Celle, o retorno
23 O apartamento perfeito
Isabelle e Cris dedicaram-se a busca por bons imóveis disponíveis para locação nos dias seguintes.
Sentados no tapete da sala de estar do apartamento de Carly, numa noite estrelada, olhavam os anúncios nos sites de imobiliárias. Ellie brincava com suas bonecas ao lado do casal.

Cris comentou:
— Olha que casa bonita! O preço do aluguel tá valendo a pena.
Isabelle olhou e rebateu:
— Fica lá onde “Judas perdeu as botas”, muito longe dos nossos trabalhos.
— Fica no subúrbio, teríamos que sair mais cedo de casa, mas pense nas vantagens...
— Não vejo nenhuma.
— Teria muito espaço para Ellie e para os outros filhos que teremos. Vai ser difícil achar uma casa espaçosa para as crianças na região mais central.
— Fui uma criança criada em apartamento e você também. Nossos filhos também vão sobreviver – rindo – Além disso, eu tenho dificuldade de acordar cedo, como você bem sabe. Se morarmos muito longe, teremos que acordar de madruga para chegar no horário do serviço e ainda enfrentar um baita trânsito. Eu tô fora!
— Mas, eu aposto que Ellie iria adorar essa casa. Vem ver filha – puxando a pequena para o seu colo e apontando para a tela do notebook – Você gosta? Quer morar nessa casa?
Ellie olhou desconfiada e depois respondeu:
— Não, papai. Eu gosto da minha casa.
Isabelle começou a rir e disse:
— Bem feito! Bate aqui, Ellie – abrindo a mão para a menina, que bateu na mão dela, sorrindo.
— Isso é um complô – insurgiu-se Cris.
— Meninas contra menino, né Ellie?
— É! – concordou a pequena, rindo, junto com Isabelle.
Isabelle puxou Ellie para o seu colo e a encheu de beijos. Cris disse:
— Acho que temos que encomendar um menino rapidamente, para equilibrar esse jogo, porque estou me sentindo em desvantagem.
— E se vier outra menina? – perguntou Isabelle.
— Eu vou gostar do mesmo jeito. Mais uma princesa para minha vida! – abraçando as duas.
Nos dias que se seguiram, foram olhar pessoalmente muitos apartamentos na região mais central de Seattle. Nenhum parecia agradar Isabelle.
Quando voltavam depois de mais uma visita a um imóvel, Cris indagou à noiva:
— Meu amor, o problema é com os apartamentos ou você não está bem segura de que quer morar comigo?
— Ai, Cris! Como você é inseguro! Eu já morei com alguém antes e você sabe disso. Por que não iria querer morar com o amor da minha vida?
— Você pode repetir o que disse?
— Que eu já morei com alguém antes?
— Não, essa parte você pode deletar, pra sempre! O final...
— Que você é o amor da minha vida? Isso você é mesmo – tomando os lábios do moreno num beijo, enquanto parados no sinal.
O beijo só cessou ao barulho das buzinas, avisando que o sinal já havia aberto.
Mais tarde, Sam lavava a louça quando Isabelle entrou na cozinha e ficou rodeando, sem falar nada. A mãe percebeu:
— Desembucha, Belinha! O que quer?
— Mãe, você e o papai ficariam muito tristes se eu fosse embora de casa, de novo?
— Cris quer morar com você, não é mesmo?
— Como sabe? Ele falou?
— E precisa? Todo mundo pode ver o quanto ele está enlouquecidamente apaixonado por você. É natural que te queira só pra ele.
— E como se sente com isso?
— Eu e seu pai vamos sentir a sua partida, novamente, sem dúvida. Mas, nós criamos os filhos para o mundo. Eu e Freddonho ainda nos aguentamos nas pernas. Não estamos nada mal para um casal de mais de 40 anos. Daqui uns 20 ou 30 anos, você vai ter que cuidar de nós. Por enquanto, cuide da sua felicidade.
Isabelle abraçou Sam e disse:
— Você é a melhor mãe do mundo! – dando um beijo no rosto da mãe.
— Você também é a melhor filha do mundo. E é bem melhor ouvir isso de você hoje. Antigamente era: “Você é uma bruxa má” – tentando imitar a voz infantil de Isabelle.
