Cem Anos Depois
16 XVI - O Rouxinol
Notas iniciais
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Aurora começou à subir a montanha logo após o cair da noite com o véu da escuridão cobrindo seu ser. A neve em nada facilitava o progresso da sua busca por Cinderela, ainda mais quando essa cobria o chão que aos poucos ia passando de terra para pedra. As árvores aos poucos iam se tornando escassas, e os rios que seriam sua única fonte de água estavam cada vez mais gelados e empedrados conforme à subida.
As frutinhas nos arbustos então, estavam parecendo pequenas britas de tão duras. Não se via um único ser vivo no caminho, apenas estátuas de gelo de alguns pobres coitados que não escaparam do granizo maldito. E também haviam alguns... bonecos de neve?
Sim, alguém tinha montado vários homenzinhos de neve com braços de graveto e botões e olhos de pedra basáltica. Se eram algum tipo de indicação ou se estavam ali aleatoriamente Aurora não sabia dizer e também não tinha tempo para investigar. Cinderela precisava de sua ajuda.
Seguiu por entre árvores sem folhas e com gotas congeladas, como haviam visto na “entrada” do reino. Não percebeu quando, mas se viu seguindo um rastro de pegadas arrastadas quase apagar na neve. Pelo tamanho pareciam de homem, mas era difícil dizer.
Já a sua espada não parava um segundo em silêncio. O frio descia da montanha em rajadas de vento gelado que ao tocarem sua lâmina começava a chiar enlouquecidamente. Parecia ser uma oposta ao frio, pois ao encostar no gelo o mesmo era cortado como a uma folha de papel. Era como se esta fosse quente, mas não, era tão fria quanto a neve.
Aos poucos uma densa neblina foi tomando conta do local, impossibilitando a visão do caminho a um palmo há sua frente, porém ainda era perceptível, mesmo que fracamente, as luzes do castelo de gelo no pico da montanha. Era seu único ponto de referência de que estava indo na direção certa.
A neve começou a se tornar mais grossa conforme avançava, deixando o caminho já difícil em um estado ridículo de perigo. Aurora pensou em usar a espada para que derretesse a neve e facilitar a subida, mas o medo de abaixo ser uma geleira a fez repensar e desistir da ideia.
Não que aquilo fosse lhe impedir de prosseguir, longe disso, mas estava ficando chato subir daquele jeito. O frio naquele momento parecia atravessar seu casaco e congelar a espinha, e seria ótimo algo para se aquecer. Era muito desejar uma fonte termal, afinal de contas?
E como se num passe de mágica, uma luz tênue laranjada começou a transpassar a neblina, chegando aos olhos da princesa.
Conforme foi se aproximando do lugar em que brotava aquela luz a névoa foi deixando de ser condensada para virar uma fina garoa gelada. Um fino shhh era ouvido cada vez mais alto, e dessa vez não era a espada que produzia o som.
— Fogo – murmurou com os lábios roxos e quase congelados.
Uma cabana apareceu entre alguns pinheiros e arbustos cobertos de geada e neve, uma fogueira mantinha-se erguida com esforço enquanto as gotículas de água evaporavam ao tocar nela. Através de uma pequena janela era possível ver algumas sombras se movendo.
Pensou em se aproximar, mas parou quando a hipótese de ser confundida com a terrível rainha de gelo a fez retornar a escuridão, fora do alcance da luz e do calor do fogo.
Tão perto, e ao mesmo tempo tão longe da sua salvação para não morrer de frio. Temia ser vista ao mínimo movimento, mas se permanecesse parada aí sim que sua morte estaria concretizada.
Com dificuldade foi até a parte de trás da cabana, onde encontrou várias carcaças que pareciam ser de renas, mas as ignorou. Provavelmente foi de onde quem quer que estivesse na cabana retirou seu alimento e agasalho.
Observou os fundos do lugar. Completamente escuro, havia somente uma porta de onde passava um feixe de luz fraco e um leve vapor de água escapava pelas frestas. Encostou uma orelha na parede, e ao constatar somente o silêncio lá dentro, ergueu a espada e com uma leve batida no trinque o mesmo derreteu, abrindo a porta.
