CelleXty Saga - Temporada II
17 Caninos e fuzis
Notas iniciais
Escola Brasil X — Celas de contenção
Há algumas semanas, La’Vern havia sido ferido por um lycan durante um confronto aparentemente rotineiro. O corte fora pequeno, superficial o suficiente para que ninguém na equipe se preocupasse de verdade com aquilo. Nos dias seguintes, entretanto, pequenas mudanças começaram a surgir. O francês tornou-se mais irritadiço, passando longos períodos isolado em seus aposentos e evitando conversas com os demais. Durante algumas madrugadas, ruídos estranhos — rosnados abafados e grunhidos quase animalescos — puderam ser ouvidos nos corredores próximos aos dormitórios, mas ninguém conseguiu identificar sua origem. Nem mesmo La’Vern percebeu que algo estava errado. As mudanças vieram lentamente, silenciosas, até que se tornaram impossíveis de ignorar.
Agora, o mutante encontrava-se confinado em uma das celas de contenção da Escola Brasil X. A transformação licantropa havia tomado conta de seu corpo de maneira quase completa, alterando sua estrutura física e sua postura de forma brutal. Enquanto o restante da equipe estava envolvido em uma missão crítica na cidade de Osasco, Raial permanecera na base com a responsabilidade de vigiar o amigo. Desde o confronto no Cemitério da Consolação, os dois haviam desenvolvido uma relação de confiança mútua. A presença da jovem costumava acalmar La’Vern em momentos de tensão, e ela acreditava que, talvez, sua proximidade ainda pudesse alcançar alguma parte da mente do francês que permanecesse humana.
Ao observar a criatura dentro da cela, Raial não conseguiu esconder a surpresa. A forma licantropa de La’Vern era muito diferente das bestas que os CelleXtys haviam enfrentado no passado. Quando se erguia sobre as patas traseiras, ele parecia absurdamente alto, quase encostando na parte superior da cela. Sua pelagem era longa e espessa, mesclando tons de marrom e dourado que brilhavam sob a iluminação fria do recinto. Os caninos projetavam-se para fora da boca como lâminas naturais, enquanto as garras alongadas riscavam o chão metálico sempre que ele se movia. Uma cauda longa balançava lentamente atrás dele, e uma faixa branca percorria o dorso desde a cabeça até a ponta.
Quando Raial surgiu diante das grades energizadas, La’Vern já sabia que ela estava ali. O faro aguçado captara seu cheiro antes mesmo que seus passos ecoassem no corredor. Além disso, os ouvidos sensíveis da criatura podiam distinguir claramente o ritmo dos batimentos do coração da colega. O que chamou sua atenção foi o fato de que ela não demonstrava medo. Os batimentos eram firmes, estáveis, quase serenos diante da situação.
O lycan virou lentamente o focinho em direção à mulher e a observou em silêncio. Em seguida, começou a caminhar até a frente da cela. As garras arrastavam pela parede de chumbo enquanto ele avançava, rasgando o metal com facilidade perturbadora, como se estivesse lidando com uma simples folha de papel. A forma bestial lhe concedera uma força física impressionante, além de reflexos ampliados e um fator de cura extremamente acelerado. Contudo, quanto mais tempo La’Vern permanecia naquela forma, mais distante parecia a possibilidade de retornar ao seu estado humano.
Ao parar diante das grades, a diferença de tamanho entre os dois tornou-se ainda mais evidente. O lobisomem parecia uma muralha viva diante da “amazona da lua”. Raial sentiu um peso silencioso dentro do peito ao encarar o amigo transformado, especialmente sabendo que naquele exato momento seus companheiros enfrentavam uma batalha devastadora em Osasco. Ela se sentia impotente diante da situação, incapaz de ajudar tanto o amigo quanto a equipe. Ainda assim, ficar parada não fazia parte de sua natureza. Se existia alguma chance de salvar La’Vern, ela precisava tentar.
E Raial sabia exatamente onde procurar ajuda.