— Eu realmente não sabia o que dizia.
— Não mesmo. Se fui dura com você, foi para que não se perdesse na vida, como eu me perdi por um tempo. Às vezes penso que você veio cedo demais, mas, você veio na hora certa, para colocar algum juízo naquela minha cabeça juvenil.
— Você não teve medo quando descobriu que estava grávida de mim?
— Claro que tive. Dei uma surtada. Peguei a minha moto e sai pilotando em alta velocidade. Mas, foi a última grande loucura que fiz.
— Teria sido mais fácil se eu tivesse vindo em outro momento?
— Minha filha, se pensarmos muito, nunca será o momento certo e nunca nos sentiremos totalmente preparadas. Mas, por que essas perguntas?
— Cris está querendo um filho.
— Ele já não tem a Ellie?
— Sim. É que... Mãe, eu preciso contar uma coisa que aconteceu comigo em Nova York.
Sam largou a louça, fechou a torneira, puxou uma cadeira e sentou-se à mesa, ao lado da filha:
— O que aconteceu?
— Eu estava grávida e sofri um aborto espontâneo, enquanto tomava banho.
— O filho era do Richard?
— Não!
— Como não? Ele não era seu noivo até então?
— Eu e Cris tivemos uma recaída no dia anterior à minha partida para Nova York...
— E ele soube da gravidez?
— Soube. Eu contei quando estava no hospital, depois de doar a medula para a Ellie. Agora ele parece obcecado com essa história de termos um filho, como para colocar no lugar daquele que eu perdi.
— Você quer um filho?
— Eu não sei o que quero, mãe. Estou confusa. Eu queria, mas, depois surgiu esse trabalho tão bom. Eu sei como o mercado é competitivo, inclusive dentro das empresas. Se eu engravidar, fico fora do jogo por meses. Não sei se me garanto quando voltar.
— Não pense assim. Você é uma excelente profissional. Seu chefe seria um louco se te desprestigiasse na empresa porque engravidou.
— Eu me demiti na empresa na qual trabalhava em Nova York, porque o meu chefe me negou uma promoção, mesmo depois de eu ter sido muito bem aprovada nos testes, porque descobriu a minha gravidez.
— Seu ex-chefe é um babaca!
— Eu também acho! Mas, não é tão comum uma mulher engenheira. Ainda sinto preconceito só pelo meu gênero, num mercado dominado por homens, imagine se eu engravidar?
— Se você engravidar, cala a boca deles mostrando todo o seu talento superior ao deles. Dando conta do trabalho e do seu filho, como nenhum deles é capaz de fazer e ainda de salto alto.
— Então, você acha que eu deveria ter um filho?
— Se for só para agradar o Cris, não. Agora, se for o desejo do seu coração, vá em frente e pronto!
— Na verdade, talvez ele já esteja aqui — passando a mão na barriga.
— Você acha que está grávida, Belinha?
— Se não for intolerância alimentar, é provável – rindo.
— Por que não faz logo o exame?
— Eu estava tão insegura só com a possibilidade nesse momento. Além disso, eu ainda tenho medo de perdê-lo. Tenho medo de criar expectativas novamente, como da outra vez, e tudo se acabar de novo. O médico me disse que abortos espontâneos são comuns nos 3 primeiros meses. E se acontecer de novo? E se meu útero for fraco?
— Você é filha de uma Puckett, nada em você é fraco! Na nossa família, quando mulher pega barriga, normalmente ainda vêm gêmeos, há gerações.
— Eu prefiro esperar os 3 meses só para garantir. Aí faço o exame e se estiver mesmo grávida, eu me sentirei mais segura para contar para todo mundo. Será que você consegue guardar esse segredo?
— Minha boca é um túmulo.
— Não pode contar nem para o papai.
— Seu pai seria a última pessoa para quem eu contaria que sua única e amada filha, a sua pura e intocada princesa, está esperando um filho antes do casamento.
— Valeu, mãe.
Ouviram a campainha. Era Cris, com o peraphone em mãos. A própria Isabelle abriu e o rapaz falou, empolgado:
— Eu encontrei o apartamento perfeito para nós!
Fale com o autor