Cemitério de Vespas
1 I-
Notas iniciais
Era impossível simplesmente fugir, mas eu podia tentar. Só que que não. O reflexo sempre dava um jeitinho sacana de me dedurar, as outras pessoas também iriam desconfiar, já que apesar de tudo eu não me enquadrava de forma alguma nos moldes normais. O tempo que fiquei trancada dentro de casa me fez ter uma pele fina como papel de seda, e desprovida da luz do sol, meu aspecto era como o de um fantasma, um fantasma podre, que nos dias atuais precisa tomar complexos e mais complexos de vitamina D. Os olhos grandes demais como de um alienígena eram demasiados azuis, quase brancos e em contato com a luz natural pareciam refletir muita coisa que eu preferia esconder.
Todos loucos, inclusive eu mesma.
— Sara, está pronta? -tia Mary, a doce Mary eu poderia passar o resto dos meus dias lhe pedindo desculpas ou simplesmente agradece-la novamente. Mary salvou minha vida, ela podia ter feito antes, mas acho que estava com medo, eu não a culparia, também ficaria. Mas ela estava de volta e parecia se sentir culpada de alguma forma. Seus olhos castanhos esverdeados como os dela carregavam sombras pesadas e pelo sorriso nos lábios curtos ela tentava ser o mais gentil possível, cada gesto seu era mecanicamente pensado, como se qualquer suspiro pudesse me traumatizar. Ela pigarreou, apertando a tranca da porta do quarto, chamando minha atenção para o mundo real -Então querida... pronta?
Não.
— Sim -tentei sorrir, mas pelo reflexo que notei no espelho fiquei mais parecendo a caricatura de um golfinho assassino. Eu ainda estava dando o meu melhor, aprendendo. A segui pelo corredor, apertando os olhos por ainda estranhar aquela casa. Toda aquela claridade que vinha de fora parecia abençoar os diferentes cômodos com pequenos fragmentos de sol, fazendo rastros de poeira voarem ao nosso redor. Tudo era muito claro, muito cheio de vida e também bagunçado. Estranhei que estava silencioso demais -Violet e Frank não vão com a gente?
— Eles vão um pouco mais tarde -mais tarde, olhei para o pequeno relógio perto do micro-ondas e constatei que realmente era bem cedo. O que eu ia fazer na escola a essas horas? As escolas funcionavam essas horas? Estava confusa e antes que abrisse a boca para relatar tamanha confusão, Mary me ofereceu uma maça, o que com agrado aceitei e continuou -O ônibus deles passam um pouco mais tarde, estou indo com você hoje porque preciso conversar com o diretor.
— Sim, mas eu irei no ônibus com eles também? -perguntei mordendo a maça e saindo para manhã. Aquela vizinhança era bem diferente da minha antiga, as pessoas aqui pareciam coradas e se cumprimentavam, havia até mesmo cachorros! Pulei para dentro do carro, o qual cheirava a pinho e me senti confortável de imediato, gostava do cheiro de pinhas.
Mary ajeitou os cabelos curtos no vidro, e se sentou, dando partida no seu velho Ford vermelho.
— Claro que sim... tudo bem para você? -ela tinha medo de que eu surtasse no ônibus, isso era quase engraçado, afinal o maluco era o Charlie, não eu.
— Claro, porque não.
O caminho todo foi bem silencioso e eu gostei disso, o rádio tocava uma música antiga, porém era o suficiente para preencher o pequeno ambiente com cheiro de pinho. As ruas eram todas serpenteadas por grandes árvores que me lembravam olmos gigantes, as pessoas começavam a acordar e os cachorros a latir. Minha parte favorita ainda eram os cachorros. Gostava de cachorros, de todos os animais no geral, bem diferente de Charlie. Nossas diferenças começavam aí.
O lugar onde ela parou parecia um pequeno aglomerado de prédios iguais, pintados de branco e com muitas árvores. O estacionamento estava vazio, e havia apenas algumas pessoas ali, fazendo a manutenção do jardim e outras limpando as escadas de entrada. Pulei do carro e segui tia Mary por entre os corredores, observando com atenção os diversos murais e armários. Nunca tinha pisado numa escola antes, meus estudos eram restritos a serem em casa e ponto final, aquilo tudo era um mundo completamente novo. Parei de frente a um grande mural de vidro, havia muitos troféus e medalhas, junto a foto de jovens sorridentes que não olhavam diretamente para câmera.
Um em especial me chamou atenção, na verdade seu nome; Alison Frederick Bowie. Sou bastante fã do David Bowie, ela tinha um pôster do Bowie no quarto, mas Charlie o roubou então é claro que aquele nome me chamou atenção, e eu também gostaria de ter Bowie como sobrenome. O garoto em si era esquisito, porém além de seu nome era ele e sua aparência andrógina que chamava atenção. Rosto fino com bochechas fundas, uma cabeleira castanha enorme e olhos verdes, levemente puxados para os lados. Minha imagem refletida em sua foto era quase um descaso, eu parecia um tipo de garota do poço morta perto de sua imagem de jovem sortudo.
Esperava fortemente que ele tivesse terminado os estudos, não estavam afim de encontra-lo por aí. Não tinha gostado dele.
