Celle, o retorno
12 A ponte do desespero
Sam saiu do quarto e deixou Isabelle e Cristopher a sós. O rapaz foi direto:
— Eu não posso mais negar que te amo e que te quero, Isabelle! Eu sei que errei muito, mas lhe imploro uma chance.
— Você provavelmente já soube que desisti do meu casamento e pensa que estou totalmente disponível para você, mas pensa errado! Eu não terminei com o Richard por sua causa, mas, por minha causa. Entendi que não estou preparada para um enlace desse tipo.
— Eu compreendo. Na verdade, suas razões são só suas. Mas, eu vi essa sua decisão como uma oportunidade para eu me declarar e...
— E mais nada, Cris! Eu não me esqueci da sua traição, não vou me esquecer nunca!
— Eu pensei que estivéssemos próximos ultimamente.
— Eu não vou mais te evitar. Nós somos vizinhos, filhos de melhores amigos e bem ou mal, amigos de infância. Mas, é inviável uma relação além de cortesia. Não gosto de me lembrar de você nem como meu ex-namorado, menos ainda posso cogitar como um futuro namorado. Acabou, Cris. Você me machucou demais. Um vidro fino, depois de quebrado, não pode mais se recompor como antes.
— Então quer dizer que não me ama mais?
— Se ainda existe amor, está encoberto por uma grossa camada de mágoas.
— Eu entendo. Talvez eu sentisse a mesma coisa se estivesse no seu lugar. Aliás, sentiria ainda mais. Não sou forte como você, talvez nem conseguisse tocar a minha vida para frente se você me magoasse tanto. Mas, eu quero que saiba que nem tudo é como parece. Que eu errei numa escolha sim, porém, nunca te trai.
— Ah não? Como explica Elllie ter nascido poucos meses depois do nosso término?
— Nem sempre os fatos são tão claros como parecem ser.
— O que quer dizer? Vem me atormentar num dia difícil e ainda fala em códigos!
— Eu gostaria de poder te contar essa história com toda a clareza que você merece, mas, eu fiz uma promessa e não posso quebrá-la.
— Claro, porque a sua promessa de esperarmos um ao outro até a formatura, mesmo que num namoro à distância, você se esqueceu.
— Essa promessa envolve a vida de muitas pessoas e...
Sam adentrou ao quarto:
— Corram para a sala, precisam ver o noticiário.
Isabelle e Cristopher seguiram Sam. A moça tomou um susto ao ver Richard tentando se atirar da principal ponte da cidade. Bombeiros, policiais e a imprensa em peso estavam lá.
— Isso tudo é minha culpa! – falou Isabelle, começando a chorar.
Sam abraçou a filha:
— Richard sempre foi fraco das idéias. Se ele não sabe lidar com um pé na bunda, a culpa não é sua.
— Não foi só um pé na bunda, foi pouco antes do nosso casamento! Eu deixei chegar até praticamente o altar para ter coragem de terminar tudo. A culpa é toda minha! – abraçando a mãe – Eu preciso salvar o Rick, eu preciso ir pra lá!
— Eu te levo – ofereceu-se Cris.
— Ah, claro! Aí ele vê nos dois chegando juntos e pula mais rápido! Como sempre, teve uma brilhante ideia, Cristopher!
— Não precisa ofender, eu só quis ajudar, mas, se estou atrapalhando, eu já vou – seguindo em direção à porta e saindo do apartamento.
Freddie falou:
— Eu te levo lá, filha. Esse garoto é perturbado, mas você sempre conseguiu mantê-lo sob controle, talvez seja realmente a única pessoa que pode impedi-lo de pular.
Sam acompanhou o marido e a filha. Pouco depois, estavam no local. Jade e Beck gritavam, desesperados, pedindo ao rapaz para que saísse da beirada da ponte, mas, ele parecia alheio a tudo, com o olhar distante e banhado de lágrimas.
Ao ver Isabelle, Jade correu para a moça e agarrou pela gola:
— Isso tudo é culpa sua! – gritou a mãe de Richard perto da face de Isabelle – Eu disse que iria se arrepender se causasse mal ao meu filho! E causou! Eu tenho vontade de te atirar dessa ponte! – chacoalhando a moça.
Sam interveio e empurrou Jade, fazendo-a soltar Isabelle:
— E eu já disse que ninguém maltrata a minha filha!
As duas se encararam como dois touros bravos prestes a um confronto de morte.
Beck e Freddie estavam nervosos, pressentindo o pior. Freddie manifestou-se:
— A Belinha está aqui para ajudar. Sabemos que só ela pode impedir que Richard se atire.
— Eu sou a mãe dele e ele não me ouviu, o que te leva a crer que essa daí consiga? – questionou Jade.
— Pelo menos me deixa tentar – pediu Isabelle – Por favor.
Beck falou:
— Jade, não temos nada a perder, talvez seja a nossa única chance. Não custa deixar ela tentar.
