Catholic System

24 Capítulo 24 - O Êxodo


O avião começou a descer.

Shin observava pela janela enquanto o Egito surgia abaixo deles.

O mar de areia parecia não ter fim.

Ao longe, construções antigas dividiam espaço com estradas, torres e instalações militares.

Tudo parecia velho.

E novo ao mesmo tempo.

Aiko encostou o rosto no vidro.


— Então é aqui.


Shin respondeu sem tirar os olhos da paisagem:


— É.


Ela sorriu de lado.


— Bem diferente de Tech Tokyo.


— Muito.


Yoru permanecia calado no assento mais à frente.

Como sempre.

Akane, sentada com alguns documentos no colo, conferia os últimos detalhes da missão.


— Quando pousarmos, não se afastem.


Aiko soltou um suspiro teatral.


— Como se eu fosse me perder no Egito.


Akane olhou para ela por cima dos papéis.


— Você se perderia em um corredor reto.


— Mentira.


Shin riu baixinho.

Yoru não reagiu.

Nem um pouco.

Minutos depois, o avião tocou o solo.

As portas se abriram.

O calor entrou com força.

Aiko levou a mão ao rosto.


— Tá de brincadeira...


Shin saiu logo atrás e sentiu o ar seco bater contra ele.

Era diferente de tudo o que conhecia.

Não havia o frio e das chuvas de Tech Tokyo.

Nem a umidade da Rússia, da qual ouvira tanto falar por causa das missões anteriores.

Era uma sensação quase opressiva.

Como se o próprio deserto estivesse observando.

Yoru desceu em silêncio, sem demonstrar incômodo algum.

Aiko olhou para ele.


— Você não sente calor?


— Sinto.


— E por que não reclama?


— Porque não muda nada.


Aiko ficou em silêncio por um segundo.

Depois soltou uma risada curta.


— Você é impossível.


Yoru continuou andando.

Shin apenas observou a cena.

O jeito de Yoru era sempre assim.

Seco.

Direto.

Como se o mundo inteiro o irritasse.

Akane fechou a porta da aeronave.


— Vamos.


A base da Crist no Egito era menor do que Tech Tokyo, mas não menos impressionante.

Muros altos.

Torres de observação.

Veículos militares entrando e saindo.

Corredores largos.

E, no centro da instalação, um enorme hangar subterrâneo.

Shin olhava tudo com atenção.

Cada país parecia ter sua própria forma de enfrentar os Anjos.

Cada base refletia isso.

Akane caminhava à frente.


— A unidade da Exxod está nos aguardando.


Aiko arqueou uma sobrancelha.


— Então existe uma recepção oficial?


— Existe.


Yoru apenas seguiu em silêncio.

Shin perguntou:


— Quem vai nos receber?


Akane respondeu:


— O representante da Exxod.


Aiko virou o rosto.


— Representante?


— Sim.


— E ele é piloto?


Akane assentiu.


— Também.


Shin observou o corredor à frente.

Algo naquela resposta o deixou curioso.

Quando chegaram ao hangar principal, uma voz ecoou pelo grande espaço.


— Finalmente!


Shin parou.

Aiko cruzou os braços.


— Ah não...


Uma figura surgiu no alto da passarela metálica e desceu pelas escadas com passos rápidos e seguros.

Era um homem de postura relaxada, mas claramente acostumado a comandar atenção.

Usava o uniforme da Exxod de forma impecável.

Os cabelos escuros estavam levemente bagunçados.

No rosto, um sorriso fácil.

Carismático.

Quase provocador.

Ele abriu os braços assim que chegou ao grupo.


— Vocês demoraram.


Akane suspirou.


— Nefertari.


Ele levou a mão ao peito, fingindo escândalo.


— Capitã Akane.


Ainda continua fria como sempre.


— E você continua falando demais.


Ele sorriu ainda mais.


— E ainda assim vocês sempre voltam.


Shin percebeu, de imediato, que aquele homem tinha uma presença incomum.

Não era só simpatia.

Era como se ele soubesse exatamente como deixar todos ao redor menos tensos.

Aiko encarou o homem com desconfiança.


— Então você é o tal do representante?


Nefertari olhou para ela.


— Depende.


— De quê?


— Se você vai continuar me encarando assim.


Aiko desviou o olhar por um instante.


— Tch.


Shin segurou uma risada.

Nefertari então olhou para ele.

Observou por alguns segundos.

Depois abriu um sorriso de canto.


— Então...


Apontou discretamente para Shin.


— Esse é o tal do escritor herege?


Shin piscou.


— Parece que meu título correu na frente de mim.


Nefertari inclinou a cabeça.


— Achei que você fosse mais...


Fez uma pausa.


— Mais nerd.


Silêncio.

Aiko imediatamente soltou uma risada.


— EU FALEI.


Shin virou o rosto para ela.


— Você não falou nada.


— Mas eu pensei.


— Isso não conta.


— Conta sim.


Akane fechou os olhos por um momento.

Yoru continuou em silêncio, como se a conversa inteira não lhe dissesse respeito.

Nefertari estendeu a mão.


— Nefertari Khepri.

Representante da Exxod.

E piloto do Anúbis.


Shin apertou a mão dele.


— Shin Kagami.


— Eu sei.


— Todo mundo sabe?


Nefertari sorriu.


— Quando alguém quase derruba a Crist inteira com perguntas, isso tende a circular.


Shin soltou um pequeno suspiro.


— Ótimo.


— Relaxa.


Nefertari soltou a mão dele e deu um tapinha leve em seu ombro.


— Pelo menos você tem cara de quem pensa antes de agir.


Aiko abriu um sorriso irônico.


