Cece Blue
4 Sobre lagos e cavalos
Nos dias seguintes a Sra. Stormfield estaria muito ocupada cuidando de todos os preparativos para a grande festa. Ela contratara o instrutor de boas maneiras, e Cece agora passava oito horas por dia aprendendo sobre como se comportar, como sentar apropriadamente e usar os diferentes talheres, como andar ereta e como ser agradável aos convidados. A intenção da Sra. Stormfield era transformá-la em uma perfeita dama até o dia da festa.
Cece agora já começava a se acostumar com a nova rotina. Descia todos os dias pontualmente para o café da manhã, e sentava ao lado de Trevor. Conversavam bastante. Jonathan participava timidamente da conversa, aqui e ali, encorajado pela irmã.
Os sentimentos de Frederick por Cece não mudaram muito durante esse tempo. Como Cece previra, a reprimenda do Sr. Stormfield o deixara ainda mais indisposto em relação a ela e ele não perdia a chance de desdenhá-la, embora fizesse isso longe das vistas do pai.
Cece tinha um carinho especial pelo bebê Leoward. Nunca havia conhecido um bebê antes, e ficara encantada com sua carinha rosada e olhos brilhantes. Quando tinha tempo, subia ao seu quarto para brincar com ele através das grades do berço, cantar suas músicas favoritas ou observá-lo dormir.
Quando os meninos mais velhos iam para a escola, era hora de Cece começar as aulas de boas maneiras.
A Sra. Stormfield insistiu que a prioridade eram as aulas de etiqueta, já que a festa de apresentação estava muito próxima e, caso Cece não soubesse se comportar, seria alvo de críticas e gracejos dos convidados.
Sr. Stormfield concordara em adiar a contratação do tutor até a festa de apresentação diante da expressão da filha ante tal perspectiva. Contudo declarou que, após a festa, seria dada a máxima prioridade aos estudos da menina, e a Sra. Stormfield não fez objeção.
Meg acompanhava Cece para todo lado. A ajudava a vestir-se, preparava seus banhos e auxiliava nas aulas de boas maneiras. Sua presença tranquilizava a garota, o que era muito útil, pois a Sra. Stormfield vinha pressionando muito para que Cece estivesse em forma para a apresentação, e frequentemente a levava à beira de um ataque de nervos, embora a garota nunca o demonstrasse.
E então o dia da tão aguardada (pelo menos pela Sra. Stormfield) festa chegou.
Cece acordou com a mãe entrando em seu quarto cantarolando alto. A Sra. Stormfield se atirou na cama da filha e a abraçou carinhosamente.
‒ Finalmente querida! Hoje é o seu dia. Não é excitante meu amor? ‒ Ela estava mesmo extasiada. Sem esperar resposta, continuou: ‒ Hoje todos vão conhece-la. Ah! Já ouço os comentários. Tenho certeza de que a acharão tão encantadora quanto eu acho. Agora, querida, lembra-se de tudo o que aprendeu com o Sr. Fraîcheur?
O estômago de Cece despencou alguns centímetros. Ela respirou fundo e respondeu:
‒ Sim, mamãe.
‒ Tem certeza, meu amor? Quero que tudo saia perfeito. ‒ Ela segurou o rosto de Cece nas mãos. ‒ Ninguém terá nada de mal para falar da minha filhinha! Acho melhor revisarmos tudo o que você aprendeu, por precaução. Vou mandar chamar o Sr. Fraîcheur imediatamente, e você terá a aula em minha presença! Que tal? ‒ Anunciou, como se estivesse dando à filha uma grande recompensa. ‒ Terei que delegar a Meg a supervisão da cozinha, mas acho que é o meu dever de mãe. Não quero que fique nervosa hoje à noite. ‒ Ela parecia muito orgulhosa de si mesma.
Cece já estava bastante nervosa. Não queria que a mãe participasse da aula. Estava se saindo bem: conseguia lembrar de todos os elogios que o Sr. Fraîcheur lhe ensinara, aprendera a usar os talheres e a sentar-se direito, aprendera a fazer reverências e a reconhecer alguns dos convidados através de fotos.
