Cebolas
1 Capítulo 1
Ela estava deitada no sofá da sala. O rosto transmitia uma paz indescritível. Ali , observando-a de longe , ela parecia tão delicada quanto uma rosa , tão pequena como uma filha nos braços de um pai protetor.
Eu a amava.
Soube disse desde a primeira vez que meus olhos haviam encontrado os dela.
Era meu ultimo ano na escola e já estávamos nos últimos meses de aula. O ensino médio ficaria para trás assim que aqueles meses acabassem , as expectativas eram tantas. Os medos na mesma proporção. O pior de tudo era que eu havia passado a minha vida inteira se sentindo perdida, sem rumo, uma completa inútil , e mesmo agora quando uma estrada inteira estava se formando a minha frente , eu ainda me sentia assim. Era uma sensação horrível.Parecia que todos sempre conseguiam o que queriam. Todos. Principalmente o que pareciam não merecer. Por que eu não podia me dar bem só de vez em quando , pra variar ?
Desde que completei 16 anos , minha mãe começou a pegar no meu pé para eu arrumar um emprego. Isso começou porque eu assumi que era lésbica. Isso mesmo. Foi ai que ela resolveu me "punir" (não que ela admitisse que aquilo era uma punição) me dizendo "Já que você quer fazer papel de homem, vai trabalhar como um!".
Eu tentei, juro que tentei, mas eu era um imã para o fracasso. Dificilmente encontrava algum , e quando essa raridade acontecia , não conseguia permanecer nele nem por um ano. Acho que o máximo que consegui alcançar foi 6 meses de trabalho. Qual era o problema comigo ? Agora eu já tinha 18 , e as coisas ainda não haviam melhorado.
Na escola , minhas notas eram regulares. Tinha poucos amigos , e não pertencia a nenhuma "tribo".
Me lembro de ter visto Marilyn a primeira vez na porta da escola. Ela era a unica lá, não havia chegado mais ninguém. Nesse dia eu tinha saído bem mais cedo de casa porque não estava afim de ouvir os berros da minha mãe que brigava comigo por eu ter perdido outro emprego. Era melhor ser o primeiro a chegar na escola e ficar com cara de tapada do que ouvir o quanto eu era uma inútil, o quanto só fazia as coisas erradas...
Mas , nesse dia , eu não havia sido a primeira a chegar. Do outro lado da rua , encostada no portão da escola (isso é que era vontade de estudar) estava Marilyn. Segurava um livro entre os braços e usava uma bolsa com o desenho de uma joaninha. Devia ser nova na escola , ou do tipo que passa o intervalo no banheiro porque eu nunca havia reparado nela antes.
Fiquei ali , encostada na parede só a observando. Ela olhava de um lado para o outro , parecendo ansiosa ou nervosa, e de vez em quando olhava para o relógio em seu pulso. Depois de ter olhado o relógio pela terceira vez , ela veio andando em minha direção , parecia abraçar o livro com compaixão.
– Oi ... — começou , depois de parar na minha frente — Sou Marilyn Yabase — ela falava olhando para o livro em seus braços, sem jeito.- É que ... sou nova aqui , me disseram que entramos na escola às 19:00...
– Sim, às 19:00. — respondi quando percebi que ela parecia ter travado.
Enfiei a mão no bolso da calça e peguei meu celular. Eram 19:08. Estranho.
– Bom... — ela começou novamente , depois de ter percebido que eu tinha estranhado o horário. — Acho que já era pra ter algumas pessoas aqui ... não ?
– É ... acho que sim. Bom , talvez não tenha aula, sei lá , de qualquer forma , vou esperar mais um pouco, não estou afim de voltar para casa mesmo.
Joguei minha mochila no chão exatamente como fazia quando chegava em casa e me sentei ali mesmo. Marilyn ficou me olhando , talvez pensando no que deveria fazer, então depois de um breve momento , delicadamente se abaixou e se sentou do meu lado.
Eu parecia tão desleixada ao lado dela. Ela sentava com a coluna ereta encostada na parece , pousou o livro em seu colo e ajeitou sua bolsa ao seu lado, olhando se o chão estava sujo antes de colocá-la carinhosamente lá. Eu por outro lado , usava uma camiseta do Matanza com as mangas rasgadas. Minha mochila estava suja e tinha o nome a frase "Meio Psicopata" (nome de uma das musicas do Matanza) escrita de branquinho na parte da frente. E eu parecia mais estar deitada do que de fato sentada no chão.
Olhei para ela observando toda a sua graciosidade ... foi então que seus olhos encontraram os meus.
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