Catholic System

5 Capítulo 5 - O Julgamento


Shin Kagami permanecia parado no corredor.

Diante dele.

Akane Takahashi.

Naomi Shimizu.

Arthur Voss.

Três pessoas completamente diferentes.

Mas todas observando ele da mesma forma.

Como se tentassem descobrir quem ele realmente era.

Arthur abriu a porta.


— Entre.


Shin olhou para o interior da sala.

Grande.

Escura.

No centro havia uma enorme mesa circular.

Nas paredes.

Diversos monitores exibiam informações que ele não conseguia compreender.

Documentos.

Mapas.

Relatórios.

Tudo relacionado à Crist.

Tudo relacionado ao mundo que ele nunca imaginou existir.

Shin entrou.

A porta fechou atrás dele.

E naquele momento percebeu.

Não estava mais investigando a Crist.

Agora...

A Crist estava investigando ele.

No outro lado da mesa.

Um homem observava em silêncio.

Elias Ayamin.

O Diretor Supremo da organização.

Diferente da imagem transmitida para toda a base.

Ali ele parecia menos uma figura pública.

E mais alguém tentando compreender uma situação complicada.


— Senhor Kagami.


Shin levantou o olhar.


— Sim?


— Sente-se.


Shin obedeceu.

Mas não tirou os olhos dele.

Elias percebeu.


— Você não parece nervoso.


Shin deu de ombros.


— Eu deveria estar?


Um pequeno silêncio surgiu.

Akane cruzou os braços.


— Você está dentro da maior organização do planeta.


— Eu percebi.


— Uma organização que possui poder militar, tecnológico e político suficiente para mudar o destino da humanidade.


Shin olhou ao redor.


— Então imagino que eu deveria me sentir intimidado.


Akane manteve a expressão séria.


— E não se sente?


— Não.


Silêncio.

Arthur soltou um pequeno suspiro.


— Ele é assim desde que chegou.


Naomi observava Shin através do tablet.


— Interessante.


Shin olhou para ela.


— O quê?


— Sua reação.


— Minha reação?


— A maioria das pessoas tentaria parecer menos suspeita.


Ela mexeu no tablet.


— Você está apenas sendo você mesmo.


Shin sorriu levemente.


— Isso é um problema?


Naomi ficou em silêncio.


— Ainda não decidi.


Elias entrelaçou os dedos.


— Senhor Kagami.


— Sim?


— Você escreveu um artigo questionando a Crist.


— Escrevi.


— Sabia que poderia causar problemas?


— Sabia.


— E mesmo assim publicou.


Shin encarou Elias.


— Porque era a verdade.


Uma pequena pausa.

Elias inclinou levemente a cabeça.


— Interessante.


— O quê?


— Você fala da verdade como se ela fosse algo simples.


Shin franziu a testa.


— Não é simples.


— Então entende o perigo dela?


— Entendo o perigo de esconder ela.


A sala ficou em silêncio.

Arthur observou Shin.

Akane também.

Elias permaneceu imóvel.


— Você acredita que toda verdade deve ser revelada?


Shin pensou por alguns segundos.


— Eu acredito que as pessoas têm o direito de saber.


Elias desviou o olhar por um instante.


— Mesmo que isso destrua tudo?


Shin ficou quieto.

A pergunta permaneceu no ar.

Naomi foi a próxima a falar.


— Senhor Kagami.


— Sim?


— Você encontrou informações sobre as Guerras Angelicais sem acesso aos arquivos da Crist.


— Sim.


— Descobriu inconsistências históricas sem treinamento especializado.


— Sim.


Ela colocou o tablet sobre a mesa.


— Isso é incomum.


Shin arqueou a sobrancelha.


— Está dizendo que sou inteligente?


— Estou dizendo que você é perigoso.


A resposta veio sem hesitação.

Shin ficou sério.


— Perigoso?


Naomi assentiu.


— Uma pessoa que busca respostas sem entender as consequências pode causar problemas.


— E uma organização que esconde respostas não causa?


Silêncio.

Dessa vez.

Naomi não respondeu.

Akane respirou fundo.


— Então vamos direto ao ponto.


Todos olharam para ela.