Cidade Universitária da USP
Algum tempo depois, a jovem mutante atravessava os portões da Cidade Universitária da USP. Não fazia muito tempo que os CelleXtys haviam enfrentado naquele local uma antiga companheira de equipe, Cassiopéia, que surgira liderando um grupo de lycans como uma espécie de alfa improvisada. O confronto fora violento e deixou marcas profundas na região, especialmente nos prédios próximos ao epicentro da batalha. Após a derrota da adversária, no entanto, ninguém conseguiu descobrir para onde as criaturas haviam ido. Raial acreditava que os lobisomens ainda poderiam estar escondidos em algum ponto do campus.
Antes de ir até ali, ela fizera uma investigação cuidadosa. Consultara registros da própria EBX e analisara relatos estranhos que circulavam entre os estudantes. Descobriu que parte da universidade vinha sendo frequentada por jovens membros da chamada Geração Vamp, os Caitiff, mas também percebeu que algo curioso estava acontecendo. Durante o confronto contra Cassiopéia, vampiros e lycans haviam lutado lado a lado contra um inimigo comum. Aquela aliança temporária parecia ter gerado uma espécie de trégua silenciosa que permitia às duas espécies coexistirem em determinadas áreas da universidade.
Raial iniciou sua busca nas proximidades da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, onde a batalha anterior causara danos estruturais significativos. O prédio ainda apresentava marcas visíveis do confronto, e as histórias sobre o ocorrido se espalharam rapidamente entre alunos e funcionários. Guiada por rumores e comentários ouvidos pelo campus, a mutante acabou atravessando grande parte da Cidade Universitária até alcançar a região da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
Nos arredores da FFLCH circulavam os relatos mais curiosos. Muitos estudantes mencionavam o surgimento repentino de diversos cães de rua que passaram a vagar pela região nas últimas semanas. Alguns desses animais acabavam sendo adotados por alunos ou funcionários. Também havia histórias sobre uivos noturnos que ecoavam pela mata próxima ao prédio, sons capazes de arrepiar até os vigilantes mais experientes que patrulhavam o campus durante a madrugada.
Apesar de ser uma noite de aulas, o frio havia afastado boa parte dos estudantes. Os poucos que ainda circulavam pelo local caminhavam apressados pelos corredores, ignorando completamente a presença da mutante. A lua brilhava intensamente no céu e parecia amplificar os sentidos de Raial, que mantinha atenção redobrada a cada movimento ao seu redor.
Ela chegou a entrar no prédio da FFLCH, observando discretamente os corredores e as salas ocupadas. À primeira vista, tudo parecia normal. Alguns alunos transitavam entre os andares e nada indicava a presença de criaturas sobrenaturais no interior do edifício. Sem perceber que vinha sendo observada desde sua chegada, Raial acabou deixando o prédio e seguiu em direção à área de mata localizada nos fundos.
Após alguns minutos caminhando entre árvores e arbustos, a mutante ouviu o som de galhos se partindo nas proximidades. Seus olhos brilharam sob a luz da lua no instante em que garras afiadas surgiram repentinamente diante de seu rosto, quase rasgando sua pele. Raial recuou instintivamente, desembainhando o espadim enquanto tentava identificar o agressor.
Entre as sombras da mata, vultos se moviam com uma velocidade impressionante. Por um breve momento, ela pensou que pudesse estar sendo perseguida por vampiros. No entanto, um uivo agudo atravessou a floresta e dissipou qualquer dúvida. Aquela presença não era vampírica.
Uma figura surgiu diante dela. Metade mulher, metade loba.
Vestia calça jeans desgastada, uma baby look branca estampada com o logotipo da banda Ramones e uma jaqueta tão surrada quanto a calça, amarrada à cintura. Pelos castanhos cobriam seus braços e parte do pescoço, enquanto cabelos lisos caíam sobre o rosto parcialmente transformado. O focinho curto revelava fileiras de dentes afiados e as garras reluziam sob a luz da lua.
Raial reagiu no mesmo instante, canalizando energia lunar através do espadim enquanto bloqueava o ataque. A jovem lycan saltava entre as árvores, utilizando os troncos como impulso para novos ataques, tentando atingir a mutante por diferentes ângulos. A luta se tornava cada vez mais intensa, e Raial logo percebeu que não estava enfrentando apenas uma adversária.
Nas sombras da mata, três outros pares de olhos brilhavam intensamente.
— Eu não vim aqui para atacar você! Deixe-me explicar! — Pediu Raial, tentando conter o confronto. Os ataques continuaram.
