Cecília
7 Decepções e mais decepções
Depois de algumas horas de viagem, e paradas constantes, por fim, o ônibus estacionou; os passageiros começaram a descer, enquanto que, Cecília ainda permanecia sentada.
— Temos que descer também. — Alertou o pai.
— Por quê? O que houve? — Alardeou bufando.
— Chegamos na balsa. — O pai lhe comunicou.
Ela revirou os olhos. Estava cansada e arrependida da viagem. Desde a chegada a Rondônia, só tivera dificuldades. Desanimada, ela subiu na imensa prancha de aço, olhou para o rio de águas caudalosas e, momentaneamente fechou os olhos, definitivamente era a pior viagem de sua vida.
— Não fique assim, filha. Logo estaremos na Estrela Dalva. — Garantiu o pai acariciando-a no braço.
Depois de um longo trajeto, por uma estrada cheia de buracos, eles chegaram a Rolim de Moura. A cidade sorriu para a recém-chegada, ela porém, não percebeu as boas-vindas. A nuvem de poeira que pairava no ar, destruiu a pouca expectativa que ainda restava.
Assim que o ônibus estacionou, Alfredo levantou da poltrona, e com certa dificuldade, tirou a pequena maleta do guarda-volumes.
— Chegamos em Rolim de Moura. — O pai anunciou para a filha, que continuava sentada. — Ainda temos um bom pedaço de chão até a Estrela Dalva.
— Hum, hum! — Ela resmungou impaciente.
Logo que desceu do ônibus, olhou a sua volta, nunca vira um lugar tão precário e tão feio, uma camada de pó avermelhado, cobria a rua sem asfalto, as lojas e comércios em sua maioria de madeira, não tinham beleza alguma.
“Então essa é Rolim de Moura!” Pensou com certo desprezo.
O movimento intenso, deixou-a mais estressada e desconfortável também. O vai e vem de cavalos puxados por carroças, caminhões carregados de madeira, carros e motos aumentavam a poeira, tornando o ar irrespirável. Vendo-a com o olhar perdido, o pai a puxou pelo braço, alertando-a.
— Vamos Cecília! Senão perderemos o ônibus!
— Já estou indo, pai.
Após andarem por um aglomerado de comércios, chegaram a uma lanchonete. O pai aproximou-se do balcão saudando o balconista. O rapaz sorriu, e perguntou como tinha sido a viagem. Parecia feliz e surpreso em ver Alfredo, Cecília percebeu que já se conheciam, nem por isso fez questão de se aproximar e saudar o amigo do pai.
Entediada, ela foi até uma mesa, puxou uma cadeira e sentou. Não demorou muito, o pai lhe trouxe- um salgado e um refrigerante. Ao ver a cor do pano que o rapaz do balcão trazia no ombro, ela dispensou o salgado.
— Não está com fome? — Perguntou o pai a vê-la recusar o lanche. Ela fingiu-se surda e começou a beber o guaraná.
— Em quanto tempo chegaremos a fazenda, pai?
— Quatro horas de viajem, ou um pouco mais, um pouco menos... — Respondeu antes de dar mais uma mordida no salgado gorduroso.
— Porque não alugamos um carro? Chegaríamos mais rápido. — Disse com certo ânimo. O pai maneou a cabeça. O que a fez franzir a testa.
— Alugar um carro? — Riu Alfredo. — Aqui não tem locadora! Nós não estamos em Campinas, minha filha! Beba o refrigerante. Antes de irmos temos que ir ao mercado.
Juntos foram a um mercado situado no centro da cidade, não era tão distante do ponto de ônibus, pela primeira vez, depois que saíram de Campinas, ela notou que o pai não estava triste, nem parecia estar doente, agilmente ele separava as mercadorias, ria enquanto escolhia uma bebida barata.
“Não posso acabar com essa alegria” Pensou enquanto o observava.
Um pouco mais, e estavam prontos para seguirem a viagem.
Assim que o ônibus encostou, formou-se uma pequena confusão, o aglomerado de pessoas chamou a atenção da paulista. Não carregavam malas nem usavam roupas caras. Uns carregavam sacos de mantimentos, outros traziam animais amarrados em cordas, mulheres com crianças no colo, homens colocando enxadas e facões no bagageiro... Enquanto essa balbúrdia acontecia, um rapaz polaco gritava, alertando sobre os horários dos ônibus, ele trazia uma prancheta na mão e uma caneta na orelha, vez em quando anotava alguma coisa.
Quando o motorista abriu a porta, os passageiros começaram a entrar, então, o pai a apressou.
— Vamos logo! O ônibus já vai sair.
Quando finalmente o motorista deu a partida, ela suspirou aliviada.
— Esta é a vinte cinco de Agosto! — Anunciou Alfredo apontando para uma larga avenida.
Pela janela de vidro, ela viu os comércios de madeira com seus os telhados sujos pela poeira, e as lojas de roupas, com seus panos balançando...
“Deus me livre! Jamais morarei nesse fim de mundo!” Pensou entediada.
A viagem se tornou extremamente cansativa, a cada entrada vicinal, o ônibus parava para alguém descer, o que deixava a paulista cada vez mais irritada.