— Shin Kagami.


A voz dela era firme.


— Por que devemos confiar em você?


Shin permaneceu calado.

Ele poderia responder várias coisas.

Poderia tentar convencer.

Poderia tentar parecer confiável.

Mas não fez.


— Vocês não deveriam.


A resposta surpreendeu todos.

Arthur levantou levemente as sobrancelhas.


— O quê?


Shin continuou.


— Vocês não me conhecem.


— Então por que está aqui?


— Porque vocês também não sabem o que fazer com a verdade que escondem.


Silêncio.


— Eu quero respostas.


Ele olhou para Elias.


— E vocês querem alguém que consiga encontrá-las.


Por alguns segundos.

Ninguém falou.

Então...

A porta se abriu.

Todos olharam.

Uma garota estava parada na entrada.

Cabelos azul-acinzentados.

Olhos vermelhos.

Expressão calma.

Lilith Ayamina.

Arthur arregalou levemente os olhos.


— Lilith?


Ela entrou lentamente.

Mas não olhou para ninguém.

Seus olhos estavam em Shin.

Assim que percebeu que todos observavam...

Ela desviou o olhar.

Seu rosto ficou levemente vermelho.

Shin piscou.


— Você está bem?


Lilith assentiu rapidamente.


— Sim.


Mas continuou escondendo parte do rosto.

Akane olhou para ela.


— Lilith.


A garota virou.


— O que está fazendo aqui?


Silêncio.

Ela parecia procurar uma resposta.

Como se palavras fossem algo difícil.

Finalmente.

Falou:


— Ele vai ficar?


Todos ficaram quietos.

Elias observou a filha adotiva de seu projeto.


— Explique.


Lilith olhou para Shin.

Depois para os outros.


— Ele é diferente.


Ninguém respondeu.


— As pessoas normalmente falam comigo porque precisam de alguma coisa.


Sua voz continuava baixa.


— Porque precisam que eu pilote.


Porque precisam que eu lute.

Porque precisam que eu obedeça.

A sala ficou completamente silenciosa.

Shin observava.

Sem interromper.


— Mas ele...


Ela olhou novamente para ele.


— Ele só conversou comigo.


Uma pequena pausa.


— Ele não pediu nada.


Lilith abaixou o olhar.

Como se estivesse com dificuldade de admitir aquilo.


— Eu quero que ele fique.


Silêncio.

Absoluto.

Arthur foi o primeiro a reagir.

Não com palavras.

Apenas com um pequeno sorriso.

Naomi olhou para Lilith surpresa.

Akane ficou imóvel.

Elias apenas observava.

Como se tivesse acabado de descobrir algo que não esperava.

Shin ficou sem jeito.


— Lilith...


Ela olhou para ele.


— Sim?


Ele sorriu.


— Obrigado.


Por um segundo.

Ela ficou parada.

Então desviou o olhar.

Vermelha novamente.

Elias levantou-se lentamente.

Caminhou até a janela.

A cidade de Tech Tokyo brilhava abaixo.

Depois de alguns segundos.

Falou:


— Senhor Kagami.


Shin olhou para ele.


— Sim?


— Talvez exista uma razão para Arthur ter trazido você até aqui.


Pausa.


— Mas ainda não significa que você pertence a este lugar.


Shin entendeu.

Não era uma aceitação.

Ainda não.

Era apenas uma oportunidade.

Elias voltou-se para ele.


— Você terá acesso limitado à Crist.


Akane olhou para ele.


— Diretor?


— Quero observar suas ações.


Naomi ajustou o tablet.


— Interessante.


Arthur sorriu discretamente.

Shin ficou em silêncio.

Então perguntou:


— E se eu descobrir algo que vocês não querem que eu descubra?


Elias encarou o jovem escritor.

Por alguns segundos.

Não respondeu.

Então disse:


— Essa é exatamente a pergunta que eu quero ver respondida.


Naquela noite.

Shin Kagami deixou aquela sala sabendo de uma coisa.

Ele ainda não conhecia a verdade.

Mas agora estava mais perto dela.

Muito mais perto.

E, pela primeira vez...

A Crist também estava mais perto dele.


Continua...