Não durmo a noite toda. É por isso que Dave ficou daquele jeito. Minha mãe estava lá e não fez nada para impedir a morte dos pais dele.

Não consigo imaginar a dor dele, ele deve se sentir culpado pela morte dos pais.

Penso na possibilidade de ir vê-lo, mas ele pareceu tão mal ontem. Acho que me ver só vai piorar as coisas.

Deito novamente na cama e tento dormir. Amanhã eu vou achar Dave.

***

O céu escuro e o frio me fazem querer voltar para cama, mas não posso voltar. Vou até a árvore de sempre, mas desta vez ele não está lá. Ando pelo parque inteiro e ainda não o vejo.

Sento em um banco de madeira em frente a um lago. A luz da lua refletida no lago azul me faz lembrar de Sarah e seus olhos azul turquesa. Faz tanto tempo que não falo com ela.

De repente ouço um riso conhecido, Dave.

O riso parece ter vindo de bem perto dali. Saio em disparada em direção ao som. Quando estou praticamente ao lado da origem do som percebo que não é apenas o riso de Dave, deve ter mais uns quatro noturnos com ele. Paro cinco metros de onde eles estão, mas isso não impede Dave de me ver.

-Eu já volto – Dave disse aos amigos

— Vai pra onde Dave? – Disse um deles

-É Dave vai para onde? – Disse outro

-Nada que interesse a vocês – Dave disse e saiu andando na minha direção.

Chegando perto de mim ele segura meu braço e me puxa para uma árvore.

-O que está fazendo aqui? Já te disse que solares não devem sair a esta hora! E se alguém te visse?

Esta não é a reação que eu esperava. Não sei bem o que esperava. Mas tenho certeza que não era isso.

— Eu vim te pedir desculpa! Eu descobri o que aconteceu e queria falar que sinto muito por seus pais!

Ele fica em silêncio olhando para baixo.

— Eu não me importo com o que aconteceu no passado, não dá mais para mudar, cada um vive com o peso de seu passado e eu vivo com o meu.

Não sei como responder. Fico calada olhando para o chão. Será que o único motivo de eu ter vindo aqui foi para me desculpar? Eu não sei.

-Olha –Ele fala– Não quero ser grosseiro, mas você tem que ir antes que eles venham até aqui.

Assinto com a cabeça.

-Eu... vou embora.

Viro-me e começo a caminhar, não quero correr. Ouço passos atrás de mim.

— Ei! Luci! Volta amanhã, estarei na mesma árvore de sempre!

Quando me viro para responder ele já está longe, conversando com os amigos.

***

É tão estranho não sair da sede. Por algum motivo ficamos impedidos de sair por dois dias, o que me impediu de ver Dave.

Apenas os adultos mais qualificados saíram, para fazer os primeiros raios e controlar a temperatura.

-Mãe, quanto tempo vamos ficar aqui? – Pergunto – Isso acaba amanhã não é?

— Sinto muito Luci, eles aumentaram os dias, vamos ficar aqui mais cinco dias.

Cinco dias. Cinco dias presa. Cinco dias sem Sarah. Cinco dias sem Dave.

***

A quantidade de guardas dobrou pela nova regra o único jeito de sair é pelo lado contrário da entrada. O problema é que do outro lado não há portas, apenas janelas.

Vou dormir já com as roupas do treinamento.

Por volta de meia noite desço até o refeitório, está vazio. Apenas quem não finalizou o treinamento o utiliza.

O refeitório é um dos lugares com mais janelas da sede, com paredes laranja, cheio de mesas e cadeiras amarelas, cortinas brancas e um enorme balcão branco.

Abro uma das janelas que está perto de uma árvore, me agarro em um dos galhos. A casca da árvore aranha minhas mãos enquanto desço, o chão está a menos de seis metros agora. Cinco metros. Quatro metros. Três metros. À medida que vou descendo minhas mãos ardem. Dois metros. Escorrego e aranho as costas da minha mão, arde um pouco mais consigo suportar. Um metro. Pulo no chão e saio correndo para o parque. Dave está lá deitado na árvore de sempre, observando algo nas folhas.

— Oi... –Digo

-Olá – Ele olha para mim sorrindo – Que demora em?

— Não me culpe – Sento do lado dele – Está um caos na sede, tive que sair escondida. Não sei o que está acontecendo.

Ele não me responde.

— Luci, por que você vem aqui?

-Como assim?

— Por que você sai à noite e vem até aqui?

— Hm... Eu não sei, acho que para ver você.

Não! Não acredito que disse isso!

-Para me ver?

Sinto minhas bochechas corando.

-Acho... Que sim, você é meu amigo.

— E porque não arranja amigos solares?

Um dia eu ainda aprendo a fechar minha boca grande.

-Não sei, é tudo... Brilhante demais.

Nós dois começamos a rir, acho que consegui desviar o assunto.

— Brilhante? Sério?

— Sim –Digo séria– Mas e você? Por que fala comigo?

— Você é minha amiga e tudo lá é muito... Escuro.

-Muito engraçado – Faço uma careta – Mas é só por isso?

Ele não fala nada e se senta.

-Não sei, pode ser que sim, pode ser que não.

-Hm... Que grande resposta!

Nós rimos de novo.

-Bom, acho melhor ir antes que percebam minha falta.

Ele se levanta e me ajuda a levantar.

-Tudo bem, quer voltar amanhã? – Ele pergunta.

-Claro. Lá é brilhante demais para mim.

Sorrio e começo a correr.

— Ei Luci! – Viro para ele – Não é só por aquilo!

Dizendo isso ele vai embora.