Notas iniciais
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Ele não sabia dizer quando a estante deixou de ser apenas um móvel e passou a pesar como um corpo inteiro dentro da sala. Talvez tenha sido depois do primeiro emprego fixo. Ou quando as contas começaram a chegar antes mesmo dos aniversários. Ou ainda quando percebeu que o tempo não se alongava mais à sua frente — apenas escorria como areia. Tragicamente finita.

— Talvez… — sussurrou, a frase nunca tendo um fim.

O olhar encarava os livros, eles que ocupavam quase toda a parede. Alguns estavam tortos, outros encaixados com esforço, como se tivessem sido colocados ali às pressas, num momento em que ainda acreditava que voltaria para organizá-los com calma.

Muitos eram da adolescência: capas gastas, nomes escritos à caneta na primeira página, anotações marginais feitas com alegria inocente. E ele lembrava exatamente de quem era quando os comprou. Lembrava do quarto apertado, das madrugadas roubadas do sono, da sensação quase febril de descobrir mundos e pensar, com uma convicção ingênua e absoluta: eu também quero fazer isso.

Eu quero viajar através das frases, dos textos, dos personagens…

Em algum momento, a epifania veio. Ou era um incentivo banal de amigos. Ele não se lembrava como, mas sabia que tinha começado.

Entre os livros, escondidos como vergonhas silenciosas, estavam os blocos de notas. Alguns tinham capas desbotadas; outros ainda cheiravam a papel antigo. Ele nunca teve coragem de jogá-los fora. Também nunca teve coragem de abri-los por muito tempo.

Ali… estavam histórias que começaram com entusiasmo e morreram por exaustão de não encontrar um final apropriado — no fundo, ele não queria que tivesse fim. Personagens que ganharam nomes, traços, famílias, amores, conflitos — mas nunca um destino.

Arcos foram interrompidos no meio, como se algo tivesse arrancado a caneta de sua mão.

— Eu fui tolo… ou otimista demais…

Naquela época, escrever não era um esforço. Era uma necessidade quase física. As ideias vinham de surpresa, ocupavam a cabeça com cenários e possibilidades de mundo, atrapalhavam o sono com diálogos e personagens desesperados para existir. Pessoas de fora pensavam que ele era doido por acreditar que aqueles mundo existiam, que tinham vontade própria e ele escrevia porque precisava, porque não sabia fazer outra coisa com aquilo que sentia.

Acreditava com tanta naturalidade, como se o papel tivesse vida em suas mãos e o tempo sempre estivesse ali, esperando. Que os sonhos não tinham prazo de validade. Que a vitalidade da juventude permaneceria mesmo depois que a vida adulta viesse com suas responsabilidades.

No entanto… abrir os olhos para a realidade era muito mais custoso do que fechá-los.

Ele suspirou, se aproximando com cuidado, quase timidez por revisitar aquele fragmento de uma vida tão distante do agora. Deslizou os dedos pela lombada de um livro que já havia sido seu favorito. Lembrou-se de ter chorado com aquele final. Lembrou-se de ter fechado o livro com o peito apertado e pensado que queria provocar aquilo em alguém um dia. Queria ser responsável por aquele nó na garganta, por aquele silêncio depois da última página, por trazer um padrão de amor e respeito nunca vistos.

Era só que o mundo não perguntou o que ele queria.

Vieram os caminhos paralelos, as escolhas pragmáticas, os “só por enquanto”. Vieram as responsabilidades, os compromissos, a exaustão que não parecia passageira. Escrever passou a ser adiado com a promessa de um amanhã que nunca chegava. As histórias continuaram ali dentro dele — observando silenciosas, íntimas de seus maiores desejos, guardadas como algo precioso demais para ser tocado por suas mãos enferrujadas.

Agora, adulto, ele entendia.

Não se odiava por ter parado. Não se chamava de covarde. A vida tinha sido dura, e ele tinha aprendido a sobreviver. Ainda assim, havia uma tristeza muito mais específica naquela constatação: ele tinha sobrevivido apesar de um sonho, não com ele.

— Sinto falta… — admitiu, rindo sem graça.

Os olhos arderam sem aviso. Lágrimas salgadas se derramaram, embaçando os vários nomes na prateleira. Um cansaço o percorreu, tombando os muros que pensou serem fortes. Ele piscou devagar, permitindo que caíssem mais, que expusessem a fragilidade em seu coração — do seu eu jovem.

E ele não limpou nenhuma delas. Não havia mais ninguém ali para vê-lo fingir força.

— Me perdoe… — sussurrou para si, para aquele que estava escondido nas amarras das obrigações.

Não havia respostas além do calor úmido em suas bochechas.

Devagar puxou um dos blocos de notas, abrindo-o com receio. A letra era sua, mas parecia pertencer a outra pessoa. Mais jovem. Mais sonhadora. Um riso fraco escapou, a leitura rasa trazendo cada memória, as ideias do que faria e como faria. Mas à medida que folheava chegava as partes mais em branco ou caóticas de resmungos de algo que merecia ser escrito pela raiva. Era quase um diário — relatos do fim da ingenuidade.

E entre tantos rabiscos e frases soltas, chegou a última página escrita, dobrada com cuidado. Uma única frase ocupava o centro do papel, escrita em pura angústia, como se fosse uma verdade absoluta e apenas com uma data antiga no canto — 07/07/2007.

Sua voz ecoou no espaço, embaçada pelo choro, pelas emoções que se moviam tal qual um redemoinho — saudade, tristeza, um toque de arrependimento.

Minha estante de livros é um cemitério de pessoas que eu nunca conheci, mas amei mais que tudo.

E que agora… não posso mais encontrá-las.

A frase soou diferente agora. Mais pesada. Mais honesta. Ele entendeu, enfim, que não falava apenas dos personagens que leu. Falava também daqueles que criou e que nunca deixou de viver plenamente. Mas também falava de si mesmo, daquela versão que acreditava que o futuro era uma promessa gentil.

— Eu posso… vocês me permitem revê-los agora?

A pergunta deixou um eco entre os livros, e mesmo que nada mágico tenha acontecido, ele quase podia sentir o cheiro de chá nas montanhas, ouvi as risadas dos fantasmas, os flertes ousados dos demônios raposas e uma voz singela sussurrando algo.

Talvez “seja bem-vindo de volta jovem mestre”. Ou “Você demorou tanto para voltar que as crianças já se tornaram adultos com famílias”. Ou só um “não precisa fazer cerimônia, essa é sua casa também.”

— Eu não prometo, mas… — Ele sorriu, fechando o bloco com cuidado e apoiando-o de volta na estante. — Irei devagar — sussurrou, o olhar carregando um novo brilho nas íris âmbar.

O coração, mais leve. E, pela primeira vez em muito tempo, não sentiu vontade de se afastar. Ficou ali, em silêncio, encarando aquele cemitério íntimo, pensando como ali havia mais vida do que jamais teve em seus dias. A sensação de voltar a fazer parte, mesmo que sutilmente, da vida de seus personagens, trazia o conforto de tentar pegar a caneta novamente e rabiscar algo.

Uma frase.

Um parágrafo.

Um trecho de um poema.

Um nome de um personagem.

Uma palavra.

Isso bastaria, um começo….

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!