Cavaleiro - (Contos do Branco e Vermelho)
3 Capítulo 3
Notas iniciais
A longa escadaria ainda era igual a que tinha acabado de passar, então obviamente a única coisa que se fazia diferente naquela bizarra torre eram os andares com seus salões e seus donos.
– Então vejamos como será o próximo.
Novamente o próximo andar extasiava o cavaleiro, com certeza esse era muito maior que os demais. Pilastras seguiam em paralelo do começo ao fim do salão, decoradas com vários espelhos pela sua superfície. Mobílias estavam espalhadas por toda a extensão das paredes laterais e delas uma coleção gigantesca de jóias feitas de todos os materiais conhecidos as decoravam. Ainda nas mesmas paredes, armas, armaduras, crânios e peles de animais, além de vestidos totalmente dourados e decorados com jóias, postos minuciosamente mais acima para finalizar a rica decoração de um salão de piso e teto lustrosos. Ao longe de tudo isso, uma bola de cristal de mais de um metro de raio mostrava algumas imagens sobre sua superfície, as quais não foram possíveis identificar devido a uma silhueta feminina acomodada em uma poltrona em frente à esfera. O cavaleiro veio caminhando a passos cautelosos até que ele ouviu.
— Quem essa “coisinha” pensa que é? Sempre se achando a mais bela, a mais bem vestida e a mais desejada. Tsh. Cadela arrogante.
Caminhando, o cavaleiro continuava quieto, apenas observando os arredores.
Percebendo isso, era a vez daquela figura pronunciar.
— E você aí atrás, o que queres por aqui? – Disse, agora virando o rosto para se mostrar uma jovem, de não mais de vinte e seis anos. As pinturas sobre seus olhos davam alguma profundidade à cor castanho escura deles, seu cabelo liso que vinha até abaixo de seus ombros ressaltava sua pele bronzeada e ao ficar de pé via-se que apesar de ser magra, sua bermuda e camiseta eram muito menores do que deveriam, não conseguiam esconder muito bem o belo corpo que tinha.– Mas, ora, se não seria um cavaleiro. – Disse com um sorriso – A que lhe devo a...Honra? – Falou agora com o rosto mais sério.
— Minha senhorita, apenas desejo passar por este andar sem interromper seu entretenimento, pois devo continuar em minha subida o quanto antes. – Disse o cavaleiro, com um leve sorriso e depois também se desfazendo dele.
— Ah, mas acabo de ganhar um entretenimento muito melhor pelo que percebo e ele acaba de entrar pela minha porta. – Ela disse, se aproximando. – Que homem forte você é!E esta sua armadura... Fascinante! – Seus olhos quase brilhavam.
— Agradeço os elogios, mas sinto não poder ficar aqui, ainda mais para entretê-la. Mas que tal se fizermos assim: já que não vejo a próxima porta, julgo que essa está escondida, mostre-me onde fica a passagem para a próxima escadaria e prometo sair daqui bem rápido. – Arqueou a sobrancelha, como se lhe fizesse uma proposta.
-Nã-nã-não, não é todo dia que recebo companhia, ainda mais de seu porte. – Falava lentamente enquanto andava em círculos ao redor do cavaleiro. – Mas vejo que você se faz inflexível perante meus pedidos, então lhe farei uma proposta.
— Estou ouvindo.
— Deixe sua armadura aqui e lhe mostrarei onde fica a próxima porta. — Exclamou enquanto parava em frente ao cavaleiro e lhe fitava os olhos.
Sem deixar que sua postura se abalasse, o cavaleiro apenas a observou por alguns instantes para responder em um tom de voz mais ameno. – Mas para que você gostaria de minha armadura? Ela não é tão bonita assim e ela sequer caberia em você, visto que é uma armadura de modelo masculino.
— Não me julgue por tola, cavaleiro. Sei que armaduras como a sua se ajustam a seu usuário e não discutirei beleza, pois sua armadura é bela apenas por capricho, já que a razão dela existir é bem diferente.
— Vejo que entende do meu equipamento, então acho eu que você também deve saber que não é qualquer um que pode trajá-la. A armadura também escolhe seu portador.
-Puf, contos, minha criança, existem diversos métodos para trajar armaduras desse tipo. E não vamos estender o assunto, entregue-a agora! – Tentou ajustar sua postura para maior intimidação, coisa que sua doce aparência e tamanho, que não chegava aos ombros do cavaleiro, não a permitiram fazer.
— Sinto lhe dizer que não, mas ainda assim devo passar por aqui, mostre-me a saída. – Agora também falava com autoridade.
