A primeira coisa que Heitor sentiu foi a dor latejante que irrompeu no lado esquerdo da sua cabeça, fazendo com que a sua mente novamente voltasse a trabalhar depois de um tempo — que parecia uma ter ficado uma eternidade em uma escuridão sem fim. Em seguida, veio o leve toque em seu rosto. Mesmo com os olhos ainda fechados, ele pode sentir que eram mãozinhas de uma criança, que batiam frequentemente entre o nariz e os seus olhos.

Ao finalmente recobrar parte de sua visão que, afetada pela dor na sua cabeça, ainda estava turva e pouco clara, Heitor se viu em um lugar quase totalmente escuro, com poucas luzes que vinham de pequenas lâmpadas colocadas na lateral da parede de concreto que o cercava e das poucas frestas da luz do sol que se espremiam pelos tapumes de madeira que lacravam as janelas. O piso era gelado e da mesma cor que as paredes, cinza. Sentia-se um cheiro de mofo misturado ao odor de sangue, devido ao bloqueio nas janelas, o ar tornava-se ainda mais pesado. A medida que a sua vista voltava a entrar nos eixos novamente, Heitor também passou a ouvir a voz animada de um bebê que estava sentado ao seu lado falando:

— Pa. Pa. Pa.

Olhando para a sua direita, Heitor tomou um susto — soltando um grito abafado pela sua própria mão — ao ver aquela pequena menina, sentada no chão ao seu lado enquanto batia desajeitadamente suas palmas e repetia sempre as mesmas palavras. Aquele bebê não tinha mais que um ano, sua pele levemente bronzeada, olhos castanhos e cabelos ralos da mesma cor. Usava uma sapatilha no pé esquerdo, enquanto o direito estava descoberto. Seu corpo estava vestido com um macacão jeans por cima de uma camisa branca de mangas compridas.

— Deus! O que eu tô fazendo aqui? — se perguntou ao ficar de pé e sentir novamente a forte dor na lateral da sua cabeça. — Ai! — instintivamente, Heitor colocou uma das mãos em cima do ferimento e percebeu que seu rosto havia sido pintado pelo sangue que escorria dali.

Heitor começou a tentar se lembrar do que havia acontecido, de como foi parar ali, naquele lugar estranho, mas nada veio em sua cabeça. Ele tentou cavar em suas memórias qualquer indício do que havia acontecido anteriormente, mas misteriosamente sua mente estava vazia e não conseguia trazer nenhuma informação relevante. A última coisa que Heitor se recordava era de ter saído de casa para ir buscar seu pai na casa de um conhecido e que após isso iria para a faculdade.

Pensando naquilo, veio uma pergunta seguida do desespero: aquilo era um sequestro?

"Tinha que ser", respondeu consigo mesmo. Provavelmente Heitor havia saído da sua casa até onde seu pai estava e, no meio do caminho, lhe acertaram tão forte na cabeça que provavelmente o atordoou e isso fez com que ele desmaiasse e acordasse ali. Ainda assim, Heitor percebeu que algumas coisas não faziam sentido, mesmo para um sequestro.

A primeira era que tanto ele quanto a sua família não tinham nada de valioso para um sequestrador. Seu pai era um mecânico e trabalhava em uma pequena oficina do bairro, além disso. Suas duas irmãs mais velhas eram estudantes como ele e não tinham qualquer coisa de valor — assim como todo bom estudante da região metropolitana.

A segunda coisa que não se encaixava ali era o fato de que sua família não possuía inimigos, dívidas ou qualquer coisa que justificasse qualquer tipo de "acerto de contas". Fora que eles jamais cairiam naqueles trotes de telefones, pois a sua família tinha uma esperteza um pouco acima da média para esse tipo de coisa.

E finalmente, o motivo mais destoante daquilo. Heitor se ajoelhou no chão, pegou a menina no colo e perguntou mais para si mesmo do que para ela:

— Quem, e o que diabos você faz aqui?

