Cemitério Dos Anjos
1 Cemitério dos Anjos
O único som que quebrava o silêncio do trajeto até o Cemitério dos Anjos, naquela noite, era os dos passos de Estela no chão lamacento da estradinha de terra, que passava ao lado da floresta de eucaliptos. Ter saído de casa mais cedo parecia uma boa ideia agora que a garota de 16 anos olhava para o céu sem estrelas, mas carregado de nuvens escuras. Não iria demorar muito para despencar uma tempestade, mas já que havia percorrido mais da metade do caminho não adiantaria voltar, o jeito era seguir em frente. Estela precisava encontrar o livro que havia esquecido de manhã no túmulo de sua avó Laura, quando fora visita-la antes da escola.
Túmulos quebrados, estátuas de anjos deprimidos para todos os lados e um aspecto de abandono. Era essa a descrição que podia se fazer do cemitério. Achar o túmulo da avó não seria fácil naquela escuridão, mesmo para Estela que conhecia cada palmo e cada túmulo do lugar, por visitar sua avó quase todos os dias. A única luz que a menina podia recorrer além da iluminação natural da lua era a lanterna do seu Motorola que ganhara aos catorze anos quando já estava ultrapassado.
Desde que sua avó faleceu, Estela havia se tornado outra pessoa, a garota que já era considerada antissocial pelos colegas da escola, agora estava cada vez mais fechada. Perder alguém a quem amamos é sempre difícil ainda mais quando esse alguém foi quem nos ensinou a viver, pois assim continuar vivendo sem ela parece algo sem graça e vazio.
Após alguns minutos caminhando cemitério, o túmulo de sua avó estava lá, assim como o livro Sonho de Uma Noite de Verão, da aula de teatro que Estela fazia, todo molhado da chuva que havia caído durante a tarde. É o dia todo estava chuvoso.
Os relâmpagos ficavam mais fortes a cada segundo, o jeito era pegar o exemplar de Shakespeare e sair correndo dali antes que a tempestade começasse, mas quando Estela se abaixou para pegar o livro, um barulho de asas batendo entorpeceram os seus ouvidos, que nunca haviam escutado o som do bater de asas, mas foi algo quase que involuntário, que veio em sua mente para assimilar.
Zonza pelo som, Estela não conseguiria andar muito tempo sem cair, foi onde a garota optou por sentar na sepultura da avó até que a tontura passasse, mas o som continuava e mais forte. Era estranho como aquele som podia estontear a menina daquele jeito. A tempestade começava a desabar sobre o cemitério e sobre a garota que via o relógio marcando onze e quinze da noite. O que a deixou assustada e ainda mais tonta, parecia ser tão mais cedo quando saíra de casa.
A tempestade tomou conta do cemitério e a visão de Estela agora estava embasada pela água da chuva, mas permitiu com que ela avistasse um vulto negro atrás de uma das sepulturas. Uma forte dor de cabeça tomava conta de Estela devido à quantidade de água que caía sobre ela, junto ao medo de estar naquela altura da noite em um cemitério. Os olhos da garota estavam pesados e logo se fecharam adormecendo em cima do túmulo.
* * *
Enquanto Estela estava inconsciente, os vultos percorriam de um lado para outro do cemitério, como sombras, mas elas não tinham formas de humanos. Os relâmpagos continuavam assim como as batidas de asas. Uma nuvem densa de poeira se levantava.
Como era possível haver poeira se estava chovendo?
Pontos de luz começaram a se manifestar onde raios caiam, e perto de onde as sombras se moviam. Um exercito de luz e de sombras se formava no centro do cemitério e foi com um som ensurdecedor que uma batalha havia começado.
A Chuva parou por um instante, mas os pontos de luz se debatiam com as sombras e o som de bater de asas continuava. O que seria aquilo em um cemitério de uma cidadezinha pequena e pacata?
Por um instante um dos pontos de luz avistou Estela, em um instante a luz forte atingia o corpo da garota ainda adormecido em cima da sepultura. Perto dali a batalha no cemitério continuava entre as duas formas desconhecidas.
Os raios e relâmpagos aumentava, parecia que o céu estava em sintonia com o que estava acontecendo ali naquele lugar. Ficar ali inconsciente estava ficando cada vez mais perigoso para a garota, uma vez que aquelas formas não poderiam ser de humanos.
As formas de luz pareciam voar pelo céu escuro do Cemitério dos Anjos, elas tinha asas. As sombras negras não voavam e se camuflavam entre o escuro das sepulturas, mas também tinham asas, não como as formas de luz que brilhavam e cintilavam diversos tons de azul, elas eram neutras.
O ser de luz que estava perante o corpo de Estela, a agarrou e em frações de segundos os dois e adentraram na floresta de eucaliptos. Agora sem toda aquela ''poeira'' a forma apresentava suas feições perfeitamente.