Abriu a passagem e uma onda de vapor quente veio no seu rosto, dando um leve choque térmico com o ambiente gelado do exterior. Adentrou o lugar vagarosamente com medo de ser notada, mas não escutou nenhum a movimentação em sua direção.
Estranhando, olhou através do vidro na porta que dava para o cômodo da frente da cabana. Sua testa se franziu ainda mais ao não ver ninguém, e os olhos se arregalaram ao perceber a entrada da frente aberta e passos que iam em direção à lateral da cabana.
Rapidamente se virou para trás a tempo de ver três pares de olhos brilhando em meio à névoa quente.
— Finalmente você resolveu aparecer. – sussurrou uma voz velha nas sombras.
— Olha... eu sei quem vocês pensam que eu sou... – gaguejava, atrapalhando-se por conta do medo – Mas eu não sou quem procuram.
— Acha que é a primeira vez que vemos esse truque de mudança de corpo? – rebateu a voz repugnante – Você pode estar com a aparência mais jovem por causa da magia, mas continua a mesma monstra de sempre!
A lâmina de uma machadinha de lenhador brilhou cortando a névoa por cima da cabeça de Aurora. Esta se jogou no chão e sentiu sua espada reagindo aquela neblina como uma cobra sibilando. Observou uma vasilha cheia de água no canto e se jogou naquela direção.
Os homens adentraram o local seguidos somente pelo vulto da princesa que se tornava cada vez mais nítido. No momento que uma mão ia agarrar seu pescoço, Aurora puxou a espada da bainha e mergulhou na água. O barulho de mil serpentes em agonia preencheu a sala junto com uma onda nebulosa ainda maior.
— Onde ela esta?! – gritou o velho (porém ágil) homem.
Cambaleando e tropeçando nas coisas, Aurora saiu porta à fora, fugindo montanha a cima enquanto uma nevasca cobria suas pegadas.
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— Me diga madame... Tremaine, como pretendes fazer este plano dar certo? – perguntou uma das fadas sombria disfarçada de garota.
— Simples minha cara – respondeu a velha mulher acariciando seu gato – Hoje à noite haverá um baile na corte real do Príncipe Encantado, e vossa meia-irmã pretende ir em tal festividade.
— Então... devemos impedi-la? – perguntaram as supostas irmãs em uníssono.
— Lógico que não, tolas! – o gato grunhiu paras duas – Deixemos que a menina vá, embora deva parecer que não queiramos.
— E como diabos faremos isso?
— Simples – bebericou um pouco de chá – Vamos destruir toda a esperança dela no primeiro momento, deixaremos ela decepcionada até mesmo com os deuses, para então meu plano funcionar.
Levantou-se e foi até o espelho, desfazendo momentaneamente o feitiço de glamour e revelando sua aparência maligna por baixo daqueles panos negros. O gato em seu colo deixou de set felino para virar um pintassilgo negro de grandes olhos vermelhos.
— Sabemos quem é invocada quando algo assim acontece, certo? – olhou para as garotas atrás de si através do espelho. Duas sombras negras como tinta de lula apareciam em seu lugar. Olhou para trás com os olhos brilhando em poder.
— A Estrela Azul – responderam.
— Mais conhecida como Fada Madrinha – um sorriso malicioso brotou em seus lábios – Será a noite perfeita para Cinderela! O baile, o Príncipe... tudo maravilhoso – pegou um porta-joias redondo e começou a dançar pelo quarto – Mas nem mesmo a magia da Fada Azul dura para sempre, então ela fugirá!
Magia Negra – porém verde – flutuou dos cantos do quarto até o centro, onde as fadas e o corvo assistiam a encenação do plano de Malévola. A magia tomou forma de uma garota em um vestido longo e rodado correndo as escadarias do Castelo.
— Voltará para casa – a mansão Tremaine apareceu no campo de visão, a garota já em vestes esfarrapadas correndo para as portas dos fundos – Ela chegará alegre e saltitante, pensando que ninguém sabe de sua fuga. Seu coração estará novamente repleto de amor e esperança. Mas eu a aguardarei aqui, e então...
— Então..? – perguntaram curiosas.
