Cereja
1 Cereja - único
Notas iniciais
– Deus ajuda quem cedo madruga.
Essas frases de efeito me irritam. São como cartões postais orais que todo mundo diz por dizer, mas nunca diz exatamente por querer dizer. Tudo marketing, entende?
Nem eu. Mas não gosto delas. Foi por causa dessa ai de Deus e blábláblá que eu acordei de madrugada, assustado pelo toque do meu celular.
–Alô?
– Boa noite!
– Alguém morreu Victória?
Victória era minha amiga. Amiga de longa data, do tipo de amigo que você faz quando ainda não sabe a diferença entre mas e mais. E sim, isso quer dizer muito tempo, mesmo que ainda existam pessoas que usam achando que podem botar o i ''por achar bonitinho''.
– Por Deus, não!– ela riu. Mas é sobre ele mesmo que quero falar com você.
–Sobre quem, garota?
– Deus, dã.
Bom, não sou católico.
–Tá..mas tem que ser agora?
– Não podia esperar, é urgente!
Não é, não. Mas tudo para a Victória é urgente, e ela sempre ignora o fato de que prezo muito o meu sono. Me liga e dane-se. Não que eu reclame. Na verdade eu reclamo muito, mas só por reclamar; acredito fielmente que um dia conversar de madrugada pode ser produtivo em alguma área da ciência.
–Não sobre Deus exatamente, mas tem haver com aquelas frases de efeito.
– E daí?
– E daí, Gabs, que eu estive pensando e cheguei a conclusão de que essa frase de efeito pode servir pra quase tudo na vida de alguém.
– Como assim, meu Deus?
Isso vai ser longo.
–Bom, pára pra pensar: quando você vai procrastinando em relação a alguma coisa, geralmente as chances de ela acontecer ou dar certo vão ficando cada vez mais difíceis, certo?
– É, eu..
– E pode acontecer com quase tudo, eu acho..tipo, fazer inscrição numa prova, se declarar, fazer trabalho de casa, arrumar o quarto, dietas..
– Dietas? -minha vez de rir.
–SIM! Veja só, você é um gordo de 120 quilos e está louquinho para ficar sarado, mas a preguiça fala mais alto e você sempre deixa ''para amanhã''. Quando vê, está participando de um daqueles programas em que um cara bonitão e magro vai na sua casa te estimular a praticar exercício e fazer uma cirurgia. Madrugar é a resposta!
– Bonitão magro?
– Sério? Prestou atenção nisso?
– Mas eu não entendi o...
– Frases de efeito! Existem tantas delas, e você uma hora ou outra vai usar alguma, é como uma regra de vida. Eu estou usando a de Deus ajuda quem cedo madruga.
– Essa e todas as outras são um saco, Victória, ninguém diz por dizer nenhuma delas.
– Ah, depende de quem fala.
– Não acredito nisso. Quero ver você usar uma dessas em um momento que não seja previsível.
– Você é muito cético em relação as palavras. Frases de efeito são nada mais do que palavras que todo mundo sabe, e como diz aquela outra: elas são como cerejas, vêm uma atrás da outra.
– Cerejas?
– Não, palavras. Quando você menos esperar, essas cerejas de efeito vão aparecer na sua língua e você vai usá-las.
Que po*** louca.
Desliguei o celular e voltei a dormir. Uma coisa é falar de frase, a outra é pular de bonitão magro para cerejas. Se superou, Vic.
–Cerejas? -perguntei quando ela ligou, 20 minutos depois.
–Não, é que não consegui dormir.
– Sonhou com cerejas bonitonas?
Ouvi-a bufar. Eu que tinha sido acordado ( de novo ) e ela que estava irritada?
–Estava pensando naquela frase.
– Das cere..
– Não!– me cortou, parecia tensa.Há um tempo venho pensando nela, e se Deus ajuda quem cedo madruga, achei melhor nem dormir.
– Não 'to entendendo nada.
– Gosto!
E eu esperei. Esperei por uns 5 minutos, ou até menos, e só conseguia ouvir a respiração do outro lado da linha. Meus dedos já estavam formigando pela posição desconfortável.
–Vic?
– Para um bom entendedor, meia palavra basta. Nesse caso, meia frase basta.
– Isso é uma frase de efeito?
Desligou.
Não sei se ela realmente me conhecia, mas não sou um bom entendedor. Quem fala metade, pode falar o resto.
Liguei de novo.
–Gabs?
– Não sou um bom entendedor.
– Mesmo? -sua voz parecia mais baixa. Ela não parecia bem.
–Não sei, duvido que seja.
– É que me faltaram cerejas...
– É, eu notei
Um tipo de silêncio gutural instalou-se entre nós. Acho que tinha entendido. O sono havia passado.
–Gosto de cereja, sabia?– tentei parecer sério.
–Não, você odeia frutas.
– Estava falando daquela meia frase. Completei pra você. E sinto o mesmo.
Rimos; o silêncio sufocara qualquer som logo depois.
–Um bom entendedor sabe que não estamos falando de cerejas, né?
– Talvez -confirmei e ri — posso dormir agora?
Sendo totalmente contraditório ao que disse anteriormente: toda regra tem sua exceção.
A minha é a cereja.
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