinha sendo acesa. Consultei o relógio, 06:23, consegui ver pela janela crianças começando a sair do prédio para esperar pela van escolar. Fechei os olhos brevemente, respirei fundo e tomei coragem, era momento de começar a construir essa vida que estava diante de mim.
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— Namastê – juntei as palmas das mãos em gesto, abaixei a cabeça em cumprimento. A senhora a minha frente, na casa dos 50 anos, com o quadril gasto, ao que parece será a minha primeira mãe anfitriã. A família que fiquei a primeira noite, eram apenas encarregados de me buscar no aeroporto. Fui introduzida como tímida, mas a realidade era falta de dominância em inglês, mas a senhora me sorriu gentil.
— Eu sou Toral – apresentou-se em inglês – E você será a minha primeira filha brasileira, coleciono filhos estrangeiros – brincou, gesticulando para fotos espalhadas pela sala de estar de antigos intercambistas que passaram por ali – Entretanto, você tem tantas características físicas de nossa cultura, que só quando vi as malas que percebi que era de fora. — Continuou. Não foi a primeira a me olhar duas vezes, neste país, ao constar que eu era estrangeira, o cabelo comprido e a pele morena, apenas acrescentavam.
— Prazer em conhecer você, estou animada para tudo – sorri.
Nos despedimos da guardiã e Toral me levou para conhecer a minha mais nova casa. Neste bairro indiano, a maioria das casas tinham dois andares, e sempre havia um balanço na varanda.
A casa era simples, entramos pela sala de estar (que também poderia ser a sala de jantar, logo que a mesa estava ali). Era um ambiente longo, sofás ocupavam todas as paredes. Depois me direcionou ao quarto principal do casal, apenas uma cama e um guarda roupa. O quarto ao lado era o da avó, bem pequeno, aparentava servir como uma despensa ou quartinho da bagunça. O banheiro, a moda indiana, com um ambiente propício ao banho, outro ambiente com a privada e do lado de fora a pia para se lavar. Após esse corredor estava a cozinha. Pela entrada dos fundos da casa, subimos uma escada que levava ao andar de cima, andar este que não era utilizado, foi construído na intenção de ser a futura moradia de uns dos filhos do casal. Iria dormir em um dos quartos.
Espirrando ao adentrar no cômodo, pela poeira e de estar fechado a muito tempo, o meu mais novo quarto era azul, havia um guarda roupa muito antigo ao qual eu não poderia mexer, uma janela enorme de frente para a cama que precisava urgentemente ser limpa e um ar-condicionado que mais fazia barulho do que funcionava. A limpeza do quarto, das minhas roupas e do banheiro estavam por minha conta. Agradeci a senhora e disse que iria me instalar e logo iria descer para o jantar.
Respirei, sozinha, estava sozinha. O quarto que parecia a muito não ter sido utilizado, me deu tranquilidade, um espaço para chamar de meu. Era fim de tarde, ao olhar pela sacada notei mais uma escada, esta que levava para o terraço. Subi a passos lentos, tomando familiaridade. O vento fresco bateu no meu rosto, a paisagem de pedra em meio aos raios solares do pôr do sol me encantou. Apreciei meu mais novo lar, agora não parecia tão assustador.
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Observava as crianças nadarem enquanto esperava pelo fim da aula de badminton da minha “irmã”, Hinkal, a mesma com quem dividi o quarto na primeira noite na Índia. Ela estaria indo para seu intercâmbio na França daqui a um mês e estava me mostrando a cidade antes de partir. Ela era baixinha, simpática e energética. Espero que seu intercâmbio seja tudo o que espera.
Já era fim de tarde, no segundo dia neste país. Esta semana estou de folga até me adaptar ao fuso horário. Estamos em um club da cidade, havia quadras de variados esportes, piscina, auditórios e tanto mais.
Perdida em pensamentos demorei a perceber que Hinkal havia se aproximado e me chamava. Me informou que precisávamos passar na casa dela para que ela tomasse banho, porque hoje iriamos sair e havia visitas esperando por mim em casa.
Ao chegar em casa logo depois, na sala de estar estavam dois rapazes que se apresentaram como Ruchit e Zuhayr. Ambos já haviam feito intercâmbio, Ruchit para a França e Zuhayr para a Itália. Simpáticos e divertidos, me fizeram me sentir confortável, me tranquilizaram que não iriam me deixar sozinha neste ano e fizeram o melhor convite de todos:
—O que você acha de irmos comer pizza.. – Pediu Zuhayr – Acho que você quer uma comida mais familiar.
— Sim, por favor – brinquei e nos aprontamos.
Com seus 17 anos Zuhayr e Ruchit 21, ambos já dirigiam, me explicaram posteriormente que era comum dirigir já a partir dos 13 anos ali, não que fosse correto.
A pizzaria que escolheram era no meio de um centro comercial. Uma enorme estrutura circular que consistia em diversas lojas de variados artefatos, cinema e restaurantes. Nos encontramos com mais dois amigos dos meninos, ambos de nome Zaid, que estariam indo para a Inglaterra em setembro iniciar a faculdade de engenharia eletrônica. Zuhayr comentou que no próximo ano iria para lá também estudar economia. Ruchit já formado, era dono de uma rede de lojas de roupas na cidade.
Continuamos mais uns minutos na entrada do restaurante, de frente para o estacionamento, a espera de mais amigos dos rapazes. Então, como em um filme, em câmera lenta, ouvi um barulho de moto se aproximando e estacionando.
A passageira, uma adolescente, que deveria ter em torno de 15 anos, energética se aproximou:
—Olá, sou Zunera, irmã do Zuhayr e presidente do Interact Club da cidade – e me abraçou. Mas eu estava lerda de mais para responder propriamente, porque meus olhos estavam presos no motorista que vinha em minha direção. Ele era alto, mais alto que eu com meus 1,76, muito moreno e com olhos muito escuros.
— Sou Raj, Raj Haryani, prazer em conhecer você – e me estendeu a mão.
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