Canalizando a luz da lua por todo o corpo, a mutante liberou uma explosão de energia luminosa que se espalhou pela área como uma onda prateada. O impacto lançou a lycan contra uma árvore próxima, fazendo-a cair pesadamente no solo.
Os três lobisomens escondidos nas sombras avançaram imediatamente, mas interromperam o movimento quando perceberam o espadim de Raial apontado diretamente para o pescoço da companheira caída.
— Eu já disse… não vim para ferir vocês. Sei que conseguem sentir o poder da lua em mim e sabem que falo a verdade. Quero apenas conversar… com a sua liderança.
O silêncio pairou por alguns segundos na mata. Então, lentamente, os lycans recuaram. Eles haviam sentido a verdade em suas palavras.
Refúgio dos Lycans — Instituto Butantã
O quarteto de lycans conduziu Raial pela mata fechada sem dizer uma palavra. A jovem percebeu que, apesar de terem cessado o ataque, as criaturas ainda mantinham certa cautela em relação à sua presença. O grupo atravessou silenciosamente a Avenida Professor Lineu Prestes e mergulhou novamente em uma região de vegetação mais densa. A caminhada durou alguns minutos, tempo suficiente para que os sentidos aguçados da mutante captassem inúmeros sons noturnos da floresta urbana. O vento balançava as copas das árvores enquanto o cheiro da terra úmida se misturava ao odor característico dos lycans que a cercavam.
Por fim, o grupo chegou a um conjunto de pequenos laboratórios abandonados localizados nos fundos do Instituto Butantã. A estrutura parecia ter sido desativada há anos, mas ainda conservava paredes firmes e algumas instalações intactas. Ao se aproximar do local, Raial percebeu que aquele lugar havia sido adaptado para servir como abrigo improvisado. Espalhados ao redor dos prédios estavam diversos lycans, alguns completamente transformados em lobos enormes, enquanto outros mantinham a forma híbrida semelhante à da jovem que a atacara. Ao todo, ela contou cerca de quinze criaturas presentes naquele refúgio.
A presença de Raial provocou um efeito imediato na alcateia. Sua mutação irradiava uma energia lunar que se espalhava pelo ar como uma espécie de feromônio invisível. Os lycans reagiam àquilo com uma mistura curiosa de respeito, inquietação e curiosidade. Alguns recuavam instintivamente, enquanto outros se aproximavam lentamente, tentando compreender aquela presença incomum. A mutante percebeu que, quanto mais perto eles ficavam, mais fácil se tornava acalmá-los.
A jovem lycan que havia iniciado o combate diminuiu o ritmo dos passos até caminhar ao lado de Raial. Sua postura agora era muito menos agressiva. Parecia mais curiosa do que hostil.
— Você… é um deles, não é? Os CelleXtys? — Perguntou ela com uma voz rouca, ainda carregada pelos traços da transformação.
— Sim… meu nome é Raial — respondeu a mutante com calma.
— Sou Júlia. Aqueles são Nico, Caetano e Maicon — disse ela apontando para o trio que caminhava logo atrás. — Não viemos com a primeira leva. Somos “crias da USP”.
Raial arqueou ligeiramente as sobrancelhas, intrigada com a expressão.
— Crias da USP?
— É… tipo… fomos criados aqui. Éramos alunos, sabe? Na verdade… nós quatro ainda somos. Eu curso História. O Nico e o Caetano fazem Engenharia Ambiental… e o Maicon tem o lance dele na Computação.
A mutante observou os quatro jovens com mais atenção. Apesar da aparência monstruosa que assumiam em certos momentos, havia algo profundamente humano na maneira como falavam e se comportavam.
— Mas como vocês fazem para manter as aparências? — Perguntou ela.
Antes que Júlia pudesse responder, uma voz grave surgiu à frente.
— ELES OBEDECEM AO LÍDER DA MATILHA!
A voz ecoou da entrada de um dos laboratórios. Todos os olhares se voltaram para a figura que emergia da porta.
O homem tinha pele parda, corpo largo e musculoso, com braços que lembravam pilares de pedra. Seus cabelos negros e cacheados desciam até a altura dos ombros, contrastando com um cavanhaque bem aparado e sobrancelhas grossas que lhe davam um ar severo. As mãos eram enormes, como se tivessem sido moldadas por um ferreiro antigo. Ao contrário dos outros lycans, ele não vestia roupas modernas. Suas vestes lembravam trajes tradicionais do Oriente Médio, o que imediatamente despertou a curiosidade de Raial.
