Cece Blue
2 Os Stormfields
Os Stormfields
Quando Cece acordou na manhã seguinte, estava novamente na cama. Demorou alguns instantes para perceber onde estava. Aos poucos, os acontecimentos do dia anterior voltaram à memória.
Levantou-se e foi se olhar no espelho em cima da penteadeira. Seus olhos estavam inchados e o cabelo desgrenhado. Ela ficou parada em frente ao espelho, pensando...
Não sabia que horas eram. Será que esperavam que ela descesse? Talvez a hora do café da manhã tivesse passado, e ela teria que esperar ali até o almoço, ou talvez (o que era pior) estivessem todos esperando por ela para começarem a comer, e ela levaria uma bronca por se atrasar!
Com esse pensamento, ela correu ao banheiro para se lavar e escovar os dentes. Depois, sentou na penteadeira e começou a dar um jeito no emaranhado de cabelos.
Enquanto estava entretida tirando os nós dos cabelos, ouviu uma leve batida na porta. Cece se assustou tanto que derrubou a escova no chão.
‒ Senhorita? Senhorita Cece, está acordada? ‒ Disse uma voz feminina.
Cece sentiu o estômago embrulhar. Se atrasara tanto que mandaram alguém buscá-la?
Outra batida, dessa vez um pouco mais forte.
‒ Senhorita? Será poderia me deixar entrar?
Cece se levantou e foi até a porta, o estômago mais embrulhado do que nunca. A mão tremendo um pouco, ela girou a maçaneta e recuou para abrir a porta.
Do outro encontrava-se uma jovem de não mais de vinte anos. Usava um vestido carmim que ia até os tornozelos e por cima um avental branco com babados. Os cabelos cor de caramelo estavam presos em um coque frouxo. Seus olhos eram claros e brilhantes e seu rosto gorducho tinha uma expressão bem-humorada.
‒ Olá senhorita Cece. Meu nome é Margaret, mas a senhorita pode me chamar de Meg. Sua mãe me incumbiu de cuidar da senhorita e ajudá-la no que for possível. Ah! Vejo que já começou a se arrumar. Tenho certeza de que se arranjaria muito bem sem mim, mas sei que será uma boa menina e me deixará ajudar!
Ela disse tudo isso de forma muito rápida e animada. Cece, ainda meio aturdida, mas, começando a entender que não estava levando bronca, balançou a cabeça afirmativamente para Meg, que recomeçou a falar.
‒ Vamos encontrar um vestido, sim? Depois cuidamos do cabelo. Vejo que já se lavou. A senhorita é mesmo uma menina muito boazinha, como me disseram. Mas só tem vestidos cinzas e pretos aqui! Ah, mas não se preocupe senhorita, tenho certeza de que a Sra. Stormfield irá comprar muitos vestidos bonitos para você. Acho que o cinza é melhor do que o preto, não acha? Sim, com certeza... não vai ser bom tomar o seu primeiro café da manhã aqui na mansão vestida de preto não é? Este cinza terá de servir. Mas não se preocupe, tenho certeza de que ficará linda de qualquer jeito, a senhorita é a garotinha mais bonita que eu já vi! E olhe só esses cabelos! Me disseram que eram azuis, mas eu achei que fosse uma brincadeira do Jim. Sabe o Jim? Ele é o motorista, foi buscar você ontem junto com os Sr. e a Sra. Stormfield. Ah, aposto que não se lembra dele. Como poderia lembrar? Deve ter tido um dia muito cheio ontem! Soube que tirou muitas fotos para os jornais...
Meg continuou falando sozinha sem parar. Cece a ouvia e sentia que estava relaxando. Não percebera o quanto estava tensa, mas a conversa sem fim de Meg e seu jeito simpático a tranquilizavam. Dentro de pouco começou a sorrir enquanto Meg narrava algum acontecimento engraçado envolvendo Jim, o motorista, ou as cozinheiras.
