Celeridade

9 Laje, Ordem e Assovio


Para meu desespero, o prefeito realmente quer falar conosco pessoalmente.

Alguns segundos depois dos guardas e cientistas saírem o homem vestindo um paletó cinza adentra a sala com uma expressão muito desagradável.

Recuo e vou para trás de Cintia, que grita comigo, mas dou um tapa para lhe calar a boca.

Ítalo ainda está preso à maca, então o prefeito não o dá atenção.

–Surpreendente. – ele diz olhando para a sala, de um modo geral – Nenhum arranhão. Exceto por aquilo. – seu dedo é direcionado para uma laje que tinha a máquina atrás da qual Cintia e eu nos escondemos.

–Deixa a gente em paz, a gente só quer uma vida normal! – Cintia implora gritando e ficando de joelhos.

–Não ajoelha tão fácil! – repreendo e dou um chute de leve em sua cintura.

Seguindo meu conselho, ela decide se levantar. Estufando o peito, ela cruza os braços e encara o prefeito.

Um discurso sobre como nós somos uma desgraça para a humanidade é proferido com palavrões e adjetivos extremistas que eu nunca tinha ouvido.

Ítalo corrige uma palavra errada que o homem disse.

–Fique quieto seu... Seu impuro! – ele retruca – Quando eu descobrir o que faz de vocês especiais eu vou poder caçar até o último inferior que está neste planeta! – ele solta uma gargalhada. Acho que este homem vem vendo muitos filmes – Vocês vão me ajudar por bem ou por mal?

Ele pronuncia a última palavra com uma entonação diferente da que ele usou no resto da frase.

Não é crueldade.

Nem malícia.

É algo satânico.

Faz com que meu corpo trema involuntariamente.

Este jeito de falar me dá a impressão que não temos muita escolha.

Ele avança para Cintia. A coitada está tão assustada, ao menos aparenta, que nem se move.

Não penso duas vezes. Antes que ele encoste um dedo nela, invisto no prefeito para tirá-lo de seu caminho.

–Senhor, se vai tocar em nós, é bom ter uma ordem jurídica! – solto sem acreditar muito.

–Isso é com seres humanos, coisa que vocês nunca serão! – ele responde acertando uma mãozada tão forte no meu rosto, que caio no chão ao lado dele.

Arrumo forças para me levantar, mas ele já está prendendo Cintia à maca do lado da de Ítalo.

–Pare agora com isso! – grito apontando pra ele – Não pode simplesmente torturar pessoas inocentes!

–Vocês não são pessoas! – DC me empurra com o pé e eu caio no chão novamente – Não serão mais nada quando eu tiver terminado.

Sinto a consciência se esvair de meu corpo.

Por outro lado, não sinto meus braços.

A última coisa que vejo, e, ainda, sem muita nitidez é o prefeito caindo no chão e uma forma humanoide ao fundo, numa posição estranha.

Quando acordo, estou num quarto de hospital, usando roupas de hospital estranhas, com um curativo no rosto e uma leve dor no peito. Ao lado da minha cama, Oscar está dormindo num sofá roncando alto.

Muito alto.

Tão alto que não duvido ter sido acordada por esse ronco.

“Ronco” uma ova.

Parece uma retroescavadeira mutilando um elefante.

Chamo sua atenção e consigo acordá-lo.

Seus olhos brilham e sua boca se petrifica num sorriso.

Ele salta do sofá para a cama e me beija.

–Que susto você me deu, Robin! – ele está chorando?

–Tá chorando? – empurro ele para que desça da cama.

–Sim. E não é só porque você está de volta. – faço uma expressão confusa para ele, que assovia.

Minha mãe entra no quarto vestindo roupas normais.

Normais para ela, diga-se de passagem.

Isto quer dizer que ela está livre.

Aparentemente, alguém fez algo e minha mãe é parte da sociedade novamente.

Ela repete o movimento de Oscar e pula na cama para me abraçar.

–Eu que deveria estar chorando. – digo sorrindo, até que sinto as lágrimas – Ah, culpada! – dou uma risada.

O sorriso de Oscar não se desfaz, mas seus olhos não encobrem uma tristeza.

Isso tem cheiro de má notícia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.