Porém, tinha medo de que isso não fosse suficiente para a Sra. Stormfield.
Para piorar, Meg não estaria com ela.
Meg não parecia capaz de se decepcionar com Cece: sempre tinha uma palavra de incentivo, parabenizava a garota por cada pequena conquista. Frequentemente comentava o quanto Cece era inteligente e graciosa, e quando esta falhava em algum exercício, a consolava dizendo que estava indo muito bem, e que ela não podia esperar acertar sempre.
A Sra. Stormfield se despediu da filha dizendo que mandaria Meg para ajudá-la a se vestir.
Cinco minutos depois, Meg entrava pela porta que a Sra. Stormfield deixara aberta. Encontrou Cece sentada em frente à penteadeira, mirando pensativa o próprio reflexo.
‒ Muito bem, hoje é o grande dia! Está animada, senhorita? ‒ disse Meg, assim que entrou no quarto.
‒ Meg, por favor, não pode ficar comigo durante essa aula? ‒ pediu Cece em tom de súplica, mas sem desviar os olhos da própria imagem.
‒ Ah... não senhorita. Infelizmente, a patroa me delegou a tarefa de supervisionar as cozinhas ‒ disse Meg tristemente ‒ Mas veja, sua mãe estará com você hoje! Tenho certeza de que será uma companhia muito melhor do que a minha ‒ completou, querendo animar a garota.
‒ Sim... é claro... ‒ respondeu Cece em tom triste. Ela virou de lado na cadeira, de forma a encarar o guarda-roupa ao invés do espelho.
Meg sentiu o coração apertar. Se apegara muito a Cece, e doía-lhe vê-la daquele jeito. Fez outra tentativa de anima-la:
‒ Que tal colocarmos aquele vestido azul? Aquele que a senhorita tanto gostou?
‒ Eu não devo repetir as roupas... ‒ respondeu Cece vagamente. Ela parecia distante.
Meg ficou chocada com o seu tom de voz. Ela soava vazia e triste, e Meg jamais vira Cece daquele jeito. Recuperando-se rapidamente, virou para o guarda-roupa e disse numa voz falsamente animada:
‒ Tenho certeza de que vamos achar aqui um ainda mais bonito do que...
‒ Meg... ‒ interrompeu Cece, ainda naquele tom de voz distante.
‒ Sim, senhorita?
‒ Posso te contar uma coisa?
‒ É claro que pode, querida.
Cece olhou Meg nos olhos por um momento e então abaixou a cabeça.
‒ E não vai contar à mamãe? ‒ Perguntou, encarando os próprios pés. Sua voz estava estranhamente rouca.
Meg encarou Cece, agora decididamente assustada. A garota estava tremendo.
‒ Não vou contar ‒ disse Meg baixinho.
‒ Eu... eu odeio esses vestidos.
‒ Oh.
‒ Eles são pesados demais, me apertam, pinicam... ‒ As lágrimas subiram aos olhos azuis de Cece, que tentava contê-las a todo custo. Ela agora tremia muito.
‒ Querida...
‒ Eu sinto falta dos vestidos do orfanato ‒ Cece levantou o rosto para olhar para Meg. As lágrimas agora corriam livremente.
‒ Ah, Cece! ‒ Meg a abraçou. Gentilmente conduziu-a até a cama, onde permaneceram abraçadas, Cece agora soluçando no ombro de Meg.
Ficaram assim por um tempo. Cece chorava cada vez mais no ombro de Meg, que tentava consolá-la.
‒ M-meg...
‒ Sim, querida?
‒ E-eu nã-não qu-quer-o ir a es-essa fes-ta ‒ disse Cece entre soluços.
‒ O que? ‒ Deixou escapar Meg.
Cece olhou para Meg, suplicante.
‒ Eu n-ão con-cons-igo Meg! Eu ju-juro que ten-tei m-mas não consi-go! Q-que vai a-acon-tecer se eu... s-se eu nã-o f-for boa o-o bastante? S-se eu errar algu... alguma c-coisa? Vão me-me mand-ar d-de volt-a... ‒ A angústia na voz dela era enorme.