‒ ... e então, quando a pobre da Magda voltou para trocar os ovos, ele disse que ela é que queria empurrar os ovos podres para ele, o patife! Claro que ele não sabia de quem ela era cozinheira, ou não se atreveria a lhe atribuir tal ato. Então a pobrezinha da Magda voltou chorando, e o Jim foi lá ter com o sujeito, e exigiu que ele devolvesse o dinheiro dos ovos, e ele não queria devolver, acredita senhorita? Estavam quase indo às tapas quando o patrão passou e viu o Jim, e perguntou o que estava acontecendo. Ah, quando o velho patife soube com os criados de quem ele tinha se metido! Jim disse que ele se jogou no chão e implorou perdão, e devolveu duas vezes o valor dos ovos. Prontinho, senhorita! Esse vestido lhe caiu melhor do que eu esperava. E agora os cabelos. Que faremos com esses cabelos? Talvez uma linda trança, com a ponta presa, que tal? Posso fazer duas tranças e enrolá-las na nuca, o que acha? Tem razão, tranças no café da manhã! Não há a menor necessidade... uma coisa mais simples então? Com certeza, simplicidade é elegância, eu sempre digo... a patroa gosta de prender os cabelos às refeições, mas acho que o estilo dela talvez seja um pouco rígido para uma garotinha... e por que não um rabo-de-cavalo? Ficaria lindo em você, e poderíamos fazer um laço bem bonito...
Cece não se incomodou em tentar responder a nenhuma das perguntas de Meg. Apenas a apreciava falar e pentear seus cabelos, rindo de vez em quando.
Meg foi procurar uma fita para prender os cabelos azuis da menina. Para seu desgosto, Cece só tinha uma fita preta. Lamentando um pouco a cor, Meg puxou os cabelos de Cece para trás e fez um laço, então anunciou que estavam prontas para descer.
Cece deu a mão a Meg e deixou que ela a guiasse escada abaixo até o salão de jantar.
Toda a família já se encontrava à mesa quando Cece chegou.
O Sr. Stormfield estava sentado à cabeceira, e dividia seu tempo entre um prato de torradas e o jornal. A Sra. Stormfield estava à direita do marido, e conversava com os filhos, que se sentavam do lado oposto. Frederick estava na primeira cadeira à esquerda do pai, e falava sobre uma nova matéria que queria começar a cursar. Trevor estava ao lado do irmão, e parecia muito entediado com o discurso deste. Ao seu lado estava uma cadeira vazia, e após a cadeira estava sentado Jonathan, que de vez em quando fazia perguntas à mãe ou reclamava da implicância dos irmãos.
Os garotos já estavam vestidos para a escola com o uniforme preto padrão. Havia apenas uma escola em cada cidade, e todos a frequentavam, independentemente de sua condição social. A opção era ser educado em casa, mas poucas famílias optavam por isso.
Quando Cece e Meg entraram no salão, todos imediatamente pararam o que estavam fazendo e ergueram a cabeça para olhá-las. Então a Sra. Stormfield exclamou:
‒ Minha querida! Que bom que se juntou a nós, estávamos todos ansiosos para vê-la. Como passou a noite?
‒ Muito bem, obrigada, Sra. Stormfield ‒ respondeu Cece encabulada ‒ Desculpe se fiz vocês esperarem.
‒ De forma alguma, meu amor! Venha, sente-se ao me lado ‒ A Sra. Stormfield tocou com a mão no assento da cadeira à sua direita ‒, temos muito o que conversar.
‒ Ah mamãe, eu queria que ela sentasse do meu lado hoje ‒ disse Trevor num tom de choro fingido. E virando-se para Cece: ‒ Eu guardei esse lugar para você ‒ falou, apontando para o lugar vago entre ele e Jonathan.
‒ Cece, querida, você prefere sentar-se com o seu irmão? ‒ Perguntou bondosamente a Sra. Stormfield.
Cece hesitou.
‒ Eu... eu não sei... ‒ disse insegura, olhando de Trevor para a Sra. Stormfield.
‒ Ora, não tem problema Cece. Afinal, passaremos o dia inteirinho juntas. Sente-se com o seu irmão, se isso lhe agradar. ‒ Tranquilizou-a a Sra. Stormfield.
‒ O quê? O dia todo? Então ela não vai pra escola com a gente? ‒ Perguntou Trevor, decepcionado.
‒ Hoje não, Trev ‒ respondeu o Sr. Stormfield, num tom que sugeria que aquilo era óbvio.
Trevor se recostou na cadeira, emburrado. Não gostava quando o pai usava aquele tom com ele. Mas bem depressa ele se recuperou e se virou para a irmã:
‒ Que pena que você não vai poder ir comigo pra escola, Cece. Eu já falei pra todo mundo que ia ganhar uma irmã, todos estão loucos para conhecer você. Espero que você possa ir logo. A escola é bem legal, sabe?
