Caída

1 Capítulo Único


Ela era uma sonhadora, mas não do tipo que se espera. Vinda de família conservadora, todos desaprovavam seus traços. O fato de ter o cemitério como esconderijo para ficar em paz, ter o costume de falar sozinha e odiar aquele vestido com babados comprado com carinho (ou seria um certo deboche?) por sua prima mais velha, a fazem a característica ovelha negra, não só da família, mas de toda a vizinhança.

Mas quem disse que ela se importava com o que diziam? A sua única essencial possessão era seu caderno, o qual possuía os mais belos devaneios, os mais horrendos pesadelos, e as histórias. Estas a mantinham sã todos os dias (na medida do possível), sendo sobre os mais diversos gêneros, mas principalmente de terror. Ah, como ela se encantava pelo efeito do terror! As caras de espanto dos seus pais enquanto liam, pensando, talvez, “onde foi que eu errei?” eram um deleite para sua mente levemente desvairada.

Um dia, enquanto eles liam uma história sua, seu pai irritou-se. Não, ela não podia ser problemática! Tinha se esforçado tanto para dar-lhe do bom e do melhor; por que não podia ser uma garota normal, cujo mais horripilante pensamento é, no máximo, o preço alto das roupas? E assim, numa ação súbita, rasgou diversas folhas. Ela, com um aperto no coração ao presenciar a cena, deu um berro.

A luz de toda a vizinhança acabou. Ela respirava com dificuldade, pela intensidade do momento, e um pouco confusa. Teria ela feito isso? Ela podia fazer isso? Os pais tremiam, amedrontados. A mãe, católica fervorosa, já tinha em mente exorcismo. Choramingava de leve, nunca tendo sentido tamanho medo.

A filha se aproveitou da situação. Cuidado, paizinho, é isso que acontece quando se mexe com a sua garota! Ela andava vagarosamente pelo ambiente, fazendo com que a madeira rangesse aos seus pés. Ele tentava se fazer de corajoso, por sua mulher, mesmo sendo difícil. Quando tentou dizer algo, sua voz falhou. Por que comigo, Senhor?

Com uma gargalhada macabra da menina, a luz voltou. Aliviados, os pais procuraram por ela pela casa, prontos para mandá-la ao convento. Gritaram seu nome, mas não a encontraram. Ela não podia ter saído, pois não escutaram o barulho da porta, certo?

Eis que ela aparece, depois de revistarem todo canto da casa, entrando calmamente pela porta da frente, segurando seu caderno nas mãos. Intacto.

Notas finais
Obrigada por lerem até o final!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!