Cendrillon
2 Perseguição
Notas iniciais
Por um momento eu pensei ter ouvido errado, aquele rapaz com ar autoritário tinha realmente dito que me queria? No que ele estava pensando quando apontou para mim e disse apenas a palavra “você”? Por acaso isso era uma brincadeira com a minha cara? Não posso suportar algo assim...
— Com licença, poderia repetir por favor? — perguntei ainda mantendo um sorriso falso, quem ele pensava que era? Só porque ele é um desses nobres na qual possuem muitas riquezas, acha que pode sair fazendo o que quiser?
Antes de me responder, ele deu um longo suspiro, jogando seu corpo para frente, apoiando-se mais ainda na mesa em que se encontrava. — Você possui algum problema de audição? Porque eu disse que queria você — me respondeu ríspido, encarando-me seriamente.
Aquela realmente foi a gota d’água, eu sei que eu nunca devo ser rude com algum cliente, mas ser tratada dessa forma por alguém que nem ao menos conheço foi o cúmulo da minha paciência. Respirei fundo e tentei responder da forma mais pacífica possível.
— Me desculpe senhor, mas eu devo ter algum problema mesmo. Tanto que chamarei outra pessoa para atendê-lo — antes que ele pudesse retrucar, comecei a dizer dando alguns passos para trás, me afastando da mesa. — Espere só um momento, por favor! — e saio em disparada para a cozinha onde provavelmente teria alguém para atender aquele mal-criado.
Cheguei ofegante ao meu destino devido à minha mini corrida, o que acabou preocupando a garota que acabava de adentrar o local. — Você está bem S/N? Está bem corrido hoje, não? — ela perguntou, vindo em minha direção, seus olhos castanhos claros demonstrando toda sua preocupação.
— Mio, nem me lembre disso... Você poderia atender um cliente no meu lugar? — perguntei, aproveitando a deixa, antes que ela pudesse perguntar o porquê, voltei a falar. — Ele ficou fazendo brincadeiras sem graça para cima de mim, então antes que eu dê um soco, o que não seria nada legal, você poderia pegar o pedido dele, por favor? — falei bem baixinho a parte de socar o rapaz para que isso não chegasse aos ouvidos do dono.
— Bem, se é você quem está pedindo, farei o possível — ela respondeu de imediato, o que me deixou aliviada. Ela era realmente uma amiga com quem eu podia contar nas minhas horas de desespero. — Onde ele está? — perguntou, antes de sair da cozinha.
— Ele está nas mesas mais afastadas do bar, perto do fundo. Está de chapéu e está acompanhado de mais dois rapazes altos... — respondi quase que imediatamente, já que a raiva por aquela pessoa ainda não havia passado. Apenas vi Mio concordar com a cabeça, desaparecendo pela porta.
Suspirei pesadamente, tentando me acalmar, já que um problema já seria resolvido. — S/N o que você está fazendo aí parada?! — escutei uma voz conhecida gritar, me fazendo pular de susto. — O bar está lotado e você está aí descansando?! — continuou, me fazendo sair correndo para o bar lotado, avisando que eu estava voltando novamente ao trabalho, agora, indo atender os clientes mais próximos da entrada do lugar.
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— Vocês dois poderiam parar de rir? Isso não é nada engraçado — o rapaz de chapéu disse com um misto de irritação e vergonha. Os dois companheiros que eram bem mais altos e estavam sentados um de cada lado riam sem parar.
— Desculpe Woo, mas depois desse fora que levou, não tem como não rir — respondeu sinceramente o garoto à sua direita, enquanto limpava uma lágrima que escorria de seu olho direito por causa do ataque de risos. — Essa garota realmente é uma grande figura — complementou dando mais algumas risadinhas.
— Essa foi a primeira vez que te recusam assim — comentou o outro colega, tentando se segurar para não continuar a rir, o que acabava sendo inútil, já que deixava transparecer sua vontade pelo grande sorriso e olhos que ficavam cada vez menores só de relembrar a cena engraçada que acabara de presenciar.
Os comentários feito pela dupla de postes irritou mais ainda o jovem que já ia começar a fazer escândalo ali mesmo se não tivesse sido interrompido por uma garota de cabelos curtos negros. Seus olhos novamente pousando sobre a possível vítima.
— Boa tarde. O que gostariam de pedir? — ela perguntou, observando com um sorriso os três rapazes. Novamente a pessoa do meio analisou a mulher em sua frente da cabeça aos pés, mas ao contrário da outra, ela não se sentiu incomodada.
— Se eu falasse ‘você’, o que me responderia? — perguntou após a análise, o que arrancou algumas risadinhas da garçonete. Os dois rapazes mais altos tentando ao máximo ficar sérios diante da nova abordagem do amigo.
— Bem, eu agradeceria o bom gosto e aceitaria sair com o senhor — respondeu sinceramente com o sorriso ainda estampado em seus lábios, se era um nobre que estava a querendo, ela não recusaria.
