Celt
1 Capítulo 1 - Céu Azul Ofuscado
– Mas o que você pensa que está fazendo roubando dessa forma descarada de novo? Você perdeu amor na vida? – Enquanto cerrava seus punhos, Mitsuni, uma jovem de 25 anos, cabelos castanhos na altura do ombro e uma aparência bem frágil, olhava furiosa para Kareshi.
– Roubar? Está insinuando que eu roubei!? Mas que injúria! Como essas cartas vieram parar aqui no meu bolso? Foi o Sahashi, olha a cara dele! – Kareshi, um rapaz de 23 anos, que mais aparentava ter 17, olhava para Sahashi que estava mais sério do que uma estátua grega apenas observando onde aquilo iria parar.
– Olha, você não tem jeito cara, desde o ano passado com isso, e não mudou nada, mesmo levando os tapas da Mit. – Sahashi se levantava desistindo do jogo, o grupo de amigos estava em uma envolvente partida de rouba monte, até que Kareshi decidiu usar de suas artimanhas para vencer, o que irritou Sahashi e Mitsuni, mas o rapaz apenas ria com uma cara de pau enorme.
– Ei, Kareshi-kun, o Minato não tá estranho? Ele devia ficar bravo com você e jogar o baralho em sua cara, mas ele saiu andando pra fora, será que ele levou tão a sério assim essa coisa de justiça que ele sempre diz? – Mitsuni esquecera de sua raiva pra com Kareshi e conversava com o rapaz, enquanto os dois observavam Sahashi Minato sair da classe de engenharia mecânica que os três cursavam.
– Acho que isso só pode ser uma coisa. – Kareshi ficou sério diante de Mitsuni, seus olhos demonstravam uma certeza que a menina jamais havia visto da parte do garoto nesses dois anos e meio em que estudavam juntos na universidade de Tóquio.
– E o que seria? – O coração de Mitsuni começou a pulsar rapidamente, afinal, ela se preocupava com Sahashi mais do que os outros poderiam aparentar.
– Ele ficou excitado olhando pro seu decote e teve que ir ao banheiro, mas também, né, até eu ficaria. – Mitsuni, sem piscar, apenas deu um forte tapa no rosto de Kareshi que caiu com a cadeira para trás se chocando contra o chão.
– Então você veio aqui pra cima, certo? Você vem aqui quando acontece algo, o mesmo quando seu gato morreu, você tentou segurar o choro na aula toda, não é? Mas agora, o que poderia ter acontecido. – Sahashi se encontrava na sacada da universidade, um local do seu próprio campus onde privilegiava quem estava por ali com uma bela vista da cidade, algo que acalmara a mente do rapaz, que por algum motivo, parecia inquieta naquele momento, mas com a chegada de Yuhiko, ele pode sorrir em direção a mesma, assim como sempre fazia com todas as pessoas, ele era um garoto calmo e sincero, fazia de tudo pelas pessoas que amava, com seu 1,74, se dedicava ao seu curso de engenharia e morava em uma república na região leste de Tóquio, sua vida parecia perfeita, ele tinha uma namorada que sempre sonhou ter, entrou em uma das faculdades mais conceituadas do Japão, tinha amigos preciosos, nenhuma doença, sua família estava bem, do que ele poderia reclamar? Era isso que o rapaz indagava, se ele possuía tudo, por que essa forte desejo dentro de si clamava por algo que ele não poderia alcançar, e ao olhar para aquele céu azul estampado em seus olhos repulsivos com a vida, o jovem tinha certeza de que o que ele queria, não seria conseguido por ali.
– Juro que estou bem, não precisa se preocupar, apenas uma dor de cabeça, eu não aguento isso sabe, é minha kriptonita. Acho que vou pra casa. – Minato havia mentido para sua amiga de classe, Yuhiko, uma garota que sabia dos sentimentos de Mitsuni pelo mesmo, e se preocupava no lugar de sua amiga, tentando sempre desvendar o que o rapaz pensava.
– Eu não consigo crer que é apenas isso, você é forte Mi, não pode vir pra cá por uma dor de cabeça, esse é seu local sagrado, você só vem quando toma uma decisão drástica ou quando está muito triste, mas já que não está triste, pelo que percebo também, então, o que decidiu? – Sahashi sabia que a menina era inteligente, inteligente até demais para ele ser evasivo, e não importa o que ele dissesse naquele momento, ela iria descobrir por trás de sua aura que não conseguia camuflar seus sentimentos.
– Você me conhece a dois anos só, e já sabe mais sobre mim do que eu mesmo. Ou você é uma esper, ou uma stalkar.
– Acho que você deve apenas me considerar observadora, viu.
– Eu prefiro ficar com o stalker.
– Não seja tão convencido. – Yuhiko se virava, pronta para voltar para a sala de aula, sabia que naquele momento, era melhor deixar o jovem pensar sozinho, pois ele carregava muito dentro de si, mais do que poderia suportar, e ela sabia disso. – Ei, Minato-kun, você gosta mesmo do céu, não é? – A garota então começou a andar em direção à porta que levava até o corredor, enquanto Minato olhou atentamente para o céu, novamente, sem saber o que ele queria alcançar.
– ‘Eu gosto do céu, justamente por não saber o que se esconde atrás dessa imensidão azul.’ – O garoto então decidiu ir embora mais cedo, ele iria ler aquela carta que guardou por 4 anos em seu guarda-roupas.
