...

O mundo não mudou de uma vez. Ele começou a falhar.

Primeiro, foram os sinais isolados. Pessoas diferentes. Corpos que respondiam de forma incomum. Habilidades que não podiam ser explicadas, mas também não podiam mais ser ignoradas. Durante um tempo, ainda foi possível tratar tudo como exceção, como erro estatístico, como algo distante demais para preocupar.

Até deixar de ser.

Os mutantes surgiram sem pedir espaço, sem seguir regras, sem qualquer tipo de preparo. Alguns aprenderam a sobreviver. Outros foram destruídos pelo próprio poder antes mesmo de entendê-lo. E no meio disso, surgiram aqueles que decidiram não apenas existir… mas resistir.

No Brasil a equipe tem um nome: CelleXtys.

Não como organização formal, nem como exército estruturado, mas como resposta. Como consequência direta de um mundo que já não conseguia proteger os seus próprios desvios. Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, eles se tornaram linha de frente de conflitos que misturavam medo, poder e sobrevivência. Cada batalha deixava marcas. Cada vitória… criava novas ameaças.

E então vieram os Borgs.

Não como inimigos comuns. Não como força de destruição direta. Mas como algo pior. Eles não atacavam apenas corpos. Eles reescreviam. Uma raça tecnorgânica que detinha em seu protocolo inicial subjugar a comunidade mutante crescente no país. Contudo, em pouco tempo, a ameaça se virou contra qualquer ser humano. Antes voluntários para serem assimilados pela coletividade borg, agora inseridos à força.

A assimilação não era violência no sentido tradicional. Era substituição. Consciências apagadas, identidades dissolvidas, indivíduos transformados em partes de um sistema que aprendia, adaptava e evoluía a cada erro cometido por seus próprios adversários. Eles não invadiam territórios. Eles transformavam tudo em território deles.

E, por um breve momento… funcionou.

Cidades inteiras entraram em colapso parcial. Hospitais deixaram de ser lugares de cura. Ruas se tornaram padrões em movimento. Pessoas passaram a agir como uma única entidade, coordenada, silenciosa, inevitável. O que antes era teoria se tornou realidade em questão de horas.

Até que alguém fez a rede falhar. A queda não foi completa. Não foi definitiva. Mas foi suficiente. No Rio de Janeiro, em São Paulo… e regiões do sul do país, em um lugar que até então não fazia parte do centro dos conflitos, a mesma ruptura foi sentida. Em Cambará do Sul, onde poucos sequer imaginariam que algo daquele nível pudesse acontecer, a guerra chegou sem aviso.

E encontrou resistência. O CelleXty Folkhen manteve o impossível sob controle. Sua aliada, Málaca, fez a própria terra lutar com seu dom. E quatro jovens, ainda longe de qualquer preparo real, enfrentaram pela primeira vez algo que não podiam simplesmente evitar. Foi ali, entre medo e instinto, que deixaram de ser apenas sobreviventes.

E foi ali que ele chegou. Basco Khassan. Não como salvador. Não como resposta definitiva. Mas como alguém que entendia o que estava em jogo. Sua chegada não encerrou a batalha. Mas mudou o ritmo dela. A névoa que o acompanhava não escondia apenas seu corpo, mas criava falhas, interferências, pequenas rupturas em algo que dependia de perfeição absoluta para funcionar.

E, contra um sistema perfeito… pequenas falhas eram tudo o que bastava. Os Borgs recuaram. Não derrotados. Não destruídos. Apenas interrompidos. E isso foi o suficiente para que o mundo entendesse uma coisa: a próxima vez seria pior.

No sul do Brasil, longe dos grandes centros, um novo foco começava a se formar. Não por escolha estratégica inicial, mas por necessidade. Jovens estavam despertando. Poderes estavam surgindo sem controle. E agora, havia a certeza de que não estavam apenas lidando com si mesmos.

Havia algo lá fora aprendendo. Se adaptando. Esperando.

A pousada em Cambará do Sul não era um quartel. Não era uma base. Era um ponto provisório, para um grupo de mutantes que surgia no Sul em meio a exclusão e ao preconceito aos mutantes. Era ali que uma nova geração começava a tomar forma, não como heróis, mas como aqueles que talvez tivessem que enfrentar o que vinha a seguir.

Sem garantias. Sem preparo suficiente. E, desta vez… sem tempo para errar.

...

O vento da serra atravessava os campos de Cambará do Sul com um som constante, arrastado, quase hipnótico, como se a própria terra estivesse respirando em um ritmo antigo e indiferente à presença humana. Não havia mar ali, não havia o movimento previsível das ondas, e para Kaila aquilo ainda era estranho. Ela já havia tentado encontrar algum padrão naquele som, alguma repetição que lhe trouxesse conforto, mas tudo o que encontrava era um vazio irregular, um ruído que parecia sempre escapar de qualquer tentativa de controle.