E começou a falar sobre a escola, as matérias que gostava e as que não gostava, os professores e os amigos. Sobre os amigos ela tinha muito para dizer: como eram, do que gostavam, as brincadeiras que faziam juntos.
‒ Você tinha muitos amigos lá no orfanato? ‒ Perguntou.
‒ Amigos? Ah... não, não exatamente... ‒ começou Cece.
‒ O que é um organato? ‒ Interrompeu Jonathan.
‒ Orfanato, Jon ‒ respondeu o Sr. Stormfield. ‒ Era onde a sua irmã vivia antes de vir morar aqui.
‒ Por que ela vivia lá, papai? ‒ Perguntou Jonathan.
‒ Por que ela não tem família, idiota ‒ respondeu bruscamente Frederick.
‒ Nós somos a família dela agora, Fred ‒ disse o Sr. Stormfield, em tom de aviso.
‒ Só porque a família de verdade não a quis ‒ retrucou Frederick com desdém.
O ar fugiu dos pulmões de Cece. De repente ela se sentiu muito vazia. Baixou a cabeça e ficou olhando suas mãos em cima do colo, tentando conter as lágrimas que começaram a arder de repente por trás dos olhos muito azuis.
Ela sabia que não tinha família, soubera disso a vida inteira. Mas ouvir isso ali, naquela mesa, cercada por aquelas pessoas, era diferente.
‒ Agora chega, Frederick! ‒ Exclamou o Sr. Stormfield, levantando-se da cadeira e apoiando as duas mãos na mesa. ‒ Ouçam aqui, os três: Cece agora faz parte desta família. Não importa mais a vida que ela levava antes de chegar aqui. Ela é irmã de vocês, e isso é tudo o que precisam saber. Não quero mais ouvir perguntas ou comentários sobre o orfanato, ou qualquer coisa antes disso, fui claro?
‒ Sim, pai ‒ responderam Trevor e Jonathan.
‒ Fui claro? ‒ O Sr. Stormfield se virou para Frederick.
‒ Sim, pai... ‒ respondeu Frederick de má vontade.
‒ Ótimo ‒ o Sr. Stormfield tornou a sentar.
Cece não levantou a cabeça. Não sabia o que pensar. Ela supunha que deveria se sentir grata ao Sr. Stormfield, mas não conseguia deixar de se sentir humilhada. Queria mais do que tudo sair daquela mesa e correr para algum lugar aonde não pudessem encontrá-la. As lágrimas agora vinham com mais força.
De repente, alguém segurou sua mão por baixo da mesa. Cece olhou para o lado e viu que Trevor aproximara a cabeça da dela. Ainda segurando a mão de Cece, ele falou baixinho, só para ela:
‒ Não liga para o Fred. Eu estou feliz que você seja a minha irmã.
Cece sentiu uma coisa engraçada. Um calor se espalhou por seu peito e ela teve vontade de abraçar Trevor. Ao invés disso, apertou sua mão, que ainda segurava a dela. Respirou fundo, levantou a cabeça, sorriu para Trevor e recomeçou a comer.
Após o café da manhã, os três filhos mais velhos seguiram para a escola. O Sr. e a Sra. Stormfield levantaram e pediram que Cece os acompanhasse, pois “precisavam conversar sobre coisas sérias”.
Cece levantou, meio nervosa, e os seguiu. Quando chegou próxima o bastante, a Sra. Stormfield a abraçou carinhosamente pelos ombros, e a guiou pelo hall até a gigantesca sala de estar, onde havia uma porta para o escritório do Sr. Stormfield.
O escritório, embora fosse muito menor que a sala de estar, era espaçoso e aconchegante. Na parede oposta à porta havia duas grandes janelas que iam até o chão, cobertas por luxuosas cortinas de veludo bordado.
Uma lareira estava a alguns metros da porta, no momento apagada, devido ao clima ameno. Em frente à lareira, um sofá confortável para três pessoas e na vertical, formando um L, estavam dispostas duas poltronas.
De frente para o sofá, quase encostada à parede, ficava a escrivaninha atolada de papéis do Sr. Stormfield, e por trás da escrivaninha um cadeirão confortável de couro. À frente ficavam duas cadeiras menores.