‒ Senhorita Cece! De onde a senhorita tirou uma coisa dessas? ‒ Exclamou Meg, assustada.
‒ M-mas eu ach-acho que não m-me enc-aixo bem a-aqui Meg... e-eu nã-o s-sirvo pa-para ser fi-filha deles... eu só... est-tou ten-tando, muito mesmo... Tr-trev... Leo... m-mas nã-não p-posso, simp-plesm-ente não consi-go ma-is... ‒ Cece chorava mais do que nunca.
‒ Não fale assim senhorita! Seus pais e irmãos a amam muito, muito mesmo! Ninguém está mandando você de volta!
Mas Cece chorava com mais vontade a cada minuto. Sentia-se cansada e apavorada. Tinha medo de ir à festa e tinha medo de não ir. Não podia se imaginar vivendo daquele jeito, usando roupas desconfortáveis todos os dias, comendo sempre tensa com medo de errar em alguma coisa, passar os dias sentando corretamente e observando a postura...
Mas ela também não queria voltar ao orfanato e à vida que levava. Não queria se separar dos novos irmãos e nem dos pais. Queria desesperadamente amá-los e ser amada por eles... queria fazer parte da família...
Meg estava decidida enquanto descia rapidamente as escadas. Deixara uma Cece inconsolável encolhida nas cobertas para fazer algo que achava que já devia ter feito.
Parou em frente ao escritório do Sr. Stormfield. Respirou fundo, encheu-se de coragem e bateu na porta.
‒ Entre ‒ veio a voz do Sr. Stormfield de dentro do aposento.
Meg entrou, fechando a porta atrás de si. O Sr. Stormfield estava curvado sobre uma pilha de papéis em sua escrivaninha. Quando Meg entrou ele ergueu a cabeça.
‒ Meg ‒ disse, levemente surpreso. ‒ O que posso fazer por você?
‒ Senhor eu... eu estou aqui para falar sobre Cece.
‒ Aconteceu alguma coisa com ela? ‒ Perguntou o Sr. Stormfield, levantando-se da cadeira.
‒ Não senhor! Digo, de certa forma vem acontecendo... acho que a pobre criança está sob muita pressão.
‒ Por favor Meg, sente-se ‒ disse o Sr. Stormfield, indicando uma das cadeiras à frente de sua escrivaninha. Ele mesmo voltou a sentar-se. ‒ Agora me diga o que está acontecendo.
Meg contou ao Sr. Stormfield o que se passara entre ela e Cece. Falou também o que a vinha preocupando desde o começo, que Cece estava sofrendo, que ela era apenas uma criança, que deveria estar brincando, que deveria poder escolher as próprias roupas.
‒ ... e longe de mim criticar o senhor ou a patroa, mas acho que talvez fosse bom para Cece se ela se sentisse aceita senhor, porque ela acha que se não for boa o bastante vai ser devolvida, e é muito triste que ela pense isso, senhor. ‒ Meg terminou tudo de um fôlego só, antes de perder a coragem.
O Sr. Stormfield ouviu Meg atentamente, os cotovelos apoiados na mesa, as mãos entrelaçadas diante da boca. Ele continuou a observá-la por algum tempo depois que ela terminou de falar. Por fim, disse:
‒ Isso tudo é minha culpa.
‒ Senhor! Não senhor, eu não quis dizer... ‒ apressou-se Meg.
O Sr. Stormfield ergueu a mão para fazê-la parar.
‒ Sim, Meg, é minha culpa. Achei que Cece viria até mim quando estivesse pronta. Esse tempo todo eu a deixei a mercê da mãe... mas ela parecia sempre tão serena...
‒ Sim senhor, eu também achei isso... achei que estava me preocupando à toa, ela era sempre tão calma, e se esforçava tanto nas aulas que...