O campo de treino ao lado da pousada ainda carregava marcas dos últimos dias. Tábuas quebradas, solo revirado, estruturas reforçadas às pressas com madeira retirada do próprio terreno. Nada ali parecia definitivo, e talvez fosse exatamente isso que mais incomodava. Nem o lugar era fixo, nem o grupo, nem a sensação de segurança que Folkhen costumava transmitir. Agora ele não estava mais ali, e o silêncio que sua ausência deixava era diferente de qualquer outro.

— Concentra.

A voz de Basco veio firme, controlada, sem precisar ser alta. Ele permanecia encostado em uma das colunas da varanda, os braços cruzados, observando com uma atenção que não combinava com a postura aparentemente relaxada. Havia algo nele que ainda não se encaixava para os quatro jovens. Ele não era Folkhen, e isso era evidente em cada palavra, em cada pausa, em cada forma direta de conduzir o treino.

Kaila respirou fundo, tentando ignorar o frio que percorria seus braços. — Eu tô concentrada — respondeu, sem olhar diretamente para ele, mantendo os olhos fixos no chão irregular à sua frente, como se ali pudesse encontrar algum tipo de equilíbrio. As mãos tremiam levemente, e ela tentou disfarçar fechando os dedos com mais força. A jovem era uma metamorfa aquática com capacidade de assumir forma de sereia. Emite ondas sonoras destrutivas semelhantes a uma banshee.

Mais afastado, Kostya chutou um pedaço de madeira quebrada, fazendo-o deslizar pela terra úmida com um som seco. — Se isso é concentração, eu nem quero ver o contrário — comentou, com um meio sorriso carregado de impaciência, sem se preocupar em disfarçar o incômodo.

— Fica quieto — respondeu Mika, sem alterar o tom de voz, mas com firmeza suficiente para cortar a provocação. Sentada sobre uma pedra, ela mantinha a postura ereta, os olhos atentos, enquanto pequenos fragmentos de vidro giravam lentamente ao redor de seus dedos, refletindo a luz opaca da manhã. Diferente dos outros, ela não estava focada apenas em Kaila. Observava Basco com atenção quase clínica, como se tentasse entender não apenas o que ele fazia, mas como e por quê.

Emerson permanecia mais afastado, próximo à vegetação que começava a retomar espaço ao redor da pousada. Seu corpo estava levemente curvado, como se estivesse sempre pronto para recuar, desaparecer ou reagir, dependendo da necessidade. Os braços cruzados não escondiam completamente a tensão, e seus olhos, ainda que evitassem contato direto com os outros, voltavam repetidamente para Kaila, acompanhando cada movimento dela com uma atenção silenciosa.

Málaca observava tudo a partir da varanda, mas de uma forma diferente. Sua presença não interferia diretamente, e ainda assim parecia ocupar todo o espaço ao redor. Enquanto tomava uma xícara de café, seus olhos percorriam não apenas os jovens, mas o ambiente, o vento, o solo, as plantas que reagiam de maneira sutil à tensão crescente. Havia nela a postura de quem aguarda o momento certo, não de quem impede que ele aconteça.

— De novo — disse Basco, sem mudar o tom.

Kaila fechou os olhos, tentando se desconectar de tudo ao redor. Por um instante, buscou algo familiar, algo que lhe desse estabilidade. Uma música. Uma melodia simples que costumava ouvir em seu quarto, em Torres, antes que tudo mudasse. Algo leve, repetitivo, previsível. Deixou que a lembrança tomasse forma e abriu a boca devagar, permitindo que o som surgisse.

O canto veio baixo, quase um sussurro, carregado de cuidado. Durante um breve instante, funcionou. O ar ao redor permaneceu estável, e o som fluiu sem distorções. Mas foi apenas um instante. Algo dentro dela falhou, como uma corda tensionada além do limite, e a vibração se rompeu de forma abrupta. A pressão sonora se expandiu em um arco irregular, atingindo o solo com força suficiente para levantar terra e poeira, enquanto uma das tábuas laterais da pousada estalava sob o impacto.

Kostya soltou uma risada curta e Mika balançava a cabeça em sinal de desaprovação pela atitude do irmão. Os fragmentos de vidro ao redor dela se reorganizaram instantaneamente, formando uma barreira sutil, quase imperceptível, mas claramente funcional. Kaila levou a mão à garganta, os olhos arregalados, sentindo o próprio erro reverberar dentro do corpo.

— Eu… eu perdi — murmurou, ainda tentando entender o que havia acontecido.

— Não perdeu — disse Basco, já à frente dela. Ninguém o viu se mover, mas ele estava ali, próximo o suficiente para que sua presença se tornasse impossível de ignorar. — Tu nunca teve.

A frase caiu com peso. Kaila ergueu o olhar, confusa, sentindo mais o impacto das palavras do que o efeito do próprio poder. O silêncio que se seguiu foi interrompido pela voz de Kostya, que não pensou antes de falar.

— Folkhen não fazia assim.

O ambiente inteiro pareceu se contrair por um instante. Málaca desviou o olhar brevemente, enquanto Mika permaneceu observando, curiosa com a reação que viria. Basco inclinou levemente a cabeça, como se avaliasse a frase antes de responder.