Sahashi preferiu não se despedir dos seus colegas, mas Yuhiko daria um jeito de explicar, ela sempre salvava a barra do jovem que não era de matar aula, mas naquele dia estava decidido, mesmo faltando três aulas para o final do período, ele pegou sua bicicleta e rumou em direção a sua república, mesmo sabendo que Mitsuni iria ficar com muita raiva.
– Mas o que diabos é aquilo? – Enquanto o jovem pedalava pelas ruas movimentadas de Tóquio, ele percebia que havia algo no céu, algo fora do normal, algo além de nuvens e dos aviões, dos rastros de condensação, dos balões e satélites. – Aquilo é uma luz...? – Minato parou a bicicleta e subiu em cima da calçada, naquele momento, não haviam muitos pedestres por aquela região, só ele observava aquela luz azul escura pairando sobre o céu, sem sair do lugar. Ele tentou tirar algumas fotos, mas no momento em que ligou sua câmera, o objeto desconhecido começou a se mover, indo na direção sul, onde ficava a saída do distrito de Shinomiya. – Mas que caralho! – Rapidamente, Minato começou a pedalar seguindo o objeto, em um ato bem infantil e o que o mesmo reprovara mentalmente.
– Eu to perseguindo uma luz no céu? Eu só posso estar doente mesmo. – Minato tentava, na maioria das vezes, ser uma pessoa racional, não perdia tempo com bobagens ou outras futilidades que tomavam conta da rotina da maioria dos seres humanos, como por exemplo, perder o tempo na mesa de um bar bebendo enquanto corrompe seu fígado e se lamenta por erros do passado, ele tentava sempre seguir uma linha racional para tornar seus dias produtivos, e sentiu que naquele momento, perseguir um suposto balão no céu só lhe faria perder tempo.
– “Eu sou burro? Eu matei aula pra isso? Eu devia ter ido pra casa, aberto a carta e... Mas espera, poderia isso ser coincidência? O sentimento que tive no telhado, olhando para o céu como se algo estivesse me esperando, será que tudo faz parte de um plano maior, eu nunca acreditei muito nisso, apesar de que no fundo eu sempre quis acreditar, será então que essa luz está me guiando para uma nova vida? Mas que bobagem! Como eu posso pensar em algo assim? No final vou me deparar com um balão da Godyear ou algo do tipo e me arrepender de ter pedalado até a merda da saída de Tóqui, então, sabendo disso, por que meus pés não param de pedalar? Por que eu quero perseguir aquilo até o fim? – Sahashi não entendi seus sentimentos, um forte impulso tomava conta do seu peito, e quando notou, já estava em uma região deserta, apenas com uma vegetação pesada ao redor, era uma área antiga que havia sido abandonada depois de uma acidente nuclear que ocorreu em 1999, e quando pensou nisso, o rapaz diminuiu suas pedaladas, ele estava em uma área proibida de se entrar, isso ele sabia desde que se mudou para aqueles cantos, mas o objeto em sua visão estava indo por aquela parte, e mais, ele estava começando a perder altitude.
– O filho da puta tá descendo? Isso é sério? – De alguma maneira, o coração do garoto começou a bater mais rápido, ele pensou na possibilidade remota de 1% daquilo não ser um simples balão nem uma pipa, então o que poderia ser? Sahashi sempre acreditou em vida alienígena, ele foi obcecado por isso em uma época, mas de anos pra cá, abandonou tão paixão por coisas ocultas quando se deparou com a vida real e suas dificuldades que necessitavam de mais foco para serem encaradas, mas naquele instante em que via a luz azul descendo de maneira rápida até uma construção antiga afastada por trás de um matagal fechado, o jovem se sentiu vivo, pela primeira vez naquele ano, ele queria acreditar em algo.
– “Eu preciso ver aquilo, dane-se os avisos, essa região não teve nenhuma morte ainda.” – Com esse pensamento voltado para o senso comum, o jovem adentrou a mata deixando sua bicicleta no canto de um rochedo, ele fitava a luz que continuava a descer, agora, bem vagarosamente, e quando menos pôde perceber, assustado, em sua frente, havia uma enorme construção, algo do tamanho de um campo de futebol, mas sem janelas e sem nenhuma entrada, apenas um retângulo de concreto com as iniciais R.U.S.T no centro.
– “Caralho, isso era da antiga fábrica daqui? Por que não tem janelas? E cadê a entrada?” – Minato ficou escondido atrás de uma árvore grossa, temendo que alguém pudesse lhe ver, mesmo sabendo que no fundo não havia ninguém ali.
– “Como posso temer? Não é como se o governo ficasse tomando conta do local.” – Logo depois de ter esses pensamentos, o rapaz ouviu um ruído vindo de bem perto, parecia com alguns passos, de mais de uma pessoa.
– Puta que paril, tem alguém mesmo. – Falou baixo para si mesmo, tentando conter a ansiedade dentro de si, seus dentes se juntavam, seus olhos cerrados tentavam alcançar o que estava por ali, e quando conseguiu finalmente se ajeitar, viu um homem todo vestido de preto, trajando um boné e um óculos escuro, e com ele, um saco preto que o mesmo estava arrastando, deixando uma trilha de sangue no chão. Quando viu aquilo, as pernas do rapaz tremeram, ele pensou em gritar, mas se conteve, apenas queria sair correndo dali, mas ao se levantar, algo cutucou suas costas.
– Uma boa tarde pra você meu jovem. – Ao se virar, um outro homem idêntico ao que vira, lhe deu um forte golpe em sua cabeça com um tipo de arma que Sahashi não conseguiu identificar. O garoto caiu desmaiado, se arrependendo por não ter ido para casa.
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