— Ela não recusou... — sussurrou o mais alto de cabelos negros para o outro companheiro da mesma altura, os dois logo depois observando o menor que possuía um sorriso no canto dos lábios, se sentindo um grande vencedor.
— “Uma mulher ingênua...” — foram os pensamentos do rapaz do meio, antes de voltar a falar com a dama em sua frente. — Oh, bom saber, senhorita... Você realmente é diferente da outra que estava aqui antes.
— O senhor se refere à S/N? Oh, então foi isso que falou à ela? — Mio perguntou, agora entendendo o que havia acontecido ali para deixar a companheira tão furiosa daquele modo. Sabia muito bem como a garota não gostava desse tipo de pergunta, ainda mais vindo de alguém mais rico.
— Sim, mas pelo visto ela não gostou nem um pouco — respondeu meio irritado por relembrar como a outra reagiu, fazendo-o ser motivo de risadas ao seus dois companheiros. Ao percorrer os olhos pelo local, viu ela ao longe correndo de um lado para o outro com alguns pratos e copos cheios.
A morena seguiu o olhar e reparou que o cliente observava S/N, voltou a fitá-lo antes de começar a falar novamente. — Por favor, não leve ela a mal, S/N só não gosta muito desse tipo de coisas por... Alguns problemas antigos. — disse um pouco mais baixo a última frase.
Antes que o rapaz de chapéu pudesse fazer qualquer outro comentário, o jovem de cabelos castanhos escuros em seu lado esquerdo o interrompe. — Eu gostaria de pedir o especial da casa e um copo de água, por favor.
Levando pelo embalo do companheiro, o moreno que estava em silêncio também se pronunciou para que não deixasse o garoto do meio fazer comentários impróprios naquele momento. — Eu também vou querer a mesma coisa. Por favor peça desculpas à sua amiga e... — antes de continuar, seu olhar pairou no amigo. — O que você vai querer, Woo?
A contragosto, ele apenas pediu uma porção de petiscos para tomar com uma bebida alcóolica. Mio prontamente anotou todos os pedidos em seu pequeno caderninho e deu um leve sorriso. — Obrigada pelos pedidos e irei trazê-los em breve. Por favor aguardem alguns minutos. — fez uma breve reverencia e saiu de perto da mesa dos três, se dirigindo à cozinha.
— Por que você me interrompeu, Mingi?! — perguntou meio bravo ao seu companheiro assim que a garota desapareceu de vista. O rapaz apenas se desculpou com um levantar de mãos antes de começar a se explicar. — Se eu não fizesse isso, ela poderia descobrir quem você é de verdade Woo...
— Ninguém aqui desconfiou de você ser a pessoa com a maior influência desse reino, Jung Wooyoung. Se descobrissem, você sabe muito bem o trabalho que daria para nós dois... — complementou o outro companheiro, dando um suspiro aliviado ao ver que Wooyoung estalou a língua e se sentou mais relaxado na cadeira, ajeitando o chapéu em sua cabeça para esconder seu cabelo acizentado.
— Ok, ok. Vocês venceram, Yunho e Mingi. Mas... Já que você falou sobre dar trabalho à vocês se eu fosse descoberto, eu tenho uma missão para os dois — Wooyoung sorriu, com a ideia que acabara de surgir em sua mente, contando em seguida o que a dupla deveria fazer.
~~❀~~
Pensei que fosse morrer depois de tanto correr para lá e para cá atendendo os inúmeros pedidos feitos pelos clientes. Como pode ter tanto movimento em uma só noite? Isso porque eu sabia que no dia seguinte seria a mesma coisa até esse bando de nobres se esgotarem de tanto comemorarem. Queria eu ter esse tanto de dinheiro para poder ficar gastando a toa com coisas fúteis.
Terminei de limpar a última mesa do bar que faltava para ir embora, até que ouço uma voz conhecida se aproximando de mim. — S/N, tudo certo aí? — me virei e dei de cara com Mio, que já estava trocada, pronta para ir embora.
— Sim. Acabei agora de limpar e já vou me trocar... Antes disso, como que foi atender aquele nobre de chapéu? — perguntei enquanto andava em direção à um balde onde havia outros panos sujos como o que eu estava segurando. Ela me seguiu sorrindo e já respondendo prontamente minha pergunta. — Foi normal, como todo atendimento... Mas acho que entendi a parte que não gostou.
— Então ele fez a mesma pergunta para você?! — no momento em que ela deu um aceno positivo com a cabeça a minha ficha tinha caído, ou seja, aquele nobre realmente era um cafajeste que saía perguntando coisas assim para qualquer garota... Não posso perdoar tal pessoa.
— Oh, mas não se preocupe com isso S/N, ele não parece ser como o daquela vez... Assim que aqueles três terminaram de comer, pagaram e já saíram do bar. Você não viu isso porque estava na cozinha — a garota complementou, o que me fez soltar um suspiro cansado, não queria lembrar do que aconteceu no passado, pelo menos, não nesse momento.
