Causo do Cão Chamado Raposa

1 Causo do Cão Chamado Raposa — Capítulo Único


Notas iniciais
Esta história participa do Desafio Interno “Uma Fábula, Mil Versões”, cuja proposta é revisitar uma narrativa conhecida e reescrevê-la à sua maneira, em textos de 500 a 2.000 palavras. A obra é uma releitura autoral, bem-humorada e livre da tradicional fábula “A Raposa e as Uvas”, atribuída a Esopo e pertencente ao domínio público. Nenhuma versão moderna específica da fábula foi reproduzida ou adaptada; personagens, situações, diálogos e acontecimentos apresentados nesta história são criações originais da autora. Qualquer semelhança entre a moral desta história e a vida real talvez seja apenas mais um acaso de quem conta um conto aumentar um ponto. Boa leitura — e cuidado com as histórias que chegam até você já prontas demais.

Minha avó contava esse causo de um jeito que ninguém mais conta, e sempre começava avisando:

— Óia, a gente erra o nome desde o início. Quem conta um conto aumenta um ponto, e nesse aqui aumentaram foi o bicho inteiro.

Porque raposa, raposa mesmo, de mato, nunca teve no fundo dessa história. Tinha era um cachorro vira-lata chamado Raposa, magro que só ele, de pelo ruivo cor de terra queimada e olho vivo de quem sempre parece estar tramando alguma coisa, que vivia rondando o quintal de seu Tibério lá no sítio. Diz que o nome veio justamente disso — do pelo e do jeito manhoso de olhar de lado — e que foi seu Tibério mesmo quem batizou o bicho assim, numa tarde de riso jogando dominó com os compadres, sem imaginar que aquele apelido ia dar tanto trabalho pros netos dos netos entenderem anos e anos depois.

Naquele ano, a seca tinha comido tudo. O capim virou palha, o rio virou memória e as galinhas do velho Tibério já nem punham mais ovo de tão fracas. Só uma coisa resistia teimosa naquele terreno castigado: a parreira velha, que ninguém sabia mais dizer ao certo quem tinha plantado. Uns diziam que foi um tal de Tiarguinho, filho de seu Zé, neto de seu João, que era cunhado de dona Zefinha, prima em segundo grau do próprio Tibério — coisa de família grande do interior, onde todo mundo acaba sendo parente de alguém e ninguém mais fecha a conta direito. O que se sabia, isso sim, era que a parreira insistia em dar uvas roxas, gordas, bem no meio daquele inferno de poeira, como quem debocha da seca.

O Raposa farejou aquilo de longe. Cruzou a estrada torta, pulou a cerca caída de um lado e ficou parado, olhando pra cima com aquela cara de cão abandonado, de bicho que não come direito há mais de uma semana. As uvas balançavam lá no alto, brilhando feito coisa que não devia existir naquele lugar seco.

Com fome e com sede, pulou. Não as alcançou. Pulou de novo, com mais raiva, batendo o rabo no chão antes de tomar impulso, e de novo a boca fechou no vazio, no ar puro. Na terceira vez quase conseguiu — as unhas arranharam o tronco seco, ele ficou pendurado um segundo por pura teimosia — e caiu de costas na terra, levantando uma nuvem de pó que fez ele espirrar três vezes seguidas.

Quem viu tudo isso de perto, escondido atrás de uma moita, foi o texugo Aurélio, vizinho de longa data do sítio do Tibério, criatura que tinha fama de contar tudo que via pra quem quisesse ouvir na venda do povoado. E foi ele mesmo, semanas depois, tomando um licor de jambu com uns conhecidos, quem soltou a frase que ia mudar tudo:

— Eu vi Raposa tentando pegar uva lá na parreira do Tibério...

Ninguém perguntou se Raposa ali era nome de bicho ou nome próprio, porque na cabeça de quem ouvia já fazia todo o sentido: raposa e uva, história de sempre, quase um provérbio andando sozinho. Foi assim, numa roda de gente satisfeita com o licor e com a própria memória, que o mal-entendido nasceu e ganhou perna pra andar. E andou mesmo — virou historinha de festa de padroeiro, de churrasco de fim de tarde, de vigília de defunto, cada um contando um pedacinho a mais, até virar quase uma lenda pequena ali na região.

Minha avó fazia questão de contar a parte do Raposa sentado no chão bem devagar, porque segundo ela era ali que a história de verdade começava — não no "estão verdes", que isso qualquer um já sabe. O que ela queria mostrar era o cão ofegante, os olhos vermelhos de poeira, encarando a parreira e pensando sério se valia a pena tentar mais uma vez.

