Cecília
17 O começo do fim
Feliz com as possibilidades que lhe sobrevinha, os olhos e o rosto do rapaz refletiam o seu interior. O sorriso no entanto, morreu quando ele adentrou a sala.
— Você... Aqui? — Espantou-se ao ver a moça de pele cor de pêssego sentada em um dos sofás. Ela, ao vê-lo, levantou-se e veio saudá-lo. Num gesto impreciso, levantou a mão para o tocar, ao perceber a estranheza nos olhos claros, conteve-se.
— Oi Robério. — Saudou-o com voz sufocada. — Você está bem?
— Eu... Eu estou surpreso, Joana. Eu não sabia que você viria.
A resposta fria e evasiva, ofuscou o pouco brilho que havia no rosto da moça, o que preocupou Eulália. Ela percebeu que uma nuvem escura se formava, sabia que se não agisse rapidamente, uma tempestade torrencial, desmoronaria os primeiros alicerces. E também, não era preciso ser um observador, para perceber a insegurança de Joana. Notadamente, ela precisava ser encorajada.
— Fala pra ele, Joana. Conte a novidade. — Disse Eulália segurando a mão da moça de cabelos castanhos.
— Novidade? — O rapaz cerrou um pouco os olhos. Agora estava mais apreensivo. Preferia não ter que ouvir o que Joana revelaria, anteviu que era o prelúdio do fim.
Joana estava um pouco receosa, mas com a futura sogra segurando-lhe a mão, não foi difícil expor o motivo de sua vinda, para o sítio.
— Eu... Eu estou grávida. Robério. Estou esperando um filho seu. — Ela confessou, sem no entanto, encará-lo.
Robério franziu a testa colocou a mão sobre o queixo. Aquilo não podia estar acontecendo. A respiração dele acelerou e as pupilas dilataram. Foi como se um abismo o engolisse, e o ar lhe faltasse. Ele experimentou o gosto amargo do fel e pressentiu que morreria. A garganta ficou seca e a voz saiu entrecortada.
— Grá... Grávida? Co... Como... Grávida?
Joana baixou a cabeça, estava envergonhada e terrivelmente desconfortável, sentiu-se humilhada com uma pergunta tão incômoda; ainda mais vinda do pai da criança que ela carregava no ventre, teve vontade de lhe dar uma resposta à altura, conteve-se,entretanto, por receio do que tais palavras poderiam suscitar.
Eulália ao ver a situação constrangedora da futura nora, concluiu que era hora de tomar decisões inevitáveis.
— Meu filho, eu acho que a Joana não precisa lhe explicar como ela ficou grávida. O mais importante é que agora, vamos consertar o erro.
— Como assim? Consertar o erro? — Ele perguntou franzindo a testa.
A mãe pigarreou antes de responder a pergunta.
— A Joana veio pra ficar, e você vai assumi-la, Robério!
A afirmação o deixou atônito, perplexo e preocupado também. Do que realmente a mãe estava falando? Será que ele entendera direito, ou as palavras se tornaram complexas, e por demais perturbadoras?
— Mãe, podemos conversar a sós, por um momento? — Ele pediu com voz baixa e relutante.
— Claro meu filho! Talvez seja até melhor. — Disse concordando.
Ela olhou para a futura nora, que de cabeça baixa, continuava parada em meio a sala. Trancou momentaneamente os lábios, para então falar.
— Joana. Pegue sua mala e leve para o quarto. Pode arrumar suas coisas no guarda-roupas do Robério, a partir de hoje, aquele quarto é seu também.
— Sim, senhora. — Ela respondeu antes de sair da sala.
Após ficarem sozinhos, o rapaz olhou para a mãe, a expressão em seus olhos retrava não somente apreensão. Sim, ele estava nervoso e também confuso, a ideia de ser pai não era tão assustadora quanto a ideia de ter que assumir a mãe da criança, isso ele sabia que não poderia fazer.
— Não posso me casar com a Joana, mãe. Não posso.
Enquanto falava balançava a cabeça.
Eulália mencionou um meio riso, depois cruzou os braços sobre o peito, embora tivesse vontade de esbofetear o filho, não o fez. Manter a situação sob domínio era primordial. Foi com voz ponderada, porém firme, que ela inquiriu ao filho.
