Cecidit Terram
4 Forçando a barra
Notas iniciais
Entramos no meu fliperama favorito (ou o que restava dele).
Costumava ir ali todas as sextas depois da escola com Damon e Rebeca. Passávamos horas e horas jogando juntos. Mas...
Os dois morreram, bem na minha frente
As instalações estavam meio caídas, alguns fios soltos, brinquedos pela metade. Muito diferente do que já foi um dia.
A única maquina que funcionava foi eu quem consertou durante uma tarde inteira, há dois meses.
–Como encontrou esse lugar? — ela pergunta enquanto se abaixa para passar entre dois brinquedos caídos.
–Frequentava quando estava no colegial.
–É seguro? — passamos com cuidado por cima de um carrinho quebrado.
–É... Se não pisar em nenhum fio solto ou tropeçar em algum pedaço de ferro.
–Não. Quero saber sobre os bichos. E se algum vim até aqui?
–Não vem nenhum bicho aqui. Anda...
Seguro sua mão e lhe carrego até a maquina de dança. Ligo a energia e as luzes dela piscam antes de acender total e tocar a musica do menu inicial.
Subimos nas plataformas dos dois jogadores e escolho uma musica.
"Really don't care — Demi Lovato"
As setas vão subindo mostrando qual lado pisar quando as primeiras notas tocarem.
O recorde daquela musica é meu... Dela e de todas as outras. Nunca ninguém me vencia nessa maquina. Sou a rainha da dança.
A musica acaba e é substituída por aplausos.
"You win. New record. 100%"
B. olhava para minha tela de boca aberta. Sua tela também piscava, mas seus pontos foram 72%.
–Você é boa — diz.
–Eu sei — sorriu — escolhe uma musica.
Encaro a tela e espero que selecione a próxima.
"Slow Down — Selena Gomez"
Ótimo. Aquela era moleza.
3 minutos e meio depois, mais aplausos.
Player 01: 100%
Player 02: 83%
–Você foi melhor do que antes — elogio.
–Essa musica é mais fácil. Você continua com nota máxima.
–Quer escolher outra?
–Esse é o único lugar que funciona?
–Sim, todos os prédios do lado estão em ruínas. Pelo menos o do lado direito da rua. Não olhei os da calçada da frente.
–Vamos olhar? — pede entusiasmada.
–Pode ser perigoso — aviso.
–Eu sou uma bruxa, esqueceu? — levanta a mão e alguns objetos levitam.
Só havia três prédios no outro lado da rua. Conseguimos olhar tudo até o começo da tarde.
Loja de doces: A maior parte estava estragada, mas alguns pareciam em bom estado e encho os bolsos do casaco de jujuba. No deposito tinha alguns pacotes de açúcar e chocolate em pó. Colocamos tudo dentro da van que estava na parte de trás da loja. Sorte que o tanque estava cheio e a chave na ignição.
Loja de eletrônicos: Tudo de celular, mp3, notebook, televisão, PC e por ai vai... Em perfeito estado. Ponho alguns junto com o açúcar e o chocolate.
Loja de roupas: A parte que deixou B. mais feliz. Ela experimentou mil e uma peças e desfilava pra mim com tudo o que achava legal. A morena estava feliz da vida com todas aquelas opções de roupas e jogamos algumas na van.
Já passava da hora do almoço quando estacionamos de qualquer jeito na frente do colégio. Encontrei com Marcus no corredor principal e deixei B. lhe explicar o caminho da loja para que ele mandasse alguém pegar tudo o que tinha lá. Ele pareceu feliz quando ela falou das roupas. E bem pudera... Todo mundo ali só usava as mesmas roupas e quando não servisse passava pra outra pessoa.
Hora da minha aula. Eu ensinava a 10 crianças de 5 a 7 anos o básico da educação infantil. Não podíamos deixar as crianças sem aprender a ler, escrever e fazer cálculos matemáticos. Por sorte todos ali já sabiam pelo menos escrever.
Jessica, uma menininha órfã de cinco anos, pula no meu colo no fim da aula. Ela adorava brincar com meus cabelos.
–Tia Sammy, é verdade que você brigou com a tia Charlie? — pega nos fios soltos da minha franja.
–Sim, é verdade. Mas já passou.
–Você vai pedir desculpas a ela?
–Não tem motivos pra me desculpar.
–Então ela pediu a você?
–Também não.
