Cavalos Selvagens
23 23 "Você não mudou nada"
Notas iniciais

Capítulo 23 — Você não mudou nada
O olhar estreito de Jackie fez com que o homem que recebia os casacos, pensasse se havia feito algo de errado para receber tal olhar. Oras, ele estava apenas fazendo o trabalho, mas o homem recém-chegado o olhou como se ele fosse roubar algum de seus pertences. Gente do campo era mesmo desconfiada. Pôde descobrir pelo sotaque forte e por ele não parecer nem um pouco confortável nas roupas tão distintas. De qualquer forma, cumprimentou-o e também a moça bonita ao lado dele. Bonita e com um terno masculino que o deixou em dúvida. Não, era mesmo uma mulher. Ao menos ela foi mais simpática e abriu um sorriso de dentes brancos que o fez permanecer com o sorriso por mais tempo.
— Quanta frescura...
Victor ainda sorria quando ouviu o cowboy resmungar. Estavam bem próximos, faltando pouco para que se esquecesse que estavam em público e envolvesse o braço ao dele. O sorriso aumentou. Era divertido como Jackie combinava com o cenário tão ricamente decorado, mas destoava ao mesmo tempo. Não deixou de pensar que ele, com certeza, era o homem mais bonito daquele evento. Logo que mostraram o convite e puderam entrar, achou que ele fosse brigar com o pobre rapaz que tentou amavelmente retirar seus casacos, mas ele só não estava acostumado com aquele tratamento e comentou sobre os lustres serem extravagantes e custarem os olhos da cara logo em seguida.
Os objetos pendiam do teto branco em franjas de cristais que reluziam mais que as joias das mulheres que desfilavam pelo salão. Remetiam muito ao tipo de decoração que via nas revistas de nomes estranhos que sua mãe costumava ler, sonhando em um dia ter algo tão bonito quanto o que via nas páginas. As toalhas em branco e dourado, traziam a beleza da seda nas várias mesas dispostas e com arranjos delicados em vasos de porcelana. Era como se todos os granfinos daquelas novelas irritantes estivessem ali, desfilando seus melhores trajes de gala em ternos de corte italiano e vestidos longos e decotados. Não deixou de pensar que, em meio a todos aqueles homens e mulheres, Victor era de longe o mais bonito. Estava a um passo de rodear o braço naquela cintura e cheirar o pescoço de perfume caro e que provavelmente não saberia pronunciar.
Talvez tivesse hormônios demais. Uma pena que precisasse se controlar e seguir uma espécie de protocolo. Cumprimentou todas as pessoas pelo caminho, algumas que conheciam Victor e elogiaram o quanto ele estava crescido e bonito. Recebeu elogios também, mesmo que não se importasse muito. Era complicado agir feito gente rica, mas agradecia aos céus que fosse apenas por aquela noite. E apesar dos pesares, era um evento importante para a família Green. Esse fato o ajudava a tolerar aquela chiqueza toda.
— Meu irmão se empenhou bastante. — Ouviu Victor comentar, sorrindo em admiração, principalmente ao ver o irmão e... A irmã.
Certo. Jackie sentiu certa resistência em se aproximar da filha mais velha do seu Ivan. Depois da história que o loiro havia lhe contado, ficou chocado com a atitude da mulher e não deixou de pensar no quanto Victor era livre de sentimentos ruins como o rancor, para continuar falando abertamente com ela e até mesmo a visitando. Ele, se estivesse no lugar do loiro, não seria tão complacente. Aquele rapaz era um anjo na terra, era a única conclusão.
— Acho que ele queria impressionar alguém. — Respondeu com um tom implicante que fez os olhos verdes olharem divertidos para um Sebastian e um Simon que pareciam piores em esconder a atração, do que eles dois.
Sebastian havia logo agarrado uma taça com borda dourada e um champanhe maravilhoso que devia ter algum nome requintado e em francês. Não era muito de beber, mas era uma noite especial e não ficaria somente na água ou em algum drink sem álcool. As comemorações eram feitas com bebidas que matavam o juízo das mentes sãs. Não que ele fosse ficar bêbado. Jamais se permitiria estragar aquela noite importante e ferrar com todo o capricho que o Ken humano havia desempenhado para receber toda aquela gente de nariz empinado.