Olhando-a com mais calma, enquanto a menina brincava com seus cabelos castanhos e repetia as palavras recém-formadas: pa, pa, pa, Heitor não a reconheceu de nenhum lugar. Ele não se lembrava de nenhum parente próximo que havia tido uma filha que pudesse ter aquela idade, muito menos alguma de suas irmãs serem mães, dada a natureza introspectiva de sua família. Entretanto, enquanto a observava e tentava montar aquele quebra-cabeça que parecia estar sem muitas peças, Heitor reparou em algo, não na menina, mas em si mesmo. Por algum motivo, seu coração bateu mais forte quando os olhares dele e dela se encontraram por um momento e um sentimento estranho para ele até o momento invadiu sua alma. Algo único e inédito que, de alguma forma, despertava sensações um pouco mais profundas e delicadas, que Heitor não conseguiu entender naquele momento.

Heitor quis ir mais fundo naquilo, mas a dor na sua cabeça o fez lembrar que, naquele momento, existia uma prioridade maior para ele: sair dali para preservar a sua integridade física já desgastada e, principalmente, a da garota.

— Tá tudo bem pequena... Como eu posso te chamar? Pequena mesmo? É, acho que vai servir. — Heitor olhou para a sala onde estava mais uma vez e percebeu que havia uma porta branca no outro canto. — Eu vou tirar a gente daqui e depois vamos ir atrás da sua mãe. Só não chore, não sei lidar com crianças, ainda mais quando elas começam a berrar.

— Pa! — foi a resposta de Pequena.

— Vou entender isso como um sim. — Heitor falou com um sorriso.

Heitor percorreu a sala, desviou da pequena poça de sangue que havia se formado onde ele estava caído há poucos minutos e observou com cautela a porta fechada. Não parecia haver qualquer mecanismo eletrônico, pelo menos daquele lado, que trancasse a fechadura. O trinco era comum, redondo e de plástico e não parecia ser muito resistente. Outra pergunta veio a sua cabeça: "será que essa porta está realmente trancada?".

Em outras circunstâncias, Heitor teria ao menos tentado abrir aquela porta sem pensar duas vezes. Entretanto, por crescer em uma família com duas irmãs mais novas, mas que juntas elas eram o diabo em pessoa e, principalmente, por estar com uma criança nos braços, ele tinha um sexto sentido para portas que abriam fácil demais sem que algo caísse na sua cabeça.

Pensando nisso, Heitor colocou a menina sentada em um canto mais afastado da porta. Respirou fundo, esfregou as mãos e disse:

— Se acontecer algo, que seja comigo e não com a criança.

Aproveitando um surto de coragem momentâneo, Heitor pegou o trinco redondo, o girou com agilidade, puxou a porta e se jogou para trás para evitar qualquer armadilha que tivesse sido ativada.

E, obviamente, não foi o que aconteceu.

Heitor se levantou, pegou novamente Pequena no colo, que agora estava mergulhada em uma gargalhada divertida pela cena que havia acabado de presenciar.

— Eu prometo comprar um doce pra você se nós mantivermos isso entre nós, ok? Aliás, acredito que você não tenha idade para doces... Seria irresponsabilidade minha.

— Pa, pa!

Olhando com mais calma o que havia do outro lado daquela porta, Heitor viu um corredor de paredes brancas, sem portas e que terminava em uma abertura para a direita, onde era possível ver a luz do sol saindo por alguma janela. Desesperado, ele correu com o bebê no colo na esperança de encontrar uma saída dali. E de fato havia, várias. A sua frente havia uma escadaria, típica de um prédio comum que poderia tanto descer quanto subir, atrás das escadas estava um conjunto de janelas transparentes com uma vista alta do bairro. Já dos lados, havia quatro portas de elevadores que a primeiro momento estavam funcionando normalmente.

— Parando pra pensar agora, isso seria um péssimo lugar para um cativeiro. — Heitor comentou com a menina enquanto apertava o botão que comandava algum elevador a parar ali para que eles pudessem descer. E não demorou muito para que a porta de aço se abrisse para abrir caminho ao cubículo minúsculo que os levaria para baixo e também, esperava Heitor, para a segurança e respostas.