‒ Eu jamais deveria ter permitido isso. Fui fraco. Não quis contrariar Celia, não quando a menina parecia estar indo tão bem... agora eu vejo que não lhe dei opções. Queria que ela viesse até mim, mas nessas circunstâncias eu é que deveria ter ido até ela ‒ ele se levantou. ‒ Eu agradeço por você ter vindo me avisar, Meg. Está na hora de Cece saber que tem um pai.
Dizendo isso ele deu a volta na escrivaninha e atravessou o escritório.
Meg saiu do escritório em seguida, o coração batendo forte. Tinha muito medo de causar alguma briga entre os patrões, e de ser mandada embora, porém sentia que havia feito a coisa certa. Cece valia o risco.
O Sr. Stormfield subiu as escadas e parou em frente à porta do quarto da filha. Pensou por um momento na melhor maneira de falar com ela. Após alguns segundos de reflexão, ele bateu na porta duas vezes com os nós dos dedos e entrou.
Cece estava na cama. Ela levantou-se depressa, enxugando os olhos apressadamente com as mãos.
O Sr. Stormfield observou tristemente a filha que tentava se recompor. Como deixei isso acontecer?, pensou o Sr. Stormfield. Cece ainda lutava para se livrar das lágrimas, seus olhos azuis cheios de dor e medo.
Vê-la daquele jeito partiu o coração de Edmund. Ele quis pega-la no colo, dizer que estava tudo bem, ela não tinha por que ter medo. Teve receio, porém, de assustá-la, e decidiu aproximar-se mais cautelosamente.
‒ Cece, está tudo bem? ‒ Perguntou em um tom baixo e confortante.
‒ S-sim senhor... pa-pai ‒ respondeu a garota, tentando controlar a voz.
O Sr. Stormfield deu um longo suspiro. Sentou-se na cama e chamou a filha:
‒ Querida, venha aqui ‒ disse, estendendo a mão para a garota.
Cece obedeceu. O Sr. Stormfield segurou suas mãozinhas e olhou em seus olhos. Respirou fundo e disse:
‒ Cece eu quero te pedir desculpas.
Os olhos da menina se arregalaram de surpresa.
‒ Desculpas?
‒ Sim, querida. Sei que você vem sofrendo muita pressão esses dias, com essa mudança de vida, a festa e as aulas de etiqueta. Eu deveria ter estado mais presente, mas não estive. Me perdoe.
Cece mirava o pai boquiaberta.
‒ Primeiro de tudo quero que entenda que eu e a sua mãe a amamos muito. Sei que sua mãe tem exigido muito de você, mas você deve entender que ela faz isso com a melhor das intenções. Eu sei que ela pode ser... difícil... às vezes. Mas saiba que ela te ama. Ela pode querer que você se vista como uma boneca e se comporte como uma dama, mas ainda vai te amar mesmo que use trapos e coma com as mãos. Você entende isso?
Cece lentamente acenou que sim com a cabeça, seus olhos azuis muito abertos.
‒ Também quero que entenda Cece, e isso é muito importante, que nós somos uma família agora. Você é minha filha e nada poderá mudar isso, nada! Você deve ser livre para ser quem você é. O importante é que você precisa dizer como se sente, ou nós não saberemos quando a estivermos deixando irritada ou triste. Por exemplo: você gostou dos vestidos que a sua mãe comprou para você?
‒ Eu... ‒ Cece hesitou.
‒ Tudo bem, Cece, você pode me falar.
‒ Eu... bom, claro... quero dizer, eles são muito bonitos... ‒ disse, insegura.
‒ Eu vou arriscar e dizer que você não gostou dos vestidos.
Cece abaixou a cabeça. Olhando para os sapatos do pai ela concordou silenciosamente com um aceno.
‒ Você não disse isso à sua mãe, disse?
‒ Eu... não.
‒ Bom, você precisa começar a dizer. De outra forma, como ela vai saber o que você gosta?
‒ Mas é que ela estava tão feliz! Os vestidos são muito bonitos, eu não queria que ela ficasse triste... ‒ disse Cece apressadamente.
