Personagens: Folkhen, Málaca, Kaila, Emerson


Ambiente: Estradas do interior do Rio Grande do Sul, Serra Gaúcha e a cidade de Caxias do Sul. Posteriormente, uma antiga pousada abandonada nos campos de Cambará do Sul.


Contexto: Após ajudar Kaila em Torres, Folkhen inicia uma jornada pelo interior do estado em busca de jovens mutantes que estão manifestando seus poderes. Durante essa jornada, relatos sobre uma criatura nos esgotos de Caxias do Sul chamam a atenção do grupo.


Primavera de 2000

A primavera chegava lentamente ao Rio Grande do Sul. Depois de meses de frio intenso, os campos começavam a recuperar seus tons verdes e o vento que cruzava as estradas do interior já não trazia o mesmo corte gelado do inverno. As cidades retomavam sua rotina comum, ignorando que algo silencioso começava a acontecer entre seus habitantes. Em diferentes regiões do estado, jovens despertavam para poderes que não compreendiam. Mutantes surgiam em silêncio, muitas vezes escondidos pelo medo, pelo preconceito ou simplesmente pela falta de alguém que pudesse ajudá-los.

Folkhen sabia disso. E por essa razão ele não podia retornar para São Paulo naquele momento. Depois de alguns dias organizando contatos e economias, o gaúcho conseguiu comprar um veículo simples que serviria como transporte para aquela nova missão improvisada. O carro era um Volkswagen Santana 1990, já bastante rodado, com a pintura desgastada e algumas marcas do tempo na lataria, mas ainda resistente o suficiente para enfrentar longas viagens pelas estradas do interior.

Agora o veículo levava três passageiros. Folkhen dirigia. No banco ao lado estava Málaca. E no banco traseiro, observando pela janela as paisagens do interior passarem lentamente, estava Kaila.

A jovem de quinze anos havia deixado para trás a cidade de Torres poucos dias antes. O mar que sempre havia feito parte de sua vida agora desaparecia no horizonte enquanto o Santana avançava para dentro do estado. Durante boa parte da viagem ela permaneceu em silêncio, observando os campos e as pequenas cidades que surgiam pelo caminho.

Até que finalmente falou.

— Eu não consigo mais sentir o mar.

Folkhen olhou rapidamente pelo retrovisor.

— Como assim?

Kaila demorou alguns segundos antes de responder. Seus olhos continuavam voltados para a paisagem.

— Em Torres… era diferente. Era como se eu pudesse ouvir ele o tempo todo. Como se estivesse chamando. Agora… é silêncio.

Málaca virou o corpo no banco da frente para olhar a garota.

— Isso te assusta?

Kaila assentiu.

— Um pouco.

Ela respirou fundo antes de continuar.

— Quando eu virei aquilo… achei que ia morrer. Ou pior… que ia deixar de ser humana.

Folkhen manteve os olhos na estrada.

— Você não virou um monstro.

A adolescente soltou uma pequena risada amarga.

— Meu pai acha que virei.

O silêncio voltou ao carro por alguns segundos.

Então Málaca falou com calma.

— A natureza não cria monstros. Só cria coisas que as pessoas ainda não aprenderam a entender.

Kaila abaixou os olhos.

— Então o que eu sou?

Folkhen respondeu sem hesitar.

— Uma mutante.

Ele fez uma pausa antes de completar.

— E provavelmente não é a única surgindo no sul.

A jovem ficou pensativa por alguns segundos. Então tomou uma decisão.

— Então eu vou com vocês.

Folkhen franziu levemente a testa.

— Você não precisa fazer isso.

Kaila respondeu com firmeza inesperada.

— Preciso sim.

Ela voltou a olhar pela janela.

— Porque se existem outras pessoas passando pelo que eu passei… alguém precisa ajudar elas.

Málaca sorriu discretamente. A menina havia entendido.

...

Cambará do Sul

Alguns dias depois, Folkhen percebeu que não poderiam continuar viajando indefinidamente sem um lugar seguro para descansar e planejar os próximos passos. Foi assim que acabaram chegando à pequena cidade serrana de Cambará do Sul, um lugar cercado por campos extensos e pelos enormes cânions da Serra Geral.

Nos arredores da cidade, o gaúcho encontrou exatamente o que procurava. Uma antiga pousada rural abandonada. O prédio de madeira estava isolado entre matas nativas e campos abertos. O telhado precisava de reparos e algumas janelas estavam quebradas, mas a estrutura ainda permanecia sólida. O lugar ficava longe da estrada principal e praticamente invisível para quem passava pela região.

Era perfeito.

Ali nascia o primeiro refúgio improvisado dos mutantes do sul. E seria daquele lugar que partiriam as viagens em busca de outros jovens como Kaila.

...

Relatos vindos de Caxias do Sul

Durante os dias seguintes, Folkhen começou a construir uma pequena rede de informações. Conversava com caminhoneiros em postos de gasolina, donos de bares de estrada e até motoristas de ônibus intermunicipais. Sempre fazia a mesma pergunta:

— Alguma coisa estranha aconteceu por aqui ultimamente ou nas cidades por onde você passou?