— Ele não tem.


Shin olhou para ela.


— Obrigado pela confiança.


— De nada.


Nefertari então voltou sua atenção para Yoru.

Ficou parado diante dele por alguns segundos.

Yoru olhou de volta.

Silêncio.

O clima mudou um pouco.

Menos brincalhão.

Mais pesado.


— Yoru Kanzaki.


Disse Nefertari.

Yoru apenas assentiu.


— Hm.


Nefertari pareceu satisfeito com a resposta mínima.


— Curto e eficiente.


Aiko murmurou:


— Você vai adorar ele.


Yoru respondeu sem emoção:


— Não.


Nefertari riu.


— Gostei de você também.


Yoru não respondeu.

Akane deu um passo à frente.


— Vamos direto ao assunto.


Nefertari assentiu.


— Claro.


Ele fez um gesto amplo com a mão.


— Bem-vindos à Exxod.


Essa parte da instalação é só a recepção.

O que vocês querem ver de verdade está lá embaixo.

Shin acompanhou o gesto com o olhar.


— Lá embaixo?


Nefertari sorriu.


— O hangar do Anúbis.


Aiko imediatamente se animou.


— Finalmente.


Shin olhou para ela.


— Você parece mais interessada nisso do que na missão.


— E estou.


— Claro que está.


Nefertari começou a caminhar.


— Sigam-me.


Os corredores subterrâneos da base eram bem iluminados, mas tinham uma atmosfera diferente da Crist.

Menos clínica.

Menos fria.

Mais antiga.

Como se o lugar tivesse sido construído em cima de algo muito maior.

Shin observava as paredes enquanto caminhava.

Símbolos da Exxod apareciam em diversos pontos.

Runas estilizadas.

Marcas douradas.

Detalhes que lembravam o Egito antigo, mas misturados a tecnologia avançada.

Aiko percebeu o olhar dele.


— Interessante, né?


Shin assentiu.


— Muito.


— A Exxod gosta de parecer tradicional.


Nefertari ouviu.


— Não é parecer.


Ele olhou para trás.


— É lembrar.


Shin franziu a testa.

Nefertari continuou:


— A Crist enxerga o futuro.

Nós aqui preferimos lembrar que o passado ainda fala.


Shin refletiu sobre isso em silêncio.

A frase ficou com ele.

Quando chegaram ao hangar principal, o chão vibrou levemente sob os pés.

Shin levantou o olhar.

E então viu.

No centro da instalação...

Uma enorme unidade permanecia imóvel.

O Juiz Anúbis.

Sua armadura escura refletia parcialmente a luz do hangar.

A cabeça alongada lembrava a figura do chacal sagrado.

As estruturas laterais davam a impressão de lâminas embainhadas.

Imponente.

Arcaico.

E, ao mesmo tempo, avançado demais para ser apenas uma máquina.

Shin ficou em silêncio.

Nefertari percebeu.


— Impressionado?


Shin não desviou o olhar.


— Muito.


— Ótimo.


Nefertari cruzou os braços.


— Isso significa que ele está fazendo o trabalho dele.


Aiko se aproximou alguns passos.


— Então esse é o Juiz Anúbis.


Nefertari assentiu.


— Exatamente.


Shin virou o rosto para ele.


— Juiz é a classificação, certo?


Nefertari sorriu.


— Agora você está prestando atenção.


— Aprendi com o Gabriel.


— Hm.


Nefertari encarou a unidade por um momento.


— Aqui, os Juízes não existem só para lutar.


Eles avaliam.

Protegem.

Decidem.

Shin continuou observando o Anúbis.


— Então o piloto precisa acompanhar isso?


— Sempre.


Nefertari respondeu sem hesitar.


— O mecha mostra o que o piloto é capaz de suportar.


Aiko cruzou os braços.


— Bonito.


— Verdadeiro.


Yoru permaneceu alguns passos atrás, olhando o Anúbis sem dizer nada.

Shin notou a tensão no olhar dele.

Mesmo que por pouco tempo.

Nefertari também notou.


— Você sentiu alguma coisa?


Yoru demorou um instante.

Depois respondeu:


— Sim.


Nefertari sorriu de leve.


— Então ele gostou de você.


Yoru não reagiu.

Aiko soltou uma risada curta.


— Isso foi estranho até para você.


— Eu sei.


Akane consultou o relógio.


— Nefertari, precisamos conversar com a liderança local.


— Eu imaginava.


Ele virou-se de volta para o grupo.


— Mas vocês podem ficar um pouco aqui.


Shin olhou para o Anúbis mais uma vez.

Havia algo naquela unidade.

Algo que não era apenas tecnologia.

Algo antigo.

Quase sagrado.

Como se o deserto inteiro estivesse concentrado dentro dela.

Nefertari percebeu o olhar de Shin.

E falou, agora num tom mais calmo:


— O Anúbis é o tipo de unidade que não aceita qualquer piloto.


Shin virou o rosto.


— E você?


Nefertari sorriu.


— Eu sou o tipo de piloto que não aceita ficar em qualquer lugar.


Aiko soltou um pequeno suspiro.


— Que frase insuportavelmente convincente.


— Eu tento.


Shin olhou novamente para o Anúbis.

E então entendeu que aquela viagem havia mudado de tom.

Não era só uma visita.

Nem uma simples missão diplomática.

Era o começo de algo maior.

E o homem à sua frente, com todo o seu carisma irritante, parecia saber disso muito antes dele.

Nefertari deu as costas ao grupo e abriu os braços, como se apresentasse não só o hangar, mas todo o país.


— Bem-vindos ao Egito.


O deserto estava esperando por vocês.


Continua...