Arquivos – Instituto Xavier

Período: Agosto de 2000 — Inverno extremo

Localizações: EBX (São Paulo), Osasco (SP), Litoral do Rio Grande do Sul, UFRGS, Museu de Arte Contemporânea da USP (próximo ao Parque Ibirapuera), Cemitério da Consolação

Personagens presentes: Basco Khassan, Alex Aleff, Folkhen, Gregory, Raial Puri, La’Vern, Lucius, Venâncio, Simeão, Nevoeiro, Verônica (Desaparecida), Os Sete (Ativos), membros da Geração Vamp

Observações: Crescente tensão política entre clãs vampíricos e mutantes.


AGOSTO DE 2000

Em uma gelada noite de agosto, num dos poucos momentos de paz e repouso, todos dormem tranquilos nos aposentos da EBX. O silêncio subterrâneo era profundo, quebrado apenas pelo ruído distante dos sistemas de ventilação e pelo eco ocasional de água escorrendo pelas galerias antigas. Entretanto, a paz era momentânea. Havia no ar uma sensação invisível de expectativa, como se algo estivesse prestes a romper o equilíbrio frágil que mantinha São Paulo apenas à beira do caos.

Basco Khassan sonha com uma sombra misteriosa. Uma forma humana em meio à névoa e ao oculto relata ao jovem a chegada de um grande mal sobre São Paulo, mas que, apesar das dificuldades que viriam, a equipe mutante deveria prosseguir firme. A silhueta não possuía rosto definido, apenas olhos que pareciam conter eras inteiras. O cenário do sonho alternava entre ruínas cobertas por gelo e um céu negro rasgado por relâmpagos silenciosos.

— Preparem-se… — ecoava a voz, sem boca que a pronunciasse. — O pacto desperto não será contido pela ignorância.

Ao acordar, Basco acredita que aquilo tenha se tratado de um presságio. Sua experiência no campo da magia o ensinara a não ignorar tais sinais. Não era a primeira vez que o véu entre dimensões lhe concedia vislumbres do que estava por vir. Ele permaneceu sentado na cama por longos minutos, respirando fundo, sentindo o frio inexplicável que ainda parecia envolvê-lo.

O sonho precognitivo de Basco começa a ganhar forma semanas depois, quando uma forte nevasca recai sobre a cidade de Osasco de uma maneira nunca vista antes no Brasil. Neve de verdade — mas em uma escala assombrosa e mortal. Não se tratava de flocos tímidos como os raros registros históricos do Sul do país; era uma tempestade densa, cortante, que acumulava camadas grossas nas ruas, telhados e viadutos.

O fenômeno foi levado às telas dos principais meios de comunicação, não apenas por Osasco estar abaixo de zero, mas porque o restante do estado, apesar de estar na estação fria, não sofreu na mesma proporção climática. Enquanto bairros da capital registravam temperaturas típicas de inverno paulista, Osasco mergulhava em um cenário que lembrava cidades do hemisfério norte.

À medida que a neve aumentava e o frio atípico se espalhava, a notícia chegava a diversas partes do mundo. Neve em um país tropical como o Brasil era algo intrigante — para não dizer perigoso. Por pelo menos algum tempo, as questões envolvendo o Vírus Legado pareciam ter dado uma trégua nos noticiários, substituídas por imagens de ruas soterradas e carros congelados.

Contudo, dezenas de relatos de mortes por conta do frio intenso começam a se espalhar pela Grande São Paulo. Moradores de rua, idosos isolados, animais encontrados rígidos nas calçadas. O que os paulistanos não imaginavam é que a neve fora do comum prenunciava a vinda das criaturas mais medonhas que esta terra já havia conhecido: Os Sete.


REUNIÃO NA EBX

Folkhen reúne todos os CelleXtys. Alex também solicitou a presença de Venâncio e Simeão, representando a comunidade vampírica paulista, pois o assunto também era do seu interesse. A atmosfera na sala de reuniões era densa, carregada não apenas pelo frio externo, mas pela convergência de forças que raramente dividiam o mesmo espaço.

Venâncio olha com grande desprezo e inquietação quando cruza com Nevoeiro. O mutante tivera um breve caso com a vampira Verônica há alguns anos. Verônica é filha de Venâncio e está desaparecida. O proprietário do Mascarade não ousaria se rebaixar solicitando ajuda a Basco para encontrar a filha, mas, nos bastidores, colocara dezenas de membros do Clã Toreador nos quatro cantos do país em busca da jovem. Seu orgulho era tão sólido quanto sua dor era silenciosa.

Todos sentam-se à grande mesa metálica no interior da EBX. Para Folkhen, a ida da Geração Vamp até a Escola também era o gatilho que possivelmente indicava que chegara o momento em que os CelleXtys precisariam buscar um novo lar. Se vampiros já tinham livre acesso, não demoraria até que outros inimigos invadissem o local.