Ela estava diante do líder daquela alcateia.
Seu nome era Sennefer.

— Bem-vinda, mutante — disse ele com uma calma surpreendente. — Você é aquela agraciada com os poderes de Khonsu, o senhor da lua.
Raial manteve a expressão neutra, mesmo sem reconhecer o nome mencionado.
— E você parece ser quem dita as regras por aqui — respondeu ela.
O homem abriu um leve sorriso.
— Meu nome é Sennefer. Bem-vinda ao nosso recanto provisório. Entre, fique à vontade. Se veio sozinha até aqui, imagino que tenha um bom motivo.
Ele abriu a porta do antigo setor de laboratórios e fez um gesto convidativo. Apesar de abandonado, o local havia sido organizado de maneira funcional. Algumas mesas haviam sido reposicionadas, equipamentos improvisados estavam espalhados pelas bancadas e havia sinais claros de que pessoas estavam vivendo ali. Parte dos recém-transformados trabalhava no próprio Instituto Butantã antes de se tornarem lycans, o que facilitava a manutenção mínima das instalações.
Raial entrou no laboratório enquanto os demais membros da alcateia permaneciam do lado de fora.
— Como sabe que vim sozinha? — Perguntou ela.
— Estamos observando você desde que entrou na USP — respondeu Sennefer com naturalidade. — Além disso, vocês mutantes não são exatamente conhecidos por sua confiabilidade. Preferimos manter certa cautela.
Raial cruzou os braços. — Posso dizer o mesmo dos lycans.
Sennefer soltou um leve sorriso antes de servir um copo de refresco à visitante. — Não tem sido um convívio fácil desde que chegamos aqui, há cerca de um ano. Parte de meus irmãos decidiu deixar a cidade e tentar retornar ao nosso lar. Raial aceitou a bebida, mas continuou observando o homem atentamente.
— Li sobre vocês nos registros da EBX. Achei que um mutante chamado Sphinx os havia trazido de outra dimensão.
Sennefer balançou a cabeça lentamente. — De outra dimensão não… de outro tempo.
Ele respirou fundo antes de continuar. — Esse miserável nos arrancou do Egito onde vivíamos há milênios.
A história da matilha
Sennefer passou a relatar a história de sua alcateia com a voz grave de quem carregava séculos de memória.
Segundo ele, os lycans eram criaturas antigas que serviam aos faraós do Egito como guardas de elite. Apenas guerreiros extremamente leais e corajosos eram escolhidos para receber a dádiva da transformação. O processo era ritualístico e envolvia provas de força, disciplina e devoção. Aqueles que sobrevivessem aos testes eram transformados por líderes da matilha e passavam a integrar uma ordem de protetores que servia diretamente ao trono.
Durante gerações, os lycans foram símbolos de poder e proteção nas terras do Nilo. Tudo mudou no reinado do faraó Merneptá, da XIX Dinastia.
Um vizir ambicioso, sedento pelo trono, criou um poderoso encantamento capaz de controlar a vontade dos lycans. Sob esse feitiço, a alcateia foi transformada em um exército escravizado. Com aquela força monstruosa sob seu comando, o vizir tentou tomar a cidade de Tebas. O golpe falhou, e o traidor acabou derrotado antes de completar seu plano.
Antes de ser capturado, porém, ele realizou um último ato de magia. O feitiço aprisionou diversos lycans em um mundo paralelo que eles passaram a chamar de “o mundo sem a luz de Rá”.
Como punição por seus crimes, o vizir recebeu o castigo conhecido como Khon’Dai: foi enterrado vivo, condenado a vagar eternamente no mundo dos mortos. Seus manuscritos mágicos deveriam ter sido destruídos, mas um de seus discípulos fez uma cópia secreta de um dos pergaminhos.
Aquele pergaminho atravessou gerações. Até chegar às mãos de Althy.