* * *
Quando Estela abriu os olhos, sua visão foi logo atingida pela luz entorpecedora que estava sobre ela, mas conseguiu ver os olhos azuis que a fitavam. Ele queria protege-la. Estela podia sentir seus braços em suas costas a carregando, e quando ele a colocou sobre uma pedra, ela pode ver suas asas brancas e a luz ofuscante que elas exalavam. Não podia ser verdade a garota mesmo não acreditava no que via.
Estela estava perante um ANJO.
A garota nunca acreditara em anjos, mesmo com as histórias de que sua avó lhe contava sobre eles, mas agora um estava ali na sua frente, com suas longas asas na horizontal, mas enquanto a garota admirava o ser mitológico à sua frente a batalha não havia parado no cemitério. Da floresta era possível ouvir o barulho das explosões que aconteciam lá.
– O que você faz aqui no cemitério há essa hora? — O anjo sussurrava para Estela como que para não chamar atenção dos outros seres que batalhavam ali perto — Não pode ficar aqui isso é muito perigoso pra você.
O corpo da garota tremia tanto de espanto, que mal conseguia desprender as palavras da sua boca.
– Eu... Eu tinha vindo buscar... Um livro, mas acabei adormecendo por causa da tempestade.
– Tem que sair daqui o mais rápido possível, se eles te rastrearem, a situação não vai ser nada boa.
–Rastrearem? Quem é você e o que esta acontecendo lá no cemitério? — Estela não conseguia entender o que estava acontecendo.
Era como se ela tivesse em outro mundo.
– Meu nome é Miguel e como você pode ver sou um anjo, e aquelas explosões no cemitério é o inicio de uma batalha que vai durar a madrugada inteira, por isso você deve sair daqui.
– Quem pode me rastrear?
– Os anjos das trevas. Agora chega de perguntas, você tem que ir embora. Eles estão por toda a escuridão até mesmo aqui na floresta.
– E o que devo fazer para sair daqui? — A dor de cabeça não tinha passado.
– Fique aí Estela vou buscar alguém que possa te ajudar. Eu não posso deixar a linha de frente por muito tempo.
O anjo saltou da pedra que estava com a garota, batendo suas asas para alcançar voo e saiu em seguida pelo céu. Estela podia sentir que não era a única naquele local, vários vultos flutuavam pelos eucaliptos. Uma forte sensação de medo tomava conta dela. E como aquele anjo sabia seu nome?
Em seguida dois anjos pousaram na floresta Era Miguel e uma mulher anjo.
– Essa é Celeste, ela vai cuidar para que você saia daqui são e salva.
Celeste era alta e tinha um belo par de asas brancas como sulfite, mas pequenas em comparação as de Miguel.
– Estela não temos muito tempo — Ela também sabia seu nome — temos que sair daqui logo.
– Como vocês dois sabem meu nome? — Indagava Estela.
– Talvez porque nós todos nos conhecemos um dia, em algum lugar, em alguma vida — Miguel sorriu para a garota como se sempre tivesse a conhecido.
Vidas passadas? Anjos? Isso era mesmo possível?
* * *
Celeste pegou Estela pelo braço enquanto Miguel se preparava para alcançar voo, mas uma sombra negra se moveu entre os eucaliptos e todos pararam onde estavam, Miguel saltou em direção as duas envolvendo Estela em seus braços, a garota sentia-se protegida quando estava perto do anjo, mesmo com todo o sobrenatural que estava ao seu redor.
A sombra continuou se movimentando entre as árvores, os dois anjos evolveram suas asas em Estela.
–O que é isso? –Perguntava apavorada.
– Miguel parece que é tarde de mais, já rastrearam a garota — Celeste sussurrava para o anjo.
– Saia da escuridão quem quer que seja — Miguel gritava para sombra.
A sombra deixou a escuridão tomando forma sob um fino trecho de luz da lua que adentrava entre as árvores. Um anjo, não como os outros dois que tinham suas asas envolvidas na garota. Ele tinha as asas negras e seus olhos eram vermelhos. Esse devia ser um dos anjos das trevas.
– Parece que vocês não vão a lugar nenhum, principalmente essa garota — o anjo das trevas parou bem a frente dos três.
– Celeste pegue a menina e a proteja, eu cuido dele — Ordenou Miguel.
– Não é todo dia que um ser humano fica preso aqui depois da meia noite, essa é uma bela chance para que eu seja libertado.
– Você não vai usar ela — Miguel o encarava o anjo das trevas com seus olhos azuis, como se não fosse deixar que nada machucasse Estela.
Celeste pegou a garota pela cintura e abriu as asas, e deu um salto até o topo de um eucalipto.
– Aqui você estará segura os anjos das trevas não podem voar.
– O que ele quis dizer com sair daqui?
–É uma história muito longa, quando uma parte do exercito de anjos foi expulso do céu muitos de nós se tornaram anjos de proteção ou simplesmente continuamos com a luz ,mas alguns se revoltaram contra o céu e utilizaram o poder das trevas para invadirem o paraíso. O castigo para esses anjos foi perder a força de suas asas e não poderem mais voar. Eles também foram condenados a não voar e ficarem presos no cemitério e em toda a floresta ao redor.