Porém, ao invés de encontrar um elevador vazio, Heitor se deparou com duas mulheres, carregadas de utensílios para limpeza, usavam um uniforme cinza idênticos, e estavam preparadas para sair. Ambas, ao verem a cara de Heitor empapada de sangue e com uma criança no colo que sorria inocentemente, gritaram tão alto que foi o suficiente para fazer o homem também gritar de susto, dar um salto para trás e instintivamente virar-se com o intuito de proteger a criança.

— MEU DEUS! — uma delas gritou apavorada.

Devido susto levado pela quantidade de gritos simultâneos, Pequena deixou escapar o sorriso divertido pelo tombo de Heitor e imediatamente começou a chorar desesperada, deixando o ambiente ainda mais caótico.

— DROGA! — Heitor praguejou enquanto tentava inutilmente sacudir a criança com o objetivo de acalmá-la. — Olha o que você fez!

— Joana, chama o segurança, agora! — pediu uma delas.

— Ei! Espera aí, como assim segurança?

— O que você tá fazendo com essa criança? — perguntou Joana agitada. — E o seu rosto?

— Eu gostaria que vocês me respondessem isso também! — Heitor precisou elevar o tom de voz para conseguir ser ouvido em meio aos choros do bebê. — Olha o que você fizeram! Agora como eu faço essa coisinha parar de chorar?

— Rápido, desce! — falou a outra mulher que era claramente mais velha. — Eu vou ficar aqui, qualquer coisa tem câmeras nesse corredor.

— Como assim câmeras? Eu estou sendo uma ameaça para as senhoras? — Heitor ficou profundamente ofendido. — Desde quando um homem ferido com um bebê no colo é uma ameaça? — neste instante a porta do elevador fechou e Heitor ficou a sós com a mulher que o encarava com medo e desconfiança.

Percebendo que a situação estava completamente fora de controle, com a menina em prantos, a dor na sua cabeça ainda latejando, ainda mais com uma grande possibilidade dele ser detido por estar ferido no meio de um prédio provavelmente comercial e sem sequer saber de como foi para ali, Heitor respirou fundo, fechou os olhos e usou uma técnica que sua mãe havia lhe ensinado para quando as coisas fugiam do controle como naquele instante.

— Se as coisas começarem a se complicar e tudo virar um caos pro seu lado — dissera sua mãe certa vez — concentre-se na sua respiração, acalme os sintomas físicos para que sua cabeça possa trabalhar melhor. Fazendo isso você vai saber o melhor meio de se chegar a uma solução que não seja querer correr.

Pensando nisso, Heitor lentamente colocou sua mão na nuca de Pequena e fez com que a menina encostasse a cabeça no seu ombro.

— Shh, shh. Já passou, Pequena. Respire fundo e se acalme — de alguma forma aquilo funcionou e aos poucos, o choro se tornou apenas alguns soluços abafados. Consideravelmente mais aliviado por isso, Heitor então se voltou para a mulher. — Olha, acho que estamos fazendo as coisas com um pouco de desespero aqui, que tal recomeçarmos e acharmos uma saída que não seja eu saindo com a fama de um sequestrador de crianças — não ouve resposta de imediato — meu nome é Heitor Duarte de Castro, sou estudante de história e acordei naquela sala ao fim do corredor junto com esta criança que eu não faço ideia de quem seja. Estou tão confuso quanto vocês, mas é sério, eu não sou perigoso.

— Me chamo Carla — respondeu a mulher, agora mais calma. — Meu Deus, menino, o que houve com a sua cara?

— Eu não sei, eu só me lembro de ter saído de casa pra buscar meu pai e então, bam! Acordei aqui nesse estado.

— E quanto a essa criança, ela é sua filha?

— Não! Eu não faço ideia de quem seja essa menina. Quando eu acordei ela estava sentada do meu lado — Heitor olhou fitou rapidamente Pequena que ainda tinha o rosto afundado em seu ombro — ao menos ela não está tão ferida como eu.

— Que estranho. — Carla foi até metade do corredor e deu uma olhada rápida para a sala onde Heitor estava há poucos minutos — me parece que todo esse corredor havia sido alugado há muito tempo e o dono nunca apareceu de fato.

— Olha, acho que devemos apenas chamar a polícia pra tentar descobrir o que houve. E eu preciso ligar para o meu pai — Heitor sentiu sua cabeça doer novamente — e tentar lembrar como eu vim parar aqui.