Segundo informações que Folkhen colheu no litoral do Rio Grande do Sul, estudantes da UFRGS haviam descoberto uma antiga caravela naufragada no litoral. A embarcação, datada do século XVI, continha em seu interior uma grande caixa horizontal de prata. Após aberta, verificou-se, com surpresa, que sete cadáveres repousavam no sarcófago marinho.

Folkhen relata que, apesar da ação do tempo na estrutura da embarcação, os corpos sepultados no esquife de prata ainda estavam em decomposição e totalmente secos. Após a abertura da caixa na Universidade e os cadáveres começarem a se levantar, é que os relatos sombrios tomaram conta de algumas cidades litorâneas. Um frio maior que o habitual, morte de animais domésticos, pequenos sítios devastados, pessoas relatando fantasmas e manifestações sobrenaturais, além de mortes sem explicação.

— Eu imagino de quem se tratam — interrompe Venâncio. — Há muitos séculos, um bando de vampiros portugueses recebeu poderes extraordinários em troca de uma alma traída. Viviam perto do Rio D’Ouro. Durante o dia, eram protegidos por ciganos que viviam nos arredores do castelo. Em troca, dividiam suas riquezas.

— Sete amaldiçoados — completou Simeão. — Sete vampiros condenados ao tormento eterno. Errantes, sem vínculo a clã específico. Sem mestres… viviam apenas pela lei da caça. Por onde passaram, só trouxeram morte e destruição, exterminando e se alimentando até mesmo de… outros vampiros.

— E agora estão aqui no Brasil! — Exclamou Raial.

Basco estreitou os olhos.

— Mas vocês já sabiam, não é mesmo, Simeão?

— Há aqueles dentre nós que veem a vinda dos Sete como um sinal de mudanças proféticas em todos os treze clãs. Sempre existiram rumores de que juntos levariam a Geração Vamp a um tempo de ascensão e sangue.

- E vocês? Também pensam assim? – Pergunta Basco. – Afinal, Simeão, você foi o primeiro a mencionar esses Sete, lembra-se?

- Sim...eu me lembro e lamento pelas minhas atitudes hostis naquele dia. Mas não se preocupe, não pensamos mais dessa maneira – Simeão olha para o semblante sério de Venâncio.

Alex ergueu-se.

— Precisamos nos preparar. Se esses vampiros são assim tão perigosos, não podemos nos dar ao luxo de brigas internas.

— Concordo. Uma trégua? — Perguntou Venâncio.

E, naquele instante, o gelo externo parecia selar um acordo que o fogo político poderia romper a qualquer momento.


MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA — USP

Após a reunião, Basco pede para falar com Simeão em particular. Ele o convida até o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, próximo ao Parque do Ibirapuera. O museu estava fechado para reformas, com reabertura prevista apenas para dezembro. O prédio silencioso, cercado pela bruma fria da madrugada, tornava-se cenário ideal para uma conversa que não deveria ser ouvida.

Entre quadros embalados e esculturas encaixotadas, Basco acende velas e as espalha pelo salão. A luz tremulante cria sombras dançantes nas paredes.

Simeão é o líder atual dos Caitiff, tecnicamente, vampiros sem clã. Por outro lado, podem ser numerosos o suficiente para unirem-se em seu próprio clã. Não se sabe como surgem os Caitiffs ou quantos exatamente perambulam por São Paulo. Alguns dizem que se trata de um vampiro que é abraçado e abandonado pelo seu senhor e acaba tornando-se um sem clã, apenas por não ser corretamente iniciado nos meandros da sociedade vampírica. Justamente por não pertencerem a nenhuma linhagem, são rejeitados pelo demais vampiros. Numa sociedade pseudo-feudal tão fundamentada nos laços de parentesco, estar sozinho é a posição mais difícil e vulnerável que qualquer membro pode se colocar. Contudo, os Caitiff de Simeão que vivem no Cemitério da Consolação parecem ter uma aliança significativa com o Clã Toreador de Venâncio. Uma troca de favores. Simeão e o seu clã de párias possuem livre acesso ao Mascarade quando precisam de ajuda ou desejam apenas ter um lampejo de distração. Venâncio, por sua vez, solicita agentes Caitiff quando um assunto precisa ser tratado de maneira mais furtiva ou longe dos olhos de outros clãs vampíricos, como mais recentemente, solicitou apoio de um grupo de Caitiffs que estão procurando sua filha Verônica. Assim, Simeão e Venâncio possuem uma aliança de trégua e a Geração Vamp do Mascarade sabe que não devem invadir os limites do Cemitério da Consolação sem a autorização de Simeão. Basco conheceu Simeão há alguns meses em uma luta contra La’Vern quando este ainda era considerado um vilão!