‒ Cece, você acha que a sua mãe quer você infeliz? Você teria contrariado ela se falasse o que estava sentindo? Um pouco. Mas isso faz parte da convivência. Você acha que seus irmãos deixam sua mãe escolher as roupas deles? Ou que eles sempre vão pescar comigo quando eu peço? Querida, para ser amada por nós você não precisa ser nada além de você. Em uma família é preciso se adaptar uns aos outros. Você vai aprender com o tempo. ‒ Ele abriu os braços para a filha. ‒ Venha aqui, garota.
Cece se aproximou e o Sr. Stormfield a abraçou carinhosamente. Depois a colocou no colo, onde ela apoiou a cabeça em seu ombro. Ficaram assim por algum tempo, ela respirando suavemente, ele acariciando os cabelos azuis da filha.
‒ Agora, Cece, sobre essa festa... ‒ ele sentiu a menina retesar em seu colo ‒ Você não precisa ir se não quiser, querida.
‒ Não preciso? ‒ Perguntou Cece, surpresa.
‒ Mas é claro que não. Este evento era para ser uma coisa prazerosa para você. Se isso está lhe causando angústia, então não faz sentido você ir.
Cece refletiu por um instante. Ela com certeza estivera nervosa ante a perspectiva de mostrar o que aprendera diante de tantos convidados. Mas, de alguma fora, saber que não precisava ir se não quisesse a deixou mais tranquila.
‒ Eu quero ir papai. Mamãe trabalhou tanto para fazer essa festa para mim, ela ficaria muito triste se eu não fosse. E eu também tenho treinado bastante e... acho que consigo fazer isso ‒ disse Cece, cheia de coragem. Estava se sentindo muito melhor.
‒ Você é uma boa menina, Cece. Agora, já que é assim, você deveria tirar o dia de folga. Você tem passado muito tempo com a sua mãe, então hoje seremos só eu e você. O que acha?
Cece abriu um sorriso tímido. Mas logo se lembrou:
‒ A mamãe quer participar da minha aula hoje... ela já mandou chamar o Sr. Fraîcheur e tudo... ‒ disse, desanimada.
‒ Ah, deixe a sua mãe comigo. Quero que se apronte para sair e me encontre no hall em vinte minutos. Fechado? ‒ Perguntou ele fazendo uma careta séria e estendendo a mão para a filha.
‒ Fechado! ‒ Disse Cece e, rindo, apertou a mão do pai.
Vinte minutos mais tarde Cece descia as escadas para encontrar o pai, que já esperava por ela no hall. Jim estava esperando por eles do lado de fora, mantendo a porta do carro aberta para que entrassem.
Quando estavam acomodados no carro, Cece perguntou aonde estavam indo.
‒ A todo lugar, querida. Com essas aulas que andou tendo, você ainda não teve a chance de explorar a cidade. Vamos visitar alguns dos meus lugares preferidos hoje, depois almoçaremos e mais tarde vamos a algumas lojas. Está bem para você?
Cece mal podia esperar.
Conversaram animadamente durante o trajeto, até Jim parar em frente a um portão de grades douradas.
Cece olhou pela janela e viu uma grande área verde cercada por grades. O portão era ladeado por duas guaritas. Jim buzinou e colocou a cabeça para fora da janela. Acenou para um dos porteiros e logo o portão começou a abrir. Jim deu a partida de novo e foram por uma estradinha estreita através do que parecia ser um bosque.
‒ Que lugar lindo! ‒ Exclamou ela.
‒ Que bom que você achou. Esse aqui é o Royal Club de Farlagos. Poucas famílias são associadas, e nós temos o privilégio de nos incluir entre elas. Veja! Ali é a área de piqueniques ‒ ele apontou pela janela para um vasto gramado que começava exatamente onde acabava o bosque. ‒ Mais na frente fica o lago Lunara. Olha lá ele!
Depois da área de piqueniques havia um lago grande e azul. Ao redor ficavam gazebos de madeira espaçosos, com espreguiçadeiras e almofadas.
Jim parou o carro e desceu para abrir a porta. O Sr. Stormfield pegou Cece pela mão e a levou até um píer de madeira escura e envernizada. Pararam na outra extremidade e Cece contemplou o lago abaixo.