A bruxa estendeu o porta-joias vermelho, deixando no campo de visão de todos os presentes. Sua mão em volta dele o apertou até ele ficar em pedaços.
— Eu esmagarei seu coração! – areia vermelha escorreu entre seus dedos e uma risada maligna estourou no cômodo.
— Senhora? – perguntou Cinderela entrando no quarto. Seus olhos arregalaram-se diante da cena: sua madrasta estava esmagando uma caixinha redonda enquanto ria para suas filhas que em nada reagiam. Como a garota ainda não acreditava em magia, não conseguia enxergar o que realmente acontecia ali – Quer que eu limpe isso?
Os quatro rostos se voltaram para a gata borralheira. Tremaine retomou sua compostura e jogou o que restará do porta-joias no chão – Hã... Sim! Limpe isso já! – foi até o piano e estalou os dedos – Desde o começo meninas..!
Cinderela saiu do quarto para buscar uma vassoura e só pode ouvir os silvos de horror do gato Lúcifer pela má cantoria naquele cômodo – Ninguém merece – sussurrou e desceu as escadas.
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Aurora continuou subindo a montanha enquanto enfrentava aquela forte nevasca. Seu roupão de lã azul se debatia com o vento e sua espada quase foi perdida duas vezes. As árvores balançavam de forma assustadora lançando neve para todos os lados e as vezes acertando a garota.
Os únicos não afetados pareciam ser os bonecos de neves por ali espalhados. Pelo contrário, parecia que a tempestade de neve fazia surgir mais deles a cada minuto. Pareciam até um exército de andantes gelados.
— Francamente – reclamou pela vigésima vez tentando segurar seu capuz na cabeça – Não podia ser o poder do verão eterno com areia branca e quentinha? – desenterrou um de seus pés que haviam afundado na neve.
Continuou avançando entre as nuvens até que algo estranho aconteceu:
Uma gota preta reluzindo em faíscas multicoloridas caiu bem na sua frente, congelando ao entrar em contato com a neve. Franziu as sobrancelhas e se abaixou para toca-la, mas ao fazer isso seus dedos queimaram – Ai!
Retesou o braço e observou a ponta do indicador que fora chamuscada em algo que devia estar abaixo de -20C°! Se já não fosse estranho o suficiente, as nuvens simplesmente sumiram enquanto vozes foram ouvidas vindas do céu.
— Oh não, acho que fiz algo errado – uma voz fina de criança sussurrou. Aurora intrigada olhou para cima e quão grande não foi seu espanto ao perceber um rosto formado pelas auroras astrais. Um menino de olhos grandes com um urso na mão olhava para baixo de forma assustada.
— Calma Miguel, deixe que Wendy vai resolver isso assim que acordar. – Um outro garoto, dessa vez mais velho e de óculos surgiu, confortando o primeiro.
— Mas ela já devia ter acordado à um tempo, João. – balbuciou o garotinho.
— Ontem foi um dia cheio, ela só deve estar cansada. Vamos, deixe isso para lá – o maior puxou o menor e ambos sumiram, deixando apenas as auroras verdes colorindo o céu estrelado.
Aurora ficou quase dez minutos estática, de boca aberta pelo o que tinha visto e ouvido ali – Isso tudo deve estar me deixando louca – balançou a cabeça tentando convencer a si mesma de que fora tudo um sonho de uma mente cansada.
Olhou o horizonte iluminado pelas suas colegas no céu e arregalou os olhos. Um castelo de gelo reluzia esplendoroso em várias tons de azul e verde a menos de dez quilômetros montanha acima – É melhor ir andando, antes que mais coisas esquisitas aconteçam. – E foi-se salvar Cinderela.
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Cinderela voltou o caminho até os fundos de sua casa saltitante e alegre. Havia realizado dois sonhos aquela noite: ver os fogos dos bailes reais de perto e encontrar o amor de sua vida. Não a importava se o rapaz fosse ou não o príncipe, ele havia conquistado, concertado e aquecido seu coração como há muito tempo não sentia.
O sapatinho de cristal brilhava em sua mão como uma prova de que tudo que acontecerá fora real. Bendita tenha sido aquela bondosa fada que aparecera para lhe ajudar.
