Cemitério de Vespas
2 II-
Notas iniciais
Ele se virou, bem a tempo de ver eu virar meus calcanhares e sem nem mesmo um pedido de desculpas, escapuli dali. Podia sentir seus olhos verdes cravados nas minhas costas, e não consegui resistir e parei, respirando fundo e tentando lhe observar da forma menos constrangedora possível. Suas sobrancelhas em contraste com os cabelos eram bem mais escuras, o que deixavam seus berrantes olhos verdes em destaque, ele virou a cabeça de lado escutando algo que seu amigo ruivo cochichou e abriu um pequeno sorriso que lhe deixou com covinhas. Eu ainda estava paralisado ali, feito uma barata prestes a ser esmagada.
Desculpe. Consegui sussurrar, antes que me virasse e novamente levasse outro susto, mas dessa vez era apenas Violet.
— Ai SARA! -berrou ela apertando meus braços. Ela suspirou alto, levando uma das mãos ao peito -Me assustou garota, estávamos eu e Frank igual doidos atrás de você.
— Hãn... desculpe, estava no banheiro -disse um tanto constrangida, não gostava de ver essa preocupação toda, não por minha culpa.
— Tudo bem, vou só avisar o Frank que te achei e a gente vai para aula -ela puxou o celular e foi dedilhando enquanto me arrastava. Violet era uma garota alta e magrela, dona de um sorriso enorme e olhos castanhos muito claros. Era uma garota bonita, ao menos eu achava, usava toda sua altura para um bem maior; era jogadora do time de basquete feminino. Estava hoje enfiada num conjunto cinza e tinha os cabelos pretos presos num rabo de cavalo. Já Frank por outro lado era idêntico a irmã, eram gêmeos afinal, porém ele fazia boxe. Os dois me tratavam como se eu fosse quebrar a qualquer momento, apesar de fazer questão de espantar toda aquela preocupação desnecessária.
Estava ficando cansada de tantos olhares protetores na minha direção, o da minha mãe já foi demasiado sufocante.
— Vamos ter aula juntas? -perguntei quando entramos na sala pintada de verde, ela se sentou folgadamente na carteira ao lado da janela e assentiu. Desligando o celular e focando seus olhos e mim.
— Sim, ao menos as três primeiras aulas -ela então tocou minha bochecha com uma das unhas pintadas de vermelho -Mas não se preocupe, eu e Frank estamos por aí, é só nos chamar se precisar de algo.
— Eu sei e agradeço, mas de verdade Violet... sem superproteção, estou tentando me reinventar.
Ela apenas riu, bagunçando meus cabelos.
— Eu sei queridinha, mas é meu instinto proteger ainda mais do Frank, ele é um lutador -ela então pareceu pensar em algo -Sabe, acho que você deveria achar algum clube, vai ser bom para te distrair, você nos últimos meses só ficou trancada dentro de casa.
— Eu sempre fiquei trancada dentro de casa -fiz questão de lhe lembrar, porém ela não pareceu se abalar.
— Eu sei e por isso mesmo, está na hora de sair de dentro da casca Sara.
E ela não parecia ser a única a pensar assim...
Durante os minutos que se seguiram eu estava entediada. O professor sempre que terminava de explicar fazia questão de olhar na minha direção e perguntar para classe se alguém tinha alguma dúvida. Eu começava a achar que o pessoal daquela escola desconfiava que eu era burra, porém fiz questão de provar o contrário. Eu já tinha lido aqueles livros e aprendido aquelas matérias. Por isso estava entediada.
Então quando Violet teve suas outras aulas eu estava sozinha, o que não era assim tão assustador já que eu sempre vivi sozinha, porém ali era esquisito pois eu sentia olhos a me observar, apesar quase ninguém demorar seus olhares curiosos em mim, ainda sim era ruim.
Isso é, até que alguém me tira do meu estupor.
— Sara Fishman? -ergui meus olhos lentamente, observando com uma das sobrancelhas arcadas um garoto. Ele era diferente de Frank, bem diferente- baixinho e um tanto gordinho, olhos puxados e cabelos muito escuros, cortados perfeitamente chanel perto das suas orelhas. Tinha um olhar escuro curioso, delineado pelo que parecia ser um tipo de delineador azul escuro e nos lábios trazia um sorriso curto, quase jocoso.
— Sou eu -disse por fim, ele sorriu ainda mais. Puxou uma das cadeiras vagas e ficou ao meu lado, brincando com uma caneta com estampa do Snoopy. Ele usava um macacão verde com uma blusa estampada por baixo.
— Seus olhos são diferentes, mas diferentes de bonitos tá -ele sorriu, então pigarreou -E bem, sou Andy, o coordenador do clube de artes visuais e o diretor Terence me recrutou para convida-la a participar do clube, ele disse que você precisava se habituar e o que melhor que um clube de artes visuais!
Sabia que o diretor do bigode estava aprontando alguma! Suspirei, Violet também concordava com isso e eu tinha certeza que Frank e tia Mary também. Não estava afim de desapontar meus únicos familiares e pensando bem, artes ainda era melhor da qualquer coisa que envolvesse esportes.