E precisava ressaltar o quanto havia amado o detalhe do tapete vermelho cobrindo o corredor. Sentiu-se em uma daquelas premiações internacionais de filmes.
— Gostou? — Uma das sobrancelhas se arqueou ao ter os olhos verdes claros sobre sua humilde presença.
Na verdade, estava sendo modesto.
Havia atraído olhares de cobiça logo que entrou. A mocinha na recepção deu o maior sorriso que conseguiu e corou quando ele retribuiu. Ele claramente estava sendo simpático, mas a garota não sabia disso. De terno e colete bordô, calças jeans pretas e sapatos onde se podia ver o reflexo de tão lustrados, ele chamava atenção, mas não necessariamente pelas roupas. Os cabelos soltos e muito lisos caindo pelos ombros e a descendência indígena eram um belo complemento que destacava-se ainda mais nas cores escolhidas. Não que ele se achasse o último morango de Flor de Ouro, mas os olhares alheios estavam claros como água. Mas somente aqueles olhos importavam.
A bebida fez cócegas na garganta e trouxe um sorriso aos lábios, principalmente quando Simon se aproximou uns passos mais.
Alerta de perigo! O homem estava bonito! Puta que pariu! Queria xingá-lo e em seguida beijá-lo, mas se contentou em encará-lo – ou secá-lo – de cima a baixo com os olhos que expressavam muito bem o que achava daquele loiro. Mesmo que tivesse o ajudado a se arrumar, não conseguia ficar indiferente a presença marcante e muito menos evitar a vontade de bagunçar aqueles fios claros e irritantemente penteados para trás. Certo, ele conseguiu evitar, mas com muita força de vontade. Bagunçaria aquele loiro todo mais tarde. Era uma promessa.
Simon desceu discretamente os olhos pelo corpo de Sebastian e engoliu um possível elogio ao desviar o olhar para o movimento ao redor. Não era bom ficar secando aquele garoto abusado ou acabaria em uma situação muito constrangedora.
— É proibido provocar. — Falou por entre dentes, fingindo ajeitar os cabelos.
— Ah, é? — Sebastian e aquele tom falsamente inocente que soava como um alerta aos ouvidos do mais velho. — Não vi nada sobre isso nas regras da boa etiqueta. — Fez uma expressão que buscava lembrar de algum possível detalhe esquecido. — Provocar o anfitrião... Não, não tinha nada falando sobre isso.
Mas era mesmo um filho da mãe de um debochado! Simon sorriu e ia indicar que a tentação encarnada fosse para a mesa junto a sua família, mas uma sereia com pernas fez questão de se aproximar como se estivesse no Miss Universo. Estava demorando...
— Alguns com tanto e outros sem nada. — A morena comentou, sendo descarada ao fazer o mesmo que o chefe há alguns momentos, descer os olhos pelo corpo do rapaz a frente. E que rapaz! — Isso é tão injusto… — Queixou-se com um bico nos lábios pintados, porém, estava se divertindo às custas do loiro. Não deixou de notar que os traços bonitos do rapaz eram parecidos com os de um ator o qual ela era fã.
Sebastian acabou sorrindo do jeito abusado daquela mulher. Ela era jovem e bonita e parecia ser agradável. Ponto positivo. E ponto duplicado por ela tirar o senhor Green do sério.
— Não vai nos apresentar? — Ela tocou a bolsa delicada no ombro de Simon, reprovando aquele gesto. Onde é que estava a educação da nobreza?
Apresentações eram dispensáveis, ao menos, Simon não precisaria apresentá-los, já que Sebastian se adiantou e tomou a frente antes que o loiro dissesse qualquer coisa.
— Sebastian Angeliz ao seu dispor. — O galanteio veio junto a um sorriso e na ousadia de segurar a mão da moça e beijá-la como um lorde inglês faria. Achava aquele detalhe muito fino e via esse tipo de coisa nos filmes que a avó assistia e resolveu testar.
— Verônika, encantada. — A morena entrou na brincadeira e fez uma mesura, abanando-se com a bolsa em seguida. Não, não estava calor. — Simon me disse que você não tem irmãos... Diga que ele estava mentindo. — Ela decidiu provocar um pouquinho, somente para o loiro ao lado se incomodar com aquela intimidade.