E então, em vez de ir embora resmungando desculpa, como faz todo bicho de fábula que se preze, Raposa fez diferente: rodeou a parreira devagar, feito quem estuda um problema. Achou uma pedra grande de um lado, empurrou com o focinho até debaixo do galho mais baixo, subiu em cima dela. Ainda faltava um pedaço. Ficou ali, respirando, calculando — se é que cachorro calcula alguma coisa, dizia minha avó rindo — e então desistiu daquele jeito e resolveu esperar. Sentou na sombra rala que a parreira dava e esperou o vento.

Veio um vento fraco, quase nada, mas bastou pra sacudir um cacho lá no alto e derrubar duas ou três bagas direto na terra. Raposa comeu rápido, sem mastigar direito, com aquela pressa de quem acha que o sorvete vai derreter a qualquer momento. Não foi banquete, não. Foram só três uvas amassadas na poeira. Mas foram uvas de verdade, doces, não as uvas verdes que a gente inventa pra se consolar quando não quer admitir que errou o pulo.

Minha avó parava a história bem ali e ficava me olhando, esperando eu perguntar a moral. E a moral que ela dava nunca foi aquela de quem não pode com a fome engana a boca com desculpa. Ela dizia outra coisa, mais seca, mais dela:

— Menina, o problema nunca foi raposa querer a uva. Nunca foi, em toda essa história, ninguém querer coisa alguma. O problema foi o texugo, que preferiu contar uma história de um bicho frustado a admitir que só tinha visto um cachorro faminto e esperto se esforçando, empurrando pedra. O fracasso, por vezes, é melhor de contar do que o empenho do outro. Empenho do outro é sorte pra quem vê.

E ria, um risinho baixo, como quem sabia de coisas que não estavam em nenhuma fábula grega nem em livro de escola.

Foi por causa disso, dizia ela, que lá em casa ficou aquele jeito de falar — "virou raposa" — pra quando alguém desiste rápido demais de alguma coisa e sai contando uma desculpa bonita. Só que o certo, segundo minha avó, era o contrário: "virar raposa" devia significar continuar tentando, empurrar pedra, esperar vento, comer o que sobrou sem se importar de ficar com terra na boca. Só que ninguém mais lembrava disso, porque a história do texugo, contada e recontada de licor em licor, de festa em festa, tinha viajado longe demais — boca em boca, geração em geração — até virar a fábula que todo mundo conhece: a da raposa que finge que não queria, e vai embora de cabeça erguida.

Eu cresci ouvindo essa versão e comparando com a outra, a de Esopo, a que ensinam na escola. E toda vez sentia uma coisa estranha, como se estivessem escondendo bem a parte mais trabalhosa da história — a parte que dava suor: um cachorro vira-lata, ruivo, batizado à toa numa tarde de dominó, empurrando pedra sozinho num ano de seca, sem plateia, sem estilo nenhum.

Seu Tibério morreu, a parreira secou de vez uns dois anos depois, e do Raposa ninguém soube dizer o fim ao certo — foi atropelado, dizem, ou foi embora atrás de outro quintal com sombra melhor. O texugo Aurélio também se foi, levando com ele a certeza tranquila de ter contado a verdade a vida inteira. E a história ficou, torta, mal contada, deitada em cima de uma confusão de nome que já ninguém tem mais como desfazer.

Não sei se esse é um causo de verdade ou só uma história de família que minha avó vestiu com uma correção teimosa, do tipo que só quem já viu gente errar os fatos e insistir neles por gerações sabe fazer. Mas prefiro essa versão, torta, com cachorro em vez de bicho do mato e pedra em vez de moral pronta. Porque a vida raramente dá pra gente um "as uvas estavam verdes" limpinho, pra sair andando com dignidade. Na maioria das vezes o que sobra é terra na boca, um nome errado se espalhando por aí, e o gosto meio estranho de ter conseguido, ainda que tarde o que se queria— e ainda que ninguém, décadas depois, lembre mais de como tudo aquilo começou.

Notas finais
Agradeço muito pela leitura e espero que tenham gostado deste pequeno causo — e, quem sabe, que depois dele vocês nunca mais escutem falar da Raposa e das uvas exatamente do mesmo jeito. Se encontrarem algum erro de revisão, alguma passagem que possa ser melhorada ou simplesmente quiserem deixar uma impressão sobre a história, ficarei muito feliz em receber seu comentário. Toda leitura, crítica e sugestão é bem-vinda. Obrigada por terem chegado até aqui. Até o próximo causo!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!