‒ Que lindo! Eu posso nadar aqui papai?
‒ Claro que pode querida. Mas não hoje, certo? ‒ O Sr. Stormfield viu que ela fazia beicinho e continuou: ‒ Não se preocupe Cece, você poderá vir aqui sempre que quiser.
Ele passou o braço pelos ombros da filha relutante e a guiou para fora do píer.
‒ Hoje eu queria apenas lhe mostrar esse lugar. É um dos meu preferidos. Engraçado é que os sócios dão muito mais valor ao título do que ao clube em si, o que eu acho um tremendo desperdício. O lado bom é que muitas vezes nós teremos o lugar todo só para nós ‒ ele sorriu e piscou para a filha.
Cece já se imaginava correndo por aquelas árvores e nadando naquele lago cristalino. Não conseguia imaginar nada melhor do que aquilo!
‒ Agora ‒ disse o Sr. Stormfield enquanto entravam no carro ‒, vamos a outro de meus lugares favoritos. Você gosta de cavalos, filha?
Edmund levou a filha ao haras para ver os cavalos de corrida.
Cece estava mais feliz do que jamais estivera. Aquele era com certeza o melhor dia de sua vida.
Os cavalos a deixaram fascinada. Eram belos animais, altivos e inteligentes. Suas pelagens de cores variadas reluziam ao sol enquanto eles balançavam as longas caudas.
Um animal em particular chamou a sua atenção. Um potro meio desgrenhado, negro, exceto pelas patas, que eram brancas, e uma mancha na testa na mesma cor.
Ela aproximou-se do cavalo enquanto seu pai conversava amigavelmente com um dos tratadores. Lentamente, ergueu a mão para tocar a cabeça do animal.
O potrinho pisoteou o chão e meneou a cabeça, nervoso, mas Cece sussurrou “shhh, calma garoto” até que ele se acalmasse. Continuou a aproximar-se devagarinho dele, e finalmente o cavalo deixou que ela lhe acariciasse o nariz.
A despeito de seus pelos despenteados e do porte desengonçado, Cece achou que ele era muito bonito.
‒ O que está fazendo aí, filha? ‒ Perguntou o Sr. Stormfield, caminhando até ela.
‒ Estou só brincando com ele papai! Ele não é lindo? ‒ Respondeu Cece, animada.
‒ Sua filha tem um ótimo gosto ‒ o cavalariço vinha atrás do Sr. Stormfield. ‒ Esse potro é descendente do nosso maior campeão de corrida, Reginald III. E ela tem um jeito com ele também, esse aí costuma ser bem arisco.
‒ Thomas, Thomas, não está tentando me vender esse cavalo, está?
Cece mal podia acreditar no dia que tivera. Enquanto Jim os levava de volta à mansão, ela não parava de agradecer ao pai. Ele não apenas a levara para conhecer o lugar mais lindo que já vira como ainda lhe comprara o potrinho que ela tanto gostara. À tarde passaram em várias lojas diferentes onde ela escolheu roupas novas. No final, tomaram um sorvete delicioso em uma sorveteria à beira do rio Erin.
Assim que eles chegaram em casa, Trevor veio correndo até eles.
‒ Cece! Aonde você estava? Procurei você em toda parte!
‒ Eu saí com o papai Trev! Foi muito legal...
‒ Anda! Vamos para o seu quarto, e você me conta tudo, certo? ‒ Disse ele, puxando-a pela mão com impaciência.
E subiram correndo as escadas, deixando um Edmund sorridente no hall.
Cece contou a Trevor tudo sobre o dia maravilhoso que tivera com o pai, na maior empolgação. Nunca se sentira tão feliz como naquele dia, e dizia isso a ele. Trevor, para quem todas aquelas maravilhas narradas pela irmã não passavam acontecimentos corriqueiros, achava muita graça.
‒ Nossa, maninha! ‒ Exclamou ele, rindo, quando Cece acabou de falar. ‒ Não sabia que você se sentia assim sobre lagos e cavalos.
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