— Infelizmente não. — Sebastian encolheu os ombros e fez a melhor carinha para desculpar-se por aquele detalhe.
Se um Sebastian já era bem perigoso para a humanidade – muito mais para sua sanidade –, imagina dois! Simon não quis realmente pensar naquele fato. Não podia ficar se distraindo com conversas banais e muito menos ficar próximo a ponto de sentir a necessidade de beijar aquele garoto de cabelos longos e lábios cheios e atraentes.
Desde a noite anterior que estava um pouquinho mais apaixonado e com algumas vontades quase incontroláveis, mas seguia firme e forte. Um suspiro mostrou o quanto aquele início de amizade entre aqueles dois seria um tanto torturante enquanto os observou irem para a mesa onde os familiares se ajeitavam. Ainda tinha muita gente para cumprimentar e seguiu para as mesas reservadas aos associados.
* * *
Enquanto o tão falado jantar se desenrolava na noite agitada da capital, Santa Luz recolhia-se cedo para o leito, já que seus habitantes despertavam com os primeiros raios solares, mas havia quem dormisse mais tarde na preferência de observar as estrelas de uma bela noite. O manto negro estava recoberto por pontilhados brilhantes que disputavam beleza entre si e era até um sacrilégio não admirá-lo e passar um pouco da hora de dormir.
Martin, recostado na cadeira de balanço da avó, ouvia a tia reclamar sobre o filho não tê-la convidado para algo tão chic quanto aquele jantar na cidade grande.
— Sebastian não é o dono do jantar, tia. — Respondeu pelo que seria a milésima vez. Ainda a faria entender. — Ele não podia levar ninguém. Só ele mesmo. — Deu de ombros. Não era como se não quisesse espiar o que se desenrolava em um evento de ricos, mas também não se lamentava por ter ficado. A noite estava mesmo bonita.
— Mas se ele pedisse com jeitinho pro filho do patrão, ele teria permissão até pra levar os cachorros desse lugar. — Mercedes soou rancorosa, mas suspirou em seguida. Os dedos seguravam uma faca que usava para cortar algumas maçãs para a torta da sobremesa do almoço do dia seguinte, mas, vez ou outra, ela comia uma fatia, tomando cuidado para que Emma não a pegasse no flagra. Tinham poucas frutas e ela seria acusada de comer tudo feito uma esganada. Poucas frutas em uma fazenda, pois sim.
— 'Tá sugerindo que o Sebby tem que se aproveitar por que o cara é rico? — O adolescente franziu o cenho com aquele pensamento ganancioso da tia. — Ele ia adorar te ouvir dizendo essas coisas.
Ela parecia mesmo não conhecer o próprio e único filho.
— Aquele rapaz tem tanto, pode muito bem dividir, já que mostra interesse pelo meu filho. — Ela não reclamaria se sobrassem algumas migalhas para ela também, mas Sebastian era tão bobo. Preferia ficar se matando em um estábulo do que desfrutar da fortuna do bonitão. — Não vejo problema algum. Sabe, eu não pretendo morar numa casinha tão simples enquanto o meu genro é dono de uma mansão como as que vemos nos filmes.
Os olhos negros e levemente puxados rolaram nas órbitas. Entendia bem os motivos de aquela relação “mãe e filho” não funcionar. Ainda bem que Sebastian tinha a avó e nada dos pensamentos cheios de cobiça da mãe.
— Não acha que a senhora deveria trabalhar e conquistar as coisas com o próprio esforço? — Lançou a pergunta que fez a tia o olhar desacreditada.
— Não sei se percebeu, sobrinho querido, mas eu não sei fazer nada. Absolutamente. — Ela negou com um aceno de cabeça, aproveitando e comendo mais uma lasca da maçã. — E nem me venha com o papo de ser lavadeira, passadeira ou qualquer outra coisa humilhante. — Dispensou qualquer conselho quando o adolescente abriu a boca para contestar.
— Humilhante? — Martin se ajeitou na cadeira, fazendo-a ranger no assoalho de madeira da varanda. — Desculpa, tia, mas humilhante é ser um peso morto e ficar dependendo dos outros. — Era assim que pensava e não tinha problema algum em verbalizar, mas Mercedes pareceu ainda mais chocada.
