Cegos

1 Parte 1 - Soldados de Papel/Capítulo 1 - Alfred


"Mil poderão cair ao teu lado,e dez mil à tua direita;mas tu não serás atingido."

(Salmo 91)

Alemanha — 1940

O céu adquiria uma cor esquisita conforme o Sol se punha sobre Berlim : Algo parecido com um vermelho puxado para o carmesim.

Uma visão dessas poderia ser belíssima aos olhos artísticos;mas a outros,suficientemente assustadora.Era como se as chamas do Sol envolvessem o horizonte em um grande cobertor.

E chovia.Chovia à gotas pesadas,rápidas como soldados em um campo de batalha.

Chovia sangue sobre Berlim.

A rua estreita estava ensopada,coberta por um rastro de poças de lama.Carros estacionados próximos às sarjetas,casas quase idênticas entre si,uma vizinhança silenciosa à espera de bombas que certamente viriam...Essa era a rua Willmanndamm.

Dentro de uma das casas,a mais simples e bem montada,a de número 453,havia apenas um único espelho.Ele ficava na cozinha,próximo à escada que dava para o segundo andar.Era inútil,exceto naquele fim de tarde chuvoso.

Uma mulher caminhou em direção à ele,na mão esquerda um banco alto de madeira,na outra uma tesoura com ponta.Com seus belíssimos olhos turquesa e a pele clara como porcelana,era como se carregasse o brilho do Sol estampado nos cabelos loiros.Eram lindos,e com certeza,não iria querer corta-los.Por isso,fez um sinal para que o garoto atrás de si se aproximasse.Ele o fez,sentando-se em seguida no banco à frente do espelho pendurado na parede.

Com isso,a mulher ergueu a tesoura e começou a aparar os cabelos rebeldes do menino.Ele permaneceu imóvel,apenas encarando os próprios pés descalços,os olhos completamente vazios.

Minutos depois,provavelmente seis ou sete,ela,enquanto retirava com delicadeza os tufos de cabelo dos ombros do garoto,anunciou:

—Pronto.- Os olhos incrivelmente azuis adquiriam um brilho orgulhoso ao verem o trabalho bem feito.

O garoto correu os dedos pelos fios recém-aparados.Realmente estava muito bom.O couro cabeludo já não coçava tanto e a franja reta não caía mais sobre os olhos.

Então,enfim,olhou para o próprio reflexo.Assistiu os próprios olhos azuis encherem-se de lágrimas ao depararem-se com a figura de si mesmo;ele estava ficando cada vez mais parecido com o pai.

Viu ali um rosto fino,com bochechas coradas e um nariz consideravelmente comum;nem longo,nem achatado.Cabelos loiros moldavam-se agora em um topete baixo sobre sua cabeça,ao invés da bagunça desordenada a qual se resumiam antes.A única coisa que o diferenciava de seu antecessor certamente seria apenas a idade,a altura e o fato de serem pai e filho.De resto,eram idênticos.

O que era ruim.Muito,muito ruim.

Lembrar-se de seu pai era a última coisa que ele desejava naquele momento.Naquele momento e nos próximos meses que viriam.

Lembrar-se de que,naquele minuto,ele poderia estar na França,esgueirando-se na mata,vendo os parceiros serem mortos e matando pessoas fazia seu estômago embrulhar.

Para Alfred Schoenberg,a cegueira parecia ser a melhor solução para seus problemas.Não se ver em meio às bombas e mortes frequentes seria como um sonho.Um sonho distante,impossível de ser realizado em meio aos conflitos pesados da Segunda Guerra Mundial.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.