A porta do elevador abriu-se novamente, desta vez, de dentro dela saíram cinco pessoas. Além de Joana, que já era um rosto conhecido, Heitor viu também três homens, dois deles usando um uniforme que era composto por uma calça e camisas sociais, além de sapatos não muito polidos, e uma mulher, que usava uma roupa semelhante, mas parecia ter um guarda-pó por cima da camisa.

Estes pareciam funcionários comuns do prédio, nenhum tinha porte de um segurança, um dos homens tinha estatura mediana, seu porte físico era obeso, sua face redonda estava vermelha enquanto sua testa estava úmida de suor, seus cabelos curtos e parecia que não havia sido penteado naquele dia. O outro era ainda menor, esguio, os poucos cabelos que lhe sobraram na cabeça eram grisalhos, usava óculos e aparentava estar chegando nos setenta. A mulher por sua vez, tinha cabelos longos e lisos, não muito maior que o senhor que a acompanhava, trazia em suas mãos um telefone celular e assim como todos ali tinha uma expressão de pânico na cara. Finalmente, o terceiro homem era o que mais se diferenciava daquele pequeno batalhão, tinha quase um e noventa de altura, usava uma camiseta polo, calça jeans, tênis esportivo e um relógio prateado preso ao pulso esquerdo — todos de marca. Seu cabelo estava perfeitamente penteado para trás e seu rosto era quadrado.

— É esse, seu Gilberto — apontou Joana — ele saiu da sala 7205 com essa menina.

— Ok... Será que antes de gritarmos e agirmos iguais a um bando de animais nós podemos conversar? — Heitor se adiantou. — Me chamo Heitor, eu acordei dentro da sala já citada com este ferimento na cabeça e com este bebê que eu não tenho ideia de quem seja. Eu preciso muito fazer um telefonema para o meu pai e de um médico.

— Me chamo Gilberto, eu sou síndico deste prédio — Gilberto se apresentou sem muitas delongas — você não faz ideia de como veio parar aqui?

— Não, senhor — respondeu Heitor — eu apenas lembro-me de ter saído de casa para encontrar com meu pai na casa de um amigo e depois disso eu não sei mais. Olha, eu sei que isso pode estar parecendo estranho, mas eu juro que não fiz nada, sou apenas um estudante.

Gilberto ficou parado observando Heitor por um bom tempo com as mãos na cintura, como se o avaliasse da cabeça aos pés enquanto detectava qualquer mentira, mas sem qualquer tipo de sucesso. Finalmente ele soltou um longo suspiro e perguntou aos seus funcionários:

— Algum de vocês viu esse rapaz entrando no prédio?

— Não, senhor — o maior respondeu.

— Eu repararia nele com certeza, trabalho aqui há trinta anos — o senhor disse — e jamais esqueço o rosto das pessoas que passam pela recepção no dia.

— Se ele subiu aqui não foi pelos elevadores — falou a mulher.

— Vamos resolver isso lá embaixo — Gilberto coçou a testa enquanto franzia o cenho, demonstrando não saber muito bem o que fazer ali. Respirou mais uma vez e disse para o homem mais velho — seu Zé, chame uma ambulância e a polícia aqui no prédio — em seguida para o outro homem — Fernando, eu quero que veja nas câmeras de segurança desse andar, alguma hora alguém deve ter passado por aqui. Elaine pegue a menininha no colo, ela deve estar assustada com o rosto do rapaz.

Quando Pequena percebeu o movimento de Heitor que tinha como intuito de passá-la para Elaine, a criança se agarrou com força no pescoço do rapaz e fez um gesto negativo com a cabeça.

— Parece que ela não quer, seu Gilberto — Elaine concluiu o óbvio.

— Acho melhor deixar ela comigo — Heitor se prontificou ao perceber que Pequena não queria de forma alguma sair do seu colo — ou senão teremos mais um escândalo aqui.

— Tudo bem, tudo bem. Eu só quero resolver isso, só não suma com essa criança. — Gilberto respondeu sem paciência enquanto entrava no elevador.