— Era só o que me faltava! — A faca foi deixada na bacia quando decidiu se erguer, um pouco rápido demais, sentindo–se tonta.
— A senhora 'tá bem? — Martin se preocupou, mas sua ajuda foi dispensada com um olhar de viés.
— Estou ótima! — Ela retrucou. — Depois de ouvir que sou uma inútil e uma interesseira. Ótima!
E ela estava mesmo ofendida?
A resposta veio com a porta e o baque forte que ela deixou para trás quando Mercedes entrou.
Será que havia sido um pouco duro? Martin pensou que realmente não deveria se intrometer nos assuntos da tia, mas a maneira como ela pensava era tão incômoda que não conseguia se calar. Se ao menos ela tentasse mudar e não somente parecer que mudou...
— Problemas de adultos? — Uma conhecida voz soou próxima e o olhar encontrou o cowboy uns poucos degraus abaixo da entrada da casa.
Não havia percebido aquela aproximação, mas conversar com aquele paspalho era melhor que brigar com a tia.
— Adultos são muito chatos. — Torceu os lábios. Antes, não via a hora de crescer para ir morar sozinho e ser alguém na vida, mas estava mesmo querendo adiar os próximos aniversários. — Vocês têm problemas com tudo e todos. Problemas românticos, problemas de família, problemas com o trabalho, problemas até com o vento batendo nas folhas e com os cães latindo ao longe. — O único “adulto” menos irritante que conhecia, era mesmo a avó Emma. E menos, porque as vezes ela extrapolava nas broncas e tornava tudo uma tempestade.
— A sua vez de tudo isso aí vai chegar. Você faz questão de ressaltar que tem quase dezessete. — Um sorriso debochado surgiu. — Wow, quase dezessete!
Os olhos negros se estreitaram em direção ao cowboy.
— Quer conversar sério? Quer um conselho amoroso? Um ombro pra chorar? Quer uma maçã? — Enumerou com os dedos e recebeu um olhar de sobrancelhas arqueadas.
— Conselho amoroso? — Nestor queria rir daquela piada. — E você parece uma mula quando tenta consolar. — Ele dispensava qualquer “ajuda” daquele garoto doido.
— Eu faço o meu melhor. — Martin retrucou ao se erguer e apoiar os braços na madeira que cercava a varanda, encarando-o cima. — Sabe, uma vez a garota que eu gostava me deu o maior pé porque eu não era o cara popular do time de basquete. Aliás, eu nem faço parte do estilo de caras esportistas, eu prefiro os números e tenho um ótimo desempenho nas matérias de exatas. — Contou com uma expressão pensativa sobre a própria vida. — Mas voltando pra garota que... Cara, ela me deixou arrasado. Você tinha que ver! Fiquei só o trapo e nem queria voltar pra escola. Ela fez da minha vida um mar de desilusões e eu—
— Pelo amor de Deus! Para de falar! — O cowboy precisou interferir naquele discurso desorganizado ou os ouvidos entrariam em colapso. Teve que se controlar para não chacoalhá-lo e fazê-lo entender o quanto aquilo era irritante. — Você nem toma fôlego pra soltar esse tanto de palavras. — Ele era uma matraca! Martin podia tentar ser um rapper, já que falava tanto em poucos segundos.
— Desculpe por querer conversar sobre a porcaria da minha vida com você! — A voz soou magoada e ele virou o rosto para o lado contrário ao do mais velho. — Você vai ser culpado se eu me afundar em um poço de tristezas e nunca mais sair de lá. — Fungou.
Poço de tristezas... Mar de desilusões... Nestor só queria correr dali e sem olhar para trás, mas decidiu dizer alguma coisa. Adolescentes eram complicados. Centenas de vezes piores que qualquer adulto.
— Eu não consigo acompanhar todo esse raciocínio, mas 'tá falando sério? — Franziu o cenho, um pouquinho preocupado com aquele drama todo.
— Você é mesmo um idiota.
A fala veio acompanhada de uma risada ridícula que fez seus olhos se fecharem para controlar a vontade de retrucar com um moleque abusado.
— Mas fala aí! Eu levo jeito pra ser ator, né? — Exibiu um sorrisão orgulhoso. — Mas a parte sobre a garota é real. Margarida o nome dela. — Suspirou com ar melancólico.
