Cem Anos Depois
6 VI - Sangue de Caneta
Notas iniciais
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Acorrentada. Presa em uma cela tão imunda que nem disso merecia ser chamada. Aquela bruxa, aquele demônio com chifres e pele verde, quando me libertasse não iria receber o meu perdão. Nem ela nem ninguém que estivesse envolvido nisso!
Bom, isso se eu conseguir me lembrar quem realmente eu sou, ou era. Já tive tantas personalidades nesse lugar chamado Floresta Encantada — outro local que não merece o nome que tem – que não me recordo da minha verdadeira identidade.
Lembro-me como se fosse ainda nessa manhã, eu estava brincando com meus irmãos e outros garotos em bosque lindo e – verdadeiramente — encantado. Chamávamos a brincadeira de “Pegue o Vagalume”; realmente o caçula da família não conseguira processar os acontecimentos recentes, mas não importava, estávamos nos divertindo muito, até que algo aconteceu.
Eu recebi um aviso do garoto mais velho que nos acompanhava com seus amigos – Não chegue perto de forma alguma, em nenhuma hipótese daquele buraco – ele apontou para uma toca de coelho – Aquilo é perigoso, ninguém que entrou lá saiu vivo.
Como uma garota curiosa eu tinha uma reputação a zelar, então logicamente eu me aproximei do que me fora proibido. Como era aquilo que eu ouvira uma vez nas radionovelas da mamãe? “O proibido é sempre mais gostoso” e eu estava disposta a comprovar a veracidade daquilo.
Devia ser mais ou menos oito horas da noite, todos estavam se divertindo na aldeia ali próxima, mas eu ficaria com a desculpa de arrumar a “casa” onde iriamos dormir, e quando os garotos saíram do meu campo de visão eu corri até o buraco no chão.
Espiei um pouco de longe, o medo e a sensação de estar fazendo algo errado me consumindo por inteira, mas eu iria até o fim. Custe o que custar.
Engraçado isso não? Custe o que custar. Eu só não esperava que o preço fosse ser tão caro.
Vi um coelho pular lá dentro, usando um paletó e um monóculo; um relógio de bolso pendia ao lado do campo. Franzi a testa pensando se eu realmente estava vendo corretamente, mas considerando onde eu estava não haveria duvidas que aquilo era real.
Cheguei à borda da toca, agora imaginando se não seria a casa daquele coelho, foi quando eu escorreguei da beirada e uma confusão de cores e objetos começou.
Primeiro eu ia descendo levemente em direção ao chão, enquanto todo o resto “caía” para cima. Olhei para um espelho e vi meu cabelo ficar cinco tons mais escuro, deixando o castanho dourado de antes para o negro da noite. A camisola cinza-azulada tremulando e virou um vestido branco de festa, e a pele empalideceu até parecer um fantasma.
Alarmada direcionei minha visão para o chão, e lá eu vi algo apavorante: uma mulher gorda, em vestes reais branca e vermelha estendia os braços para mim como se quisesse me pegar no colo. Apavorada tentei “nadar” para cima novamente em direção a luz que vinha do buraco. Mas antes que eu conseguisse me erguer de volta para o meu mundo um forte vento verde soprou ao meu redor como um tornado.
Fui puxada para cima e cai em outro lugar.
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Lentamente recuperei minha consciência e consegui me por de pé. Havia caído sobre o que parecia um caminho de tijolos dourados, mais precisamente em um cruzamento.
A minha direita uma cidade e um enorme palácio de esmeraldas e âmbar brilhavam a luz do luar; a minha esquerda uma floresta de pinheiros cobertos de neve se erguia até o céu, quase tocando nas nuvens. A minha frente uma planície de vegetação baixa seguia até o horizonte onde terminava em uma praia despencando no mar.
De acordo com tudo o que eu tinha lido quando mais nova, aquele lugar seria uma dimensão alternativa da realidade onde vivia, sendo conhecido como Oz, o lar do Mágico. Se o castelo de Oz estava a minha direita significava que eu estava virada para o leste; sendo assim...
Virei lentamente o corpo e fiquei paralisada ao notar o que havia as minhas costas. Ao Oeste, o céu azul dava lugar às nuvens de tempestade, a terra virava areia e as árvores, pedras. No cume do de uma das montanhas com um redemoinho verde girando em cima, se erguia um castelo de pedras verde-musgo e vinho, como se limo e sangue tivessem se misturado para gerar aquela moradia – se é que podia ser chamada assim.
Mas o pior de tudo eu fui notar poucos segundos depois. Parada em cima da estrada de tijolos de ouro havia uma mulher parada. Vestida de preto com uma vassoura na mão, uma capa se debatia atrás de si enquanto o chapéu – preso por baixo da cabeça – lutava para permanecer no lugar. Se não fosse isso e a pele verde ela seria uma mulher bonita, mas eu a reconheci.