— Então tu devias ter prestado mais atenção nele — disse, sem elevar a voz, mas com firmeza suficiente para encerrar qualquer dúvida sobre sua posição.

Kostya travou o maxilar. — Eu prestei.

— Então por que ainda não sabe controlar? — Respondeu Basco, mantendo o olhar fixo nele por um segundo antes de voltar para Kaila.

O silêncio voltou, mais pesado do que antes. Kaila sentiu o estômago apertar, a respiração descompassada. — Eu não consigo — disse, quase num sussurro. — Toda vez que eu tento… parece que piora.

Basco a observou por alguns segundos antes de responder. — Porque tu não estas tentando controlar. Tá tentando segurar. E quanto mais tenta impedir o poder de existir, mais ele vai encontrar um jeito de sair.

Kaila franziu a testa, lutando para entender. — Eu tenho medo de machucar alguém — admitiu, dessa vez sem hesitar.

— Vai — respondeu ele imediatamente. – O seu dom não tem ligação diretamente com o mar e sim com as águas. Lembre-se disso. Use as águas do rio – Apontava Basco para o rio ao lado da cabana.

A palavra veio seca, direta, sem qualquer tentativa de suavizar o impacto. Kaila congelou, como se tivesse sido atingida fisicamente. — Não…

— Vai — repetiu Basco, com a mesma firmeza. — Não porque você quer. Mas porque ainda não sabe controlar.

A respiração dela falhou por um instante, e o desespero começou a tomar forma. — Então qual é o sentido? Pra que eu tô aqui então?

Basco deu um passo à frente, aproximando-se o suficiente para que ela não pudesse evitar o olhar dele. — Pra escolher quem tu não vai machucar. Para se defender quando pessoas como o seu pai tentarem lhe fazer mal.

A frase ainda ecoava quando o corpo de Kaila se contraiu novamente. O som começou a surgir antes que ela percebesse, mais profundo, mais instável, carregado de algo que não era apenas falha, mas medo puro. Ela se aproxima da margem do rio e entra até a água lhe cobrir partes das pernas. Ela tentou conter, tentou interromper, mas era tarde demais.

A onda sonora explodiu sem direção, atravessando o campo com violência. A cerca cedeu em dois pontos, o solo vibrou, e o ar ao redor pareceu comprimir sob a força invisível. Emerson avançou imediatamente, movido por instinto. Seu corpo reagiu antes da mente, escamas surgindo ao longo dos braços, os dedos se curvando em garras, a cauda se formando como um reflexo direto do caos.

— Para! — Gritou, mas o tom não era de comando. Era de desespero.

Kaila caiu de joelhos, pressionando as mãos contra a cabeça enquanto o som continuava a escapar, irregular, descontrolado. Málaca fechou os olhos e, quase instantaneamente, a terra respondeu. Raízes romperam o solo e envolveram o corpo da jovem, não para prendê-la, mas para estabilizar a vibração, criando uma resistência natural ao redor dela.

Mesmo assim, o controle não veio imediatamente. Mika já estava de pé, reorganizando o vidro ao redor em uma estrutura defensiva que refletia parte da onda sonora em direções opostas. Kostya hesitou, dividido entre avançar ou recuar, enquanto Emerson parava a poucos metros de Kaila, lutando contra a própria transformação.

— Kaila… — disse ele, mais baixo, tentando alcançar algo além do som.

A vibração oscilou, enfraqueceu e, finalmente, cessou. O silêncio que voltou não era leve, mas também não era vazio. Era denso, real, carregado das consequências do que quase havia acontecido.

Kaila permaneceu imóvel por alguns segundos antes de levantar o rosto, os olhos marejados. — Eu quase… começou, mas não terminou.

Málaca abriu os olhos e as raízes recuaram lentamente para o solo. — Sobreviver não é escolha. É obrigação — disse, com firmeza, sem suavizar a frase.

Aquilo não confortou. Apenas tornou tudo mais concreto.

Basco se aproximou novamente, dessa vez sem pressa. — Você tem um potencial gigante, garota — disse, agachando-se à frente dela. — E estou aqui para te ajudar.

Kaila fechou os olhos por um instante, tentando controlar a respiração. — Eu não sei fazer isso…

Basco inclinou levemente a cabeça. — Ainda não, mas saberá — respondeu.

Uma nova tentativa, agora fortalecida pelas águas do rio. Havia foco, precisão, concentração. Ao disparar sua rajada sônica, Kaila direciona todo a sua força na direção das rochas de um dos paredões de pedra. A explosão foi forte e objetiva. Após o estrondo e o baixar da fumaça era possível ver o buraco que despedaçou o paredão como se um pequeno meteoro tivesse colidido com as rochas.

- O que te motivou? As lembranças do passado? – Perguntou Basco

- Não... O que eu sou agora! – Respondeu Kaila

O vento voltou a atravessar o campo, carregando consigo o mesmo som irregular de antes. Mas agora, pela primeira vez, Kaila não tentou encontrar um padrão nele. Ela apenas escutou. Porque começava a entender que o problema não era o poder. Era o que ele exigia dela.