–O que ela fez?
–Foi injusta comigo.
Lembro-me de como ela jogou aquelas palavras em mim e meus olhos ardem.
–Eu tenho certeza que ela não fez por mal — toca meus rosto e me faz encara-la.
Aqueles olhos azuis... Lizie.
Me pego pensando de novo na demônia. Onde será que ela estaria?
Emily me tira de meus pensamentos quando entra na sala e senta ao nosso lado. Jessica se inclina e beija seu rosto, ela sorrir.
–Por que parece tão triste? — a enfermeira recém-chegada beija minha testa. Não faço nada.
–A tia Charlie foi injusta com ela... — a loirinha no meu colo fala.
A mulher me olha querendo uma confirmação e levanto com Jessica nos braços. Ela faz o mesmo.
–Jessica, melhor você ir agora. Seus coleguinhas já devem tá se divertindo com a tia Ali.
Ponho-a no chão e recebo um beijo antes que saia correndo.
Caminho pelo corredor ignorando os chamados de Emily. Acelero os passos.
–Pare de fugir — pede e me impede de seguir caminho.
–Não acha que já encheu muito meu saco, Emily?
– Emily, Emily, Emily... Você nunca me chamou assim, Samantha.
–É o seu nome, não é? Porque se não for, eu não guardo mais seus segredos.
–Já entendi que fiz merda, Sam. Para de jogar isso na minha cara.
Minha pouca paciência acabou ali. E me vi perdendo as estribeiras... De novo.
–Você transou com o namorada da minha irmã, que era sua melhor amiga, só porque não tinha coragem de dizer que é apaixonada por ela. Ainda me faz esconder essa segredo e faz com que ela descubra daquela forma... Sinto dizer, mas você não fez merda, Emily, você fez uma cagada geral. Se o que fez não foi suficiente pra me ferrar, o que mais você quer de mim? Eu posso até ser apaixonada por você, mas não sou nenhuma idiota.
Tento recuperar o ar. Algumas lagrimas escorrem pelo meu rosto e pelo dela também. Ela encara algo atrás de mim e viro para ver.
Charlotte no fim do corredor.
–Sinto muito — Emily passa com as mãos no rosto e nos deixa sozinha.
Eu não via minha irmã desde a briga. Ela parecia cansada, seus olhos estavam fundo, mas tinha o brilho da magoa neles.
–Podemos conversar? — sua voz é quase um sussurro.
–Claro.
Caminha até minha e entra na sala ao lado da que eu estava. Sigo-lhe.
Ela devia ter escolhido outra. Aquela era minha antiga sala de aula e eu não entrava lá há dois anos. Nada mudou. O sentimento de nostalgia me invadiu, meus olhos se encheram de lagrimas mais uma vez com as lembranças daquela sala de aula.
Os cartazes do trabalho sobre o aquecimento global pendiam nas paredes, a letra de Becca destacava um em especial.
Lembro-me de como ela fez birra para escrever.
Flashback on
Damon usa tinta verde para sujar o rosto de Sam. Becca olha aquilo como uma irmã mais velha.
–Parem de gastar tinta — briga com os dois.
–Ela que fez primeiro — exibe a mancha vermelha no pescoço.
–Você me chamou de clorofila — Sam se defende e o garoto apenas sorrir divertido.
–Parem de brigar um com o outro — Becca diz mais uma vez.
–Ok, mamãe — os outros falam junto e começam a rir daquilo. Rebeca rir também.
O trabalho estava quase acabado. Faltava apenas escrever o titulo, subtítulo e colar algumas das figuras.
–Quem vai escrever? — Damon pergunta — minha letra é de garoto, então eu tou fora.
–Pode ser eu — diz Sam.
–Negativo — a outra garota pega o pincel de sua mão.
–Por que não? Minha letra é ótima.
–Mas a minha é melhor.
–Claro que não — a loira pega o pincel de volta — Damon, qual a letra melhor?
Damon encara Sam, depois encara a irmã. Balança a cabeça e seus cabelos mechem um pouco.
–Vão na sorte — diz e pega uma moeda no bolso.
–Cara — Becca.
Ele joga a moeda pra cima e a pega no ar.
"cara"
Becca dá pulinhos de comemoração e seus cachos negros pulam juntos.
–Vê se não estraga tudo — Samantha diz quando a outra começa a escrever e senta-se ao lado do amigo.
Flashback off
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