Em Caxias do Sul, a resposta apareceu rapidamente. Animais mortos encontrados perto de bueiros. Tampas de esgoto arrancadas. Sombras correndo pelos becos durante a madrugada. Algumas pessoas falavam em um monstro. Kaila foi a primeira a perceber algo.

— Isso não parece um monstro.

Málaca concordou.

— Parece alguma coisa tentando sobreviver.

Folkhen assentiu.

— Ou alguém.... Então precisamos encontrá-lo antes que a polícia encontre.

...

Emerson

Muito abaixo das ruas de Caxias do Sul, algo se movia na escuridão. Os esgotos da cidade formavam um labirinto úmido de concreto e ferro. O cheiro era insuportável para qualquer pessoa comum, mas para a criatura que agora se escondia ali, aquele ambiente havia se tornado uma espécie de refúgio.

Suas garras se apoiavam com facilidade nas paredes escorregadias. Sua cauda longa mantinha o equilíbrio. Seus olhos enxergavam perfeitamente no escuro. Emerson tinha quinze anos. Filho de uma família cigana calon, ele havia nascido em um acampamento próximo à cidade de Uruguaiana. Sua infância fora marcada pela vida nômade do povo cigano: carroças, cavalos, fogueiras acesas ao cair da noite e histórias contadas pelos mais velhos sob o céu aberto do pampa.

Mas quando completou treze anos algo mudou. Pequenas escamas começaram a surgir em sua pele. Suas unhas tornaram-se garras. Uma cauda começou a crescer em sua coluna. Apesar do choque inicial, sua família nunca o rejeitou. O acampamento manteve segredo sobre a mutação do garoto. O mundo fora das caravanas não era gentil com aqueles que eram diferentes.

Mas o segredo não durou para sempre. Um empresário circense descobriu o garoto. E enxergou ali uma oportunidade. Emerson foi sequestrado. Durante anos foi exibido em diferentes cidades como uma atração grotesca chamada “O Menino-Lagarto”. Somente aos dezesseis anos ele conseguiu escapar. Agora sobrevivia nas sombras de Caxias do Sul.

...

O encontro

Quando Emerson emergiu de um dos bueiros do sistema de tratamento de água e esgoto da cidade, naquela noite, já estava em sua forma reptiliana. Escamas verdes cobriam seu corpo e suas garras estavam prontas para atacar. Usava alguns trapos do que sobrou de uma bombacha marrom e uma camisa que antigamente era branca. Ele não confiava em ninguém.

Ao sair de um dos túneis, encontrou Folkhen, Málaca e Kaila. Málaca havia conseguido seguir as pistas do jovem, através das plantas e até dos musgos que cresciam nos esgotos e lhes davam as orientações psiquicamente.

Folkhen não avançou. Apenas levantou as mãos.

— Calma, rapaz. Não estamos aqui para te machucar.

Emerson rosnou.

— Todo mundo sempre diz isso.

Emerson lança de sua cauda como um chicote contra Málaca que consegue recuar. Uma distração para saltar e se aproximar de Folkhen. O adolescente estava prestes a dar um bote em um dos braços de Folkhen que consegue repeli-lo com um pequeno e certeiro campo de força. Emerson é lançado contra as grades de contenção do local.

Foi Kaila quem deu um passo à frente.

— Eles disseram a mesma coisa para mim. – Kaila estende um dos braços e assume parcialmente suas escamas nos braços e barbatanas entre os dedos

O garoto hesitou.

Pela primeira vez alguém falava com ele como se entendesse o que ele estava passando. Folkhen aproveitou o momento.

— Você não é um monstro, Emerson. Você é um mutante.

O garoto arregalou os olhos.

— Como você sabe meu nome?

Málaca sorriu levemente.

— As plantas me contam tudo... E porque estamos procurando pessoas como você.

Alguns minutos depois, Emerson estava sentado no banco traseiro do Santana ao lado de Kaila. Ainda desconfiado. Ainda assustado. Mas pela primeira vez em anos, não estava sendo tratado como uma aberração. Isso o acalmou a tal ponto de conseguir voltar a forma humana de um rapaz franzino, pouco maior que a Kaila. O rapaz era alto em sua forma escamosa, beirando 1,90mt.

Folkhen ligou o motor. A estrada à frente parecia longa. Mas agora eles não estavam mais em três. Agora eram quatro. E aquela jornada estava apenas começando.

...

Uma nova jornada

O Volkswagen Santana avançou lentamente pela estrada de chão enquanto o sol da tarde começava a desaparecer atrás das montanhas da Serra Geral. O ar frio de Cambará do Sul carregava o cheiro de terra úmida e vegetação nativa, e o silêncio da região era quebrado apenas pelo som do vento passando pelos campos abertos. A antiga pousada abandonada surgia entre as árvores como um vestígio de outro tempo.