Enquanto tia Mary conversava com o cara de bigodes (que na plaquinha se lia Diretor Terence Brava) fiquei sentada, calada, apenas observando, até que finalmente seus olhos de corvo se direcionaram para mim.
— Deve ter sido uma barra para você, não é?
— Nem tanto, apesar de meio maluca, minha mãe era uma ótima professora -pude sorrir orgulhosa, afinal era verdade. Minha mãe antes de cair adoentada das ideias era formada em pedagogia, isso serviu para que eu não fosse uma batata completa. Tia Mary parecia satisfeita e aliviada com isso também, mas o diretor apenas desconfiado.
— Sim, então podemos dizer que você apesar das circunstâncias está bem avançada nas matérias?
— Com certeza -disse com total convicção, ele assentiu em silêncio e anotou alguma coisa.
— Bem, vamos lhe observar de qualquer forma e se sentir perdida em qualquer coisa não ouse se acanhar, pode falar comigo ou com seus professores.
— É... diretor -minha tia começou, ela olhou para mim e depois novamente para ele, cruzando os dedos de forma nervosa sobre o colo — O que me preocupa mesmo é o convívio, Sara não é acostumada a... tantas pessoas.
— Tia, eu ficarei bem -tentei lhe dar um olhar animador, porém já era tarde, o diretor já estava me fazendo novas perguntas.
— Sara, você se sente desconfortável de alguma forma perto das pessoas? Pelo que soube era somente você e seu irmão... -ele pareceu que queria continuar falando, mas tocar no assunto —irmão- deve ter criado algum tipo de carranca no meu rosto, porque ele se calou. Tia Mary também pareceu um tanto desconfortável, apenas tentei parecer satisfeita com toda a situação.
— Eu ficarei bem -disse para ninguém em particular – E meus primos estarão aqui também, eles são amigos.
— Claro que sim -reforçou minha tia, então me advertiu -Fique com eles.
A conversa não durou muito tempo, o diretor depois ficou tentando saber coisas inconvenientes sobre minha vida, então tia Mary logo lhe cortou e estávamos liberados. No corredor ela parecia apreensiva, eu apenas nervosa porque ela estava me deixando assim. Alguns poucos alunos começavam a aparecer e ela suspirou, olhando exasperada para os lados.
— Tia, se acalme -sorri lhe dando um beijo nas bochechas -Vai ficar tudo bem, e também tenho a Violet com o Frank, estou segura.
— Certeza Sara? A gente pode tentar outro dia, sei que você tem sofrido uma pressão terrível nos últimos tempos e...
— Não. Quero que seja agora, eu estou bem.
Ela me analisou e me assustava como ela se parecia com a minha mãe, porém minha mãe tinha os olhos mortos, diferente dos brilhos ascendentes que se via nas órbitas de Mary. Ela por fim me abraçou.
— Certo, fique bem.
Eu ficaria, quero dizer... tentaria. Logo que ela se foi eu me vi sozinha naquele mar desconhecido cheio de rosto jovens, que esbarravam em mim e passavam direto. Ok Sara, essa é sua chance..., porém sentia o pânico que não era para existir se alastrando por meu corpo. Demorei para achar o banheiro e quando vomitei tudo que tinha comido (no caso uma maça) e meu estômago ficou dolorido.
Ora essa, sério. Bela maneira de começar sua nova vida.
Lavei a boca, me sentindo sufocar naquele suéter. Minha aparência ainda se assemelhava a de um fantasma assustado, que estava usando um suéter grande demais e um par de doc martens tão puídas que nem se quer mais pareciam ser azuis. Um pouco depois de ter saído daquele lugar tia Mary e Violet me levaram para um dia de garotas elas me compraram algumas roupas (eu ainda estava naquela de usar somente suéter) e me neguei em cortar as madeixas escuras, que nem estavam tão longas assim. Mas agora estava ficando maluca, por mais que quisesse me assemelhar a qualquer outra garota aqui, isso era impossível, por deus quem ainda usa suéter?
Ao menos em casa eu não precisava surtar, só precisava me preocupar com os surtos alheios.
Um grupo de garotas adentrou pelo banheiro, fazendo barulho e me fazendo tomar um susto danado, elas me encararam como se eu fosse uma barata mutante e passaram reto, aos cochichos. Que maravilha. As deixei para trás e sai dali.
Andava meio avoada, tentando encontrar os rostos conhecido de Violet ou Frank, mas nada. Me arrastei novamente, olhando para os papéis nas minhas mãos, ali estavam algumas coordenadas a serem seguidas e aulas da semana.
Então eu fui atingida, ou melhor, eu atingi alguém.
Já no meu primeiro dia em uma escola normal eu fui ao chão. Me senti batendo em algum tipo de muralha e puf, já era Sara. Apenas pisquei, ficando rapidamente de pé e vendo com um verdadeiro bolo no estômago as costas de quem eu tinha atingido, usava uma jaqueta de time onde estava escrito Bowie e tinha grandes cabelos castanhos soltos...
Poderia facilmente se assemelhar a uma garota, mas eu sabia que não.
Ah céus.
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