*****

Heitor e Pequena foram levados até uma pequena sala ao lado da recepção do prédio, exclusiva para funcionários. Ali havia um pequeno banheiro onde Heitor pode finalmente lavar um pouco seu rosto e tirar o excesso de sangue que havia coberto boa parte da sua face. Diferente das suas irmãs que possuíam os cabelos mais claros, o de Heitor era escuro assim como o do seu pai quando era mais jovem, estava sempre batido, mas sempre com certo alinhamento. Seu nariz era claramente da família da sua mãe, um pouco maior do que a média, mas nada que chamasse a atenção, as íris dos seus olhos grandes eram cinza. Tinha um e setenta e oito de altura, desde criança sempre tivera o corpo magro, o que lhe rendeu uma dezena de apelidos durante a escola. Uma aparência normal e que não era nenhuma pouco chamativa.

Assim que Heitor saiu do banheiro, Elaine lhe trouxe algumas gaze para cobrir seu ferimento até a chegada do socorro, durante este tempo, Heitor pediu um telefone para que ele pudesse avisar seu pai sobre o que ocorreu. Assim que pegou o aparelho nas mãos e discou, aquela voz masculina e conhecida atendeu do outro lado da linha:

— Alô?

— Pai? Sou eu, Heitor. Escuta, eu preciso que você venha até o centro, no edifício Asa Central, próximo ao bondinho do calçadão. Aconteceu muita coisa e...

— Graças a Deus! — a voz do pai na outra linha foi ouvida por quem estava do lado de fora da salinha. — Você tá bem? O que fizeram com você, Heitor? Meu filho, nós aqui em casa estávamos já desesperados ligando para o IML...

— Pai, calma! — Heitor o interrompeu antes que seu pai se empolgasse e começasse a falar suas barbaridades. — Eu estou bem, pode vir nesse endereço que eu vou te mandar por mensagem? Tem muita coisa que eu preciso ver com você e...

— Estou indo, filho. Quinze minutos e estamos aí.

Seu pai desligou o telefone e Heitor suspirou, digitou o endereço de onde estava e mandou um SMS, em seguida devolveu o celular para Elaine.

— Típico — disse para si mesmo. Nenhuma conversa com seu pai pelo celular era produtiva, pois ambos ficavam se interrompendo, já que nenhum tinha paciência para esperar o outro terminar de falar. E essa característica ficava ainda pior quando o assunto era urgente.

Heitor sentou-se em um pequeno e desgastado sofá de couro falso e pegou Pequena no seu colo, para a alegria do bebê. Ela parecia entretida em brincar com a sua única sapatilha enquanto fazia sons com a boca. Heitor olhava com serenidade e, enquanto via a criança se divertir, ele riu e disse:

— Pelo menos alguém está bem no meio dessa loucura sem fim.

— Pa! — foi a resposta de Pequena.

— Parece que ela gosta de você — Elaine falou sentando-se ao lado dos dois. — Acho que se fosse outra criança provavelmente estaria desesperada por causa dos pais.

— Nem me fale — Heitor respondeu — espero que encontrem logo os pais dessa criança.

— Você leva jeito pra crianças — Elaine disse enquanto fazia caretas para Pequena que quase perdia seu fôlego em gargalhadas.

— Eu? Sei lá, — Heitor ficou pensativo um pouco — acho que foi só com essa menina. Não me lembro de me dar bem com outras crianças, sempre fui desajeitado com elas. Acho que tenho um pouco de trauma com elas, eu tenho duas irmãs gêmeas mais novas, então imagine o caos que era lá em casa.

— Acho que você até que tá se saindo bem com essa, normalmente jovens da sua idade mal sabem pegar uma criança direito no colo. Meu filho mais velho quase deixou cair o recém-nascido da minha irmã por não saber apoiá-la direito com as mãos.

— Não sei explicar bem isso pra ser sincero. Acho que essa situação maluca me deu essas habilidades extras.

A conversa dos dois foi interrompida quando uma equipe de paramédicos chegou ao edifício, curiosamente junto deles o pai de Heitor e suas irmãs, que eram gêmeas, apareceram no mesmo instante, trazendo novamente o mesmo ambiente de caos gerado há pouco tempo.

Mas, as coisas só ficariam ainda mais complicadas a partir dali.

