Mais uma pancada e a porta traseira do carro partiu-se ao meio. O medo estava evidente nos olhos de todos, menos nos lilases e grandes olhos do velho. Ele era alto e estreito, possuía uma robusta barba branco-amarelada que chegava próximo da cintura. Vestia um manto vermelho-escuro, sujo e amarrotado. Não calçava nada e tinha os pés secos e limpos.

– Andem logo! – ordenou uma voz macabra vinda do exterior. – Achem o punhal!

A porta caiu na lama e logo em seguida uma sombra se formou sobre ela. – Estamos salvos! Estamos salvos! – gritou aliviado um dos prisioneiros. A sombra avançou rispidamente sobre ele e seu pescoço foi cortado. Sem ao menos ver o golpe, todos ali prenderam a respiração. Uma brisa mórbida invadia o carro enquanto o prisioneiro agonizava sobre o assoalho de madeira, o sangue espirrava em todas as direções. A sombra retornou ao ponto inicial e, de repente, dezenas de sombras surgiram sobre a porta.

A escuridão tomou conta do interior. Tudo envolta se movia, mas nenhum homem conseguiu se levantar. Durante aquele delírio o jovem de cabelo cinza sentiu um toque suave em seu rosto, e então pode ver a face do velho – Ouça, rapaz. Estou dentro da sua mente, e posso ver tudo sobre você, agora posso. Serei breve. Esse punhal está escondido na minha barba e o Rei das Trevas o quer, mas ele não o terá.

– Todas as respostas virão com o tempo... – falaram juntos.

...

– Onde eu estou? – todo seu corpo ardia. – Ai! O que houve com a minha cabeça?! – a dor era insuportável.

– Ele acordou! – gritou uma moça ao lado da sua cama. – Deve estar faminto, não saia daqui! – e correu até a porta.

“O que aconteceu? Eu não me lembro de nada.”

A porta se abriu e entraram três homens no quarto, um deles trazia uma jarra de água e pão preto sobre uma bandeja de madeira. Não era um quarto grande, acomodava uma cama pequena, um armário e uma mesinha. Parecia uma enfermaria, toda pintada de branco. Tinha uma grande janela acima da cabeceira da cama, estava aberta e ventava fraco.

– Olá, meu caro. Seja bem vindo ao vilarejo de Morl. – disse o mais baixo dos três lhe entregando a bandeja. – Eu governo esses descampados, meu nome é Ricard Asde. Esses são meus irmãos, Gohji e Ronan.

– Eu agradeço, mas... mas o que eu estou fazendo aqui? – disse o jovem de cabelo cinza enquanto se sentava sobre a cama e abocanhava uma generosa fatia de pão.

– Pelo jeito não se lembra... Pois bem, o encontramos inconsciente dentro de um carro, lá pros lados de Bahralok. – caminhou até a janela – Veja, não sabemos o seu nome.

– Eu também não. Quer dizer... Eu devia ter um nome, mas não me recordo.

– Isso é um problema rapaz – interviu Ronan. Tinha o cabelo curto e loiro. Era gordo feito um porco, diferente dos outros dois. – Tenho uma ideia. Você vai se chamar Chal!

– Chal? – perguntou – Mas eu já tenho um nome, eu sei que tenho.

– De agora em diante será Chal. Era o nome do nosso bisavô.

...

Chal foi apresentado ao resto do vilarejo naquela noite. Era tempo de colheita, logo todos festejavam e comiam a noite inteira na praça central.

– Hey! Você tem uma bonita tatuagem ai... O que significa? – perguntou um menino magrelo.

– Que tatua... – olhou para o seu ombro, para onde o menino apontava – O que?! – se perguntou assustado.

– Deixe eu adivinhar... Você também não se lembra disso não é mesmo? – debochou uma moça escorada num carvalho. Era bela, e como era. Tinha longos cabelos castanho-escuro. Era clara e delicada, uma cabeça mais baixa que Chal. – Até que é bonita, mas, o que significa esse punhal?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.