Celeridade
4 Mensagem, Lustre e Filho
–Não minta pra mim, minha mãe reconheceu o cheiro nas suas roupas. – digo com as mãos na cintura.
Ele respira fundo. Admite que minha mãe está certa.
Quando eu tento dar uma bronca monumental nele, ele me diz que precisamos conversar sobre algo “interessante” que aconteceu ontem.
–O prefeito viu uma gravação de uma das câmeras espalhadas em Tyftown. – ele diz, mas não entendo a preocupação dele – Mais especificamente, uma gravação sua. Correndo a quatrocentos e vinte e sete quilômetros por hora ontem à noite.
Arregalo os olhos e movo a boca como um peixe, sem articular som algum.
–Tem algo que você queira me contar, Robin? – ele pergunta iniciando um abraço.
Nego com a cabeça. Mordo o lábio inferior quando ele levanta as sobrancelhas.
Quando o abraço está em seu ponto máximo, ele sussurra que eu posso confiar nele. Beija a lateral da minha cabeça e se afasta lentamente.
Eu devia saber que tinham câmeras por aqui.
E o prefeito viu tudo...
Calma aí.
Como Oscar sabe que o prefeito viu tudo?
Vou até ele.
Puxo seu ombro e o viro para mim.
Refaço a pergunta a ele.
–Ele é meu pai. Você não sabia? – ele retruca com uma pergunta inocente.
“Óbvio que não seu maconheiro maluco.”
Não. Não é uma resposta digna.
–Ah, é... Eu sabia. – minto com um sorriso sujo.
Ele decide me explicar o real problema no caso.
O prefeito David Castle (DC, para os bajuladores) é simplesmente louco por coisas sobrenaturais. As câmeras estão por toda a cidade, para que ele não perca nenhuma movimentação estranha e/ou paranormal.
Como uma certa garota a mais de 400 km/h...
Da última vez que ele descobriu algo bizarro por aqui, o autor da bizarrice não sobreviveu para alertar sua gangue de mutantes, que levou o mesmo fim.
Para representar o fim deles, Oscar traça uma linha no pescoço com o dedo.
Mensagem captada.
Ainda não é o real problema no caso.
O que imagino ser o real problema no caso, é que o pai de Oscar sabe que eu sou a ligeirinha da cidade. E sabe que estamos namorando.
–Ele quer que eu atraia você para o covil diabólico dele, para fazer alguma coisa com você. – ele diz tentando me consolar: — Não vou deixar ele encostar em você.
Só que ainda não é o real problema no caso.
O real problema do caso, nessas palavras e ordem, é que eu e ele não podemos ter filhos porque ele não sabe como lidar com crianças mutantes.
–Não ensinam isso em “Biologia II”. – ele explica. Levo a mão à testa.
Agradeço a proteção e cuidado que ele está tendo comigo nesse momento, mas me afasto.
Passo o dia o evitando.
Me despeço dele à distância e sigo insuspeitamente para casa.
Pelo menos, tento ser a mais discreta moça em Tyftown.
Chegando ao hotel, vejo minha mãe sentada no sofá conversando com alguém.
–Robin! Que bom que você está aqui! – ela se levanta e um cara a acompanha num movimento robótico e sinistro – Esse é o Ítalo, ele gostou muito de você.
–Mas eu nem conheço ele. – digo com toda a sinceridade do mundo.
–Eu sei. Mas ele te conhece das fotos que mostrei e histórias que passei a manhã contando. – ela sorri psicoticamente na minha direção.
–Olá, Robin-Marie. É um prazer conhecê-la. – ele diz e estende a mão. Cumprimento-o por pura educação, mas não quero prolongar este momento esquisito.
Conto à minha mãe que o prefeito descobriu meus poderes e, em uma fração de segundo, ela está arrumando minhas malas. Tento a impedir, mas ela me empurra.
–Eu disse para você ter cuidado! – ela grita pondo roupas na minha mala – Vamos, temos que sair logo daqui!
–Mãe, eu não vou! – grito, me jogando em sua frente – Não quero. Você não vai me proteger para sempre! Vou resolver isso como a adulta que sou!
–Você não é uma adulta! É só uma criança! – ela insiste na minha puerilidade enquanto atola minhas botas na outra mala – Crianças precisam de regras para não terem seus poderes descobertos por caçadores de mutantes. E essas coisas.
–Eu não sou uma mutante! Eu sou normal! – grito e a empurro.
No mesmo segundo, percebo a merda que fiz…
Ela levanta a cabeça e olha para mim.
–Você. Não. É. Normal! – a voz dela ecoa por todo o quarto. Sinto lágrimas caírem dos meus olhos. As delas não vêm muito atrás – Eu quero te salvar dos perigos! Sou sua mãe!
–Confie em mim! Oscar é filho do prefeito, ele pode me ajudar e...
–Deixando o pai dele “alegre”? – a emoção virou raiva. De novo...
Saio do quarto sem olhar para trás.
Encontro o tal do Ítalo na recepção.
–Precisa de auxílio, Robin-Marie? – ele diz com sua voz melíflua.
–Você não tem ideia... – ele responde que tem.
–Sou um dos seus... – ele sussurra ao chegar mais perto.
Ele pisca e um vendaval invade a recepção, chacoalhando o lustre tanto, que a recepcionista o apaga. O sofá é arrastado pela ventania, e eu quase caio no chão.
Com outro piscar de olhos, tudo se cessa quase instantaneamente.
–Viu? – ele questiona.
Respondo com um abraço. É tudo que posso fazer agora.
Alguém estranho como eu...
Tá. Talvez ele seja mais.
Ele diz que posso confiar nele quando eu precisar.
Desconfio de sua lealdade, mas sigo em frente.
Preciso falar com Oscar agora mesmo.
Cruzo a cidade até o lixão.
Sua banda está tocando um cover de Kataklysm.
Quando ele me vê, faz um sinal para que se cessem os músicos e os arrotos de Demônio.
–A música era... – ele sorri, mas o interrompo necessariamente.
–Não importa. Minha mãe quer me tirar da cidade. O único jeito de ela mudar de ideia é se seu pai morrer ou as gravações forem destruídas eternamente. – ele se surpreende com minha seriedade – Vai me ajudar?
–Sou seu namorado. A resposta não é óbvia? – ele vem me abraçar, mas o empurro com a mão.
–Não muito. – respondo fitando-o com olhar julgador.
Ele é mais forte que eu e me abraça mesmo assim.
Sinto um calafrio e ele dá uma risada aconchegante.
Disfarço toda essa papagaiada e prossigo com o plano.
–Tem mais de um aqui? – ele pergunta assustado quando falo sobre Ítalo.
–Sim, ele é diferente: controla o vento ou algo assim. Disse que posso confiar nele. – ele começa a fechar a cara – Eu não vou trair você. – coloco a mão debaixo de sua camisa – Ainda não descobrimos se filhos de mutantes com normais nascem normais.
Ele sorri de novo.
Começamos a bolar um plano para destruir as gravações.
Enquanto eu bolo um plano para que minha mãe não saiba do plano que estou bolando.
Mas imagino que ela esteja bolando um plano para descobrir do plano que estou bolando para que ela não saiba do plano que estou bolando.
Bato na própria testa e continuo a escrever.
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