Quando a família de Heitor entrou na salinha onde ele, Pequena e Elaine estavam, os três partiram na direção sua direção com os braços abertos. Heitor pensou que seria um abraço e já se posicionou para liberar um braço para retribuir o gesto enquanto segurava o bebê. Entretanto, para a sua surpresa, seu pai e suas irmãs praticamente o ignoraram por algum tempo e tomaram Pequena dos seus braços e a abraçaram com força e preocupação.

— Obrigado, Senhor. — agradecia o pai de Heitor. — Nunca mais vou perder você de vista.

— Tá tudo bem, agora, Laurinha — dizia uma das suas irmãs com os olhos cheios de lágrimas — você tá bem agora.

A outra irmã apenas ficou em silêncio observando, também emocionada, a comoção de seus parentes. Enquanto isso, Heitor olhava aquilo sem conseguir esconder a cara de pasmo que estava estampado no seu rosto.

— Eu... Perdi alguma coisa? — ele formulou a pergunta após um bom tempo mergulhado naquela confusão sem sentido algum.

— Heitor, meu filho!

Agora sim, o abraço em família ocorreu. Heitor foi cercado pelos seus entes e quase esmagado pela força dos três juntos e mais a de Pequena que também agarrou seu pescoço novamente, pulando imediatamente para o seu colo.

— Ok, ok — Heitor disse enquanto se desvencilhava de seus familiares — é bom ver vocês também, mas, por favor, alguém pode me dizer quem diabos é essa criança que parece que todos conhecem menos eu?

— O quê? — o pai de Heitor deu uma risada nervosa — como assim? É a Laura, Heitor, você tinha saído com ela antes de desaparecer, isso há três dias.

— Como é que é? — Heitor perguntou aos berros quando soube daquilo. — Eu fiquei desaparecido por três dias? Como pode isso?

— Olha, acho que você deve estar meio confuso por causa desse machucado, mas vamos resolver isso em breve.

— Pai, você ainda não me respondeu, quem é essa garota?

— Heitor, — uma de suas irmãs chamou — é a Laura. Você não se lembra dela?

— Claro que não, ela apareceu comigo naquela sala. A sorte é que ela estava ilesa e bem, mas não estou entendendo nada, vocês estão me dizendo que eu saí com ela antes de sumir? Não, eu me lembro de ter saído de casa para buscar o pai na casa do amigo dele.

— Amigo, que amigo? — seu pai perguntou confuso.

— O José. Eu iria buscar você, em seguida deixar o carro com você e em seguida ir para a faculdade. E tenho certeza absoluta de não ter nenhuma criança comigo nesse meio tempo.

Ao falar aquilo, suas irmãs e seu pai engoliram em seco simultaneamente enquanto se olhavam de maneira assustada e pasma. Heitor percebeu aquilo e franziu o cenho, uma sensação esquisita tomou conta de seu peito e seu estômago começou a ficar ácido — por algum motivo, ainda não sabia qual, Heitor sabia que algo estava muito, mas muito errado naquela situação.

— Heitor, filho... — seu pai gaguejou algumas vezes — isso foi há três anos. José nem está mais vivo e você já concluiu sua faculdade. — aquilo atingiu Heitor como um tiro. — Além disso — seu pai apontou com as mãos trêmulas para Laura — essa é Laura, sua filha de seis meses.

Heitor sentiu um calafrio percorrer a espinha. Seu corpo imediatamente pareceu perder todo o suporte, suas pernas começaram a bambear, e antes que ele caísse completamente apagado no chão, passou Laura para os colos de uma de suas tias. Ao ver seu pai amolecer rente ao chão, a menininha se assustou e, mais uma vez naquele conturbado dia, começou a chorar.

Notas finais
Esse foi o capítulo piloto. Eu sei que posso melhorar algumas coisas em relação a escrita e principalmente na descrição de alguns personagens importantes. Decidi deixar os detalhes sobre estes personagens para o capítulo 2 para que este capítulo em específico seja apenas uma introdução aos dois protagonistas dessa história: Heitor e Laura.

Caso tenha lido até o fim, peço a sua opinião honesta, seja ela positiva ou negativa.

Obrigado :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.