A construção de madeira escura, parcialmente desgastada pela chuva e pelo vento dos últimos anos, ainda mantinha uma presença imponente no meio da paisagem. Algumas janelas estavam quebradas, o telhado tinha partes remendadas e o portão de entrada rangia ao ser empurrado pelo carro que se aproximava lentamente.

Folkhen desligou o motor. Por alguns segundos, ninguém disse nada. Kaila foi a primeira a sair do carro. A adolescente caminhou lentamente pelo terreno, observando os campos abertos ao redor e a linha escura das florestas que se estendiam até os cânions mais distantes da serra. O vento frio bagunçava seus cabelos enquanto ela olhava para o horizonte.

Não havia mar ali. Não havia ondas. Não havia o chamado constante das águas profundas que sempre haviam acompanhado seus pensamentos em Torres. Mas havia silêncio. Um silêncio diferente. Um silêncio que, pela primeira vez, não parecia ameaçador.

— Então… é aqui? Perguntou ela.

Folkhen assentiu.

— Por enquanto.

Emerson saiu do banco traseiro logo depois, observando tudo com cautela. Seus olhos percorriam o terreno com atenção quase instintiva. O garoto havia passado os últimos anos vivendo escondido em esgotos e becos escuros, sempre fugindo de alguém. Aquela imensidão aberta era quase desconfortável para ele. O céu parecia grande demais.

O espaço parecia livre demais, como era nas viagens com a caravana cigana de sua família.

Ele caminhou até a varanda da antiga pousada e tocou uma das colunas de madeira.

— Ninguém mora aqui?

— Não há muitos anos, respondeu Folkhen.

O gaúcho abriu a porta principal da pousada com um empurrão firme. O interior estava coberto por poeira e o cheiro de madeira antiga preenchia o ambiente. Ainda assim, era possível perceber que o lugar já havia sido bonito um dia. Uma grande lareira ocupava a parede principal da sala, e algumas mesas antigas permaneciam espalhadas pelo salão. Um gerador próprio mantinha a energia elétrica em alta.

Málaca entrou logo atrás deles, observando cada canto do lugar com atenção silenciosa. Seus olhos percorreram as janelas, o teto, o chão e a vegetação que crescia ao redor da casa. Ela assentiu discretamente. O lugar era seguro. Por enquanto.

— Podemos arrumar isso, disse ela.

Kaila caminhou lentamente até uma das janelas quebradas e olhou novamente para os campos. O vento da serra atravessava o interior da casa e fazia as cortinas rasgadas se moverem suavemente.

— É estranho, murmurou ela.

Málaca aproximou-se.

— O que é estranho?

Kaila cruzou os braços.

— Eu cresci ouvindo o mar o tempo todo. Agora… só tem vento.

Málaca observou a paisagem por alguns segundos antes de responder.

— O mar não é a única força da natureza.

Ela apontou para os campos e para a mata que se estendia ao redor da propriedade.

— A terra também fala. As plantas também. O vento também.

Emerson observava a conversa em silêncio. Ele nunca tinha ouvido alguém falar daquela forma sobre o mundo. Málaca voltou-se para os dois adolescentes.

— E vocês dois vão aprender a ouvir.

Kaila franziu a testa.

— Aprender?

Málaca abriu um pequeno sorriso.

— Eu não sou apenas uma mutante.

Ela cruzou os braços.

— Sou uma guerreira.

Os olhos de Emerson brilharam levemente.

— Então você vai nos ensinar a lutar?

— Vou ensinar vocês a sobreviver, respondeu ela.

Do lado de fora, Folkhen já estava novamente ao lado do Santana. O motor ainda estava quente. Ele observava a paisagem da serra enquanto pensava nos próximos passos. Aquela era apenas a primeira parada. Se os relatos estavam corretos, outros jovens mutantes estavam começando a surgir pelo interior do estado. E alguém precisava encontrá-los primeiro.

Málaca apareceu na porta da pousada.

— Vai sair de novo?

Folkhen assentiu.

— Recebi uma pista nova de um contato na Polícia Civil

Ela cruzou os braços.

— Onde?

— Farroupilha.

Málaca ergueu uma sobrancelha.

— Serra de novo?

Folkhen abriu um pequeno sorriso.

— Parece que os mutantes também gostam do frio.

Ele olhou novamente para dentro da casa, onde Kaila e Emerson começavam a explorar o interior da pousada com curiosidade.

— Cuida deles, disse ele.

Málaca respondeu com tranquilidade.

— Eles vão ficar bem.

O gaúcho assentiu. Então entrou no carro. O motor do Santana voltou a rugir suavemente enquanto o veículo começava a se afastar pela estrada de terra. A poeira levantada pelas rodas desapareceu lentamente no vento da serra. Málaca permaneceu parada na varanda observando o carro desaparecer entre os campos.

Atrás dela, dentro da pousada abandonada, duas novas vidas mutantes começavam a se reorganizar. E naquele momento, sem que nenhum deles soubesse ainda, o sul do Brasil estava se tornando o palco de algo muito maior.


Algo que estava apenas começando.