— Procure por ela se quiser, mas daqui você jamais vai sair. – Ao terminar o debate, a jovem mulher deu alguns passos para trás enquanto esticava ambos os braços para os lados e todo o ambiente começou a tremer e ondular. O cavaleiro entrou em postura se preparando para seja lá o que poderia vir, o cenário ao redor começava a mudar, como se ele houvesse saído da torre.Aos poucos as pilastras foram se tornando em jatos de fogo que saíam ritmados do chão, as paredes junto aos seus móveis e decorações foram substituídas pelo cenário,no qual ao fundo se via alguns vulcões em erupção abaixo de um céu negro.
— Este lugar até me traz certa nostalgia de épocas mais simples. – suspirou – Bem, para virmos para cá acho que ainda há alguns lugares lá fora que permanecem iguais. Isso é bom. Mas já conversamos o suficiente, agora eu quero a sua armadura, com você dentro ou fora dela.
Não teve como o cavaleiro não se impressionar ao ver aquela bela mulher agora esconder as curvas de seu corpo por uma armadura bem similar àquela que ele próprio estava usando.
— Como?
— HAHAHAHA, vê como ela fica muito melhor em mim?Você não faz idéia de com quem está lidando, não é mesmo? EU EXISTO DESDE ANTES DO PRIMEIRO FILHO DE VOCÊS TER CAÍDO. – Gritava, e antes que o cavaleiro falasse qualquer outra coisa, ela estendeu as mãos acima de sua cabeça e com um esforço visível um pequeno ponto de luz começou a forma-se, ele foi aumentando até transformar-se em uma bola de fogo duas vezes maior que sua cabeça.
— Morra! – Gritou ao atirar a esfera na direção do cavaleiro. O objeto o acertou em cheio e criou uma grande fogueira ao redor do local, que queimou por apenas mais alguns instantes até se transformar em um rastro de fumaça negra ainda maior. – HAHAHAAA, ele não a merecia, agora finalmente será minha,uma verdadeira armadura draconiana! – Dando passos largos, ela vinha se aproximando das cinzas e da fumaça para verificar o que havia sobrado após seu ataque. Porém, um sentimento impediu seu avanço, fazendo com que imediatamente recuasse alguns passos. – O quê? Como? COMO CONTINUA VIVO? O fogo deveria ter feito você assar!- Ela disse antes sequer da fumaça começar a baixar, para primeiro revelar um olho que parecia incandescente pelo brilho vermelho que vinha dele e somente depois aparecerem, intactos, a armadura e seu cavaleiro, que avançava a passos lentos, se destacando da fumaça.
— Bem, acho que já entendi, então acho que basta fazer isso e deve resolver. – Disse o cavaleiro, fechando os punhos e os levantando enquanto os cruzava na frente do peito. – HAAAA. – O cavaleiro gritou afastando as mãos ao liberar uma grande onda de calor por todo o espaço ao redor. Sua inimiga foi lançada metros para trás com a onda de choque, a armadura que esta trajava se rachou e esfarelou. O cenário ao redor, seguindo um efeito bem similar, também se rachou e estilhaçou. Fazendo-o voltar a ser o terceiro andar da torre.
— O quê? Como descobriu? – A jovem perguntava incrédula perante o feito do cavaleiro.
— Faço de suas palavras as minhas quando disse que aquele lugar era nostálgico. Eu treinei por muito tempo em um lugar bem parecido, e tanto o ar como a temperatura não haviam sofrido grande diferença em comparação à desta sala, então julguei que continuava nela.O que emanei foi apenas um teste para ver se voltávamos para o lugar e felizmente funcionou. – Completou com um sorriso no rosto.
— Tentativa? Um chute? – Pasma a mulher ficou, sem sequer ter se levantado do chão.
— Se preferir chamar assim... – Olhando ao redor, o cavaleiro finalmente entendeu. – Seus espelhos foram as únicas coisas que quebraram por aqui, então eram eles que criavam esse tipo de ilusão. Assim como vejo que atrás de você um espelho escondia a porta de saída. – Apontou para a parede aos fundos, com cacos de vidro no chão. – Bem, isso tudo poderia ter sido evitado, mas sinto pelo incômodo. Agora se me dá licença... – Disse o cavaleiro, enquanto caminhava em direção à porta e passava ao lado da inimiga ainda sentada no chão.
— Eu poderia ter vencido. Essa armadura! Foi somente por ela que você não morreu!
— Claro que poderia, mas como você mesma havia dito, esta armadura não se faz por uma questão de aparência, correto? – Com um sorriso sarcástico no rosto, o cavaleiro abre a próxima porta dando continuidade à sua subida.
— Maldito arrogante, eu sou muito mais forte! Você apenas passou por mim por causa de seu traje. Ele é realmente algo de se invejar. – Ela falou para ninguém, enquanto via o cavaleiro sumir e a porta se fechava às suas costas.
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