— Me dê um motivo relevante para não assumir a Joana. Se você me disser algo que seja mais importante do que o seu filho; eu levarei a Joana de volta pra cidade.
O rapaz engoliu em seco, conhecia a mãe, se quisesse dissuadi-la daquela ideia, teria que ser muito contundente em sua fala. E foi o que fez.
— Eu amo a Cecília, mãe. E pelo que sei, o amor é o sentimento mais nobre desse mundo.
Antes de responder, Eulália semicerrou um pouco os olhos, o que o filho lhe falara, momentaneamente a emocionou, sentiu-se compungida pelas palavras sinceras, que ele tão febrilmente pronunciara. Engoliu em seco, não poderia ceder, não por meras palavras aleatoriamente escolhidas. Por mais que fosse doloroso, tinha que pensar num bem maior. Ela segurou a mão do filho, para em seguida, soltá-la.
— Não há amor mais nobre do que o do pai para com seu filho. — Eulália fez uma pausa, a voz estava embargada, pesada. Duas lágrimas desceram pelo rosto e escorreram até o pescoço. O queixo tremulou levemente. Os lábios abriram, mas continuaram mudos. Ela olhou para o rapaz em sua frente, era seu filho, o amava, mesmo que quisesse, jamais poderia esmagar o que sentia, há situações no entanto, que exigem sacrifícios extremos.
— Olha só, Robério. Eu não quero um neto sem pai! Se você não assumir a Joana, esqueça que sou sua mãe! — Vociferou sem piedade.
Robério sentiu um nó na garganta, colocou a mão sobre o peito apertando o tecido da camisa, viu-se preso em muitas cordas das quais era impossível se libertar.
— Mãe... Por favor, não me peça isso. Entenda que eu amo a Cecília! E não posso viver sem ela.
— Não me chame de mãe! Eu não criei um filho irresponsável e insubmisso! Ou você assume o papel que lhe é devido, ou desapareça para sempre! — Ela o encarou com mais intensidade. — Filho ingrato! Que Deus o castigue por abandonar meu neto!
A praga deliberada com tanta veemência, foi como uma facada no coração, ele sentiu as entranhas se desmanchando como água. Num suspiro, baixou a cabeça, e com voz fraca, falou
— Eu assumo a Joana, mãe. Mas não me obrigue a casar com ela. Isso nunca vai acontecer.
Eulália respirou aliviada, quis abraçar o filho, conquanto não o fez, pois percebeu que o gesto não seria oportuno.
— Você está fazendo o que é certo filho. Um dia irá me agradecer. — Ela falou balançando a cabeça.
Após a decisão final, Eulália foi até o quarto ajudar Joana, a desfazer as malas, e acomodar as roupas junto as de Robério. Fizeram o trabalho em silêncio, ambas sabiam que o clima na casa não era dos melhores, principalmente entre o novo casal.
Na Estrela Dalva, intrigada com a demora do rapaz, Cecília retornou para casa, encontrou Rosália e Venâncio cochichando a beira do fogão. Estranhou vê-los falando tão baixo.
— O Robério ainda não chegou, Rosália?
A cozinheira e o marido, viraram-se para a patroa, que encostada junto a mesa esperava a resposta. Antes de responder, Rosália engoliu em seco.
— Ele não vem, Cecília.
A moça riu forçado, franziu a testa e maneou a cabeça.
— Como, não vem? É claro, que ele vem!
— A Rosália disse a verdade. Ele não vem, Cecília. — Confirmou Venâncio com voz mansa.
A moça semicerrou os olhos, e fechou os punhos. A notícia a deixara irritada.
— Ah! Eu já sei! É a mãe dele, não é? Quando é que essa mulher vai entender que o filho dela já é um homem? Será que eu terei que ir lá, e arrancá-lo daquela casa? — Alardeou batendo o punho sobre a mesa.
Rosália levantou a mão pedindo calma. Quando fez-se silêncio, ela deu a notícia que poria fim aos sonhos da patroa.
— A Joana está no sítio, Cecília. Ela veio com a dona Eulália.
Boquiaberta, a jovem demorou alguns minutos, para conceber o que acabara de ouvir.
— O que? — A moça retrucou. — A Joana está no sítio dos Ferrazzo?
— Ela está grávida, Cecília. — Rosália completou.