Nestor só podia concluir que o garoto era mesmo doido, mas tirava parte de suas preocupações noturnas com aquele jeito excêntrico.
— A Margarida perdeu um partidão. — Comentou em tom debochado. — Coitada dessa garota.
Coitado de seus ouvidos isso sim, mas era uma noite bonita e que poderia ser apreciada, mesmo com todo aquele falatório desnecessário do adolescente mais irritante com o qual já havia se deparado.
* * *
Tulipa estava tão elegante e bonita que Cecília sentiu dificuldade em reconhecê-la. Lembrava-se da mulher sempre atrás do fogão e brigando com qualquer um que invadisse sua cozinha. Ela era simples e até mesmo xucra nos gestos e palavras. Mas agora, olhando-a de onde estava, ela parecia tão elegante quanto qualquer uma daquelas mulheres que desfilavam pelo salão.
Talvez, Cecília devesse se envergonhar por importar-se tanto com o exterior das pessoas, afinal, Tulipa era uma boa alma, só um tanto expansiva demais e muito afetada pelo patrão.
Os olhos castanhos encontraram os do pai e, novamente o incômodo. Não era um lugar para reencontros e pedidos de perdão, mas não era como se fosse ficar alheia a presença do progenitor, no entanto, um trio muito animado correu para cumprimentá-la antes que se erguesse da cadeira.
Os braços ainda cercavam os pequenos de bochechas decoradas por seu batom vermelho, o que trouxe caretas adoráveis as expressões infantis.
— A gente quer voltar pra casa! — Denver a segurou na cauda do vestido para atrair os olhos da mãe. — Quero ver o papai!
— Eu também! — Daniel subiu no colo da mãe, ficando de joelhos sobre as pernas em um malabarismo para envolver os braços no pescoço dela. — 'Tô com saudades!
— E eu. — Dilan concordou, mas não se jogou nos braços da mãe, estava preocupado em limpar a marca de batom na bochecha.
Papai… Cecília tocou os rostinhos tão bonitos e sorriu para os trigêmeos. Tão inocentes e alheios a tudo o que acontecia. Nem saberia como contar, mas, por agora, estava tudo bem. Jean sempre seria o pai e herói dos filhos.
— 'Tá tudo bem, mamãe? — Daniel perguntou ao esfregar o rosto no ombro da mãe. Era uma mania que ela não suportava, mas não pareceu ligar naquele momento. — O vovô pode ir lá em casa amanhã? — Fez questão de perguntar. Sentiria saudades da fazenda e de todos, mas era como a Dorothy dizia em O Mágico de Oz; não havia lugar melhor que o lar. E também não havia lugar melhor que o colo de mãe.
— Sim… — Cecília sorriu após os momentos de silêncio que usou para pensar. Era uma festa, não havia espaço para melancolia. Era dia de comemorar mais uma conquista para o sobrenome da família e comemorar suas próprias decisões acerca da vida. — O vovô pode ir nos visitar sempre que quiser. — Falou ao erguer o rosto e encontrar o olhar de certo alguém.
— Está tudo bem mesmo? — Victor tocou a mão da irmã por sobre a mesa e buscou o olhar distante dela, preocupado.
Logo que tinham pisado no salão, o trio mais bonito do qual se tinha notícia, correu para os braços da mulher sentada em uma das cadeiras brancas, abraçando-a com saudade e animação. Todos estavam saudosos, mas os meninos podiam ter seus arroubos de emoção, o que não cabia aos adultos. Ivan cumprimentou a filha com um beijo no rosto e a promessa de uma conversa que só cabia aos dois e que seria discutida em algum momento.
Cecília considerava que tivessem logo aquela conversa, mas ficou abraçada aos filhos, observando os convidados elegantes.
— Depois... — Ela pareceu um pouco tensa no início da frase. — Nós precisamos conversar também.
Victor se preocupou ainda mais, tratando de confirmar com um aceno de cabeça. Era a primeira vez, depois de tanto tempo que aquela vontade partia dela. Jamais se recusaria a conversar com a irmã mais velha e sorriu na tentativa de passar algum conforto. Estava ao lado dela e ao lado de Jackie.
O cowboy, mais familiarizado, parecia até apreciar a música ambiente, mas havia expressado o quanto os quitutes de sua mãe eram melhores que aquelas coisinhas de nomes estranhos e com gosto de nada. Mas os canapés estavam ótimos, obrigado.
