Cegueira de carne

3 Capítulo 3 : Dopamina


Notas iniciais
Quantas coisas somos capazes de suprimir? E por quanto tempo?

Estava sentada na recepção do consultório do Dr. Mészáros, folheando uma revista do ano passado. Olhava para as fotos de mulheres lindas em biquínis, com uma certa inveja, ilustrando artigos sobre dieta low carb e vida saudável. Um pensamento intruso invadiu sua mente: se eu fosse uma mulher mais bonita, teria tais perturbações? A recepcionista lhe chamou, interrompendo seus pensamentos. Não esperou tanto tempo quanto achou que esperaria:

— Senhorita Ölah, sente-se por favor. — Disse o Dr. Mészários apontando para a poltrona.

— Obrigada. — Disse, enquanto ajeitava sua saia.

— Como está o seu progresso? — Disse enquanto mexia no seu bloco de anotações.

— Acredito que meu julgamento da realidade esteja comprometido — Respondeu de forma direta.

— Foi uma decisão sua interromper o uso de medicamentos e eu respeitei, estávamos fazendo progresso. — o Dr. Mészáros estava claramente desconfortável, olhava-a como um trabalho mal executado. — O que aconteceu? — Inquiriu.

— Voltei a ter aqueles sonhos perturbadores, e por coincidência algo aconteceu no meu escritório no mesmo dia. — Tirou da bolsa o celular e mostrou a foto para ele. — Essa foto foi tirada de dentro da minha casa, pelo celular de outra pessoa, em um momento em que eu pensava que estava sozinha. Alguém a colocou como fundo de tela no computador do meu escritório. Pode ter algum perseguidor me vigiando.

— Você achou melhor me procurar ao invés de abrir uma ocorrência na polícia? — Inquiriu o Dr. Mészáros.

— Sim, por hora acho melhor manter isso sem envolvimento da polícia. — Respondeu ela.

— Por que? — Perguntou ele curioso.

— Sofri pressão no escritório para manter isso em sigilo. — Falou hesitante.

— Pode me explicar melhor? — Inclinou-se o psiquiatra, numa expressão de interesse.

— Tive sonhos perturbadores na noite anterior ao ocorrido… Sonhei que meu apartamento estava pulsando, como um organismo vivo. As paredes eram membranas, e uma criatura cega rompeu a parede. Havia sangue, muito sangue. — Fez uma breve pausa, e continuou. — Mesmo quando durmo, sinto que não descanso o tanto que deveria, estou exausta e posso estar esquecendo de detalhes importantes, no mesmo dia ocorreu esse incidente da foto.

— Você relaciona o que aconteceu no seu trabalho com os pesadelos? — Indagou o psiquiatra — Como uma espécie de sonho premonitório? -Completou.

— Não sei… Quer dizer… Uma coisa não teve relação com a outra, mas ambas aconteceram no mesmo dia. Desde que tive esse sonho não consigo mais dormir. Eu tenho a sensação de que estou sendo perseguida por algo. — Expliquei.

— Em estado de privação de sono, o cérebro humano tende a criar alucinações e lapsos de memória. Você pode estar desenvolvendo comportamento paranóico, pode ter trocado a foto no seu computador de trabalho e por ter sido um detalhe insignificante, se esqueceu. Vou prescrever dois medicamentos, um para ansiedade e outro para dormir. Outra coisa que vou exigir para o tratamento é que continue a registar tudo que for relevante do seu cotidiano. — Disse o Dr. Mészáros enquanto preparava as receitas no receituário.

— Mas eu não tirei a foto… — Disse ela.

— Então porque não foi à polícia? O conteúdo da foto era inapropriado? — Interpelou.

Júlia ficou muda, e envergonhada pela reprimenda. Ficaram alguns momentos em silêncio, enquanto o Dr. Mészáros preenchia as fichas do receituário. O tiquetaquear do relógio do consultório a enervava. Ele era um homem direto e ríspido, embora não lhe inspirasse ternura, sentia-se segura com sua franqueza, e sentia coisas a mais… Talvez a natureza de seus sentimentos em relação ao seu terapeuta não seja apropriada, sempre que ficava sozinha com ele, um resíduo de libído se aconchegava em sua imaginação e começava a fantasiar sobre suas mãos longas e ossudas ao redor de seu pescoço...

— Você acha que eu omiti algo? — Quebrou o silêncio perguntando, enquanto cruzava as pernas.

— Não, mas tem algo que não faz sentido. Vou encaminhá-la para uma tomografia. Assim que possível me traga os exames. — Respondeu o Dr. Mészáros, ainda concentrado em sua tarefa.

— Você acha que eu posso ter algo grave? Quer dizer… — Balbuciou.

— Por hora você precisa retornar ao tratamento medicamentoso, o encaminhamento para exames é uma forma de nos certificarmos de que está tudo bem. — Interrompeu-me o psiquiatra. — Nossa hora acabou, semana que vem tenho horário para a sexta-feira às dezoito horas, que eu penso ser interessante encaixar você.

— Já? Passou tão rápido. — Disse desconcertada.

— A psicoterapia não acaba na sessão, ela vai começar a partir de agora, conforme for tomando os remédios e registrar seu cotidiano, a auto análise vai ser uma ferramenta importante por que a cura não se configura como algo definitivo, e não seu caso, não foi. É importante observar que os medicamentos terão efeitos colaterais no seu organismo, e isso varia de pessoa para pessoa. Entre em contato comigo caso algo incomum aconteça. — Falou o médico, entregando-lhe as receitas.

Júlia saiu do consultório com o peito pesado de frustração, pois tinha abandonado seu tratamento com o Dr. Mészáros porque sentia-se atraída por ele, mas isso era reflexo de sua carência, e de tantos outros sintomas de uma vida reclusa. Ela sabia que não era uma mulher bonita, não aquele tipo de mulher que atrai os homens, pelo menos era isso que pensava. Nem o Dr. Mészaros era um homem atraente, mas o fato era que não conseguia se aproximar das pessoas e estabelecer conexões, e ele era o homem mais íntimo em sua vida, atualmente. Passou em uma farmácia e comprou os remédios receitados: um soporífero e um ansiolítico. Foi para casa, e quando chegou em seu apartamento, alimentou os gatos e se trancou no quarto chorando como uma criança. Chorou tanto que esqueceu de sua insônia, dormindo de exaustão.

Notas finais
Quem usou medicamentos controlados sabe o quanto é difícil a adaptação e todos os sintomas desagradáveis que eles causam. De todo modo, é um esforço necessário, busque ajuda de um profissional, jamais negligencie a saúde mental e siga os tratamentos prescrevidos por seu psiquiatra de confiança.