— Espero mesmo, Mio... — foi meu último comentário antes de adentrar o local para os funcionários se trocarem.
Depois de trocar minhas vestimentas e pegar um pouco das sobras de algumas porções para os empregados, saí do bar após me despedir dos poucos colegas de trabalho que ainda terminavam seus afazeres. A lua estava bem grande e bonita naquele céu negro, as ruas se encontravam vazias, já que passava da meia-noite.
Eu não gostava muito desse cenário, me trazia calafrios e me deixavam muito nervosa. Só ouvia os meus passos pelas pedras do asfalto, e sim, eu estava andando no meio da rua pois não havia nem sinal de carros ou carroças nesse horário. Os nobres não sairíam de madrugada, sendo que era a hora mais perigosa por conta dos assaltos.
Só não me preocupava muito com os ladrões, porque eu não possuía nada de valor e eles conseguiriam saber apenas ao olhar minhas vestes simples. Minha maior preocupação sempre será com os nobres, principalmente depois do dia em que fui perseguida por um rico louco e fanático por garotas jovens. Se não fosse por Jongho, eu provavelmente teria me tornado sua escrava pessoal e ninguém mais saberia da minha existência.
E foi nesse misto de pensamentos sobre o passado que comecei a ouvir alguns barulhos suspeitos, parecia que havia pessoas andando alguns metros atrás de mim. Meu corpo gelou por um momento e parei minha caminhada, para analisar melhor se realmente eu ouvi direito ou era tudo algo saído da minha mente.
Silêncio. Botei a mão direita em meu peito e virei só um pouco a cabeça para trás, observando cautelosamente cada lugar. A iluminação dos postes não ajudava muito, já que ficava algumas áreas na penumbra, mesmo assim, não vi nenhum sinal de vida pelos locais onde passei. Será que realmente era só minha imaginação?
Minha respiração começou a ficar descompassada, o terror que eu tinha passado com aquele nobre me perseguindo todas as noites me deixava ainda mais assustada com a minha situação atual e, sem pensar direito, comecei a correr para tentar chegar o mais rápido em minha casa.
Nessa corrida, eu tropecei em uma pedra solta da rua e caí para frente, batendo meus braços no chão ao invés do meu rosto. Algumas lágrimas começavam a embaçar minha visão, a dor da queda começando a aparecer.
— S/N! — ouvi alguém gritar juntamente do som de passos apressados até minha direção. O desespero por um momento cessou por saber de quem era aquela voz. — Você está bem? Está toda machucada, o que houve? — a pessoa perguntou com um tom preocupado, se agachando para me ajudar.
Eu não consegui responder, apenas me levantei um pouco e dei um abraço apertado no rapaz em minha frente, o corpo tremendo ainda pelo medo que estava sentindo. — Jongho... — sussurrei baixinho entre alguns soluços.
— Está tudo bem, eu estou aqui... — ele sussurrou de volta no meu ouvido, me envolvendo com seus braços, fazendo com que eu me sentisse mais aliviada, aos poucos parando de chorar.
Ficamos mais alguns momentos daquele jeito até minhas lágrimas sumirem por completo, o pânico de antes diminuindo e dando lugar a um sentimento de paz ao ter meu querido irmão comigo. — Obrigada Jongho... — falei baixinho, agora me soltando de seus braços para encará-lo nos olhos.
— Ainda bem que eu vim te buscar mesmo você falando que não precisava... Imaginei que algo assim aconteceria por conta do horário — começou a falar enquanto me ajudava a levantar, ele realmente me entendia. — Nos próximos dias, não importa se estiver bem tarde, eu virei te buscar, certo S/N?
Mesmo a contragosto, eu concordei levemente com a cabeça. Não queria fazer meu irmãozinho ficar até tarde de madrugada acordado apenas para me buscar do trabalho, mas deixá-lo preocupado com meus ataques de pânico por pensar estar sendo perseguida novamente era pior.
Voltamos em silêncio até nossa casa, Jongho ficou de mãos dadas comigo o trajeto inteiro. Quando adentramos nossa residência, ele tratou minhas feridas por conta da queda e garantiu que eu iria direto pra cama após tomar um copo de leite quente. Fazendo eu adentrar no mundo dos sonhos mais calma, mesmo após tudo o que aconteceu.
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Algumas horas depois, quando o sol começou a nascer, eu acordei para me preparar para o trabalho que eu fazia de manhã. Minha rotina era acordar, comer algo, ver se Jongho ainda estava dormindo tranquilamente(já que ele iria para seu mentor algumas horas depois de mim) e seguir meu caminho para uma pequena loja de pães que ficava aberta apenas no começo do dia.
Fiz tudo que eu listei mesmo estando meio sonolenta, já que dormi poucas horas por conta do trabalho no bar. Olhei para fora da janela e vi os primeiros raios de sol surgindo, pensando em mais um longo dia de trabalho. Me preparei para sair e no momento em que coloquei meus pés para fora de casa, senti algo em minha nuca e minha visão escureceu.
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