— Falta muito para chegarmos à fazenda, pai? — Perguntou pela décima quinta vez.
Antes de responder, ele consultou o belo relógio de pulso.
— Umas duas horas de viagem, então chegaremos!
Desanimada, ela limpou os olhos e passou a mão pelo rosto, a poeira deixara sua pele áspera, ressecada. Esmorecida, olhou para mulher sentada na poltrona a sua esquerda, ela era branca, meio gorda, tinha cabelos louros e ralos, vestia uma camisa masculina e calçava botinas. A visitante torceu os lábios. Achou horrível uma mulher calçar botinas. E achou mais horrível ainda o comportamento daquela gente. Falavam alto, contavam causos engraçados e riam as gargalhadas.
"Gente mais sem modos." Protestou silenciosa.
De repente uma galinha cacarejou dentro de um saco, o barulho da ave, fê-la olhar para o corredor. Do fundo do coletivo, surgiram gritos e alguns xingamentos. Enfurecido com o alarido da galinha, um homem deu um chute no saco, assustando a ave. A reação do bicho foi um tanto estranha, como se quisesse fugir do seu agressor, mesmo dentro do saco, a galinha saiu se arrastando pelo corredor, e cacarejando sem parar, o que deixou o homem mais furioso. Os passageiros gritavam alto, chamavam o homem de doido, logo que conseguiu parar a galinha, raivosamente, ele a tirou para fora e puxou-lhe o pescoço. Espantada, Cecília viu a penosa em seus últimos momentos de vida. Ela cobriu a boca com a mão, e um grito silencioso saiu de sua garganta. Nunca vira tamanha selvageria.
Felizmente, depois que a galinha morreu, a confusão acabou.
— Ainda falta muito, pai? — Perguntou com certa angústia.
— Não! Já estamos chegando! — Respondeu impaciente.
— Meu Deus! Já vai escurecer, pai! — Ela reclamou. Alfredo riu e maneou a cabeça. Um pouco mais ele gritou para o motorista.
— É aqui que vamos ficar, motorista!
Apressado, Alfredo pegou as bagagens, e em poucos minutos, seguia com filha por uma estradinha estreita. Sem muito entusiasmo, ela o acompanhava, carregada de sacolas e puxando a mala, vez em quando bufava ou resmungava qualquer coisa. Não estava somente cansada, tinha poeira por todo corpo, só queria chegar logo ao destino, tomar um banho e comer uma comida descente.
— Está vendo aquela casa? — Apontou Alfredo.
— Aquela? — Ela perguntou franzindo a testa.
— Sim, é para lá que vamos, ali é a Estrela Dalva, a nossa terra!
Não demorou muito, os dois chegaram frente a um barraco de madeira, a janela da frente estava aberta, de dentro da casa, ouvia-se o som de um rádio tocando uma música sertaneja, enquanto o pai foi até a porta da entrada, a filha colocou a mala no chão e a fez de assento.
Veio atendê-los uma mulher parda de cabelos presos, em um coque mal feito, ao ver Alfredo, ela sorriu e o cumprimentou. Não demorou muito, um senhor de bigodes grossos e cabelos grisalhos, juntou-se a eles. O homem riu largamente e apertou a mão do visitante, dando-lhe tapinhas nas costas. Após darem boas-vindas a Alfredo, ambos olharam simultaneamente para a moça sentada sobre a mala. Esta fingiu não vê-los. Meio embaraçado com o comportamento da filha, o pai a puxou pelo braço.
— Venha, filha! Deixe-me apresentá-la aos caseiros da fazenda! — Disse não se importando com humor da moça.
— Seu pai fala tanto de você! — Interveio a mulher se aproximando. — Eu espero que goste da fazenda.
A jovem senhora estendeu a mão saudando-a. Ao apertar-lhe a mão, Cecília sentiu os calos que sobressaíam a pele grossa.
— Meu nome é Rosália, e esse é o Venâncio, meu marido, somos empregados do seu pai. — Alardeou com alegria.
— Prazer em conhecê-los — A voz soou mecanicamente.
— Meu Deus! O prazer é nosso. É uma alegria receber a filha do patrão! Vamos entrar! Eu estou preparando o jantar! — Convidou a mulher com voz cantante. O entusiasmo da mulher deixou-a mais irritada.
Ao entrar, ela entreabriu os lábios. Não definiu o que sentiu ao ver o barraco de madeira feio e pobre. A sala e a cozinha ocupavam o mesmo espaço, uma prateleira velha com algumas panelas e um fogão feito de barro, lembravam os filmes de retirantes nordestinos que ela assistia com a mãe. Em meio ao que seria a sala, tinha uma mesa de madeira com quatro cadeiras gastas.
O pai puxou uma cadeira para sentar, o caseiro fez o mesmo, a mulher de olhar alegre, mais uma vez alardeou.
— Você parece cansada. Eu já arrumei o quarto, se quiser eu a ajudo com a mala!
O gesto generoso da mulher não mudou o semblante da visitante.
— Não precisa! Eu faço isso sozinha! Onde é o quarto? — Perguntou com desprezo.
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