Caçada

4 Dedos formigantes.


O encontro com aquela estranha ainda estava em minha mente. Olhei para o pingente que estava em meu pescoço, observando em como ele mudava de forma. Do floco com cinco pontas, mudou-se para um com oito pontas sem qualquer circulo. Continuava gelado e com o “P” brilhante no meio.

Suspirei. Iria mesmo fugir dali, mas não fazia ideia para onde ir e muito menos onde era esse lugar a qual a mulher queria me levar.

A mulher... Não entendi o que ela era e o porque me chamara de filha. Qual sentido teria tudo aquilo?

Olhei para as garotas a minha volta, que se preparavam para dormir. Não sentiria falta de nenhuma delas. Desde que começara a viver ali, muitas haviam sido más comigo, me xingando de nomes horríveis e dizendo que eu era uma aberração.

Quando percebi que todas estavam dormindo, peguei a mala que havia conseguido roubar. Tinha ali todas as minhas roupas, ou seja, um mar de branco na mala negra. Também havia furtado uns livros. A biblioteca tinha muitos, um a mais, um a menos... Quem contaria?

Abri a janela lentamente e olhei para baixo. Era alto demais para pular, mas era a única chance que eu tinha. E ainda havia o carvalho velho ali, então eu poderia chegar até lá e depois era só descer pelos galhos até chegar ao chão.

Há uma outra maneira.

Levei um susto. Jurava que havia ouvido uma voz em minha mente. Mas talvez fosse só o vento.

Lentamente coloquei o pé no murinho que rodeava a janela. Fiquei repetindo para mim mesma que não iria olhar para baixo. Fui andando com cuidado até ver um longo e grosso galho a qual me agarrei e pulei, ficando suspensa no ar por um momento até conseguir me sentar nele. Olhei para baixo e respirei fundo. Fui meio que me arrastando até chegar ao tronco da arvore. Quase dei um grito ao ver o galho.

Ele estava completamente congelado.

Balancei a cabeça e comecei a descer a arvore, não olhando para os galhos que eu tocava, com medo de vê-los sendo congelados aos poucos.

Pulei com leveza e aterrissei no chão. Apertei mais a mala que segurava e comecei a correr, com medo de que alguém percebesse minha ausência.

Já estava no meio do bosque quando uma coisa estranha ocorreu.

- A onde vai, criança? – perguntou June.

Congelei.

- E... eu...- comecei.

- Vire-se. – ordenou.

Me virei lentamente, mas o que havia ali não era a mulher severa que sempre me castigava. Ah não. Quem estava ali era... Como descrever? Embora tivesse um rosto bonito, seu corpo todo era de Leão e seu cheiro... Argh!

- Oh Céus.- foi tudo o que eu consegui dizer, até que June me atacou.

Tudo passou em um borram. Por um momento, ela estava em cima de mim, no outro, eu estava correndo e berrando, enquanto ela rugia e gritava:

- Venha cá, Semideusa. Estou esperando pelo seu gosto há tempos demais. Preciso ser saciada.

Eu não pensava em mais nada. Apenas correr e correr.

Até que a voz voltou a minha mente.

Os dedos formigam... As arvores podem vir a calhar. Só basta patinar.

Balancei a cabeça sem compreender qualquer coisa. De fato, meus dedos começaram a formigar, mas eu não entendia o que as arvores poderiam fazer e o que tinha a ver eu correr com o patinar.

O colar em meu pescoço começara a ficar mais gelado. Muito gelado. Mas não queimava, como deveria acontecer. Não... Ele me aquecia o coração, fazendo com que tudo em minha formigasse, inclusive meus pés.

Formigar... patinar...

Sussurrava a voz em minha cabeça.

Sem pensar, toquei na arvore que estava ao meu lado. Esta começou a congelar e ficou branca. Quando a soltei e voltei a correr, já que June estava por perto, a arvore caiu em cheio em sua cara. Ela rugiu.

- Maldita!

Continuei a correr sem parar para respirar. Continuei a tocar nas arvores.

Eu corria tão desesperadamente que nem percebi que deslizava. Foi só quando eu olhei para baixo e vi meus pés no gelo. Olhei em volta...

Eu estava no lago.

Dei um grito ao perceber que tudo aquilo era eu. O gelo derreteu e eu fui sugada para a água, caindo em desespero e gritando, sabendo que estava perdendo o ar.

Devo ter ficado inconsciente por um momento, porque logo senti mãos em mim, me puxando e, logo mais, o calor de uma fogueira.

Tossi o restante da água que tinha em meus pulmões e abri os olhos, percebendo que alguém estava olhando para mim.

- Até que enfim. Pensávamos que você tinha morrido – disse a menina. Deveria ter uns 15 anos, no máximo. Os olhos eram negros. Os cabelos tão negros quanto os olhos e a pele meio amarelada. Era oriental, claro. Os olhos puxados entregavam isso. Ela sorria.

- Quem é você? – perguntei, em uma voz fraca.

- Ah... Meu nome é Bruna.

Eu pisquei várias vezes mais. Levantei meu tronco, apoiando meu peso com os cotovelos. Olhei em volta.

Havia barracas e garotas rodeando ali. Todas se vestiam em um estranho traje prateado e todas possuíam uma trança nos cabelos. Jurei ter ouvido lobos ali perto.

Tremi de frio, me abraçando logo em seguida.

- Está com frio? – perguntou Bruna.

Balancei a cabeça.

- Sempre fico com frio. É normal. – sussurrei em resposta.

Estava faminta demais e meu estomago roncou. A menina riu.

- Lady Ártemis ainda está cuidado dos estragos do monstro. Então acho que você pode comer um pouco...

Pisquei mais algumas vezes, dessa vez sem entender qualquer coisa que ela falava. Apenas no comer.

Uma garota com a pele parecida com leite com chocolate se aproximou, trazendo uma cesta com frutas. Também deveria ter uns 15 anos. Os cabelos eram cacheados e negros azulados. Os olhos, de uma cor de ameixa.

- Aqui. É o que temos, até agora. – disse ela.

Peguei uma dúzia das frutinhas ali e comecei a comer, sentindo o gosto doce delas que saciavam minha fome.

As garotas riam.

- Qual seu nome? – perguntou a morena.

- Penelope. Mas as pessoas geralmente me chamam de Penny. – respondi, voltado a comer desesperadamente.

- Prazer Penny. Me chamo Jessica. – disse ela.

Bruna revirou os olhos.

- Sabemos disso. – brincou.

Uma terceira garota apareceu.

- Lady Artemis espera pela menina. – disse ela.

- Penny já está indo, Thalia. – respondeu Jessica.

Thalia assentiu com a cabeça. As garotas me ajudaram a levantar e me guiaram até uma barraca.

Ali estava, sentada em uma cadeira e ao redor de várias cabeças de criaturas estranhas, uma menina com os cabelos ruivos.

- Penélope Summers, é um prazer conhece-la. – disse sorrindo.