Cegueira de carne
1 Capítulo 1 - Prelúdio
Notas iniciais
30 de abril de 2015: Prelúdio
Quando ela abriu os olhos, uma claridade espectral invadiu seu quarto. Um som abafado e ritmado como o pulsar de um organismo vivo preencheu o ambiente. As paredes brancas assemelhavam-se a frágeis e viscosas membranas, que a qualquer momento poderiam romper-se. Ela tateou as paredes, cega pela luz e oprimida pela atmosfera hermética, não havia qualquer abertura ou corrente de ar. Julia se aproximou de uma parede e sentiu uma estranha vibração da membrana. Algo estava forçando as paredes, existe algo vivendo sob aquela pele pegajosa, algo que quer irromper a realidade.
O despertador tocou, interrompendo o sonho de Júlia, para seu alívio. Ela iniciou seu ritual matinal de higiene. Divagou enquanto contemplava seu reflexo no espelho. "Estou com olheiras, pareço anêmica", pensou.
Bebeu uma xícara de café enquanto assistia ao noticiário; os meteorologistas alertaram para uma tempestade. Tirou do armário uma gabardine e o guarda-chuvas e saiu de casa.
Chegou pontualmente no escritório e tratou de iniciar seus afazeres. Júlia trabalha em uma corretora de seguros, realizando auditorias em contratos para pessoas jurídicas. Ligou seu computador para conferir a agenda da semana e checar seus e-mails, porém algo estava errado, não estava inicializando. Antes de contatar o estagiário da TI, ela desligou a máquina e ligou-a novamente. Estava lento, muito mais do que o habitual.
Júlia não queria perder tempo com algo trivial, procurou em sua bolsa o celular e checou sua agenda pelo smartphone, enquanto mandava uma mensagem de texto para o estagiário pedindo que a auxiliasse com o computador. O rapaz da TI visualizou a mensagem, mas não respondeu de imediato. “Ele deve estar ocupado”, pensou ela.
De súbito, o sistema operacional inicializa e algo surpreendente acontece; a tela de fundo da área de trabalho havia sido modificada. Uma foto de Júlia havia sido posta como plano de fundo da área de trabalho, sem que ela soubesse, uma foto que ela desconhecia, pois estava de costas, dentro de seu apartamento. "C-Como`` Como isso aconteceu?!”, balbuciou Júlia. Com o choque, o celular escorregou de suas mãos e o impacto estilhaçou a película protetora. Do chão, ouviu-se o vibrar do smartphone, ela se abaixou para verificar e uma mensagem não lida apareceu: “Posso te ajudar agora”.
O estagiário bateu na porta, e entrou. Chamava-se Gabor, e como um cão galgo, o rapaz alto, magro e perspicaz interpretou o ambiente. “A senhorita está bem?”, perguntou. Júlia inclinou-se, buscando reorganizar os pensamentos, estava visivelmente abalada. Apontou para a tela e perguntou ao rapaz se ele havia usado seu computador sem seu consentimento. “Não, não faria isso sem consultar a senhorita. Se quiser conferir nas câmeras, geralmente no horário da manhã eu trabalho ao lado do guichê do Alexander da contabilidade”, explicou-se Gabor com coerência e álibi. Ela não havia mudado o plano de fundo desde que começara a trabalhar na empresa, e a foto em questão era desconhecida. Aquela situação fez os músculos do ventre de Júlia enrijecerem de tensão.
Júlia se perdeu em cenários catastróficos imaginando que algum colega de trabalho estivesse a lhe pregar uma peça, ou até um perseguidor. Mandou um e-mail extra-oficial ao seu superior relatando o ocorrido e pedindo permissão para avaliar as gravações de segurança da empresa.
Júlia estava considerando abrir uma ocorrência na polícia a respeito da sua quebra de privacidade pois a ideia de um perseguidor a atemorizava. Foi até a cozinha da empresa preparar uma xícara de café enquanto sua mente repassava os acontecimentos; “Nunca convidei nenhum colega para visitar-me em casa, e se fosse uma pessoa de fora?”. Conforme bebia o líquido quente, os músculos de seu ventre relaxaram e ferroadas lancinantes tomaram o lugar da tensão. “Dor de barriga? Sério?!” murmurou. Júlia correu para o banheiro.
Ao retornar ao seu escritório a secretária eletrônica guardara uma mensagem de Artúr, seu chefe: “Querida, vamos averiguar internamente antes de envolver a polícia, certo? Preciso que me mande o relatório da última auditoria, mas você pode fazer isso em casa, tire o resto do dia de folga, só não esqueça de me mandar esse maldito relatório, ok?!”. Ela suspirou de alívio, pegou sua bolsa, agradeceu a diligência de Gabor e despediu-se dos colegas.
Enquanto saia da empresa, as nuvens começaram a demonstrar os primeiros sinais da tempestade vindoura, chocando-se umas com as outras em trovoadas assustadoras. Julia vestiu sua capa e abriu o guarda-chuvas, correndo em direção à estação de metrô. “Estou com sorte”, pensando nisso, testemunhou o aguaceiro cair em gotas graúdas, uma chuva tórrida com certeza.
Ao chegar em seu apartamento, despiu-se deixando um rastro de roupas da porta de entrada até o banheiro. Deitou-se confortavelmente na banheira com água morna que a envolveu tal qual líquido amniótico na segurança do útero materno. Ela cerrou os olhos cansados.
Júlia abre os olhos, uma claridade espectral invade o banheiro. A atmosfera se modifica. O vapor quente do banho mistura-se com um odor distinto de mofo. Ela se levanta para investigar a fonte da luz que era antinatural e seus passos úmidos marcam o assoalho de madeira. O silêncio fora quebrado por pingos esparsos que escaparam do chuveiro. Conforme avança em sua busca pelo absoluto nada, um som abafado se sobressai e fica evidente; o pulsar ritmado de um coração.
Seu quarto havia transformado-se em uma câmara de pele pulsante, dançando o cadenciado ritmo da respiração. Algo estava forçando as paredes a rasgar-se, algo queria emergir. Ela ouve um urro abafado pela carne das membranas, muito semelhante ao urro de um porco no abate, e garras perfuram com sucesso o couro das paredes. Uma enorme ferida se abre manchando com sangue fresco o chão. Uma criatura inumana rompe o tecido; Uma abominação de face esbranquiçada e viscosa, cuja palidez era semelhante com a de um cadáver no rigor mortis; A carne lhe tapava os olhos e nariz, dois sentidos lhe foram negados, tremenda a anátema de sua existência. Sua boca carecia de lábios, eram apenas dentes e gengiva expostos entre saliva e sangue.
Se a dor tivesse uma personificação, seria aquele ente repugnante, e como se estivesse a perscrutar os pensamentos de Júlia, berrou com tamanha fúria que a fez falsear as pernas. O quarto inunda-se com sangue; ela nua e ajoelhada perante a besta, experimentando a total falência motora, se afoga em sangue.
Júlia de fato estava se afogando, porém em sua banheira. O hábito de dormir na banheira nunca havia se mostrado perigoso até agora.
Fale com o autor