A mutante descobriu que apenas um egípcio poderia ativar os feitiços contidos naqueles papiros. Durante uma tentativa de dominar São Paulo, ela entregou o pergaminho ao mutante egípcio Sphinx. Usando o artefato, ele rasgou o espaço-tempo e libertou os lycans de sua prisão temporal. Assim eles foram trazidos ao presente.
Após a derrota da Gangue Fantasma e a destruição do pergaminho, os lycans ficaram presos neste tempo, incapazes de retornar ao passado. A matilha então se dividiu. Um líder chamado Assiut decidiu partir em para o Egito, mesmo sabendo que o mundo já não era o mesmo.
Sennefer, por outro lado, optou por permanecer no Brasil e reconstruir sua alcateia. Raial ouvia tudo com atenção. Foi nesse momento que a porta do laboratório se abriu violentamente.
A emboscada
Um dos lycans entrou correndo, ofegante, com os olhos arregalados de pânico. — Sennefer! Eles estão vindo! Estão armados e...
Um disparo ecoou dentro do laboratório.
A bala atingiu o lycan à queima-roupa. O corpo da criatura caiu no chão enquanto a transformação se desfazia, revelando a forma humana. Do lado de fora, o som de tiros e rosnados tomou conta da noite.
Homens armados avançavam contra a alcateia.
— São balas de prata! — Rosnou Sennefer, virando-se para Raial com desconfiança. — Você os atraiu até nós, mutante?
Antes que ela pudesse responder, Júlia, Nico e Caetano invadiram o laboratório em desespero. — Mataram o Maicon! — Gritava Júlia. — Mataram o Maicon!
— Onde estão os outros? — Perguntou Sennefer.
— Não sabemos! Correram pela mata!
— Estão nos abatendo como gado lá fora! — Completou Nico.
De repente, os tiros cessaram. Um silêncio pesado caiu sobre o local. Então Sennefer sentiu algo diferente no ar. Um cheiro estranho. Não havia medo.
A figura que surgiu na entrada do laboratório era alta, vestia uniforme militar e carregava uma metralhadora pesada. No entanto, algo em sua aparência chamava atenção imediatamente.
Um de seus olhos brilhava em vermelho intenso na escuridão.
Ele apoiou a arma no ombro e observou o interior do laboratório como um caçador avaliando suas presas.
— Sabemos que vocês não têm para onde fugir, bando de vira-latas — disse ele com frieza. — Entreguem-se agora e talvez eu poupe algumas balas de prata.
Sennefer transformou-se completamente, pronto para atacar, mas Raial se colocou à frente dele. — Eu estou do seu lado. Eu ajudo você… e você me ajuda, ok?
Sem esperar resposta, ela correu para fora. O militar fez um gesto curto.
— Fogo.
As armas dispararam imediatamente. Raial ergueu as mãos e criou uma barreira lunar tridimensional. As balas ricochetearam contra o escudo de energia como chuva metálica.
— Minha vez! — Disse ela.
Uma explosão de luz lunar se espalhou pelo campo, cegando os soldados. Era a oportunidade que os lycans precisavam. Quando o clarão desapareceu, a alcateia já havia fugido. O militar observou o vazio diante de si e apenas sorriu. Talvez a emboscada não tivesse falhado. Talvez aquele fosse apenas o começo da caçada.
A explosão de luz lunar se dissipou lentamente entre as árvores, deixando para trás um campo tomado por fumaça, cheiro de pólvora e fragmentos de cascas de bala espalhados pelo chão. A mata do Butantã, que poucos segundos antes havia sido palco de um confronto brutal, mergulhou novamente em um silêncio inquietante. Alguns galhos ainda tremiam onde os lycans haviam passado em fuga, desaparecendo na escuridão da floresta urbana com a agilidade predatória que apenas sua espécie possuía.
Raial permaneceu imóvel por alguns instantes, respirando fundo enquanto a energia da lua se dissipava lentamente de suas mãos. Seus olhos percorreram o cenário destruído, tentando identificar qualquer sinal de movimento entre os soldados que haviam sido derrubados pelo clarão. Muitos ainda estavam no chão, cegos temporariamente pela intensidade da luz, enquanto outros tentavam se levantar de maneira desorientada.