— O Simon vai começar o discurso daqui a pouco. — Ouviram Ivan comentar com Tulipa, todo emproado e com o peito estufado. Fazia certo tempo que não pisava na capital, mas os funcionários mais antigos lembravam-se dele e fizeram questão de perguntar sobre sua vida e sobre como estava se sentindo com as conquistas dos filhos.
— Ele se parece muito com você, sabe? — Tulipa passou um dos pés pela perna do patrão, fazendo-o engolir em seco e beber mais um gole do champanhe na taça. — Nos seus tempos de ouro, claro. Não que esteja ruim hoje em dia. — Valia ressaltar.
Mas ela estava certa. Simon era muito parecido consigo em mil novecentos e esses dias. Bonitão feito o pai e inteligente também, mas claro, inteligente como a mãe que entendia muito de como administrar um negócio de grande escala. A DLG Construction era muito agradecida a Camille e todo o seu empenho.
— Obrigado pela parte que me toca, querida. — Respondeu com um olhar afetuoso. — A senhorita também está ótima. — Elogiou uma segunda vez. — A mais bela desse jantar.
— Continue a falar assim e eu faço questão de te agarrar e te levo pro altar daqui mesmo. — Ela sempre acabava se empolgando quando o assunto era o senhor Green. Ninguém podia julgá-la por isso.
— Quem sabe, eu… — Ivan virou o rosto, sorrindo com a ousadia daquela mulher, mas desviou os olhos para um ponto aos fundos do salão, franzindo o cenho.
— Quem sabe você…? — Tulipa incentivou, mas resolveu olhar para onde o patrão parecia ter prendido a atenção. — Quem foi que você viu?
— Ninguém. Pensei ter visto alguém conhecido, mas me enganei. — Afinal, não poderia ser. Seria uma estranha e desgostosa coincidência.
Mas quando Victor passou por eles em direção aos banheiros, não conseguiu não se preocupar, embora continuasse a conversar com tulipa sobre as belezas da vida.
* * *
Os cabelos eram tão finos, apesar de ter uma quantidade considerável sobre a cabeça. As vezes, chamava a si mesmo de leão por toda aquela juba loira. No momento, após ter usado o banheiro, tentava arrumar o coque e mantê-lo firme no lugar. Certamente seria chamado até o palco e, embora não fosse a pessoa mais vaidosa – não mais que o próprio Simon – queria estar bem para as fotos e para ser encarado por tantas pessoas.
As mãos juntaram os fios em alinho em uma terceira tentativa, conseguindo mais sucesso nessa última. Estava aceitável. Era o que tinha para a noite e agora precisava correr de volta para o salão ou perderia o início do discurso do irmão.
Enquanto lavava as mãos, distraído com o que se passava ao redor, foi surpreendido e acabou se assustando com uma repentina aproximação. Ele sequer tinha ouvido o barulho da porta se abrindo ou de passos. Evitou encarar o estranho e foi secar as mãos no secador ao lado da pia. Não devia ser ninguém conhecido e qualquer coisa ele inventaria uma miopia na desculpa de não ter reconhecido algum dos acionistas e colegas de Simon. Só sabia que tinha que voltar logo, pois havia perdido um tempo considerável com penteados.
Mas então, o homem que continuava estancado no mesmo lugar, frente a ostensiva pia de louça, rompeu o silêncio e o fez se atrapalhar com a fala repentina.
— Você não mudou nada.
O coração perdeu o compasso quando os ouvidos reconheceram aquele timbre. Não podia ser… As mãos se abaixaram lentas e o rosto se ergueu. Os olhos verdes ganharam a visão do homem que se aproximou de maneira silenciosa. Os fios castanhos avermelhados e que agora alcançavam os ombros, estavam menores do que se recordava, mas não havia nenhuma confusão de sua parte. Era ele, ali, no lugar mais improvável para um reencontro, olhando-o com o olhar castanho o qual tinha verdadeira paixão em dias passados.
Reconheceu até mesmo o perfume amadeirado e o aroma trouxe nostalgia e fez seus olhos arderem com a possibilidade de lágrimas. Havia dado aquele perfume ao ex-namorado em uma data comemorativa.
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