Miguel saltou para cima do anjo que caiu no chão, mas logo se levantou pondo-se de pé. O anjo das trevas socou várias vezes o abdome de Miguel, esse que revirou um bem no rosto do adversário, que em seguida agarrou as asas de Miguel esfregando-as contra o tronco de um eucalipto. A asa liberava uma espécie de pó. Era isso a poeira do cemitério, era como se fosse o sangue que os anjos derramavam na batalha.
Estela continuava com Celeste no topo do eucalipto.
– E para que algum deles possa sair, precisam dominar o corpo de algum humano — Celeste parecia aflita pela luta de Miguel com o outro anjo.
– E o que é tudo aquilo no cemitério, aquelas luzes e estrondos?
– Quando sentimos que estava aqui viemos todos para cá, e quando nos juntamos é isso que acontece.
Os dois anjos continuava batalhando lá embaixo.
– Trevor desista! Você não vai conseguir possuir o corpo de minha protegida — Miguel se esforçava para falar, pois sua força estava toda contra o corpo outro anjo. Os dois lutavam igualmente.
Agora era Trevor quem prensava Miguel contra as folhas secas do chão da floresta. O protetor de Estela já se encontrava desgastado e fraco.
Vendo o estado do seu amigo Celeste desceu da árvore com a garota. Ela não podia deixa-lo brigando naquelas condições, mas um ataque de outro anjo veio de trás. Ele estava abrigado na escuridão da floresta para primeira oportunidade que tivesse. O pedaço de ferro ultrapassava a estrutura de uma das asas de Celeste que caia ao chão se retorcendo pela dor e o anjo feitor, já tinha tomado forma de sombra e se camuflado na escuridão novamente.
Com um empurrão Miguel afastou Trevor para longe de si e correu debruçado sobre o corpo de Celeste, que não havia mais luz como antes. Suas asas agora eram cinza. Uma lagrima escorreu dos olhos do anjo protetor que encostava seus lábios nos pálidos de Celeste.
Pelo visto eles não eram só amigos.
Estela admirava a cena típica dos filmes fantasiosos da Walt Disney, era como se aquilo tudo não fosse real, era como se tivesse sido transportada para tela de um cinema e aquilo não existisse mesmo, mas não ela estava ali e a cena era verdadeira.
Uma mão encobriu sua boca, era a de Trevor que a agarrara e agora a mantinha envolta em suas asas negras. Miguel estava ocupado de mais sofrendo com a morte de Celeste, e não viu sua protegida sendo levada da floresta de eucaliptos para o Cemitério Dos Anjos.
* * *
Do cemitério só restava os destroços, as estatuas em formas de anjo não estavam mais lá.
– Não se preocupe nada vai te acontecer, afinal você é a chave para eu ser libertado!
–Não pode possuir meu corpo. Miguel não deixará que isso aconteça! — Estela não tinha muita certeza do que afirmava.
– Acho que seu anjinho da guarda, esta muito ocupado, chorando pela morte de sua amada de séculos.
Séculos!
Um amor de tanto tempo havia sido destruído só porque Estela havia esquecido um livro no túmulo de sua avó. Um transtorno invadia a garota.
Um estouro de raios de luz explodiu da floresta. Era Miguel agora a frente de Trevor, mas o exercito de anjos de luz estava em desvantagem agora. Uma grande poeira tomava conta do cemitério.
Uma luz estonteante veio de cima. Uma nova frota de anjos vinha do céu. A batalha iria reiniciar.
Miguel voou para cima do anjo das trevas arrancando Estela de suas asas escuras como a de um corvo. O protetor de Estela arrancou um pedaço de tronco caído e perfurou as asas de Trevor, que começaram a queimar, até virar cinzas.
Os primeiros raios de luz começaram aparecer, o que fez com que o exercito das trevas virassem estátuas de novo.
A batalha estava finalizada.
Miguel pegou Estela no colo e impulsionou as asas, saindo em direção ao céu.
– Me desculpe pelo o que aconteceu com Celeste, se eu não tivesse vindo para cá...
– Não se culpe por isso!
Estela agora sobrevoava, adormecida, pela Cidade nos braços de Miguel à caminho de sua casa, com tudo aquilo que havia presenciado nessa noite épica era impossível continuar com os olhos abertos.
Quando os abriu estava em sua cama, enrolada em seu edredom roxo, e seu travesseiro macio. Então era isso tudo havia sido apenas um sonho, nada era real e dali três horas teria de ir para escola, mesmo que sentindo seu corpo dolorido. Estela fechou seus olhos e adormeceu novamente.
Enquanto a garota retornava a dormir, lá fora na árvore que dava para a janela de seu quarto, um anjo repousava suas asas protegendo os seus sonhos.
Fim.
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