— Creio que começamos com o pé esquerdo em nosso primeiro encontro! – Lamenta Simeão!

— Você sabia! — Inqueriu Basco ao vampiro à sua frente

— O que? — Respondeu Simeão “distraído”

— Lá no Cemitério da Consolação...quando nos enfrentamos. Você disse, que Os Sete estavam chegando! Você sabia.... E aparentemente, sabe mais do que o Venâncio

— De fato.... Eu já sabia! Meu antigo mestre era um vampiro criado na Ilha da Madeira em Portugal. Ele foi "abraçado" em 1893, pouco antes de embarcar para o Brasil. Acreditava nos relatos da época sobre um grupo de vampiros, talvez os primeiros em terras lusitanas com dons e nomes peculiares:

— Inverno possui o dom sobre o frio infernal;

— Acordador pode levantar e comandar os mortos recentes;

— Espelho assume a forma da pessoa que olha diretamente em seus olhos;

— Tempestade reina sobre o clima e as fortes chuvas;

— Lobo recebeu a graça de transmutar-se em feroz licantropo;

— Gentil, capaz de reinar sobre o tempo;

— …e o pior de todos… Sétimo!

Simão olhava pela pequena claraboia da janela do segundo andar do museu. A luz do poste na calçada em frente iluminava seu rosto e deixava seus olhos ainda mais brilhantes num vermelho intenso. Uma ou outro transeunte atravessava a passarela em frente ao museu, mas não percebiam que naquele momento, uma dupla de personagens intrigantes visitava o local. Basco prestava atenção em cada palavra do vampiro à sua frente. Simeão continua o relato revelando que, passado cerca de um ano do pacto feito entre os vampiros e Belasco, Sétimo havia retornado, porém, estava mais horripilante e sanguinário do que antes. Sua bestialidade era sanguinária e sua forma física era similar a uma criatura horrenda e monstruosa! Os vampiros do Rio D’Ouro descobrem que Sétimo havia passado cerca de 100 anos servindo a Belasco e agora buscava por vingança! No mesmo dia, os Bentos encontraram o esconderijo dos vampiros às margens do Rio D’Ouro. Eles exterminaram todo o acampamento cigano e invadiram o castelo. Encurralados, os sete vampiros são presos por um dos Bentos, graças a uma poderosa magia arcana. O servo da Coroa os encarcera em uma grande caixa de prata mística. Seus nomes foram gravados no “sarcófago” para impedir que fossem abertos por dentro. As ordens do rei D. João III eram claras: enviar a caravela contendo os demônios para uma das colônias portuguesas e afundá-la no mar. A colônia escolhida eram as terras brasileiras e assim foi feito. Quando o galeão se aproximou do litoral, a esquadra que o escoltava abriu fogo afundando o navio na costa. Para os Bentos, os vampiros do Rio D’Ouro jaz no fundo do oceano, onde deveriam permanecer por toda a eternidade!

— Os Bentos só não contavam com os estudantes da UFRGS — ironizou Basco.

A conversa então desvia para Verônica e para a Camarilla.

— Os Toreador não dão muita importância a velhas histórias, Basco. Venâncio vê Os Sete apenas como mais um grupo que ameaça o seu “pequeno reino paulista”. Além disso, ele está mais preocupado com um outro assunto que talvez seja do seu interesse.... Verônica!

— O que tem ela?— Questiona Basco

— A garota está sumida há meses. Me admira ele não ter vindo pedir a sua ajuda ou destroçá-lo!

— Verônica e eu... alguma pista do paradeiro dela?

— Nada ainda! Some a isso o fato do Mascarade estar com o pavio prestes a ser aceso entre aqueles que veem a chegada dos Sete como um sinal apocalíptico e os mais interessados em destronar Venâncio e assumir um dos pontos de contato com a Camarilla! A Geração Vamp está em chamas!

— Nós estamos em todos os lugares, Basco. Culturas, política, religiões. Se Os Sete começarem uma onda de massacre até entre os da própria espécie, não sobrará muito do país para nenhum de nós.

O silêncio que se segue é pesado.

— Cá entre nós, Simeão… por que vocês estão nos ajudando?

— Porque esses dons vieram de Belasco. E você conhece o Limbo melhor do que qualquer um de nós.

Basco respira fundo.

— Quando tudo isso acabar… serei eu quem precisará da sua ajuda.

Simeão inclina levemente a cabeça.

— Sobre o quê?

Basco mantém o olhar firme.

— Preciso que me ajude a encontrar uma pessoa… meu pai.

Lá fora, a madrugada avançava. E, em Osasco, o frio continuava a cair como um prenúncio de guerra.

Continua…