O pianista rasteja os dedos com as costas arqueadas
Meu pelo ondula no som tocado
Todo o meu corpo se entorpece


Purrrrr.
As nuvens escuras no céu, o vento a levar as folhas embora. Sinto as gotas de chuva molhando tocando o meu corpo numa sincronia quase musical. É fraca, então permaneço em cima da coluna, apenas observando o movimentar as folhas mortas pelo outono.
As casas dessa rua sem saída estão com as luzes acesas, mas é pouco para iluminar a escuridão quase fatal sobre mim. Nem mesmo os postes conseguem batalhar contra a tempestade que está por vir; piscam lá no alto, atraindo aqueles bichos que gosto de caçar.
Purrrrrrrrrrrrr.
Quase como em sincronia, a rua fica escura, uma casa por vez. Ouço as vozes exasperadas dos vizinhos, reclamando sobre a falta de luz. Alguém xinga porque perderá a novela, outro, o jogo, mas logo tudo fica em silêncio. Reclamar não traz a energia de volta, é mais fácil acender as velas. É o que fazem.
Saio do meu ponto de observação e vou para o chão, a altura de quase dois metros não me machuca. Corro para a entrada da mansão e me escondo da chuva forte que começa a cair. Rosno para um rato que passa por mim e volto o meu olhar para o portão no exato momento em que dessaba a água.
Um veículo branco para na soleira.
Ronrono.
Observo a mulher sair do carro com um sobretudo cinza. Em sua mão está uma pequena mala de viagem na mesma cor. Ela tenta em vão abrir o guarda-chuva vermelho, mas o vento é forte demais e quebra o objeto. O motorista permanece dentro, batucando os dedos no volante com ansiedade. Posso sentir a sua pressa. Quer voltar para casa logo, está cansado de mais um árduo dia de trabalho e tudo o que quer é se jogar no sofá com uma cerveja e assistir a um filme qualquer. Está irritado com a demora da mulher, mas não o suficiente para sair e ajuda-la; não quer se molhar.
Depois de vários minutos de luta, ela consegue vencer o vento frio e chega ao porta malas, de onde tira uma mala de rodas preta. Mal ela bate a porta e o carro sai cantando pneus, deixando-a suja de lama da cabeça aos pés.
Purrrrr.
Ouço as ofensas conforme elas saem por sua boca e me divirto.
Em poucos instantes ela passa pelo portão de ferro e corre pelo caminho de tijolos até onde estou. Seus olhos se fixam em mim e ela deixa um sorriso bobo permear seus lábios. “Olá,” ela diz, tirando o casaco.
Observo enquanto o capuz revela o seu rosto bonito e jovial, agradável até. O que me espanta é o cabelo. Os vários tons de rosa nas curvas macias fazem a sua pele parecer alva demais, mas logo me acostumo. O estranho é bom, o comum é mundano.
Ela tira a chave do bolso da calça e abre as portas de madeira pesada, que rangem como se estivessem reclamando. São velhas e precisam de óleo nas dobradiças, mas ainda servem para algo. Nós entramos no vestíbulo cheio de poeira e teias de aranha. Os saltos altos dela estalam no piso de mármore, o som irrita os meus ouvidos.
Sento em cima da mala de rodas, virando-me para ela.
“Vem, gatinho...” ela estica a mão, rosno e vou embora.
Puuurrrrrrrrrrr.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.