Contente com a noite, colocou a mão na maçaneta da porta dos fundos para adentrar em casa, mas a mesma foi puxada sendo aberta rapidamente. O sorriso no rosto da gata borralheira se desfez e agilmente as mãos foram para as costas escondendo o sapatinho. Parada sob o batente, estava sua Madrasta.
— Boa noite, Cinderela. – os lábios da mulher se curvaram de um modo maldoso e malicioso – Linda noite para ir à um baile, não achas?
— Sim, senhora – sussurrou de cabeça baixa.
— Ora minha querida, anime-se! Foi seu primeiro baile e ainda com direito à dançar com o Príncipe! Por que tão melancólica? – colocou um dedo sob o queixo da garota levantando seu rosto.
Como a enteada não respondeu, Tremaine continuou.
— O que? Você achou que eu não queria que fosse ao baile? – riu da cara de desnorteada da menina, mas logo seu rosto se fechou numa carranca – Seu eu não quisesse que tivesse ido à essa festa eu teria feito muito pior do que apenas rasgar seu vestido!
Cinderela arregalou os olhos assustada quando a velha levantou uma das mãos em garra e lançou-a em direção ao seu peito. Assim que as unhas compridas e afiadas tocaram no peito da moça uma energia azul fez com que ricocheteasse para trás. Um grito de dor escapou da garganta da mulher ao sentir seus dedos serem cozinhados.
— Um feitiço de proteção? Como conseguiu?! – rosnou para a garota.
— Não foi ela – olhou para trás e viu as suas supostas filhas se desfazerem em sombras tornando-se novamente fadas minúsculas e negras – Fomos nós!
— O que?! – perguntou incrédula.
— Nós sempre fomos a preferida da Sino até você aparecer, Malévola!— disse uma.
— E por isso decidimos estragar seus planos colocando uma poção de proteção com um fio de cabelo da garota para que você nunca pudesse machuca-la – completou a outra.
— Quem é a tola agora?! – provocaram em uníssono.
— TRAIÇÃO! – trovejou de raiva Tremaine, fazendo seu feitiço de glamour se desfazer na frente de todos, incluindo Cinderela. O gato Lúcifer veio pulando escadas abaixo até que se transformou em Diaval, o corvo.
— Ah! – gritou Cinderela de pavor e saiu correndo para o jardins nos fundos da mansão, onde tropicou em uma pedra e caiu no chão. Bateu a cabeça e desmaiou.
— Eu vou reportar tudo o que aconteceu à Sino, e vocês se arrependeram disso! – um raio caiu sob os pés da bruxa fazendo com que chamas verdes brotassem do chão e a engolissem.
As duas fadas negras deram as mãos e começaram a brilhar, se transformando logo depois na Fada Madrinha de Cinderela.
— Uui! Como me dói as costas me separar em duas! – reclamou esticando os músculos. – Bem, vejo que meu trabalho aqui já esta pronto e...
Olhou para além da porta dos fundos e viu Cinderela, caída no chão.
— Oh, pobre criança – abaixou-se ao lado dela e tocou sua testa – Sorte que eu protegi seu coração, pois ele não é tão fácil de enganar como a cabeça.
Passou a mão sobre a testa da garota liberou suas lembranças. Estendeu o feitiço à todos do reino, aprisionando-as em uma pedrinha roxa. Sussurrou um Bibidi Bóbidi Bum e logo já era dia e Cinderela não estava mais no chão desmaiada.
Ao contrário, ela saia da porta da mansão de seus pais de mãos dadas com o Príncipe Encantado enquanto hologramas de sua madrasta e meias-irmãs observavam seu final feliz acontecendo.
Suspirou aliviada de pelo menos ter conseguido estragar um dos planos das fadas sombrias, mas tinha a sensação de que mais coisas estavam para acontecer em breve.
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O Sol começava a mostrar seus primeiros raios de luz quando Aurora chegou na frente do Castelo de Gelo. Suor frio escorria de sua testa e sua espada chiava na bainha, pronta para entrar em ação.
— Pronta? – perguntou para ninguém em especial – Vamos brincar na neve.
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