O Sr. Stormfield esperou que a esposa e Cece passassem, e então fechou a porta atrás delas.
Cece sentou-se no sofá, ao lado da Sra. Stormfield. O Sr. Stormfield ocupou uma das poltronas e virou-a, de modo a ficar de frente para as duas.
‒ Muito bem, Cece ‒ disse. ‒ Primeiramente, quero pedir desculpas pelo comportamento inadequado do seu irmão hoje. Foi inaceitável. Conversarei com ele sobre isso mais tarde.
Cece corou. Não disse nada ao Sr. Stormfield, mas achava que repreender Frederick não faria nada para melhorar seus sentimentos em relação a ela.
‒ Em segundo lugar ‒ continuou o Sr. Stormfield ‒, quero saber se está confortável. Está lhe faltando alguma coisa?
‒ Não senhor, digo, sim senhor e não senhor... ‒ atrapalhou-se Cece.
A Sra. Stormfield interrompeu:
‒ Cece, será que poderia nos chamar de papai e mamãe? ‒ Perguntou, virando-se para Cece e segurando suas mãos. ‒ Somos seus pais agora, querida, você sabe.
Cece corou de novo. Olhou para o chão e balançou a cabeça positivamente, como se pedisse desculpas.
‒ Celia, nós combinamos... ‒ começou o Sr. Stormfield, em tom de repreensão.
‒ Eu sei o que combinamos, Edmund ‒ cortou a Sra. Stormfield. ‒ Mas ela é nossa filha, não vejo razão para que não nos chame de pais. Estou louca para ouvir a minha filhinha me chamar de mamãe! Ninguém poderia me negar isso.
A Sra. Stormfield tinha um bom coração, mas era uma mulher impetuosa e cheia de caprichos. Não era dada à reflexão, e com facilidade fechava os olhos àquilo que não lhe era agradável. Como se acreditava praticamente incapaz de cometer erros, raramente pensava nas consequências de suas palavras e ações.
O Sr. Stormfield encarou a mulher, mas esta estava impassível. Por fim, deu um pesado suspiro, mais cansado que exasperado. Virou-se para a menina:
‒ Tudo bem para você, Cece?
‒ Sim senhor ‒ respondeu ela.
‒ Sim papai, querida ‒ corrigiu-a a Sra. Stormfield, gentilmente.
‒ Desculpe...
‒ Tudo bem, Cece ‒ disse o Sr. Stormfield. ‒ Quero que me chame de pai apenas quando se sentir confortável com isso.
Se a Sra. Stormfield percebeu a sugestão na voz do marido, não demonstrou. Continuava sorrindo como se este não a tivesse corrigido.
O Sr. Stormfield deu outro suspiro e recomeçou a falar.
‒ Cece, precisamos decidir sobre a sua educação. Acho que estou certo em presumir que você nunca frequentou a escola.
Cece concordou com a cabeça.
‒ Você tomava aulas no orfanato? ‒ Perguntou o Sr. Stormfield.
‒ Sim senhor. Eu e as outras crianças tínhamos aulas com o Sr. Schnurrbart cinco vezes por semana.
‒ Entendo. Espero que não se ofenda, mas achamos que devido ao fato de ter tido aulas coletivas com um grupo de crianças de variadas idades e graus de instrução, talvez haja algumas lacunas em sua educação. Sua mãe e eu pensamos ser melhor que você seja instruída em casa por enquanto, até que essas lacunas sejam preenchidas apropriadamente, e você seja capaz de alcançar o nível escolar apropriado. O que pensa disso?
Cece concordou prontamente. Tinha muito medo de ir à escola.
‒ Ótimo. Não se preocupe, traremos os melhores instrutores para você. E quando se sentir pronta, poderá frequentar a escola junto com seus irmãos.
‒ Sim, sim, e tenho certeza de que será ótimo! ‒ Exclamou a Sra. Stormfield com impaciência. ‒ Agora, querido, chega desses assuntos sérios, ou nossa filhinha ficará seriamente entediada! Cece, meu amor, em meia hora iremos à cidade fazer algumas compras. Não é maravilhoso querida? Sempre sonhei em levar minha filha às compras!
O Sr. Stormfield suspirou mais uma vez, vencido.
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