A segunda notícia foi pior do que a primeira. Era demais para uma menina de pouco mais de vinte anos, que acreditava firmemente, ter encontrado o homem de sua vida.
Inconformada com a revelação, ela andou de um lado a outro, maneava a cabeça e respirava com dificuldade. Rosália e Venâncio acompanhavam o completo descontrole momentâneo.
— Grávida? Não, não, não é verdade! Não é verdade, Rosália!
A cozinheira a segurou, e tentou acalmá-la.
— Diga que é mentira, Rosália, Por favor! Diga que é mentira! — Pediu com voz chorosa.
— O Venâncio viu quando as duas desceram do ônibus, e ouviu a Eulália pronunciando em alto e bom tom, que em breve, ela seria avó.
— Ele não fez isso comigo, Rosália. Ele não fez.
A cozinheira a abraçou gentilmente, sentiu que as lágrimas molharam-na no ombro.
— Não fique assim, Cecília; com o tempo, essa dor passa.
— Por que ele mentiu, Rosália? Por quê?
A empregada afastou-a, e com voz terna, aconselhou.
— Os homens mentem, Cecília. Você vai ter que aprender a lidar com eles. Não pode acreditar em tudo que dizem. Eu sempre a alertei sobre esse rapaz.
— É, você sempre me alertou. Agora me diga o que eu faço com esse amor, Rosália? O que eu faço pra sufocar a dor que estou sentindo?
Rosália não respondeu, ela sabia que, nada que dissesse arrancaria a dor que dilacerava aquele coração. Embora sentisse um certo alívio, com o fim do romance, também sentia-se verdadeiramente consternada com o sofrimento estampado no rosto da moça.
Os dias passaram e o sofrimento perdurava. Para ambos os amantes, as noites eram como tormentas em um mar revolto e bravio. Nada que fizessem seria capaz de acalmar ondas tão avassaladoras. Junto com as lembranças, as lágrimas desciam molhando o travesseiro. Joana, apesar de não entender a tristeza do marido, percebeu que um abismo se formara entre eles.
— O que está acontecendo, Robério? Eu não sei... Você parece distante. — Perguntou a esposa certa noite.
— Eu pareço... Distante?
— Sim, desde que eu cheguei aqui, você mal fala comigo.
Ele sentou-se na cama, esticou as pernas, e expôs parte do que sentia
— Desculpa, Joana. O problema não é você. O problema sou eu.
Ela sentou-se também, relutou antes de falar. Embora estivesse insegura e apreensiva com o comportamento do marido. Teria que falar, pois a situação entre ambos, tornara-se intolerável.
— Robério... Temos que conversar. Eu sou sua mulher, não é justo que me escondas o que está acontecendo com você. Eu abandonei tudo para ficar ao seu lado. Quando eu saí de casa, deixei apenas um bilhete para minha mãe. Eu tento imaginar, o que ela sentiu ao ler aquelas quatro palavras. — Disse num lamento.
— Eu sinto muito, Joana, não pensei que estivesse sofrendo tanto. — Ele fez uma pausa, umedeceu os lábios. — É, que eu ainda não digeri essa nova situação... É complicado.
— Vamos tentar viver bem Robério, eu sei que fui precipitada, sei que não deveria ter vindo sem o avisar, mas pensa no nosso filho. Por favor. — Ela implorou chorosa.
— Me perdoe, Joana. Eu vou me esforçar pra vivermos bem, eu prometo.
— Então me abraça.
Ele a abraçou, foi um abraço morno, apagado. Ele sentiu-se extremamente perturbado com a situação. Joana era uma mulher bonita, tinha o corpo bem torneado, cabelos a altura dos ombros, olhos melancólicos, profundos. Por que não sentia nada ao tocá-la? Por quê? Ele era um homem; e o normal é que sentisse alguma coisa.
— Vamos dormir Joana... Vamos dormir. — Disse a afastando.
— Dormir... Mas...
— Eu estou um pouco cansado, desculpa. — Ele a interrompeu impedindo que sucessivas perguntas brotassem.
Joana se esforçava para agradar ao marido e a sogra, ajudava na limpeza da casa, a fazer o almoço, o que mais desejava era que o casamento desse certo, e que Robério voltasse a ser como antes. Que a beijasse, que a amasse, como fez naquela noite. Às vezes, culpava-se, pelo distanciamento, julgava a si mesma, responsável pela frieza do marido.