— Tudo bem, acho que pode ser legal -menti descaradamente, ele apenas soltou um uhu e apertou meus ombros.
— Bem, no intervalo a gente conversa, professor Diogo é bem chato.
Tudo passou como num sonho, e eu não pude pensar com clareza se tinha gostado da experiência ou não. Mas estava cansada, isso era fato. Quando finalmente o sinal para o intervalo soou eu estava aflita para encontrar Violet e Frank de uma vez, porém o garoto baixinho me encontrou primeiro.
— Hey Sara, vamos conversar rapidinho -ele me arrastou até uma pequena sala, e quase que tive um treco ao perceber que havia ali outras pessoas, inclusive... Bowie? -Pessoal... HEY! -vendo que todos os olhares estavam em nós, ele começou de novo -Essa aqui é a Sara, nova participante do grupo.
Todos aceneram para mim e eu apenas fiz um pequeno gesto com a cabeça. Eles não pareciam muito interessados em mim, na verdade estavam discutindo sobre alguma coisa, e logo puxaram Andy para a conversa. No fim o único que mantinham seus olhos em mim era o garoto de cabelos grandes que acenou, me chamando.
— Sara, certo? -perguntou quando me aproximei, sua voz era suave e um tanto animada. Ele estava sentado com as pernas cruzadas, os jeans escuros davam um contraste curioso com o par de all star amarelos encardidos. Os cabelos grandes estavam presos em um rabo de cavalo frouxo, os olhos verdes me analisavam, com uma das sobrancelhas levantadas -Acho que foi você que quase me arrancou os pulmões hoje de manhã, certo?
— Mas nem que você fosse uma formiga -disse para defender o tamanho colossal da minha força, porém ele apenas riu baixinho e eu franzi o cenho, impossível não estranhar ou reparar -E você faz parte do clube de artes visuais?
Ele fez uma careta engraçada, tirando as mexas claras que insistiam em cair frente aos olhos.
— E porque não? Não tenho cara de hum... artista? -ele mesmo pareceu estranhar a própria fala, mas não era isso.
— Não, mas essa jaqueta aí, meu primo tem uma igual e fica se exibindo por todo canto com ela, e ele não faz parte de nenhum outro clube que não seja o de boxe.
Ele arregalou os olhos.
— Quem é seu primo?
— Frank Willians -disse por fim, ele arregalou ainda mais os olhos, rindo em seguida.
— Sei quem é, irmão da Violet... vocês não são nada parecidos -disse por fim, então se esticou todo como um gato preguiçoso -Mas bem observado da sua parte, faço parte do time de basquete, o capitão -sorriu ele orgulhoso de si mesmo -Estou aqui porque estão fazendo um “documentário” sobre a gente e né, me chamaram para alguma coisa
— EXATO -sorriu grande Andy, parando ao nosso lado com uma prancheta em mãos -Sara esse aqui é o Alison tá, ele não se apresenta porque acha que todos são obrigados a conhece-lo ou ficar parado na frente do mural de troféu para achar seu nome ao lado de algumas medalhas.
— Hey -cortou o garoto fazendo uma careta azeda, dando de ombros logo em seguida e piscou para mim -Não sou assim todo convencido e algumas medalhas Andy, ALGUMAS, que afronta.
E eu também não iria admitir que fiquei sim lendo o nome dele, mas isso era outra coisa. Andy estava tagarelando novamente.
— Bem, ótimo que vocês tenham se conhecido, pois vão trabalhar juntos -antes que eu perguntasse o porquê ele foi falando novamente -Conversei com seus primos e o próprio diretor Terence, ao menos seus familiares me falaram que você é ótima para escrever e...
— Falaram é? -questionei intrigada, mas ela pareceu não se importar com minha curiosidade e nem com os olhos confusos de Alison que parecia mais perdido que eu, e olha que eu sou uma novata ali.
— Como escreve bem e Alison é o capitão, tcharam! Quero que você Sara, escreva tudo o que essa ameba faz na quadra.
Alison cruzou os braços, cerrando os olhos para Andy.
— Olha as ofensas sua calopsita colorida... AI -eu tive de rir do tapa que ele recebeu e bagunçou totalmente seus cabelos, o garoto bufou.
— Seu poste cabeludo, af tenho pena de você Sara -ele disse apertando meus ombros, então sorriu de forma cautelosa – Bem, é isso e temos o prazo para fazer tudo até mês que vem, então consiga tudo dessa girafa que faz permanente.
Alison fez uma careta.
— Eu ainda estou aqui, não sou somente um rostinho bonito.
— Não mesmo, prefiro o ferruge -disse ele em um suspiro, fazendo Alison soltar som de vômito, ele apenas deu de ombros -Enfim, posso contar com vocês dois?
— Para mim tudo bem -disse por fim, afinal eu podia fazer o que?
— Por mim também -Alison sorriu, em um salto ficando de pé e me dando um peteleco de leve na cabeça -Vamos ser grandes amigos!
Vamos? Aquilo tudo ficava mais esquisito a cada momento
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