— Está bem. Mas, aviso, se ele se jogar por sua causa, eu te jogo na sequência.
— Estou ciente e quero continuar – respondeu Isabelle à ameaça da ex-sogra.
Pouco depois, ela estava à frente dos bombeiros, policiais e jornalistas e gritou no alto-falante:
— Rick, sou eu, a Isabelle! Olhe para mim!
Richard virou a face em direção à moça e ela continuou:
— Se te magoei eu peço perdão, mas, eu te peço, eu te imploro, não faça isso. Sua vida vale mais do que tudo.
O policia cochichou para ela:
— Aproxime-se lentamente, passos pequenos e aos poucos, continue conversando com ele.
Ela prosseguiu:
— Eu te amo, Rick! Eu sei que é difícil acreditar agora, mas é verdade – dando um pequeno passo para mais perto – Eu sei que não mereço o seu amor, que não fui madura o suficiente – dando mais um passo – Mas, você é maior do que tudo isso, maior do que eu, por isso sempre te admirei tanto e por isso não sou digna de você – mais um passo.
Richard percebeu que Isabelle já estava bem perto e gritou:
— Pare, Isabelle! Nem mais um passo! Ou eu me atiro mais rápido! Você já me matou quando acabou com tudo praticamente às portas do altar! Só me resta esse corpo e agora eu vou dar fim a ele.
— Não! Eu não te matei, Rick! Eu te mataria se subisse ao altar com você, porque eu te faria infeliz. Eu te dei a chance de ter uma vida feliz, longe de mim.
— Eu não posso ser feliz longe de você, porque você é a minha vida!
— Eu não sou, você só criou essa ilusão! A sua vida é só sua e é valiosa demais para que você a tire por minha causa. Você está me dando uma importância maior do que a que realmente tenho. Você é a pessoa mais importante da sua vida e tem tudo o que precisa para ser feliz, sem depender de ninguém!
— Ninguém nunca vai me amar, Isabelle! Eu pensei que você me amava, mas era tudo ilusão. Eu sou um traste que não merece viver!
Isabelle já estava bem perto e foi rápida, puxando-o para dentro com a ajuda de um dos policiais, que a acompanhava de perto.
Rapidamente os bombeiros se aproximaram e o imobilizaram numa maca, ele começou a chorar compulsivamente. Isabelle aproximou-se e disse:
— Eu sempre vou te amar, Richard, mesmo que você não acredite agora. Mas, não poderia te amar como esposa. Meu sentimento por você é muito mais profundo que isso. Amor de homem e mulher pode ser superficial e acabar um dia, mas, o de verdadeiros amigos, é para sempre – dando um beijo no rosto dele.
Richard foi levado pelos bombeiros junto aos pais e Isabelle caiu em prantos. Sam e Freddie abraçaram a filha. O pai disse:
— Estou muito orgulhoso da minha princesa hoje.
— Você fez o certo, filha – completou Sam.
Os três retornaram para casa.
Na manhã seguinte, todos ainda estavam muito abalados com o ocorrido na noite anterior.
Freddie indagou à filha:
— Belinha, o que vai fazer agora?
— O que quer dizer, pai?
— Vai voltar à Nova York?
— Não acha que é cedo para fazer perguntas de ordem prática para a nossa filha, nerd? Ela tá abalada! – ralhou Sam.
— Está tudo bem, mãe. Eu tenho mesmo que pensar sobre isso, mas não agora. Tenho uns dias ainda. Tirei férias e vim pra cá organizar o casamento e emendei com a licença para o casamento e breve lua-de-mel, que não aconteceram. Enfim...
— Pense com calma, querida. Tem tempo – aconselhou Sam.
— Nem tanto, mas, eu vou me recuperar até lá.
— Essa é a minha garota! – falou Sam, abraçando a filha.
Enquanto isso, no apartamento do oitavo andar, Carly, Sophie, Gibby, Cris e Ellie tomavam café da manhã. Mabel, mais uma vez, havia se recusado a sair do quarto e da cama. Carly percebeu o abatimento do filho e comentou:

— As coisas não saíram como o esperado com a Isabelle, não é mesmo?
— Evidente – respondeu ele, ainda triste.
— Mas, você não deveria desistir.
— Ela deixou bem claro que nunca vai me perdoar.
— Filho, é provável que ela volte para Nova York em breve, afinal, ela tem um emprego lá. Você tem esse tempo para tentar. Se não tentar, vai se arrepender muito, quando ela for embora. Não é garantia de nada, mas, quem não arrisca, não petisca.
— Sua mãe tem razão – concordou Gibby – Mesmo pensando que a Carly nunca me daria uma chance, eu arrisquei e hoje estamos aqui, há quase duas décadas juntos.
Gibby deu um beijo estalado nos lábios de Carly, que sorriu.
— Vocês podem ter razão, mas, ainda vou pensar a respeito.
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