O militar de olho vermelho, entretanto, permanecia de pé. Ele sequer havia recuado. A figura imponente avançou alguns passos entre os homens caídos, observando o local com uma calma perturbadora. O brilho vermelho de seu olho mecânico pulsava suavemente na escuridão, como uma brasa viva observando cada detalhe do campo de batalha. Seu rosto não demonstrava frustração pela fuga das criaturas; ao contrário, havia ali algo que se parecia muito mais com curiosidade.
Ele ergueu a mão e pressionou um pequeno comunicador preso ao colarinho do uniforme.
— Alvo principal não capturado… — disse com uma voz baixa e firme. — Repito, o alfa não foi capturado.
Do outro lado da comunicação houve alguns segundos de silêncio antes que uma voz metálica respondesse.
— E os espécimes?
O homem voltou o olhar para a mata escura.
Um leve sorriso surgiu em seu rosto.
— Confirmado. Existem muitos mais do que imaginávamos.
Ele abaixou o comunicador lentamente.
Atrás dele, alguns soldados finalmente recuperavam a visão e tentavam reorganizar suas posições. O militar, no entanto, parecia completamente indiferente ao estado de sua equipe. Seus pensamentos estavam voltados para outra coisa. Algo muito mais interessante.
Ele caminhou até o ponto onde Raial havia estado momentos antes e agachou-se para examinar o solo. A terra ainda brilhava levemente, impregnada com resquícios da energia lunar liberada pela mutante.
O brilho vermelho de seu olho artificial intensificou-se.
— Fascinante… — murmurou ele.
O homem passou os dedos sobre a terra iluminada e observou o fenômeno com atenção quase científica. Aquela energia era diferente de tudo que ele havia encontrado até então. Não se tratava apenas de mutação genética ou de força sobrenatural. Havia ali algo muito mais antigo, algo que parecia ligado a forças que escapavam completamente à compreensão humana.
Ele se levantou novamente.
— Preparem as unidades de rastreamento — ordenou aos soldados. — Quero sensores térmicos, drones e cães. Eles não podem ter ido muito longe.
Um dos militares aproximou-se.
— Senhor… e quanto à mutante?
O homem de olho vermelho virou lentamente a cabeça.
O brilho carmesim refletiu na viseira do capacete do soldado.
— Aquela não era a nossa presa — respondeu ele com frieza. — Mas agora que sabemos que ela existe… talvez passe a ser.
Ele observou novamente a floresta escura. Em algum lugar entre aquelas árvores, os lycans corriam tentando salvar suas vidas. E, possivelmente, junto deles estava a mutante que havia interferido na operação.
O homem sorriu novamente.
— Comecem a caçada.
Mata do Butantã
A alcateia corria em silêncio absoluto através da vegetação densa. Sennefer liderava o grupo com passos largos, desviando de troncos e raízes com uma agilidade impressionante para alguém de seu tamanho. Atrás dele vinham Júlia, Nico e Caetano, ainda ofegantes pela fuga desesperada. Raial corria ao lado deles.
Apesar de sua natureza mutante não ser exatamente a de um lycan, a energia da lua pulsava em seu corpo como um combustível sobrenatural, permitindo que acompanhasse o ritmo da matilha sem dificuldade.
Depois de alguns minutos, Sennefer finalmente diminuiu o passo. O grupo parou em uma clareira pequena, cercada por árvores antigas.
Júlia apoiou as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego.
— Eles… estavam esperando por nós… — disse ela.
Sennefer permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando a direção de onde haviam vindo. — Sim… — respondeu ele finalmente.
Raial cruzou os braços. — Aquilo não parecia uma operação comum.
— Não era — concordou Sennefer.
Ele virou-se para encará-la diretamente. — Aqueles homens sabiam exatamente o que estavam caçando.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Todos sabiam o que aquilo significava. A existência da alcateia havia sido descoberta.
Raial respirou fundo antes de finalmente dizer o motivo que a levara até ali.
— Eu preciso da ajuda de vocês.
Sennefer ergueu uma sobrancelha.
— Para quê?
Ela olhou diretamente nos olhos do líder da matilha.
— Um amigo meu está se transformando em lycan e o tempo está contra ele.
O vento soprou entre as árvores naquele instante, fazendo as folhas tremularem sob a luz da lua. Sennefer permaneceu imóvel. Então, lentamente, abriu um leve sorriso.
— Então você veio ao lugar certo, mutante.
Continua...
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