— Bruxa Má do Oeste – murmurei fazendo a criatura cair em gargalhadas.
— É assim que me chamam agora? Bruxa Má? – riu de novo – Minha querida, eu já tive outra identidade antes, mas desde que me mandaram para esse reino eu tive que assumir outra forma. Você provavelmente não me reconheceria se eu não estivesse na forma de dragão.
— Dragão? – engasguei.
Ela me olhou com aquelas profundas orbes amarela-queimado e disse – Mas graças a você, isso vai mudar.
Pisquei e já não estava mais no caminho, e sim em um pátio aberto no topo do palácio da montanha.
– O que você quer? – gritei em meio ao barulho do vento.
Com um sorriso maldoso a bruxa se aproximou de mim e arrancou um fio de cabelo, que em suas mãos ficou prateado – Apenas pegando minha passagem de volta para casa – e soltou-o ao vento.
O fio sumiu em meio ao redemoinho do céu que de esmeralda passou para roxo, e então amarelo e novamente roxo; só que agora ele descia na nossa, na minha direção distorcendo a realidade e a matéria, mas deixando bem claro o riso feliz do demônio.
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Fiquei o que pareceram décadas trancada dentro de uma cela, sendo obrigada a responder pelo nome de Alice tantas e tantas vezes que acabei me esquecendo de quem eu realmente era. Até o dia do meu julgamento.
— Alice Liddell – cantarolou meu novo nome a Rainha de Copas – Você nos provocou muito sofrimento no passado e agora deve pagar – sorriu perversa – E acho que ninguém aqui teria coragem de te libertar do castigo. Não é verdade? – ela olhou para a variada plateia; que ia desde guardas de cartas, passando por pessoas aparentemente normais – a estatura um pouco baixa, mas nada relevante – até animais extintos ou sem o corpo.
Vossa Majestade olhou para um dos guardas de cartas ao meu lado e acenou com a cabeça – Podem decapitar.
Enquanto o machado descia em direção ao meu pescoço as únicas coisas que notei era o quão desconfortável era ficar de joelhos sobre uma pedra e que como seria bom perder a cabeça para não sentir aquela maldita dor na nuca.
Fechei os olhos me entregando de completo para morte, mas algo aconteceu. Ou melhor, não aconteceu. Eu ainda estava viva!
Abri os olhos e encarei do colo de uma mulher vestida denegro com enormes chifres na cabeça. A pele verde-oliva me parecia muito família. E quando olhei nos seus olhos amarelo-queimados recuperei parte da minha memória até então perdida – Você – murmurei surpresa.
A Bruxa Má do Oeste sorriu maliciosamente e se virou para a rainha – Desculpe mamãe, mas não posso deixar que essa garota morra em suas mãos.
— Zelena! – majestade vermelha trovejou de raiva – Eu lhe trouxe de volta de Oz e cuidei de você como uma filha para logo depois você me trair?!
— Você sabe o quão importante para meus planos é essa menina, não posso deixar o Sangue de Caneta passar como se não fosse nada – Sangue de Caneta?
— Sua... Sua... Cortem-lhe as cabeças! – berrou transformando em seu verdadeiro eu: um monstro enorme cheio de tentáculos. Meio albino meio vermelho e com um pulsante coração batendo no meio do peito.
— Pensa que me assusta? Eu sou mais poderosa que você e não permitirei que nada aconteça a essa criatura! – Zelena acabou de se referir a mim como criatura?
Deixando a mostra sua vassoura ela logo transformou em cajado, e com um facho de luz esmeralda o grande monstro se desfez em pó para logo virar algo mais inofensivo: um corvo.
— Ai, ai, ai. Vamos agora? – perguntas retoricas nunca devem ser respondidas, especialmente quando vem de bruxas como aquela.
Um tornado que alternava a cor entre roxo e amarelo desceu até o chão e logo começou a nos erguer – A proposito – murmurou a bruxa – Pode me chamar de Malévola.
Então uma gargalhada de maldade pode se ouvir em todos os mundos, incluindo Oz, Wonderland e a terra para qual estávamos indo.
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E foi assim que eu cheguei nessa cela imunda onde Zelena... Malévola... Seja lá quem for me trancou. Pelo menos o favor de restaurar essas partes da minha memória ela me fez. Mas algo me diz que tem coisas que Malévola preferiu não me revelar.
Se eu sou tão importante assim para ela não posso ser uma simples menina, posso? Algo poderoso deve existir em mim. Sangue de Caneta, o que diabos isso queria dizer?
Eu só estou esperando a hora certa para descobrir.
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