"Fui imprudente em vir sem o avisar, devia ter sido paciente e esperado que ele fosse me visitar." Pensava .
Infelizmente, não há segredo que dure para sempre, um dia o que está em oculto é revelado, e às vezes a revelação acontece de maneira inesperada, imprudente.
Numa tarde de quinta-feira, Joana resolveu dar um passeio pelos arredores, há dias que chegara ao sítio, e ainda não saíra para lugar algum, vestiu um traje leve, pegou a sombrinha, e a passos lentos caminhou em direção a estrada principal; de início pensou em ir ao bar do senhor Antônio e beber um refrigerante, desistiu da ideia ao lembrar que não havia energia elétrica. Inconformada com a precariedade da zona rural, maneou a cabeça e bufou.
Ao chegar a estrada principal, viu dona Cida caminhando em sentido contrário. Esmoreceu ao ver a mulher magra e de ralos cabelos escorridos. Cogitou dar meia volta e retornar para casa, lamentou profundamente não ter coragem de fazê-lo. Logo que se encontraram a mulher começou a tagarelar. O que irritou bastante a grávida.
— Como está a vida de casada, Joana? Sua barriga ainda não está aparecendo, né? Acho que será um menino! Ou quem sabe uma menina!?
— Boa tarde, dona Cida. Eu estou bem, e o que Deus enviar será bem-vindo. — Disse secamente.
— Amém! Essa criança vai ajudar a manter seu casamento. — A mulher fez uma pausa, encarou Joana e com voz baixa perguntou. — Será que ele já esqueceu a outra?
A revelação abrupta, fez Joana arregalar os olhos e abrir a boca, simultaneamente..
— Que outra? — A voz saiu comprimida pela surpresa.
Dona Cida franziu a testa, e pendeu o pescoço para um lado.
— A filha do finado Alfredo! A que herdou a Estrela Dalva! Vai me dizer que você não está sabendo?
— Sabendo do quê? —Perguntou Joana com voz alterada.
— A Eulália não lhe contou?
— Não! — Disse num rompante. — Quem é essa moça? Fale-me, dona Cida!
— Joana do céu! Era tanta pouca vergonha. Os dois sumiam na mata e ninguém sabia onde iam. — A mulher revirou os olhos e suspirou. — Onde já se viu tanta safadeza? A noite o Robério pulava a janela do quarto dela, e ficava lá até de madrugada! Nunca vi tamanha imoralidade!
Joana mudou a cor, ficou pálida como cera, as mãos começaram a suar e a respiração acelerou.
— Quem contou isso pra senhora, dona Cida? — Ela perguntou com voz trêmula e compassada.
Ao ver o estado emocional da grávida, a vizinha levantou as mãos pedindo calma.
— Não fique nervosa, Joana, pode prejudicar a criança! — Alardeou preocupada.
— Não, não, não! Não é possível que ele tenha me engando! Ele não fez isso! Não fez! — Gritou exasperada.
— Ai meu Deus. Eu não devia ter lhe contado! Se acontecer alguma com a criança... Jesus amado! Eu não quero carregar esse pecado. — Disse Dona Cida com a mão sobre o peito.
Joana respirou longamente, em alguns minutos, recompôs-se totalmente, agora parecia mais calma, sóbria, a explosão de ainda há pouco, foi completamente sufocada.
— Pode ficar sossegada dona Cida, eu não vou perder meu filho. Vou embora desse lugar, e esquecer o Robério. É isso que eu vou fazer.
Dona Cida balançou a cabeça concordando com a moça, depois verbalizou a afirmação.
— Você está certa, Joana. O Robério não lhe merece. Eu também faria o mesmo.
— Obrigada por me contar, dona Cida.
A velha fez uma careta antes de argumentar.
— Homem é tudo igual minha filha, nenhum vale nada! Por isso, eu prefiro continuar viúva.
— Eu vou para casa, preciso resolver esta situação, o quanto antes. — Disse Joana com voz firme, porém baixa.
Dona Cida viu a mulher de Robério indo em direção ao sítio. Riu ao imaginar a confusão na casa dos vizinhos. Após Joana sumir na curva, maneou a cabeça, revirou os olhos e coaxou.
— O gente pra gostar de confusão. Deus me livre! Eu hem! Brigar por causa de homem!?
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